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José Luís Peixoto foi um dos convidados do Hay Festival, em Cartagena das Índias, na Colômbia, que decorreu de 27 a 30 de janeiro 2022. 

É possível assitir à sua participação aqui.

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Livros de José Luís Peixoto disponíveis na Colômbia:

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Quando acabei de escrever o meu primeiro romance, fechei-me em casa durante duas semanas. Nesse tempo fechado do mundo, vivi cada olhar de cada personagem, cada esperança, cada angústia. Na altura, era muito novo. Creio que se o tivesse feito hoje, me teria suicidado no último dia dessas duas semanas, como desfecho lógico. A lógica, o absurdo da lógica e a lógica precisa, milimétrica, do absurdo são para mim assuntos que me absorvem, como se fossem, de facto, a primeira regra da minha vida. Mas, como disse, era muito novo, e esse pânico não tinha ainda atingido as dimensões actuais que, juntamente com outros pânicos e cansaços, acabarão por ser o meu fim. Nesse tempo, eu era o único leitor de mim próprio e ninguém esperava nada das minhas palavras. A vida era menos difícil, portanto. Eu considerava-me um grande escritor desconhecido e era quase feliz, porque fechava os olhos a muitas coisas.

No primeiro dia em que saí à rua, depois dessas semanas, trazia ainda no olhar o olhar das personagens e passeei-me por Lisboa, como se não conhecesse Lisboa, como se me admirasse com tudo. As horas dessa tarde muito fria de Janeiro passaram e eu passei com elas. Aos poucos, deixei de ser as personagens para ser o narrador: uma voz maior que eu, uma voz que tinha surgido no romance como uma voz da terra. Descrevi, para mim próprio, as paredes, os pombos a andarem devagar no chão, como se todos os pombos fossem uma criatura maior que se amontoa e se estilhaça. Descrevi, para mim próprio, as pessoas a olharem-me e imaginei o que elas imaginavam de mim. Mas também aos poucos, o narrador saiu de mim, talvez assustado com o ridículo de ser um narrador a descrever mentiras dentro de uma pessoa, e voltei a ser o que sou: qualquer coisa absurda que procura uma lógica impossível e que se chama Zé Luís. No entanto, depois de duas semanas a observar palavras, depois de um ano a desenterrar palavras, eu era alguém que só podia fazer coisas grandiosas. Só essa ideia me parecia lógica. Entrei numa livraria do Chiado. Vi-me a entrar na livraria e imaginei: José Luís Peixoto entra numa livraria, onde ainda se ignora a importância das suas palavras. Creio que o narrador ainda devia andar dentro de mim, escondido em algum canto escuro.

Não sei como explicar. Tirei um exemplar do “Ulisses” da prateleira e comecei a ler. Nunca o tinha lido todo. Ainda não li. Não acredito que alguma vez o vá ler todo. No entanto, tirei um exemplar da prateleira e li dois parágrafos. Gostava de escrever assim. O efeito que aquela breve leitura teve em mim foi inesperado. Instantaneamente, lembrei-me de ter lido, havia alguns anos, numa enciclopédia da minha irmã, que o James Joyce estava enterrado em Zurique. Lembrei-me também que, na altura tinha acabado de ler “Dubliners” e que senti algo de revolta. Na livraria, sem que os meus olhos vissem a livraria, imaginei-me, secretamente, um herói. Eu tinha escrito um dos maiores romances da história da literatura. Eu só podia fazer coisas grandiosas.

Em casa, guardei duas camisolas dentro de uma mochila e saí. Tinha dinheiro e fui para Santa Apolónia. Comprei um bilhete para Zurique. Não sabia que se podia ir para Zurique de comboio, mas fui informado que o Sud-Express ia sair dentro de poucos minutos e que, assim que chegasse a França, devia mudar de comboio. Fui todo o caminho de pé no corredor. Assustava-me a ideia de não me conseguir controlar e de poder contar o meu plano a qualquer emigrante de Paris ou a qualquer francês que andasse a fazer um inter-rail e que partilhasse comigo o vagão. Fui sempre a olhar pela janela e, interrompido de vez em quando por revisores, pensei sempre que ia chegar a Zurique e que ia desenterrar o corpo do James Joyce e que ia levá-lo para Dublin. Donde nunca devia ter saído. Troquei de comboio e cheguei a Zurique.

