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JOSÉ

 

 

 

Há três meses, em Deli, conheci a tradutora dos livros de José Saramago para hindi. Antes, conheci tradutores dos seus livros para búlgaro, alemão, holandês, italiano, croata, húngaro, romeno, finlandês, etc. A partir de certa altura, deixou de ser invulgar para mim chegar a um país e, antes ou depois de me apresentarem alguém, sussurrarem-me: é o tradutor do José Saramago. Entre os tradutores, entre aqueles que atravessam fronteiras com a delicadeza das palavras, traduzir a obra de José Saramago é um estatuto. Não vale a pena explicar aqui e agora, com detalhe, as razões para esse privilégio. Não sou a pessoa indicada para essa tarefa, não quero ser.

 

José Saramago disse-me muitas vezes: o José tem de pensar na sua obra. O José era eu. Aquilo que recordo com mais nitidez neste instante são as conversas que chegámos a ter, essa voz que me ensinava, que me incentivava a não me afastar do essencial: a vida, a vida. Eu ouvia.

 

Não sei há quantos anos foi, mas sei que foi no dia 1 de Maio. Estava a participar na Feira do Livro de Buenos Aires e, enquanto me dirigia para a sessão com José Saramago, não imaginava aquilo que ia encontrar. Milhares de leitores, dezenas de jornalistas. Essas imagens passam-me agora pela memória. Tenho pena que, em Portugal, a maioria das pessoas não as conhece. Iriam ter orgulho, tenho a certeza.

 

Telefonam-me de jornais e pedem-me um comentário à morte de José Saramago. Quando desligo, duvido dos adjectivos que escolhi, das palavras que fui capaz de dizer em segundos. O José tem de pensar na sua obra. A obra é tão oposta a tudo isto. Eu, José, não sei o que pensar.

 

Estou em Londres. Recebi a notícia há pouco mais de uma hora, sem adjectivos, por mensagem de telemóvel. Estava ao lado do Tamisa e fiquei parado no passeio, a olhar para uma frase simples. Este tempo: sem chuva, sem sol, apenas um céu opaco de nuvens indistintas, uma massa compacta de branco.

 

A Pilar del Rio sorria quase sempre, chamava-lhe José. Ele sorria-lhe de volta. Antes de conhecê-lo, imaginava toda a espécie de coisas sobre ele. Tinha lido os seus livros e tinha um deles autografado em Coimbra, após uma espera na fila em que observei cada um dos seus gestos e em que, durante segundos, lhe disse o meu nome. Anos mais tarde, quando o conheci, percebi que era uma pessoa e que essa verdade simples, que sempre estivera ao meu alcance, era grandiosa. Lembro-me muito bem do seu sorriso.

 

Estou em Londres. Depois de receber a notícia, regressei ao meu quarto de hotel. Escrevo estas linhas e, entre parágrafos, vou à janela e fico a olhar a Russel Square por instantes, os autocarros, as pessoas que passam. Regresso ao computador, na internet, uma amiga do facebook cita Saramago: "Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais".

 

Recebo um email do Jornal de Letras com links para diversos textos antigos sobre José Saramago. Há um que me chama a atenção, chama-se "Todas as palavras". Penso na banalidade desse trocadilho com o título do romance de Saramago. Que título desengraçado, penso. Decido ler o texto e percebo que foi escrito por mim em 2005.

 

É a morte, essa palavra, que me confunde. Passou pouco mais de uma hora desde que recebi a notícia. José Saramago era uma grande quantidade de coisas, mas há uma quantidade ainda maior de coisas que continua e continuará a ser. Em todo o mundo, continuam os seus tradutores e continuam os seus leitores, continuam as inquietações, as respostas e os silêncios, também necessários, que construiu dentro deles. Num canto da Europa, junto ao oceano, continua o seu país.

 

Temos o nosso país, pequeno e grande, e temos, espalhadas por séculos, figuras com a força suficiente para erguer um espelho que nos reflecte enquanto portugueses e enquanto seres humanos. Este dia, 18 de Junho de 2010, ficará associado ao tempo de um desses enormes. Começaremos hoje a tentar perceber o tamanho do quanto perdemos. Esperemos ser capazes de não nos afastarmos do essencial: a vida, a vida. A vida, José.

 

 

(Publicado na revista Visão e no jornal El Mundo, em Junho 2010)

 

 

 

 

 

 

 

A PERENIDADE DAS VÍRGULAS

 

 

 

Procuro o que aprendi entre o que sei.

 

Conheci José Saramago em Outubro de 2001 no instante em que recebi o prémio com o seu nome. Ele era um homem mais alto do que imaginava. Eu tinha comprado um fato e uma gravata para a ocasião e, no mês anterior, tinha feito vinte e sete anos. Tirámos fotografias juntos, jantámos. As imagens que guardo desse dia misturam-se umas com as outras, confundo-me ao recordar esse dia. Sei que, mais tarde, à noite, ainda de fato, fiquei sentado no meu carro a tentar organizar na cabeça o que me tinha acontecido. Dois dias depois, estava na Feira do Livro de Frankfurt.

 

Ao longo destes nove anos, tive muita oportunidade de conversar com José Saramago. Encontrámo-nos em vários lugares do mundo, onde ele era sempre seguido por multidões, e encontrámo-nos em Portugal, em momentos escolhidos por ele. Em 2003, num programa de televisão em que estivemos juntos, para toda a gente ouvir, disse muito daquilo que, então, me dizia. No dia em que foram assinados os papéis da Fundação José Saramago, na sua casa de Lisboa, em 2007, só para eu ouvir, chamou-me à parte e disse-me palavras que não esqueço sobre aquilo que escrevia. Creio que fui capaz de, à minha maneira, aprender essas palavras.

 

Em Dezembro de 2008, recebi um convite para participar numa celebração do décimo aniversário do seu Prémio Nobel. Pediram-me que lesse um excerto da obra de Soeiro Pereira Gomes. Eu, numa homenagem ao José Saramago, a ler Soeiro Pereira Gomes, como poderia recusar? Escolhi uma parte do final de Esteiros. Depois, quando encontrámos tempo para conversar, disse-lhe: havemos de estar aqui, daqui a dez anos, a celebrar o vigésimo aniversário do Nobel. Ele, que tinha ultrapassado problemas graves de saúde, sorriu-me.

 

Para além destes encontros mais formais, os fatos que eu usava às vezes e que ele usava quase sempre, guardo outros. São meus. Os nossos encontros eram salpicados no tempo e, como vírgulas, pontuavam qualquer coisa. Passaram dez anos sobre a data em que publiquei o meu primeiro livro e agora, neste momento, parece-me que esses encontros com José Saramago foram pilares invisíveis desse tempo. Há os livros, os deles e os meus. Não falo nem de uns nem de outros porque esses não se perderam, continuam onde sempre estiveram. O que se perdeu foi um homem que respirava pensamentos. O que não se perdeu e não se perde é o que fomos capazes de aprender com ele, o que continuamos a saber.

 

 

(Publicado na revista Ler, em Julho de 2010)

 

 

 

(Leitura de excerto de "Esteiros" na homenagem a José Saramago, no décimo aniversário da entrega do Prémio Nobel da Literatura.)

 

 

 

 

SARAMAGO

 

 

 

Tenho uma folha em branco à frente, da mesma maneira que ele teve tantas vezes. Começo por escrever uma frase, da mesma maneira que ele fez tantas vezes. É isso que os escritores fazem. Os carpinteiros lidam com madeira, os escritores lidam com palavras, mas as palavras, em si próprias, não são um material, são feitas de significado, mas o significado, em si próprio, não é um material, é feito de tempo. O tempo, sim, é um material.

 

A pessoa que escreve é uma pessoa. É fácil e óbvio questionar aquilo que escreve, cada frase é cheia de interrogações possíveis, mas o que é uma pessoa? A pergunta permanece, sem uma resposta única e conclusiva. Ninguém permanece perante uma pergunta deste tamanho. Ninguém dispõe de tanto tempo, nem mesmo aqueles que entregam a esta pergunta todo o tempo que possuem. Mas são esses que nos aproximam de uma resposta, da resposta.

 

Estamos aqui. Lisboa apresenta as mesmas ruas que Ricardo Reis percorreu, ainda as percorre. Mas nós não continuaremos aqui. Há outra Lisboa que nos espera, estamos a construi-la neste preciso momento. Utilizamos os materiais de que dispomos. Os carpinteiros utilizam madeira, os escritores utilizam tempo, 16 de Novembro de 1922, 18 de Junho de 2010, este tempo, agora, como ontem, como amanhã.

 

Termino este texto breve, como ele terminou tantas vezes outros tantos textos, mas sei que não termina efectivamente aqui. O seu significado continua, o seu tempo continua. