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"Autobiografia" é o título do novo romance de José Luís Peixoto. 

Será publicado durante o mês de julho em Portugal e no Brasil, onde será publicado em exclusivo pelo clube do livro TAG

Mais informações sobre a edição portuguesa: AQUI

Mais informações sobre a edição brasileira: AQUI

Opinião sobre o romance e sobre edição edição brasileira:

Capa portuguesa:

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publicado às 10:58

TEXTO E FOTOGRAFIAS DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

 

De olhos fechados, distingo devagar cada um dos sons que me rodeiam.

 

Os tambores lá ao fundo. São grupos de músicos berberes. Sentam-se num círculo e, cercados por um muro de pessoas, tocam sem parar. Cada batida na pele desses tambores atravessa a praça inteira e chega até aqui. Ao longo desse caminho, atravessa o rugido de todas as vozes. São vozes de uma multidão de indivíduos, homens, mulheres, crianças, vozes mais próximas e mais distantes, são vozes misturadas, vozes que serpenteiam como o som das cornetas, também lá ao fundo. As cornetas dos encantadores de serpentes possuem uma melodia estridente que parece infinita. Segue sempre em alguma direcção, decidida, mas nunca chega ao seu destino. Essa melodia evolui como uma sirene contínua, constante, mas sempre diferente, em evolução. Mais perto, o zumbido esforçado das motorizadas, a hesitarem um caminho de curvas entre as pessoas que cruzam a estrada em todos os sentidos, gente carregada de sacos e de vozes, mais vozes ainda. E perto, aqui mesmo, à distância da minha mão, o som de loiça a tocar a mesa, o som de uma colher a tilintar no pires.

 

Abro os olhos. O empregado chegou com o chá de menta e está parado à minha frente. O seu sorriso é brando. Tento responder-lhe com um sorriso igual. Afasta-se satisfeito e volto a sentir o sol na pele do rosto. Não preciso de fechar os olhos para receber esse conforto. O dia quer terminar e tem preparada a luz perfeita, redentora. O chá não está demasiado quente, está espesso e perfumado.

 

A praça Jemaa El Fna muda com as horas do dia. Durante a tarde, cada laranja dos vendedores de sumo é um sol. Sentadas em bancos baixos, há mulheres a segurarem seringas cheias de henna. Por pouco dinheiro, desenham cornucópias cheias de detalhe nas costas das mãos de turistas, mulheres ou raparigas. Muito perto, há homens a segurarem trelas, a passearem macacos vestidos com roupa de pequenas pessoas peludas. Também esses distinguem turistas entre a multidão. Os macacos trepam-lhes para os ombros e quase de certeza que os turistas hão-de querer mostrar essa fotografia lá para onde regressarem. Uma moeda de dez dirhans não é pedir muito pela garantia dessa sensação.

 

Ninguém pode parar o tempo. Durante o fim longo da tarde, há aqueles que ainda olham para o passado. Como os donos dos macacos, os encantadores de serpentes têm pressa de aproveitar a última luz, incientivo a que os turistas tirem mais uma fotografia. Envoltos pela insistência das tais cornetas, há rapazes que querem convencer turistas a posarem com serpentes enroladas nos braços. Mas o tempo continua, ninguém pode pará-lo. O sol desceu já por detrás do minarete da mesquita de Koutoubia. Os raios de luz que o circundam tornam-no incandescente, como Alá. E, de repente, esse nome divino, feito com uma vogal que enche a boca e pode ser suspensa, é gritado desde várias direcções, estendendo-se a partir dos altifalantes no ponto mais alto das mesquitas, como se cobrisse a cidade inteira. Entre a urgência daqueles que atravessam a praça, é quase certo que alguns se dirigem para essas mesquitas onde os chamam. Mas a praça, como o tempo, continua sempre. Homens de bigode e camisas rasgadas terminam de montar todos os ferros das barracas de comida. Juntam essas peças todos os dias, organizam esse barulho de ferro contra ferro. Agora, falta apenas um fio muito fino para que chegue a noite. Debaixo das barracas quase montadas, já ardem as brasas onde serão assadas as espetadas de carne moída.

