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José Luís Peixoto é um dos convidados do Festival Internacional de Literatura de Timisoara, na Roménia, a decorrer entre 23 e 26 de Outubro de 2019. 

Estará também em Bucareste, onde apresentará o seu trabalho no Instituto Camões.

TIMISOARA — 24/10, 19h — Conversa com JLP e leitura em romeno de excertos da sua obra (Tradução de Simina Popa) — Muzeul de Artă din Timișoara, Sala Barocă.

BUCARESTE — 28/10, 14h às 16h — Conversa com JLP — Institutul Camões București, Strade Edgar Quinet, nr. 5-7

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José Luís Peixoto s-a născut în 1974, într-un sat din sudul Portugaliei, în regiunea numită Alentejo. Este licențiat în limbi și literaturi germanice al Universidade Nova de Lisboa. Din 2001 s-a dedicat complet scrisului. Este autor de poezie, proză, teatru și critică literară. Scrierile sale au fost recompensate cu numeroase premii, printre care Prémio Literário José Saramago (2001), Prémio Oceanos (2016) și The Best Translation Award-Japan (2019, pentru Galveias). În 2003, într-un proiect fără precedent, Peixoto și-a unit forțele cu membrii formației Moonspell, lansând, în același timp, un album și un mic roman fantastic. Cele două opere poartă același titlu, The Antidote, și pornesc de la același concept, conform căruia activitatea umană este supravegheată și condusă de o mulțime de entități invizibile. Capitolele romanului semnat de José Luís Peixoto poartă aceleași titluri cu piesele de pe albumul celor de la Moonspell.

În prezent, cărțile lui José Luís Peixoto sunt traduse în 26 de limbi, la unele dintre cele mai prestigioase edituri din lume. În România, i-au apărut, în traducerea Clarisei Lima, la Editura Polirom, romanele Nici o privire (2009) și Cimitirul de piane (2010).

„Peixoto este una dintre cele mai mari surprize ale literaturii portugheze din ultimii ani. Nu mă îndoiesc că este promisiunea sigură a unui mare scriitor.” (José Saramago)

„Peixoto are un fel extraordinar de a percepe lumea, transpus în modul original în care își alege limbajul și imaginile.” (Times Literary Supplement)

„Citești și tragi aer în piept, de parcă ai da pe gât o sticlă plină cu viață, dintr-o înghițitură.” (Le Figaro)

publicado às 12:37

As críticas ao romance Autobiografia, de José Luís Peixoto,  estão disponíveis aqui.

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publicado às 18:26

TEXTO E FOTOGRAFIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

 

O rio Emajõgi passa muito devagar por Tartu. Talvez queira assistir com tempo à vida que se ergue nas margens, as fachadas limpas dos edifícios, cores suaves que recebem a luz desta hora, as torres pontiagudas das igrejas, espetadas no céu. A superfície do rio não se deixa perturbar, é uma superfície uniforme. Aqui, na cidade velha, vejo o parque do outro lado, as árvores nuas deste outono, quase inverno, o rio reflete-as e cria um mundo ao contrário: árvores que crescem para baixo, recortadas sobre um céu branco. É preciso inclinarmo-nos sobre as águas para apreciar esse céu.

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Tartu é a segunda cidade da Estónia, a principal da região sul do país. É considerada a capital universitária. Essa é uma característica que se sente nas ruas. Grupos de rapazes e raparigas enfrentam a tarde com grandes casacos, gorros, cachecóis e luvas. Mesmo assim, às vezes, levantam as vozes para rir-se de alguma coisa. No entanto, quando o fazem, mantém sempre a polidez. Os estónios orgulham-se da sua civilidade.

No nosso canto da Europa, o que sabemos nós sobre este canto? Desde uma ponta do mapa até à outra, precisamos de atravessar todo o continente para chegar aqui. Nessa viagem, sobrevoamos várias culturas fortes, vários idiomas da família do nosso ou não. É fácil pararmos no caminho. É fácil que, em algum momento dessa travessia, não continuemos: fico já aqui.

