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Breve (e muito resumida) visita guiada ao Centro de Interpretação José Luís Peixoto, em Galveias, conduzida pelo próprio e transmitida no programa Praça da Alegria, RTP1. 

Para ver aqui:

No fim de agosto e no início de setembro de 2024, Fernando Ribeiro e José Luís Peixoto farão 50 anos. Até lá, partilharão uma série de oito conversas mensais, chamada "Antes de fazermos 50". 

Essas conversas serão transmitidas ao vivo no Youtube, onde permanecerão disponíveis. Para além disso, estarão acessíveis nas plataformas de podcast (Spotify, Apple Podcasts, etc).

Serão conversas longas (cerca de 2 horas cada uma), dedicadas a temas importantes na vida dos dois. O tema de cada conversa será revelado no final da anterior. 

O tema de janeiro foi Música. Está disponível aqui:

Também disponível aqui:

O tema de fevereiro será Literatura. 

A data e horário serão anunciados nas redes sociais com alguns dias de antecedência. 

José Luís Peixoto estará na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no dia 30 de janeiro de 2024, entre as 14h e as 15h30, no Anfiteatro III, onde ministrará uma aula aberta sobre "Narrativas de Viagem". 

No dia 31 de janeiro, José Luís Peixoto estará na Fundação José Saramago, às 18h, para o lançamento do livro relativo ao projeto Viagem a Portugal Revisited.

No dia 5 de fevereiro, às 18h, José Luís Peixoto estará na Escola EB1 de Pavia (concelho de Mora), onde participará numa conversa pública sobre a sua obra.

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Temas:

Reportagem no programa Portugal em Direto, RTP 1, por ocasião da inauguração do Centro de Interpretação José Luís Peixoto, em Galveias, que teve lugar no dia 21 de janeiro de 2024.

Primeiros momentos da inauguração do Centro de Interpretação José Luís Peixoto, em Galveias: 

No dia 21 de janeiro de 2024, a partir das 10h30, terá lugar em Galveias a inauguração do Centro de Interpretação José Luís Peixoto. 

Esta iniciativa da Junta de Freguesia de Galveias implicou a total recuperação de um edifício de três andares. O centro inclui uma exposição onde se mostra a vila de Galveias na obra literária de JLP. Tem a ambição de ser um centro cultural  que dê um contributo para a região. 

A inauguração contará com a presença de diversas autoridades e com uma atuação da banda da Sociedade Filarmónica Galveense. 

centro de interpretação José Luís Peixoto.

O mundo é multidimensional. O que quero dizer é: a consciência do mundo é multidimensional. Identificar as dimensões pertinentes de um assunto é, com frequência, a primeira grande tarefa de interpretação a cumprir. As dimensões possíveis de análise são infinitas, mas quais as que mais relevantes à luz do que se pretende alcançar? Seja qual for a conclusão a que se chegue, a multiplicidade de dimensões pressupõe hibridismo. A existência do que consideramos manifesta-se de uma forma, mas também de outra, e de outra, e de outra. A articulação entre essas diferentes perspetivas exige que se abandone uma linha narrativa sequencial, de sentido único, exige a articulação e, por isso, exige o contraponto, a mistura.

Até num texto curto como este Calais, Emmanuel Carrère não nos poupa à complexidade do mundo que nos rodeia. Seria mais apaziguador se a vida fosse uma história que pudéssemos contar sem anacronismos, a partir de uma única perspetiva, seguindo um único género literário, avançando entre linhas bem definidas, mas estaríamos a simplificá-la, a distorcê-la. Ironicamente, os mecanismos que, no momento da leitura, parecem afastar-nos de uma verdade que nos puxa, são aqueles que nos aproximam de uma outra verdade, menos óbvia, não menos verdadeira. Muitas vezes, esses “mecanismos” são metaliterários, recordam-nos que estamos a ler um livro quando, na verdade, preferíamos submergir-nos na suspensão de descrença.