 

Não muito longe, à volta de um círculo no chão, formado por garrafas de coca-cola, há rapazes e crianças que seguram canas de pesca com argolas na ponta de um longo cordel. Se conseguirem enfiá-las no gargalo, ganham a garrafa. Ao lado, homens vestidos de mulher, com o rosto tapado como muitas mulheres, dançam exageradamente. Entre os vários grupos, passam os vendedores de água, equilibram um exuberante chapéu garrido, com roupas também garridas, com medalhas penduradas e copos de cobre. Apontam para os turistas e fazem o gesto de tirar uma fotografia. O som dos sinos que agitam encontra um lugar entre todos os outros sons. Depois de seguir os vendedores de água com olhar durante minutos, parece-me que são um bom símbolo de muito do que se vê na praça. Estão vestidos de forma tão folclórica que parece artificial, a insistência com que chamam os turistas também não lhes acrescenta genuinidade. No entanto, uma mulher e uma criança aproximam-se deles. O sino deixa de tocar. O vendedor enche um dos copos de cobre com água retirada do seu enorme cantil de cabedal. Enquanto a criança bebe, o homem e a mulher esperam. A criança bebe devagar, dentro de um silêncio pequeno, difícil de distinguir. Quando termina, a mulher dá uma moeda ao vendedor, que volta a tocar o sino e a meter-se com turistas. Ou seja, o vendedor de água vende efectivamente água, sacia mesmo a sede a alguém, mas se puder lucrar com o turismo, aproveita. É assim com quase tudo o que acontece na praça. Há uma multidão de marroquinos a assistirem aos músicos berberes, batem palmas, a música entra-lhes mesmo dentro do seu ritmo pessoal. Mas chega um turista e há um músico que imediatamente lhe estende o chapéu, a pedir moedas: dirhans, dirhans, dirhans.

 

Anoitece sobre a praça, sobre toda essa gente. As luzes das barracas onde se vende tigelas de caracóis estão acesas desde o lusco-fusco. Em Marraquexe, é na praça Jemaa El Fna que tudo começa e, não há qualquer dúvida, é também na praça Jemaa El Fna que tudo termina, oxalá.

 

Cada vez que se fala de qualquer coisa no futuro, Mohammed diz sempre: incha' Allah. Significa "Deus queira" em árabe. Quem usa essa expressão está a afirmar-se nas mãos de Deus. Essa é a origem etimológica da palavra portuguesa "oxalá". Enquanto avançamos pelas ruas do souk, pergunto a Mohammed se nos dirigimos para a Madraça Ben Youseff. Ele, como seria de esperar, responde: Incha' Allah. Oxalá mesmo, penso eu. Se me perder dele, não vai ser fácil encontrar o caminho de volta para a praça.

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Há de tudo, pelo menos é o que parece. Todas as portas de todas as casas estão rodeadas por artigos à venda. Quando se olha para algo, o vendedor chega imediatamente. Na maioria das vezes, não é preciso olhar, o vendedor, poliglota, começa logo a perguntar qual a melhor língua para conversarmos: Italiano? Español? Français? English? Entre tudo o que está em exposição, nota-se que, às vezes, há uma concentração maior de determinado material ou ofício. Se houver muitos homens sentados a soldarem ou a martelarem chapas de metal, por exemplo, chegámos ao Souk do Ferro. Esse é um bom lugar para procurar candeeiros, mesas ou objectos que, se apanharem chuva, hão-de enferrujar, oxalá. Se houver homens rodeados de serradura, a girarem com as mãos e com os pés um aparelho de correias, no qual lâminas afiadas moldam ripas, chegámos ao Souk da Madeira. Também há o Souk dos Tapetes, claro, ou o Souk dos Babouches, onde se pode encontrar aquele sapato bicudo, típico dos países árabes, com toda a espécie de padrões, com o emblema de quase todas as equipas de futebol. Para além destes e de muitos mais, o Souk dos Tintureiros é onde as cores são capazes de ser ainda mais vivas, enchem os olhos. Pouco depois, não são necessárias indicações para chegar ao Souk dos Curtidores, descobre-se pelo cheiro.

 

De manhã, os raios de sol atravessam os telhados de palhinha que cobrem as ruas destes mercados. São raios oblíquos, bem desenhados que tocam os objectos, os olhares e o movimento de todas as coisas. Belek, belek, grita um homem que passa a empurrar um atrelado ao longo da rua estreita, pode levar legumes, panos, loiça, pode levar seja o que for. Mohammed explica-me que "belek" significa "cuidado". Compreendo. Por mais gente que encha a rua, há sempre espaço para as pessoas se afastarem. Nem que seja para o interior de uma loja de perfumes naturais, sabão vendido ao quilo, remédios, chás e frascos cheios de cores e matérias. Não quero comprar nada. O vendedor acredita que sim e possui solução para problemas que me diagnostica instantaneamente: queda de cabelo, acne, falta de vigor. Em francês, repete "vigor" e faz-me uma expressão marota, para o caso de eu não ter entendido à primeira.

 

Volto a sair para a rua. Mohammed nunca me perde de vista. Não sou capaz de fazer o mapa mental destas linhas embaraçadas que, às vezes, parecem voltar para trás. Mas havemos de chegar à madraça, oxalá. Por baixo de um sinal de proibido com o desenho de uma motorizada, passa uma motorizada.

 

E chegamos. De fora, não se imagina o interior. Há uma entrada num muro com a cor de todas as paredes de Marraquexe. Por isso lhe chamam "cidade vermelha". Em rigor, é mais ocre do que vermelha. Mas, sim, é avermelhada. Mohammed, no seu tom professoral, explica que há uma lei que determina que as casas da medina de Marraquexe têm de ser pintadas da cor da casa ao lado. É por isso que todas as casas são da mesma cor, com ligeiras variações. A entrada na Madraça Ben Youssef está encostada a um desses muros opacos. Depois, encontra-se todo o detalhe que a arquitectura marroquina do século XVI era capaz. O trabalho melindroso do gesso esculpido com versos do Corão ou dos pequenos mosaicos a criarem padrões caleidoscópicos, a acompanharem arcos, colunas, tectos. Ou o pátio central, aberto ao céu, com um lago de água limpa sobre azulejos, água fresca. Por seu lado, as celas dos novecentos alunos que a escola corânica chegou a ter são um exemplo de austeridade. Como pequenos buracos na cal, sem janelas, as celas eram distribuídas consoante o melhor ou pior rendimento do aluno. Frescas no verão, exigiam cinco tapetes no inverno para se alcançar uma temperatura aceitável.

 

Ao contrário das mesquitas ou da maioria dos edifícios religiosos, a madraça pode ser visitada por não-muçulmanos. Ao lado, o Museu de Marraquexe também merece uma visita, menos pela colecção de moedas do que pela arquitectura do palácio do século XIX, organizado à volta de uma divisão central com um candelabro gigante.

 

Em Marraquexe, no que diz respeito a monumentos, é também imprescindível passar pelos Túmulos Saadianos. No casbá, na cidadela cercada por muralhas, longe do labirinto que leva à madraça e ao museu, já sem a companhia e a ajuda de Mohammed. Havemos de voltar a ver-nos. Oxalá, oxalá. Os dezasseis túmulos reais datam dos séculos XVI e XVII e, também eles, elaboram o trabalho em gesso, madeira, azulejo e mosaico até à última loucura do mais ínfimo detalhe.

 

Não muito longe, o Palácio Baadi é hoje um espaço enorme rodeado por grandes muralhas de adobe, onde vive uma enorme colónia de cegonhas. Subindo esses degraus, encontram-se vistas excelentes sobre o ritmo frenético do casbá e, também, sobre o vagar elegante das cegonhas, a tratarem de qualquer assunto doméstico na intimidade do seu ninho. Dessa altura é possível imaginar aquilo que deve ter sido esse palácio, mandado construir com os materiais mais nobres pelo rei Ahmed al-Mansur, no auge da dinastia saadiana. Composto por centenas de salas, o palácio foi erguido depois de uma vitória sobre os portugueses no século XVI, tendo mais tarde sido demolido pelo Mulei Ismail Ibn Sharif com o propósito de usar os seus materiais para decorar Meknés, a cidade imperial que ele próprio mandou construir.

 

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Nas ruas do casbá, não é preciso imaginar muito. A grande quantidade de acontecimentos simultâneos prescinde desse esforço. Há homens a remendarem pneus de motorizadas no passeio, limpam os dedos sujos de óleo à parede. Entre pequenos postos de venda de cartuxos de favas ou grão cozido, passam carroças carregadas de areia, puxadas por burros resignados. Toda a gente se dirige a algum lugar. Sigo um homem que carrega dois molhos de galinhas vivas, presas pelas patas e chego ao mercado, onde se vende comida de todas as cores e onde gatos se deslocam devagar, concentrados num mundo só deles.

 

O casbá, as ruelas dos souks, a praça Jemaa El Fna, tudo isto fica na medina. Quando os guias de viagem ou os turistas estrangeiros referem Marraquexe, estão a falar quase exclusivamente da medina antiga, que é o espaço interior das muralhas. É no topo de um terraço que se consegue ter a melhor noção da cartografia intrincada e, ao mesmo tempo, é também aí que se consegue encontrar suficiente distância da azáfama e relativizá-la. Ainda assim, há mais cidade. É fora das muralhas que se estendem as avenidas mais modernas e os prédios, onde vive a maioria dos cerca de novecentos mil habitantes da cidade.

 

O visitante que privilegie o exótico tem poucos motivos para atravessar as muralhas. Mas será uma pena sair de Marraquexe sem ter visitado o Jardim Majorelle. De repente, as ruas dos souks, a confusão ou o trânsito de motores e pessoas deixam de existir. O jardim foi criado ao longo de várias décadas do século passado pelo pintor francês Jacques Majorelle e, a partir dos anos oitenta, recuperado por Yves Saint-Laurent. Dezenas de espécies de cactos, fontes, pássaros ariscos, criam uma harmonia e um silêncio que, em muitos pontos da cidade, se julga impossível. A tranquilidade é valiosa, é necessária.