A Europa é uma enorme barreira entre Portugal e a Estónia. Não se trata apenas de distância. Há países que conhecemos muito melhor e que estão bastante mais longínquos, noutro hemisfério, que aproveitam o verão enquanto suportamos o inverno.

Nas ruas, passo por homens de mão dada com os filhos, crianças pequenas a falarem em estónio. Passo por mulheres com casacos de peles, passo por mais grupos de universitários. O que estarão a dizer? Neste canto da Europa, o que saberão sobre o nosso canto?

As faculdades da universidade ocupam edifícios enormes. Olho para o seu interior através de janelas muito altas. A luz é amarela e, lá dentro, as pessoas estão sem casaco. Dentro das casas, existe outro mundo.

Ontem, aceitei um convite para jantar. Descalcei os sapatos à entrada. Enquanto as crianças brincavam sobre o tapete, a televisão ligada e sem som, coloquei essa pergunta: o que pensam sobre nós? Não sei se entendi completamente as respostas. Às vezes, as palavras têm significados escondidos, têm sombras, principalmente quando não estamos a comunicar na nossa língua.

Em qualquer dos casos, o rio Emajõgi não altera a sua velocidade, desliza, longo corpo. Atrás de mim, uma estátua com músculos de bronze, representa a liberdade, recorda aqueles que caíram na guerra da independência (1918-1920). Esses são valores que também conhecemos no nosso canto da Europa: liberdade e independência.

Os países e as cidades nunca são uma única coisa: Estónia, Tartu. Contemplo este outono, quase inverno e lembro que, ontem, durante o jantar, disseram-me que, nesta época do ano, costuma já ter nevado. Não duvido, este céu parece bem capaz disso. Mas aqui, à minha frente, tenho um barco de madeira com mesas e cadeiras no convés. Está já à espera do verão.

Temas:

publicado às 11:34

SOB O SIGNO DE SARAMAGO

Por José Mário Silva

 

O sétimo romance de José Luís Peixoto, lançado simultaneamente em Portugal e no Brasil, é um sofisticado jogo de espelhos em torno do Nobel da Literatura de 1998

 

José escreve mais um fragmento da vida de Saramago: o instante em que este termina de escrever, no início de julho de 1997, o romance “Todos os Nomes”. No centro desse livro está um funcionário do Registo Civil chamado José. E esse José é só o início de uma cascata de Josés, porque ele está a ser escrito por outro José (Saramago), por sua vez escrito por outro José (o protagonista de “Autobiografia”), escrito ainda por outro José (Luís Peixoto), o autor do romance em que esta espécie de boneca russa literária se vai modulando, por entre jogos de espelhos, intertextualidades e um ímpeto metaficcional que atinge o apogeu no capítulo 20, quando finalmente se revela e explica o segredo que aproxima um velho escritor de 75 anos, já consagrado mas à beira da glória maior do Nobel, e um jovem literato, ainda a dar os primeiros passos, mas já angustiado pela perspetiva de não conseguir escrever o seu segundo romance.

 

A encomenda de uma biografia de Saramago, por parte do seu editor, só traz mais caos à vida já muito caótica de José. Ele só consegue aproximar-se ficcionalmente desse autor que o intimida e paralisa, recriando episódios do seu percurso como se fossem cenas de um romance, enquanto os seus problemas pessoais se acumulam, do vício do jogo ao problema do alcoolismo, passando pela relação amorosa com Lídia, uma caboverdiana que vive num prédio degradado da Quinta do Mocho. A literatura invade tudo e não só as figuras com que se cruza ecoam nomes saídos de livros de Saramago — Lídia, de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”; Bartolomeu de Gusmão, de “Memorial do Convento”; Fritz, de “A Viagem do Elefante”; Raimundo Silva, de “História do Cerco de Lisboa” —, como há toda uma subtil rede de referências que estabelecem uma relação visceral entre o mundo em que José se movimenta e o universo literário do escritor que deve biografar. Um dos encontros entre José e Saramago, por exemplo, acontece no quarto do Hotel Bragança em que Ricardo Reis fica hospedado. E Fritz perde a visão de repente, ao viajar para Goa, como se fosse mais uma vítima da epidemia descrita em “Ensaio sobre a Cegueira”.