O trabalho de Carrère equilibra-se entre essas duas verdades, entre inúmeras dimensões. Neste caso, em janeiro de 2016, propôs-se a uma estadia de duas semanas em Calais e, a partir daí, a escrever um retrato da cidade, não se detendo apenas no acampamento de migrantes e refugiados que marcava a vida de Calais nesse período. A presença desses milhares de pessoas que tentavam atravessar o Canal da Mancha trouxe o nome de Calais para a imprensa internacional. Essa circunstância sobrepôs-se a todos os outros aspetos da sua identidade. Carrère foi lá em busca dessas múltiplas faces.

Ao fazê-lo, expõe dilemas e incongruências da forma como o mundo lida com o tema das migrações. Os habitantes de Calais dividem-se entre os que apoiam e os que condenam os migrantes. Carrère escuta ambos os lados, dá-lhes voz e mostra como coexistem na cidade. Esta é uma literatura que procura a humanidade em toda a parte, que não rejeita realidade. Quanto a esse ponto, este é um livro que pergunta: o que é a França hoje em dia? O que é a Europa hoje em dia?

Isto, que não seria pouco, é apresentado num texto que avança ora na via da literatura, ora na via do jornalismo, sem complexos e que, assim, implicitamente, ridiculariza esses mesmos complexos, essa soberba. Logo no segundo capítulo, o autor/narrador recebe uma carta, assinada com pseudónimo, que põe em causa a sua presença, a legitimidade e o valor do trabalho que poderá realizar. Independentemente do caráter documental ou ficcional dessas cartas, que surgem como um diálogo ao longo de todo o texto, essa é a materialização da consciência necessária, da dúvida necessária que sempre acompanha um grande autor.

 

Calais, Emmanuel Carrère, tradução para castelhano de Laura Salas, Editorial Anagrama, 2017

 

(Publicado no Jornal de Letras, 13 de dezembro de 2023, na coluna "Fiquei a pensar", onde JLP escreve sobre as suas leituras.)

 

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Boas festas!

23.12.23

"Reis na Diagonal" é o nome de um conto de José Luís Peixoto, que será publicado na revista Sábado em 4 partes, durante 4 semanas, a partir do número que chega às bancas no dia 21 de dezembro de 2023. 

Aqui:

 

Verão sem fim

10.12.23

 

Muitas vezes, trata-se de aprender a ver. Ou talvez se trate de aprender a sentir, que é mais amplo e, por isso, é uma aprendizagem anterior, mais próxima das primeiras lições. Ou talvez se trate de aprender a estar, que é um entendimento ainda mais primordial e, por isso, mais difícil de aceder, mais enterrado no esquecimento que fomos desenvolvendo. Para ver, precisamos de ser capazes de sentir; mas para sentir, precisamos de ser capazes de estar.

Seguir estes caminhos de Pier Paolo Pasolini (PPP) requer esse trabalho de consciência porque se trata, em primeiro lugar, de uma experiência sensorial. A estrada aqui apresentada está rodeada de paisagens. São paisagens que existem nas palavras. Lê-las é vê-las, senti-las, estar nelas.

Este livro é como um baú cheio de espaço e de tempo. Recorda-me aqueles projetos, como é o caso da Future Library, na Noruega, em que se preservam textos para serem lidos muitos anos depois, acreditando-se que contêm um pouco do seu presente. Provavelmente, essa não é uma característica evidente em toda a escrita mas, neste livro, é exatamente isso que acontece.

O espaço é Itália, mais propriamente várias extensões da sua costa, o tempo é de junho a agosto de 1959. Mas, apesar das múltiplas referências históricas, essa é uma cronologia indicativa. O verdadeiro tempo destas páginas é o verão mítico, o verão quase perfeito. Para o leitor contemporâneo, há uma nostalgia que suaviza ainda mais descrições que, em si, são já de uma imensa suavidade. Apesar do caráter concreto e específico do que é dito por PPP, o olhar que lançamos para este passado esbate contornos, como fotografias desfocadas ou desbotadas pelo sol.

