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A FICÇÃO COMO METÁSTASE

 

“A Montanha”, o novo romance de José Luís Peixoto, surpreendente tanto na estrutura como nas soluções narrativas, é um objeto híbrido que parte de factos verdadeiros para pensar literariamente o cancro

José Mário Silva
07 janeiro 2026

  

 

Nos seus dois romances anteriores, “Autobiografia” (2019) e “Almoço de Domingo” (2021), José Luís Peixoto explorou com audácia a tensão entre factos reais e trabalho ficcional ao abordar literariamente momentos da vida de dois homens notáveis: José Saramago e Rui Nabeiro, ou o “escritor de óculos” e o “empresário de bigode”, como são referidos afetuosamente pelo narrador de “A Montanha”. Neste novo livro, Peixoto leva ainda mais longe essa exploração, conduzindo-nos através de um processo narrativo fragmentário, sempre em movimento, que se expande em direções inesperadas e não tem, sobretudo na parte final, receio de correr riscos, culminando num desenlace muitíssimo desconcertante.

 ★★★★

  

“A Montanha” nasceu de um convite do IPO (Instituto Português de Oncologia) do Porto: falar de cancro usando os instrumentos da literatura. Ou, nas palavras de Peixoto: “Escrever um livro, um romance, que contenha as histórias de doentes do hospital, partindo do que me foi contado pelos próprios.” Com o acompanhamento de um cirurgião torácico e de uma psicóloga, o escritor conheceu João, Alice, Filipe, Jorge, Daniel e Fátima, seis pessoas que com ele partilharam as suas vidas e enquadramento familiar, bem como os relatos dos seus sofrimentos e angústias. As conversas gravadas seriam o ponto de partida, mas o autor rapidamente percebeu que o livro teria de ser outra coisa para além do entrecruzar daquelas vozes.

Desde logo, emergiu a figura do pai, também ele vítima de cancro (essa palavra maldita que nunca foi pronunciada entre os dois, surgindo agora, talvez por isso, sempre grafada a negrito, como um grito na página), o pai que Peixoto se lembra de visitar no hospital e que guardava as embalagens plásticas, com doce de alperce ou de morango, para dar ao filho. A dor pela perda do pai, no final da adolescência, fundou-o como escritor. Está inteira no livro inicial, “Morreste-me” (2000), e implícita em todos os seus outros livros. Volta agora com uma força gravítica tremenda. “O meu pai está dentro do livro e está dentro de mim”, diz no início. “Pai, agora transformei-me completamente em ti”, resumirá nas páginas finais.

Além desta sétima personagem, que ocupa um círculo à parte, entre a memória e o mito pessoal, há uma oitava: o próprio Peixoto, por vezes desdobrado na figura do Escritor, um eu visto de fora, à distância da terceira pessoa. Trata-se, no fundo, de uma questão de reciprocidade. Se o autor expõe existências alheias, também se expõe a si mesmo. Até porque “só através da nossa vida somos capazes de conceber a vida dos outros”. Assim, enquanto avança no “futuro livro”, com “esperança e medo”, conta-nos das suas andanças pelo mundo, de cidade em cidade, no circuito dos festivais literários, a falar das suas obras em geografias distantes. Acompanhamo-lo em não-lugares, como os aeroportos e os quartos de hotel; estamos com ele em Maputo, diante do Índico (enquanto fixa a “linha imprecisa” que separa o oceano do céu, “a vida de um lado, a morte do outro”); ficamos ao seu lado num comboio entre a Roménia e a Hungria, nas ruas do México, numa universidade indiana. Nessas deambulações leva consigo uma pasta com as páginas já escritas do livro e revê — às vezes acrescentando apenas um adjetivo, à mão, no texto impresso — as suas versões dos episódios contados por João, Alice, Filipe, Jorge, Daniel e Fátima, as narrativas de ablações, amputações, recidivas e vigilâncias, com referências médicas precisas (ostomia, gastrectomia, corte transumeral) e tudo o resto que as palavras têm dificuldade em fixar. Na bagagem das viagens segue igualmente uma tese académica, ocasionalmente citada, com um título programático: “Fragmentação na Literatura Europeia Contemporânea”, de um estudioso sueco chamado Björn Alepson.

Desde o início, o livro mostra estar consciente da sua materialidade, da ligação entre o que está “dentro” de si e o que está “fora”. O romance é um espaço que se afirma enquanto tal. “Os corredores do livro são iluminados por lâmpadas fluorescentes, por um zumbido subtil, luz demasiado crua. Os corredores do livro têm resguardos de madeira nas paredes, protegem-nas dos choques com esquinas de macas que passam pelo livro. Há o branco dos lençóis a cobrirem-te, como há o branco do papel na margem da página, os lençóis são mais brancos do que o papel.” Mas é a tese de Alepson a introduzir o pensamento sistemático sobre o fragmento enquanto elemento estrutural do livro que o autor-andarilho, na sua dispersão, vai apesar de tudo construindo: “A fragmentação pode ser interpretada como um corte, uma subtração, um elemento removido [...] No momento em que um braço é amputado, por exemplo, a unidade original do corpo é quebrada, mas uma nova unidade ocupa o seu lugar.”

O golpe de asa de “A Montanha” está na forma como a estrutura não linear do romance vai, aos poucos, imitando a doença que está no centro de quase todas as suas histórias. Tal como o “caos celular” possibilita o cancro, também a crescente desorganização dos materiais biográficos abre espaço para a pura ficção. E a ficção, como as metástases, propaga-se e infiltra-se por todo o lado. O primeiro momento em que esta proliferação se manifesta de forma evidente é num capítulo em que Peixoto imagina uma camareira brasileira a limpar o seu quarto em Budapeste, uma mulher chamada Alice, que pega num dos cadernos do hóspede e começa a ler sobre uma outra Alice, a paciente de cancro a quem arrancaram preventivamente o estômago ainda saudável, e de repente dá-se como que um curto- circuito, o encontro entre os dois lados do espelho.

Nada nos prepara, porém, para o que acontece na segunda parte do livro, quando o autor da já referida tese sobre a fragmentação literária, Björn Alepson, convida o Escritor a proferir uma palestra na sua universidade, em Växjö, na Suécia. Com uma guinada brusca, entramos decididamente no território da ficção, à medida que o romance mergulha num ambiente claustrofóbico, talvez apenas a emanação física de um “transtorno delirante”. Fechado numa espécie de limbo, circunscrito a um quarto com atmosfera hospitalar, tendo uma montanha como único horizonte, o Escritor aceita o bizarro huis clos e põe-se a escrever “dentro de uma espiral”, obedecendo ao desejo de quem só quer que ele termine o seu livro. Confrontado com os impasses que o foram tolhendo, volta a convocar, um a um, os seis doentes, dando sentido e conclusão às suas histórias. Depois, é o próprio livro que encontra o caminho para o seu fim, numa espécie de apoteose que regressa ao cerne de tudo, ao ponto original, não só deste romance, mas da escrita de José Luís Peixoto, o momento em que filho e pai estão diante um do outro, olhando-se “para sempre”.

 

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