 

O principal risco de “Autobiografia” era esgotar-se no plano da mera homenagem engenhosa, mas Peixoto evitou essa armadilha, ao construir uma narrativa que se expande em várias direções, acumulando camadas de complexidade. Por um lado, cada personagem secundária surge com uma identidade forte e bem desenvolvida, como é o caso de Bartolomeu, “retornado” amargo que nunca perdoou as alegadas traições da descolonização. Por outro, traça-se, em pano de fundo, um retrato sociológico de Portugal nas vésperas da Expo-98, esse momento de ilusão quanto ao progresso efetivo do país depois da adesão à Europa.

 

Na véspera de partir para o Brasil, onde o livro está a ser lançado em simultâneo com a edição portuguesa, José Luís Peixoto falou ao Expresso deste seu sétimo romance, em que muitos detetarão eventualmente uma rutura estilística que o próprio se apressa a negar. “É um livro que não surge do nada. Várias das reflexões sobre a natureza da criação literária já estavam em livros anteriores. Acho que há muita continuidade com o que fiz antes.” Quanto ao título, propositadamente ambíguo, lembra que a questão autobiográfica está presente desde o primeiro livro, “Morreste-me”, sobre a figura do pai e o impacto brutal do seu desaparecimento num rapazinho de Galveias, aldeia próxima de Ponte de Sor que aparece recorrentemente na sua obra, como uma espécie de epítome de uma ruralidade desaparecida.

 

Numa das várias notas de rodapé com que José vai comentando a sua ficção de pendor biográfico sobre Saramago, pode ler-se que a literatura consiste em “contar-me a mim próprio através do outro e contar o outro através de mim próprio”. Peixoto admite que é essencialmente nisso que acredita, antes de acrescentar: “Na ficção procuro sempre uma troca, talvez impossível, entre eu e os outros. É nessa impossibilidade, mas também nesse desejo, que a literatura acontece.” E se a dimensão autobiográfica nunca está ausente, convém “calibrá-la” para que se torne eficaz: “Nem de mais nem de menos. Os elementos que vou buscar à minha própria experiência, e há vários neste livro (por exemplo, eu morei, como o José, num rés do chão nos Olivais), servem para garantir uma certa coerência, porque o real é sempre coerente. Esses elementos são como as rodinhas a mais na bicicleta, uma forma de evitar a queda em incongruências que podem quebrar o pacto estabelecido com o leitor.”

 

Há uma razão forte para que José Luís Peixoto tenha escolhido Saramago, e não outro escritor qualquer, para esta sua experiência de aproximação, e por vezes quase apropriação, de um universo literário alheio. O facto de o seu primeiro romance, “Nenhum Olhar” (2001), ter vencido o Prémio José Saramago como que se lhe colou à pele. “Ainda hoje, no estrangeiro, associam-me ao nome dele e isso assume um peso grande na forma como sou lido noutras línguas.” O facto de ter conhecido pessoalmente o escritor também foi determinante: “Aos 26 anos, via nele a personificação das minhas ambições. Era uma espécie de sonho andante.” No momento de escrever o livro, o respeito e a admiração podiam ser um entrave, mas não foram. “Para escrever um livro como este, era preciso assumir muito claramente que o Saramago que surge nestas páginas é uma personagem. O meu trabalho foi encontrar essa personagem, sabendo que nunca corresponderia completamente à pessoa real. E quis mostrar um Saramago humano, com dúvidas, com defeitos, com dilemas e aspetos menos positivos.” No fundo, olhou para ele sem reverências ou endeusamentos, tal como olha para as outras personagens. Para reconstituir alguns momentos da vida de Saramago, livremente narrados por José, leu todas as biografias disponíveis, as entrevistas longas e os livros de memórias sobre a infância. Mas sempre consciente dos limites estreitos em que se movia: “Quando eu nasci, já Saramago vivera mais de metade da sua vida. Aquilo de que tenho mais consciência é do tanto que me escapa do que foi a existência dele. Escapa-me a mim e acho que nos escapa a todos.”

 

Em “Autobiografia”, um aspeto que aproxima o José jovem do José consagrado é a forma como ambos vivem a angústia do segundo romance. No caso de Saramago, depois de “Terra do Pecado” (1947), levou seis anos a concluir “Claraboia”, um livro que se haveria de perder na editora em que o entregou, só sendo publicado postumamente. O trauma dessa experiência, a que se juntam outros romances iniciados mas não terminados, levou a uma espécie de travessia do deserto, de que só começaria a sair nos anos 60, antes da explosão do romancista, já nos anos 70. “Essa angústia do segundo romance fascina-me e fiz dela um dos temas centrais do livro. Uma angústia que também existiu para mim, claro. Depois do primeiro livro, já não está tudo em aberto e o caminho a seguir é sempre um dilema. No meu caso, a forma de o resolver foi um pouco extremada. Optei por escrever, quase de forma terrorista, um livro [“Uma Casa na Escuridão”] que fosse o mais radical possível.”

 

Se Saramago ainda fosse vivo, teria Peixoto coragem de escrever este livro? “Não sei. Acho que não. Para ser sincero, acredito que ele até poderia gostar do livro e não ficaria de certeza ofendido. Eu é que ficaria intimidado.” Quanto a Pilar del Río, que também surge como personagem, nomeadamente numa cena em que adormece ao lado de Saramago, na passagem de ano de 1997 para 1998, enquanto o escritor imagina o que o ano lhe trará (e sabemos que será o Nobel de Literatura), o problema era outro. “Foi complicado mostrar-lhe o livro, porque tive de domesticar, na minha cabeça, a especulação infinita sobre qual poderia ser a sua reação.” A reação pode ser lida numa das badanas e é uma espécie de aval entusiasmado. “Essa resposta tornou tudo mais fácil. Foi um grande alívio constatar que percebeu exatamente o que eu quis fazer. A Pilar entende, como poucos, o que é a literatura. E soube ver que este livro é só isso: literatura.”

 

(Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto)

 

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

publicado às 14:35

Extensa conversa no podcast da TAG sobre o romance Autobiografia entre a editora Rafaela Pechansky, o jornalista André Araújo e o professor universitário Ricardo Kralik (PUCRS). 

Para ouvir AQUI.

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publicado às 13:30

Nos próximos dias 14 e 15 de Setembro, José Luís Peixoto participará nas seguintes actividades em Lisboa, Sines e na Amadora:

 

LISBOA — 14 de setembro, 15h30 — Conversa com escritor tailandês Prabda Yoon —  Casa da América Latina, Avenida da Índia, nº 110, Lisboa (Arte Institute - RHI Talks)

SINES14 de setembro, 21h30 —  Apresentação de Autobiografia — A Das Artes Livraria,  Avenida 25 de Abril, Sines 

AMADORA15 de setembro, 18h30 —  Conversa acerca de Autobiografia com Francisco José Viegas e Carlos Vaz Marques — Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos, Av. Conde Castro Guimarães, nº 6, Amadora (Festa do Livro da Amadora)

 

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publicado às 13:50

Em 2017, José Luís Peixoto escreveu o seguinte prefácio à edição espanhola de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, publicada na coleção de Clássicos da Penguin. 

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MONÓCULO

 

A 12 de julho de 1871, numa sala do Casino Lisbonense, Eça de Queirós proferiu uma conferência com o título "A Literatura Nova ou o Realismo como Nova Expressão de Arte". A esta distância, podemos imaginar o público, os bigodes, as cartolas, os assentimentos de concordância ou os sussurros de reprovação; podemos imaginar o som da voz de Eça. Podemos até imaginar o texto original dessa conferência, uma vez que não chegou ao nossos dias, perdeu-se. No entanto, os ecos dessas palavras nos jornais da época são claros, permitem-nos saber que Eça rejeitou com veemência o romantismo, cuja influência era omnipresente, e defendeu com a mesma força aquilo a que chamou realismo.