O dia estava a acabar. Telefonei à minha mãe e disse-lhe que estava no Rossio. Estava num telefone público da Suíça. Tenho uma licenciatura em alemão. Tenho uma diploma carimbado que garante que sou licenciado em alemão. Debaixo do carimbo, falta dizer que foram quatro anos de cábulas e de ajudas por parte de alguns colegas mais caridosos. Mas, mesmo assim, o meu alemão básico chegou-me para alugar um quarto numa pensão pequena, pequena, minúscula, mesmo ao lado do cemitério. A senhora da recepção, com as mãos sobre os papéis de registo,  virou os óculos na ponta do nariz quando lhe disse que fazia questão de ficar no quarto ínfimo, que tinha uma janela do tamanho de um isqueiro com vista para o cemitério. Pousei a mochila na única cadeira que cabia entre a cama e a parede, e passei a noite, de joelhos sobre a cama, a espreitar para o negro do cemitério: o branco das campas desenhado no negro, as formas das árvores esculpidas no negro.

Quando o sol nasceu, tinha as pernas dormentes. Desci para o pequeno almoço: torradas e café com leite que a senhora da recepção me serviu contrariada. Comi devagar. Não tenho apetite de manhã. Esperei três cigarros até que abrissem o portão do cemitério. Eu e duas velhas fomos as primeiras pessoas a entrar. Tentei procurar a campa sozinho, mas perdi-me. Encontrei uma das velhas a trocar flores murchas de uma jarra e perguntei-lhe. James Joyce? Nunca ouvi falar. Não lhe expliquei. Há coisas que não vale a pena tentar explicar. Andei toda a manhã, às voltas no cemitério, a olhar para nomes, a olhar para datas. Por fim, era já hora de almoço, estava com fome e com frio, encontrei a campa do James Joyce. Estava abandonada. Nenhuma velha lhe ia trocar as flores murchas, não tinha flores. Tinha musgo à volta das letras. James Joyce escrito a musgo.

Voltei à pensão. A senhora da recepção assustou-se com a minha chegada. Assustou-se ainda mais quando lhe perguntei pelo almoço. Pão, duas salsichas fritas e dois ovos estrelados pela senhora da recepção com um avental de folhos. Saí para ir comprar uma picareta e uma pá. Tive que apontá-las com o dedo. Não sei dizer picareta em alemão. Fui para o meu quarto dormir e sonhar. Acordei a meio da noite. Acordei logo totalmente desperto, como se não tivesse acordado, como se não tivesse dormido. Agarrei a picareta, a pá e a mochila. Saí do quarto sem fazer barulho. Na rua, vesti as duas camisolas que trazia na mochila. Estava muito frio. Subi para cima de um Mercedes que estava estacionado e saltei o muro do cemitério. Procurei o caminho que conhecia e fui directo à campa do James Joyce. Enfiei a ponta da picareta numa das juntas do mármore e fiz força, força e força. O mármore não se movia um único som de mármore a arrastar-se. Quando as minhas forças já se desesperavam, fechei os olhos e, com toda a vontade dos meus braços e do meu corpo inteiro, ouvi o mármore a soltar-se. Comecei a cavar. A picareta e, depois, a pá. O som da picareta e, depois, o som da pá. O meu entusiasmo a apressar-me. Depois, a picareta a acertar em algo. O tesouro. A pá a tirar a terra solta. As minhas mãos a tirarem a terra solta. A tampa do caixão partiu-se debaixo dos meus pés. Afastei pedaços de caixão. Lá estava o James Joyce. Segurei-lhe o braço direito, a mão que escreveu o “Ulisses”, e os ossos separaram-se pelas juntas. Segurei-lhe o crânio: os olhos do James Joyce, os dentes do James Joyce. Surpreendeu-me o pouco peso do crânio do James Joyce, o crânio onde nasceu o “Ulisses”. Olhei para o céu e não encontrei a lua. Algumas estrelas entre as nuvens. Na noite, senti-me grandioso e feliz. Guardei tudo o que me parecia pertencer ao James Joyce dentro da mochila. Os ossos, uns contra os outros, faziam um barulho brando. Saí da cova e comecei a tapá-la com pás cheias de terra. Animado pelo peso do James Joyce nas minhas costas, empurrei de novo a pedra sobre a campa. De manhã, estava na estação de comboios.