 

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Impressiona que, tão perto de Portugal, exista um mundo tão diferente. No centro desse mundo, entre a montanha e o oceano, existe uma cidade que condensa uma parte importante das suas riquezas. No centro dessa cidade, como no exacto centro do mundo inteiro, existe uma praça. É lá onde tudo começa e onde tudo termina.

 

À noite, existem focos de luz espalhados pela distância. Mesmo assim, não são suficientes para iluminarem bem a praça inteira. Caminha-se pela quase escuridão entre um ponto e outro. Um contador de histórias garante qualquer coisa em árabe. Quem o ouve e entende, abre bem os olhos, a imaginar. Há gente sentada em bancos de madeira, à volta de grelhas e de fumo, a segurarem espetadas com a mão e a tirarem cubos de carne com os dentes. O ritmo dos músicos não diminuiu, os tambores aproximam-se ou afastam-se, transportados pelo vento. Grupos de acrobatas equilibram-se numa pirâmide, os pés sobre os ombros ou sobre as cabeças. Alguém me toca no braço para me tentar vender um relógio. Passam motorizadas e carruagens puxadas por cavalos, passam crianças a correr. Um anão toca violino.

 

Amanhã chegará outro dia, oxalá. Será um dia completamente igual e completamente diferente deste. Essa é a natureza do tempo. Sim, amanhã chegará outro dia, oxalá, oxalá.

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Temas:

publicado às 18:02

José Luís Peixoto participou no II Fórum de Literatura China-Portugal, realizado em Pequim, no Museu Nacional de Literatura Moderna Chinesa.

 

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publicado às 11:25

Margarida Cardeal dirigirá um workshop de teatro destinado a 15 participantes (com ou sem experiência, maiores de 16 anos). 

Todos os exercícios teatrais serão realizados a partir de textos originais de José Luís Peixoto. No final, esse trabalho resultará num espetáculo a apresentar publicamente.

Informações e inscrições: 100dramas.0@gmail.com ou 919460011

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publicado às 12:39

No passado dia 24 de maio, na Feira do Livro de Sevilha, José Luís Peixoto participou numa conversa pública com Pilar del Rio e Carlos Reis sobre José Saramago. 

No próximo dia 1 de junho, a partir das 20h, José Luís Peixoto estará na Feira do Livro de Sevilha a falar das traduções castelhanas dos seus livros. Com sessão de autógrafos na "caseta" da Livraria Palas a partir das 21h.

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publicado às 11:01

Náufrago

18.05.19

Corro à máxima velocidade que consigo, levo alguma coisa a apertar-me o peito. A meio da corrida, chego à surpreendente conclusão de que é o peito que se aperta a si próprio. Corro em direção a algo que me parece imprescindível. Não sei há quanto tempo persigo essa miragem. Questiono-a por um instante, agora.

 

E, de repente, é de novo o fim do dia. Terminou o prazo. De novo, o dia não foi suficiente, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente. E outra vez o fim do dia, e outra vez, outra, outra, de repente, exatamente o mesmo instante, a repetição do mesmo fim de dia, a mesma derrota. De manhã à noite: a pressa de fazer qualquer tarefa para fazer a tarefa seguinte. Todas as horas de um dia inteiro: a calcular o tempo que demoro até um lugar de onde quero sair o mais rapidamente possível. Ainda aqui e já a pensar no tempo que demoro a ir lá e a regressar aqui.

 

E, de repente, é de novo o fim do dia. É terça-feira, é quarta-feira, é quinta, sexta; de repente, é de novo sexta-feira, terminou mais uma semana, estes dias não foram suficientes, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente. Olho para a semana que passou e não consigo entender essa velocidade. Estou rodeado pelas ruínas do que não consegui fazer, cobrem a memória vaga de tudo o que me ocupou o tempo. E, agora, neste fim, parece-me que apenas fiz o que não queria.

 

E, de repente, é de novo dia 30. A repetição, cansativa e previsível: dia 27, dia 28, 29 e 30, é de novo dia 30, terminou mais um mês, abril, terminou abril. Estas semanas e cada um destes dias não foram suficientes, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente. Ao longo deste mês que passou, como uma paisagem que ainda olho, mas a que não consigo chegar quando estendo o braço, estão os fantasmas do que adiei. Aqui, ao terminar este dia, semana, mês, parece-me que talvez adie essas possibilidades para sempre.