 

António Salgado Júnior fez uma credível reconstituição de fragmentos dessa conferência e, segundo esse trabalho, Eça terá afirmado que o realismo "é uma base filosófica para todas as concepções do espírito ­— uma lei, uma carta de guia, um roteiro do pensamento humano, na eterna região do belo, do bom e do justo. Assim considerado, o realismo deixa de ser, como alguns podiam falsamente supor, um simples modo de expor — minudente, trivial, fotográfico. Isso não é realismo: é o seu falseamento. É o dar-nos a forma pela essência, o processo pela doutrina. O realismo é bem outra coisa: é a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático e do piegas. (...) É a análise com o fito na verdade absoluta. Por outro lado, o realismo é uma reação contra o romantismo: o romantismo era a apoteose do sentimento; o realismo é a anatomia do carácter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos — para nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou falsos, para condenar o que houver de mau na nossa sociedade."

 

Conhecidas como as "Conferências do Casino", foram organizadas pelo poeta Antero de Quental e são frequentemente referidas como o manifesto de toda uma geração literária, em confronto estético e político com o status quo da época. Com essa mesma carga programática, a participação de Eça é especialmente reveladora das ideias que servem de alicerces à obra que começava então a erguer. A reforma proposta é multidimensional, quer tocar diferentes níveis da vida e do pensamento do país. Nesse contexto, a literatura renuncia à preferência romântica pelo indivíduo e afirma-se como uma via de investigação social.

 

É nesta sequência que, em 1875, surge a primeira versão de O Crime do Padre Amaro, em folhetins, publicada em A Revista Ocidental. A construção do enredo tem uma clara intenção colectiva, retratando um Portugal hipócrita, tacanho. Se é verdade que se pode fazer uma leitura à luz das circunstâncias específicas da época, não é menos certo que hoje, quase 150 anos depois, continua a existir pertinência nas interpretações que o romance sugere. Essa primeira versão, no entanto, tinha características bastante diferentes das duas que lhe seguiram. Ao nível do tratamento do tema, faltava-lhe subtileza, o que originou críticas de Camilo Castelo Branco, o outro grande romancista português do século XIX. Essa diferença entre versões nota-se na própria extensão do texto: a versão de 1875 tem pouco mais de 140 páginas; a segunda, publicada em 1876, tem o dobro desse tamanho; a terceira, de 1880, é mais do dobro da segunda.

 

Assim, na vida de Eça, considerando o prefácio que fez para a segunda versão, este romance começou a ser escrito a par do seu ingresso na administração pública, em 1870, com 25 anos, ao ser nomeado administrador do concelho de Leiria, cidade onde a narrativa do romance tem lugar. Mas continuou a ser trabalhado após a sua entrada na carreira diplomática, em 1873, quando foi colocado em Havana; acompanhando-o também nos seus postos ingleses de Newcastle e Bristol, onde permaneceu entre 1874 e 1878.

 

Antes da primeira edição de O Crime do Padre Amaro, Eça de Queirós já tinha escrito as colaborações na imprensa que, postumamente, se reuniram sob o título Prosas Bárbaras; também já tinha composto os textos que, anos mais tarde, se publicariam no volume a que se chamou O Mistério da Estrada de Sintra, escrito a meias com Ramalho Ortigão, e que constitui a primeira obra do subgénero policial da literatura portuguesa. Ainda assim, O Crime do Padre Amaro é o primeiro livro publicado, a estreia. Além da importância que tem no contexto da literatura portuguesa, tem também a particularidade de varrer as marcas de romantismo que ainda existiam nos referidos textos iniciais, com edições posteriores. Utilizando o subtítulo Cenas da Vida Devota, marca o princípio do realismo português e, entre todas as páginas que se produziram, é considerado por muitos, entre os quais me incluo, uma das obras mais extraordinárias desse movimento. Não me parece exagero afirmar que, em absoluto, se encontra entre os romances de estreia mais impressionantes do século XIX.