Sentado num vagão, levava a mochila sobre o colo. Pensava que era revelador que o James Joyce, ele próprio, pesasse menos do que a maioria das edições do “Ulisses”, quando à passagem pela fronteira, o comboio abrandou e parou. Entrou um polícia, bigode, patilhas, e pediu-me o passaporte. Apontou para a mochila e perguntou: chocolates? Sorri. Saiu. Meio cigarro depois, o comboio continuou. A paisagem, as árvores despidas, as poças de água, deixavam-me pensar. Por vezes, as aldeias. Na pequena estação de uma aldeia cinzenta e verde, decidi sair. Entrei num café, conheci um senhor. Ofereceu-me um quarto, ofereceu-me trabalho a tratar de cinco vacas. Apaixonei-me pela filha do senhor. Guardava a mochila atrás de uma cómoda. Passava as noites, no quarto ao lado da filha do patrão, Sabine era o seu nome, a pensar nela e a sofrer por ela. Às vezes, retirava o James Joyce de dentro da mochila e estendia-o sobre a cama para não ganhar mofo. Passaram-se três meses de que não me orgulho.

Quando decidi ir-me embora, era já primavera. Três das cinco vacas iam parir, mas eu estava farto de amor não correspondido e Dublin esperava-me. De madrugada, dirigi-me à pequena estação e apanhei o primeiro comboio que passou em direcção a Paris. Não fui à Torre Eiffel, nem ao Arco do Triunfo, nem ao Louvre. Telefonei à minha mãe e disse-lhe que estava no Rossio. Estava no telefone público de uma estação de Paris. Troquei de comboio. Estava cansado. Mesmo o James Joyce, tão leve, parecia-me demasiado pesado. Considerei ainda a hipótese de abandoná-lo num contentor do lixo de Paris e voltar para casa de avião, mas eu não sou daqueles que desistem. Eu não sou daqueles que desistem. Enquanto tenho um resto de força, tenho um resto de esperança. Eu não sou daqueles que desistem. E cheguei a Calais. Os barcos estavam cheios e só podia seguir viagem no dia seguinte. Enganei um inglês. Roubei-lhe o bilhete e também lhe teria roubado a carteira e o relógio se me apetecesse, mas o bilhete bastava-me. Em Inglaterra viajei sempre de autocarro. Passei metade do tempo enjoado e metade do tempo a dormir, de boca aberta, tombado sobre o passageiro do lado, abraçado ao James Joyce. Em Londres, decidi apanhar um avião directo para Dublin. Estava muito cansado e muito sujo. Ainda cheirava a vaca. Tinha saudade das personagens do meu romance e vontade de telefonar à minha mãe e dizer-lhe que estava no Rossio, estando mesmo no Rossio.

Depois do check in, depois da mochila ter sido radiografada como bagagem de mão, depois de me terem avisado com uma piscadela de olho que não se podia viajar com comida, mas que desta vez passava, sentei-me numa das cadeiras da primeira classe. A hospedeira tirou-me uma palha do cabelo e serviu-me champanhe. Respirei. A centenas de metros de altura, abri um pedacinho do fecho da mochila e olhei para o James Joyce. Confiei nele, já éramos amigos, pousei-o no meu assento e fui à casa de banho. Lavei a cara. Quando voltei, estavam dois miúdos a atirar o James Joyce um para o outro. Agarrei a mochila furioso e contive-me para não dar uma estalada ao miúdo. A mãe dele, sentada ao lado, acordou e disse: oh, Sean. Apetecia-me chegar a Dublin. A aterragem foi suave.

As ruas, os pubs, as pessoas. Atravessei três pontes até encontrar um parque. No parque, caminhei até encontrar uma árvore que me agradasse. Era uma árvore grande, talvez um plátano. Entre as raízes, cavei com as mãos. Primeiro a relva, depois a terra. A noite crescia devagar na tarde. Passavam pessoas que me olhavam por um instante, mas todas desviavam o olhar. Quando não estava ninguém, nem nos caminhos do parque, nem atrás dos arbustos, enfiei o James Joyce, dentro da mochila, no buraco e cobri-o com terra e com uma camada de relva. Olhei por instantes para o sítio onde o deixei e considerei que tinha feito algo de bom. Afastei-me em direcção ao aeroporto. Levava uma falta no coração. Sentia pena de deixar o James Joyce. Na altura, ainda não sabia que quem deixa as coisas que ama espalhadas pelo mundo, sente sempre falta de algo onde quer que esteja. Fui para Lisboa.  Na noite seguinte, dormi já na minha cama, abraçado ao manuscrito do meu primeiro romance.

 

José Luís Peixoto, in Abraço (2011)

 

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Túmulo de James Joyce, em Zurique. (Fotografia de José Luís Peixoto, 2021).

13 Dezembro - 18h30 - Biblioteca de Algés

14 Dezembro - 19h30 - Consulado de Portugal em Sevilha

18 Dezembro - 17h30 - Livraria Arquivo Leiria

19 Dezembro - 17h00 - Bertrand Shopping Cidade do Porto

20 Dezembro - 18h30 - Biblioteca de Oeiras

21 Dezembro - 17h00 - Livraria da Travessa Lisboa

 

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A Companhia das Letras, no Brasil, e a Aviador, na Finlândia, lançam novas edições do romance Autobiografia, no ano que se celebra o centenário de José Saramago.

A ousadia de transformar José Saramago em personagem e de chamar Autobiografia a um romance é apenas o começo de uma surpreendente proposta narrativa que, a partir de certo ponto, não se imagina como poderá terminar. José Luís Peixoto explora novos temas e cenários e, ao mesmo tempo, aprofunda obsessões, numa obra marcante, uma referência futura.

Mais sobre Autobiografia aqui.

 

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No âmbito das comemorações do centenário do nascimento de José Saramago, José Luís Peixoto conversa com o Professor Carlos Reis.

O programa de rádio de José Luís Peixoto na Antena 1, Tanto Mundo, conta já com 38 episódios.

Nele, José Luís Peixoto fala sobre alguns lugares do mundo através de textos da sua autoria e em conversa com Noémia Gonçalves.

Tanto Mundo passa às quintas feiras, pelas 19h50, na Antena 1, e fica também disponível na RTP Play, no website da Antena 1 , no Spotify e nas demais plataformas de podcast.

 

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José Luís Peixoto foi um dos convidados do FILIT - Festival Internacional de Literatura e Tradução de Iasi, na Roménia, que decorreu de 20 a 24 de Outubro. 

 

José Luís Peixoto participou em diversas atividades e apresentou o seu romance Autobiografia, publicado pela editora Pandora e traduzido por Simina Popa, no Teatrul National Vasile Alecsandri Iasi, perante uma plateia repleta.

 

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Outros livros de José Luís Peixoto em romeno:

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Morreste-me, o primeiro livro de José Luís Peixoto, tem agora uma nova edição que celebra os 20 anos da sua publicação.

Para assinalar estas duas décadas, a Quetzal lançou uma edição com capa dura, fotografias inéditas e outros materiais gráficos tais como uma história de Morreste-me, a reprodução de alguns manuscritos, a edição do primeiro capítulo no DN Jovem, a capa da edição de autor e de capas e páginas de várias edições internacionais, entre outros.

O que começou por ser um pequeno texto publicado no suplemento juvenil do Diário de NotíciasDN Jovem,  é hoje um livro de culto – uma carta ao pai ausente – que une milhares de leitores em todo o mundo.

 

Disponível aqui.

Mais sobre Morreste-me aqui.

 

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Arquivo de recortes sobre José Luís Peixoto e a sua obra.


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