 

Agora é um instante. Agora é um breve intervalo. Amanhã, recomeça o tempo. Tenho hora para acordar, tenho hora e lugar para estar vestido, desperto, bem-falante, tenho uma lista de tarefas a cumprir. Quanto mais depressa terminar a primeira, mais cedo poderei começar a segunda e, assim, talvez, chegar à última. Essa é a meta, o horizonte que distingo lá longe, no interior das minhas próprias ideias. Avanço na direção daquilo que consigo imaginar: os pontos da minha lista cumpridos, um a um. E, no entanto, inesperadamente, há alguém que se atrasa, há alguma coisa que demora mais do que previa: o trânsito, a chuva, cálculos inocentes. E, no entanto, de repente, é de novo o fim do dia, é de novo sexta-feira, terminou a semana, é de novo dia 30, terminou o mês. O tempo não foi suficiente, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente.

 

Agora, fecho os olhos, inspiro longamente. Agora, o tempo parece uma matéria informe, nada o pode conter, entra por todos os lados. Este é um navio a naufragar, o tempo é a água, entra pelas frinchas mais finas, o tempo é o oceano. Estou no último pedaço à tona e, em volta, apenas oceano noturno, apenas tempo. Em breve, irá submergir-me.

 

José Luís Peixoto, in revista Espiral do Tempo

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publicado às 09:20

 

José Luís Peixoto é convidado do Festival Dobitnika Eupl Nagrade, em Belgrado, onde irá apresentar as edições sérvias dos seus livros.

 

  • 18 de Maio, 19h15 - Kulturni Center Grad, Braće Krsmanović 4, 11000 Beograd

 

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publicado às 20:06

José Luís Peixoto participou hoje, 14 de maio, na iniciativa "Escritores no Palácio de Belém", a convite da Presidência da República Portuguesa.

 

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publicado às 20:45

Em outubro de 2017, José Luís Peixoto visitou a península da Coreia pela quinta vez. Escreveu as dez crónicas breves, que se apresentam em seguida e que foram transmitidas na RDP/Antena1. Na mesma rádio, apresentou uma reportagem da sua autoria, que pode ser ouvida AQUI.

 

1

No aeroporto de Pequim, faço o check in para Pyongyang pela quinta vez na minha vida. Os norte-coreanos que podem sair do país despacham malas que fazem apitar as máquinas e, por isso, têm de abri-las para inspeção.

 

No avião, vou sentado ao lado de um homem muito direito. No jornal Pyongyang Times, em inglês, leio as notícias da primeira página: a produção aumentou em diversos sectores da economia nacional. Há também um artigo com o título "Atos anti-República Popular Democrática da Coreia vão trazer mais vergonha e ruína para os Estados Unidos". Na notícia principal, no entanto, Kim Jong-un inspeciona uma quinta agrícola militar. Sorri na fotografia, com trigo até à cintura.

 

Quando as hospedeiras, com voz colocada e muito aguda, anunciam a aterragem, vêm-se campos lavrados e algumas casas rurais da mesma cor desse terreno.

 

Pela quinta vez na minha vida, cumpro as formalidades da alfândega da Coreia do Norte. Um militar pede telefones e passaportes. Na revista das malas, outro militar encontra dois livros na minha bagagem. Vão ser analisados. Sei o que não posso levar — livros sobre os Estados Unidos, a Coreia do Sul, bíblias, etc. — e, por isso, espero despreocupadamente num guichet que me devolvam um volume de poesia do Perú e um ensaio sobre literatura.

 

Encontro as guias que me acompanharão durante todos os momentos da minha estadia. São duas mulheres, uma da minha idade (43 anos) e outra muito mais nova (22). Conheço a primeira, viajei com ela pelo país em 2014.

 

Na berma da estrada entre o aeroporto e Pyongyang, há centenas de pessoas de todas as idades a pé ou de bicicleta. Chego à cidade, multidões enchem os passeios. Estes são os norte-coreanos que se imaginam no ocidente, que estão por baixo de muitas conversas, mas de que poucos falam em concreto. Durante a próxima semana, pela quinta vez na minha vida, voltarei a andar entre eles.

 

2

Às cinco da manhã em ponto, começa a ouvir-se uma música suave, algo fantasmagórica, em todos os altifalantes de Pyongyang. Da janela do meu quarto, vejo os vultos que, a essa hora, atravessam a escuridão total. O dia nascerá às seis e meia. À primeira luz, os passeios estão já cheios de gente: homens e mulheres a irem para os seus trabalhos, estudantes a caminharem enquanto leem cadernos que seguram diante do rosto, crianças pequenas (6 ou 7 anos) que vão sozinhas de mochila às costas, velhos que empurram carros com sacos de serapilheira, militares rasos a pé, oficiais de bicicleta.

 

A partir das oito da manhã, nas praças principais de Pyongyang, nos lugares onde passa mais gente, há formações de dezenas de mulheres que tocam tambor e fazem coreografias sincronizadas com bandeiras de vermelho muito vivo. Estão ali para dar ânimo aos trabalhadores que iniciam a sua jornada.

 

A neblina matinal levanta-se lentamente, há um sol de outono que ilumina as cores dos murais com episódios da vida dos líderes, que ilumina também os seus rostos no topo dos edifícios públicos. São sete horas e meia a mais do que em Portugal. Por decisão própria, a Coreia do Norte é o único país do mundo neste fuso horário. Assisto ao início de mais um dia em Pyongyang e sei que há outras realidades lá fora, mas aqui, para quem avança pelos passeios da capital da Coreia do Norte, só há esta realidade.

 

3

Em períodos entrecortados, enquanto esperamos, falo em inglês com a guia do Museu da Vitória na Guerra de Libertação da Pátria. É uma militar fardada, tem 26 anos. Sorri bastante, está com vontade de falar.

 

Pergunta-me se sou casado, se tenho filhos. Diz-me que é solteira, vive com os pais e com uma irmã. Pergunta-me a idade do Cristiano Ronaldo. A irmã é grande admiradora de futebol e encarregou-a de recolher essa informação. Os estrangeiros que por ali passaram nos últimos meses não foram capazes de responder. Acha-o demasiado velho, diz que a irmã vai ficar decepcionada.

 

A nossa conversa é interrompida pelas explicações que dá sobre as diferentes salas do museu, sobre a guerra da Coreia ou, como ela lhe chama, a guerra de libertação da pátria. É uma história de avanços e recuos, determinados pelas perversões cobardes dos imperialistas americanos e pelo heroísmo do povo e do exército da Coreia, sempre com a sábia direção do presidente Kim Il-sung.

 

Ao esperarmos outra vez, pergunto-lhe acerca da situação atual. Ri-se. Sabe que os americanos têm um presidente novo, mas diz que as suas ameaças não são novas. Os americanos são patéticos e ninguém tem medo deles.

Ao entramos na sala seguinte, a guia comove-se. Estamos na sala dedicada às atrocidades cometidas pelos americanos durante a guerra. Pergunto-me se sentirá a mesma comoção sempre que faz esta visita. Mas, volta a animar-se logo a seguir, ao entrarmos na sala da gloriosa vitória do povo coreano.

 

4

Qual será o futuro destas crianças de cinco ou seis anos? Esperam por nós alinhadas no pátio da escola primária da cooperativa agrícola. É de manhã, ouve-se um silêncio de pássaros no interior da neblina, ruídos da natureza e da terra a ser trabalhada. Quando nos aproximamos, a professora começa a tocar acordeão e, fazendo gestos sincronizados, vozes de criança cantam canções infantis sobre a grandeza da Coreia e dos líderes.

 

E os alunos da escola secundária Kang Pan-sok? Qual será o seu futuro? A escola tem o nome da mãe de Kim Il-sung e fica no centro de Pyongyang. Os alunos passam a sua adolescência nestes corredores. O rosto de alguns está muito sério nas fotografias do quadro de honra. A esta hora, há rapazes a jogar futebol, grupos de raparigas a conversarem. Em certos cantos, alguns estudam cadernos de páginas cinzentas. Talvez estejam a rever a matéria sobre a vida dos líderes. História das Atividades Revolucionárias de Kim Il-sung, ou de Kim Jong-il são disciplinas obrigatórias.

 

E também os meninos-prodígio do Palácio das Crianças. Milhares de jovens assistem a este espetáculo num grande teatro. No palco, meninas fazem bailados sobre o desenvolvimento tecnológico da Coreia do Norte, por exemplo. Um coro de rapazes, pioneiros de lenço vermelho, é acompanhado por palmas. Cantam à frente de um vídeo com mísseis a serem disparados e bombas a explodirem. Essa é a atuação mais aplaudida do espetáculo.

 

Qual será o seu futuro? Qual será o nosso futuro?

 

5

No paralelo 38, junto à linha onde se dividiu a península da Coreia, há sempre muitos pássaros. Cruzam a fronteira livremente, indiferentes ao que se pensa em terra.

 

Os militares sul-coreanos deixam o seu posto quando há a visita de turistas estrangeiros a partir do norte. Terão os seus motivos para fazê-lo.

 

Para além das cinco vezes em que estive no lado norte, também já visitei o paralelo 38 a partir do sul. Nesse lado, não deixam os visitantes aproximar-se da fronteira, repete-se que é muito perigoso. Todos acreditam e, assustados, ficam a centenas de metros, a ver por binóculos aquilo que tenho agora à minha frente.

 

Acompanho um militar e entro numa das salas azuis que se veem sempre na televisão, divididas pela fronteira, onde são feitas as conversas entre norte e sul. No interior dessa casa, azul também por dentro, ponho um pé de cada lado.

 

Na sua volta ao mundo, o paralelo 38 do hemisfério norte, também atravessa Portugal. Passa nos distritos de Beja e Setúbal.

 

À saída, dou um volume de cigarros ao militar, que fica surpreendido, apesar de o ter pedido a uma das guias que me acompanha e que me sussurrou: dê-lhe agora os cigarros.

 

Estou a 70 km de Seul mas, para chegar ao outro lado desta fronteira, terei de fazer 160 km por estrada até à capital da Coreia do Norte, apanhar lá um avião para a China e, daí, apanhar outro para a Coreia do Sul. Amanhã, farei essa viagem, durará todo o dia.

 

6

Nos últimos 65 anos, não são muitas as pessoas que sabem o que é, no mesmo dia, despertar de manhã na Coreia do Norte e adormecer à noite na Coreia do Sul.

 

O consumo de informação que sucede a chegada de internet ao telefone é um choque, dá-me uma sensação física. Sinto o sangue a correr mais depressa nas têmporas, uma ligeira tontura.

 

Depois, tudo é uma incrível novidade: as luzes, o trânsito, a publicidade e, sobretudo, as pessoas, convictas do seu mundo.

 

Caminho ao longo da praia Haeundae, em Busan — a segunda cidade da Coreia do Sul, com 3 milhões e meio de habitantes. Passo por artistas de rua com mais ou menos público, cantores de canções melancólicas acompanhadas à viola. Cruzo-me com famílias que também fazem este passeio ou que se sentam na areia, sobre cobertores. A esta hora da noite, a escuridão faz o mar ainda mais infinito. No entanto, sei que após três horas de ferry boat se chega a Osaka, no Japão.

 

Hoje, há um festival de fogo de artifício. Assisto a estas explosões coloridas. Em toda a praia, a multidão faz longas e colectivas exclamações de espanto. Na memória, nos olhos, levo ainda as imagens da Coreia do Norte, onde acordei hoje de manhã. Sei que eles estão lá, numa noite sem luz. Diante das formas que enchem este céu, parece-me que essa verdade é demasiado grande para ser dita. Vinte e quatro milhões de norte-coreanos — gente com famílias como estas, capazes de espanto como este. Aqui, é muito difícil explicar essa verdade simples.

 

7

Ainda em Busan, no sul da Coreia do Sul, olho pela janela do meu quarto enquanto ouço as notícias em inglês na televisão. Ontem, o secretário de defesa dos Estados Unidos visitou a fronteira. Ao seu lado, o ministro da defesa da Coreia do Sul declarou que, se a guerra começar, a artilharia da Coreia do Norte será destruída imediatamente.

 

Lá em baixo, nas ruas de Busan, as pessoas caminham pelos passeios. Dirigem-se talvez para lugares onde vão todos os dias.

 

Em estúdio, de fato e gravata, os comentadores dizem que a Coreia do Norte tem 21 batalhões estacionados no seu lado do paralelo 38 e que, mesmo que a artilharia fosse destruída, seria impossível deter a sua capacidade de retaliação (incluindo armas químicas, biológicas e nucleares) antes de alcançarem Seul.

 

O lugar que me calha no comboio de alta velocidade é ao lado de um militar sul-coreano. É um rapaz bastante alto, terá talvez pouco mais de vinte anos. Com a mão ,segura um copo de plástico com café gelado; com a outra mão, escreve mensagens no telemóvel. O seu uniforme tem um padrão camuflado, com a bandeira da Coreia do Sul no ombro. Ao peito, tem uma placa de pano, chama-se qualquer-coisa Kim.

 

Aproximamo-nos de Seul a cerca de 300 quilómetros por hora. A cada fôlego, estamos mais próximos de Seul. Ele chega ao fim do café gelado. Pousa o telemóvel por instantes, tira a tampa do copo de plástico e começa a mastigar as pedras de gelo.

 

8

Chama-se Chui. Não tenho a certeza de que o seu nome se pronuncie assim. Talvez por se ter cansado de ouvir o seu nome mal pronunciado, adoptou o nome de Glória para falar com estrangeiros. Diz-me que a relação com a Coreia do Norte, depende das gerações.

 

A avó conheceu a península antes da guerra e da divisão. Esse era um assunto que lhe custava muito. A mãe herdou essa dor, mas já um pouco atenuada. A ela própria, por várias vias, foi-lhe transmitida uma imagem muito negativa da Coreia do Norte: os inimigos. Já a filha, de nove anos, aprende na escola atual lições sobre toda a península da Coreia, traz trabalhos de casa sobre o norte e até lhe ensina algumas coisas.