 

Zola é uma das influências notórias que tocam a obra de Eça de Queirós, em geral e neste caso em particular. Em 1881, o autor francês começa a publicar Les Rougon-Macquart, que é o título genérico dos vinte romances que escreve entre 1871 e 1893; o subtítulo dessa sequência é: História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império. Machado de Assis, o grande romancista brasileiro contemporâneo de Eça, chegou a acusar O Crime do Padre Amaro de ser uma imitação de pouca qualidade de La Faute de l'Abeé Mouré, de Zola, o quinto volume da referida série, publicado igualmente em 1875. Para além das semelhanças do título, no prefácio à terceira versão do romance, é o próprio Eça que aponta as diferenças fundamentais entre as duas obras, caracterizando essa acusação como uma "obtusidade córnea ou uma má fé cínica". De facto, o que Eça bebe de Zola é, sobretudo, a ideia de uma escrita literária enquanto espécie de ciência social e humana: aquilo a que Zola chamou "naturalismo" e a que Eça chamou "realismo".

 

É certo que ambas as obras têm como protagonista um elemento do clero que se envolve com uma mulher, rompendo os seus votos; ainda assim, no caso de Zola, trata-se de um texto próximo da parábola, cuja ação tem lugar num espaço idílico, enquanto que no caso de Eça, se trata de uma censura muito direta a um Portugal provinciano, regido por uma moral fingida, onde a igreja católica condensa e difunde essas caraterísticas negativas.

 

Na lógica criada pelo romance, são os condicionalismos da igreja e do sacerdócio que, em vez de atenuar, agravam a decadência moral de Amaro. Trata-se de um mundo onde a ideia de pecado está sempre presente, norteia todas as escolhas, ainda que essa lógica seja fortemente distorcida a favor dos interesses momentâneos. "Somos homens", diz Amaro para o cónego. Realmente, a partir de certo momento, para lá do desrespeito dos votos de sacerdote, vemo-lo jurar em vão, mentir, amaldiçoar a religião e, mesmo, desejar a morte de crianças e fetos, ser conivente com a crueza insensível da "tecedeira de anjos".

 

No entanto, apesar de estarmos perante um romance que se insurge de modo tão ostensivo contra a igreja católica, a reação desta a essa edição foi o silêncio. As poucas centenas de exemplares que, com um empréstimo do pai, Eça mandou imprimir estavam longe de chegar a um vasto público. As classes sociais baixas eram maioritariamente analfabetas, enquanto que as classes mais elevadas tampouco tinham suficiente estofo e espírito crítico para uma leitura daquela densidade. O impacto que o livro teve na sociedade não foi suficiente para intimidar uma instituição desse tamanho e importância. No romance, há momentos em que a igreja católica é representada com uma máscara de protetora inequívoca da seriedade, sinónima absoluta da ordem. O peso dessa entidade, quase um Estado dentro do Estado, não se perturbou perante o romance de Eça. Para além disso, o diplomata estava longe, em Inglaterra, não participava no quotidiano de intrigas nacionais, era uma voz remota. Isto apesar de, nos anos que se seguiram, Eça de Queirós alcançar, pela primeira vez entre os escritores portugueses, uma carreira internacional, com algumas das suas obras a serem traduzidas para diversos idiomas. Este sucesso, no entanto, acabou por acontecer sobretudo com outros títulos e, também nessa dimensão, a igreja católica da época não estava atenta ao ponto de se sentir ameaçada.

 

Em subtilezas bastante evidentes, é de notar que os aspectos morais e religiosos são proporcionais a uma dimensão política, de poder. Esse é caso, por exemplo, do episódio em que, por via de uma rede de influências, João Eduardo é preso devido ao murro desajeitado que dá no ombro do padre Amaro. A igreja católica apresenta-se, portanto, como uma força subterrânea, uma autoridade implacável e inescapável. Essa potência, dirigida não apenas pelo clero corrupto, mas também pela burguesia hipócrita, é nas páginas de O Crime do Padre Amaro um veneno que inquina toda a sociedade portuguesa e que, de certa forma, a representa na sua totalidade. Eça deixa pouco espaço para a inocência das vítimas. Praticamente todas as personagens são apresentadas com sarcasmo, com uma violenta ironia, afirmadas como perversas na sua mesquinhez e futilidade.

 

O provincianismo desta Leiria estereotipada é apresentado como uma característica negativa, de atraso. Para Eça, o provincianismo significa sempre e apenas isolamento daquilo que é progressista e que está lá fora, nas grandes cidades ou no estrangeiro. Por isso, faz todo o sentido que a cena final tenha lugar no Chiado, centro de Lisboa e daquele mundo, exato oposto do que Leiria representa no romance: longínqua periferia. Finalmente onde importa, no centro, Amaro não tem dificuldade de ignorar tudo o que aconteceu nesse outro espaço e tempo que, ali, parece irreal e inexistente.

 

Essa sensação de profunda injustiça completa o romance de tese que O Crime do Padre Amaro consegue ser. Para lá de todas estas questões, apesar delas, Eça alcança o feito de evitar a mediania que quase sempre contamina a literatura militante. O trabalho de Eça é de grande perspicácia linguística, de beleza e inteligência. Não há nenhuma dúvida de que pode ser lido hoje com o mesmo prazer, com a mesma fruição estética e humana que proporcionava no fim do século XIX, quando chegou pela primeira vez à mão de leitores.

 

José Luís Peixoto

publicado às 13:16

Até 27 de agosto, José Luís Peixoto participará em várias atividades nas cidades de Resistencia, Cordoba e Buenos Aires.

Em Resistencia (Chaco), no âmbito do 24º Foro Internacional por el Fomento del Libro y la Lectura, participará nas seguintes atividades:

22/08/2019 — 9h00 — RESISTÊNCIA — AUDITORIO CASA DE LAS CULTURAS

23/08/2019 — 9h30 — RESISTÊNCIA — INSTITUTO SAN FERNNANDO REY

23/08/2019 — 18h00 — RESISTÊNCIA — CENTRO DE CONGRESSOS

Em Cordoba:

26/08/2019 — 18h00— CÓRDOBA — BIBLIOTECA DE LA FACULTAD DE LENGUAS, UNIVERSIDAD NACIONAL DE CÓRDOBA

Em Buenos Aires:

27/08/2019 — 18h30— BUENOS AIRES — INSTITUTO SUPERIOR DE LENGUAS VIVAS JUAN RAMÓN FERNÁNDEZ 

 

publicado às 12:11

Durante a FLIP, José Luís Peixoto teve uma conversa com Mell Ferraz e Pedro Pacífico dos canais de livros  Literature-se e Bookster. 

Aqui fica, em duas partes:

 

 

publicado às 13:03

UM NOTÁVEL TEMPO NARRATIVO

Miguel Real, in Jornal de Letras (julho 2019)

 

No futuro, Autobiografia talvez se venha a constituir como o melhor romance de José Luís Peixoto (JLP) publicado até 2019, não por conter José Saramago e Pilar como personagens, não por inovar estilisticamente face à obra anterior, mas pelo notável trabalho sobre a categoria de tempo narrativo, que, deveras, ainda que firmado sobre o tempo real, especificado no texto com algum pormenor, assume a função maior de organização estrutural do romance.

 

De facto, o registo da escrita de JLP permanece igual: um cruzamento original entre um explícito realismo (nome de ruas, bairros, descrição física e psíquica de personagens, origem geográfica ou étnica destas, profissões, condições familiares…) e um lirismo descritor de situações sociais labirínticas que, contra a vontade das personagens, as arrastam para o fracasso, um fracasso descrito de um modo fatal, inevitável, ainda que com palavras suaves, como se fosse próprio do homem não realizar-se. O lirismo, em JLP, reside na impossibilidade de se realizar o que deveria ser realizado, lançando as personagens num jogo mental não trágico de compensação e substituição.

 

Bucelas, Bairro da Encarnação e Bairro das Colónias em Lisboa, Pangim-Goa, Santo Antão-Cabo Verde, Quinta do Mocho-Sacavém e Lanzarote constituem-se como as bases do realismo de Autobiografia. Saramago/Pilar, José/Lídia, Bartolomeu de Gusmão (lembram-se?), Fritz e os pais, Mãe de José são, com excepção do primeiro par, seres fracassados, que parecem arrastar-se num tempo de decadência das suas vidas (Bartolomeu, Fritz, Mãe de José), que igualmente aprisiona as personagens jovens (José, Lídia, Domingues), incapazes de criar um tempo realizador novo.

 

O tempo narrativo nasce da inter-relação entre os momentos da existência das personagens, formando um puzzle, no qual, porém, um novo momento temporal da narração não só condensa todos os momentos e factos narrados anteriormente como revela um sentido antes oculto à história narrada, como se, em cada capítulo, uma outra estória estivesse a acontecer e o romance avançasse por camadas sucessivas. Não se trata de cronologia, aqui totalmente subvertida, não se trata de continuidade ou de sucessividade narrativa (não existe um fio de ligação senão que são sempre as mesmas personagens, estas porém evidenciadas coleidoscopicamente, como se em cada capítulo brilhasse apenas uma vertente), mas de acumulação de acontecimentos, como se fossem estratos geológicos uns sobre os outros. A estrutura temporal de Autobiografia é, assim, um tempo de acumulação de acontecimentos cuja presumível unidade ou fil rouge só pode ser conferido pelo leitor. É a grande participação do leitor, prestar unidade ao que é mostrado multiplamente, detectar o todo onde só se vê partes. Autobiografia exige, assim, um leitor nada preguiçoso, aliás, convidado pelo narrador a participar, já que em certos momentos, fundem-se narração da realidade exterior e a própria realidade exterior, narrador e leitor.

 

Não é de admirar, portanto, que consoante o leitor privilegie uma personagem (por exemplo, Bartolomeu, retornado de Angola, Fritz de família com origem em Goa, depois Lourenço Marques, depois Viena de Áustria; ou Lídia, de Santo Antão, depois Quinta do Mocho…), assim tenha uma visão geral diferente do romance: o de um Império a desfazer-se (Fritz, que “cega” no retorno a Goa), a do “retornado” africano como um faz-tudo exilado em Portugal, capaz de reconstruir a vida, de enriquecer de novo a partir de diamantes trazidos enfiados no ânus; a de Lídia cabo-verdiana, serviçal dos portugueses, arrastada na miséria, sem nunca perder a doçura e a alegria; a de Domingos, cabo-verdiano que sobrevive pela violência…).

 

No centro desta teia, emerge Saramago e, acessoriamente, Pilar, representada de um modo passivo e não como o intenso amor maduro do escritor (e é pena!). No centro do romance está Saramago e no centro desta personagem está um segredo, que o une a José, o jovem escritor de um primeiro romance, que anseia por escrever o segundo. O editor  – Raimundo Benvindo Silva, que JLP eleva de revisor e autor a editor –, diferentemente, propõe-lhe escrever uma biografia de Saramago, que José aceita hesitantemente.

 

Não devemos revelar o “segredo”, nem devemos revelar se, afinal, José escreve ou não a biografia de Saramago, já que seria anular o efeito suspensivo que o autor imprimiu a Autobiografia – duas revelações só feitas perto do final. E, no caso do título, nem nós temos a certeza qual o verdadeiro autor de “autobiografia”, se Saramago, que assim teria inventado a personagem José para se auto-retratar, e todo o romance seria seu enquanto personagem, se de José, que assim escreveria um romance a narrar a terrível passagem entre o primeiro e o segundo romances. Quem é o autor implícito de Autobiografia, já que o explícito é JLP? A resposta a esta questão, que só pode ser pensada a partir da leitura dos momentos finais, decide a totalidade da interpretação e do sentido do romance. Comprovando a noção de tempo acumulativo (um momento sobre outro, mas não necessariamente um momento causado e derivado do anterior), da resposta que o leitor deduzir, decorrerá o sentido total de Autobiografia.

Não hesitamos em qualificar Autobiografia como o melhor romance português publicado até ao verão de 2019.

 

(Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto)

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Crítica a Autobiografia, de José Luís Peixoto

publicado às 11:54



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