Não quero com isso dizer que não haja uma dimensão histórica. Existe e prenderá a atenção de quem tiver esse tipo de interesse. Mas para o leitor que siga o texto na sua dimensão mais espitual, os breves encontros com Moravia e Fellini, por exemplo, pertencem à caracterização de um mundo. Logo a seguir, a transcrição de uma breve conversa sobre o Prémio Strega é um pedaço aleatório de quotidiano, ao qual se dá pouco valor, porque tudo é secundário perante o que realmente importa: o mar, o sol, os corpos. Ainda no que diz respeito ao encontro com Fellini, é significativo que PPP se tenha esquivado a ajudar na escrita de alguns diálogos de La Dolce Vita, em rodagem naquele momento, preferindo um passeio pelas praias de Tirreno.

Esta é a festa da juventude e da liberdade. Várias vezes, PPP detém o olhar em jovens corpos, desliza na sua pele. O nosso olhar segue o dele, não podemos desviá-lo. Essa sensualidade é inseparável deste verão, desta longa estrada que seguimos até ao fim. Então, depois de múltiplos ocasos, é o próprio fim do verão que nos espera. No entanto, não acaba verdadeiramente. Estas páginas começaram por ser publicadas numa revista, tinha de ser assim, o seu efémero pedia-o, mas agora estão aqui, continuam aqui, talvez para sempre, paradoxalmente eternas.

 

A Longa Estrada de Areia, Pier Paolo Pasolini, tradução de João Coles, posfácio de Paulo Mauri, Edições do Saguão, 2023

 

(Publicado no Jornal de Letras, 29 de novembro de 2023, na coluna "Fiquei a pensar", onde JLP escreve sobre as suas leituras.)

 

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Num tempo em que somos constantemente confrontados com a diferença entre fotografia e imagem, é significativo que, há mais de quarenta anos, Hervé Guibert tenha escolhido esta última designação para título da sua coleção de ensaios curtos. Parece-me agora que esse detalhe é mais um sinal do caráter profético destes textos, originalmente publicados em 1981. Na fotografia, há intenção profunda, é pensada, revelada, contemplada; a imagem apresenta-se instantânea, podemos identificá-la ou apenas intuí-la, a imagem pode ser visual ou alegórica. Hoje, vivemos um tempo que é muito mais de flashes, de estímulos, do que de fotografias a beneficiarem de tempo para interpretação. Talvez por isso, as reflexões deste livro são de uma lucidez absolutamente contemporânea.

Ao pensar a imagem, Guibert pensa a arte, a linguagem, a memória, a identidade, as relações, o corpo, a família, a idade, a experiência humana em inúmeras nuances. Ao mesmo tempo, pressupõe sempre o outro lado, o negativo, para usarmos um termo da fotografia. Esses fantasmas são o que podia ter sido, a sombra do que realmente foi, o que nunca será, são reflexos ou contrastes a partir do que inequivocamente aconteceu, do que se testemunhou. Talvez o ficcional seja um fantasma do documental.

Entre memórias pessoais, afetuosas, muitas vezes a partir delas, Guibert desenvolve raciocínios claros e constrói conclusões universais. A escrita na primeira pessoa é sempre uma espécie de autorretrato. Na leitura, ao partilharmos essa intimidade, também nós somos muitas vezes refletidos nesse espelho. Então, mais do que autoficção, ou ensaio pessoal, ao ser avaliado a partir da perspetiva do autor, talvez faça sentido falar de ultraficção, somos nós que ficcionamos a partir do que nos é exposto. Sabemos que 1981, Hervé Guibert tinha 26 anos. Sabemos que morreria dez anos depois. Partimos para esta leitura com esse conhecimento e, por isso, sabemos mais do que o narrador, do que a personagem, que comparamos constantemente com o autor. Todos eles são fantasmas uns dos outros ou, quem sabe, talvez sejam fantasmas de nós.

 

A Imagem Fantasma, Hervé Guibert, tradução e prefácio de Amândio Reis, BCF Editores, 2023

 

(Publicado no Jornal de Letras, 15 de novembro de 2023, na coluna "Fiquei a pensar", onde JLP escreve sobre as suas leituras.)

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Arquivo de recortes sobre José Luís Peixoto e a sua obra.

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