 

Peço para traduzir o texto de alguns cartazes que fotografei com o telemóvel na Coreia do Norte. Um deles tem o desenho de muitos mísseis e diz: "A resposta de Choson" (que é o nome que a Coreia do Norte dá a si própria). Outro, também com mísseis, diz: "Não seremos derrotados, somos uma potência nuclear". Chui/Glória ri ligeiramente ao ler estas frases.

 

Pergunto-lhe se não tem medo. Continua divertida ao responder que há trinta e cinco mil soldados americanos na Coreia do Sul e que, por isso, não tem medo de nada.

 

Relembro-lhe aquilo que sabe melhor do que eu, que Seul está tão perto da fronteira e volto a perguntar-lhe se não tem medo. Volta a responder-me que há trinta e cinco mil soldados americanos na Coreia do Sul e que, por isso, não tem medo de nada.

 

9

A embaixada dos Estados Unidos fica na avenida mais emblemática de Seul, a poucos metros do palácio Geongbokgung, o principal do país, o palácio real. Às sete da manhã, os manifestantes permanentes estão na posição de lótus, sentados sobre esteiras. Têm os olhos fechados, fazem meditação antes de iniciar o dia.

 

Os polícias estão no seus postos habituais, são dezenas diante da entrada, estão a poucos metros uns dos outros, cobrem o muro com os seus casacos de amarelo fluorescente. Na rua lateral, há meia dúzia de autocarros da polícia estacionados.

 

À medida que os manifestantes despertam da sua meditação, vão-se juntando em grupos que conversam quase em silêncio. Enchem chávenas de plástico com termos de chá, libertam grossas nuvens de vapor. Sentindo a minha presença, há um que se aproxima e que me estende um panfleto e um sorriso.

 

Ele sabe que não entendo coreano, são poucos os estrangeiros que entendem, mas acredito que saiba também que entendo os desenhos do panfleto: de um lado, uma caricatura de Trump ao lado de Hitler; do outro, o rosto de Trump a ser espezinhado por vários sapatos, no centro de uma poça de sangue.

 

Aqueles que se opõem à presença americana no país são uma minoria, mas existem. Durante as grandes manifestações, são milhares. Aqui, têm fitas atadas à testa e cartazes, têm uma coreografia sincronizada com as palavras de ordem que repetem em coro. Quando Trump chegar, não poderão estar aqui, a poucos metros da embaixada dos Estados Unidos. Onde estarão nessa hora?

 

10

Rodeado pelos grandes arranha-céus de Seul, é difícil imaginar que Kaesong fica apenas a 70 quilómetros daqui.

 

A autoestrada mais importante da Coreia do Norte é a que liga Pyongyang a Kaesong e que, a cada x quilómetros, tem longas colunas de cimento que se destinam a ser derrubadas com explosivos e a cortarem a estrada, no caso de entrarem invasores no país.

 

No centro de Seul, o trânsito está quase sempre engarrafado por carros de fabrico coreano, topos de gama de marcas que conhecemos em todo o mundo e outras apenas disponíveis no mercado sul-coreano. As ruas principais de Kaesong são muito largas para as bicicletas que as atravessam. Às vezes, passa um carro também.

 

No ponto mais alto de Kaesong, junto às enormes estátuas de Kim Il-sung e de Kim Jong-il, escutam-se cães a ladrar, pedaços de vozes perdidos na distância e um grande silêncio que atravessa a neblina.

 

Na Torre de Seul, o ponto mais alto da cidade, vê-se uma capital a perder de vista, a tocar o horizonte, uma máquina complicada de relações entre dez milhões de pessoas.

 

Entre Seul e Kaesong, não há apenas a distância de 70 quilómetros. Há uma distância muito maior, uma lonjura no tempo, naquilo que as pessoas são capazes de imaginar e de entender.

 

Amanhã, vou regressar ao meu país, a milhares de quilómetros daqui. Sem motivo, mas muito a propósito, lembro-me de um balão que vi no templo Bulguksa, em Gyeongju. Entre centenas de outros, com etiquetas onde se escrevem pedidos, havia um assinado por uma família francesa. Apenas tinha a palavra "paz".

 

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(Algumas edições de Dentro do Segredo)

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publicado às 15:56

 

José Luís Peixoto é convidado da Feira do Livro de Salónica, onde irá apresentar as edições gregas dos seus livros. 

  • 10 de Maio, 14h - Cosmos Hall, Pavilion 13, TIF - HELEXPO

Em 2020,  o romance Nenhum Olhar será publicado pela editora Diaplasai, juntando-se às atuais edições:

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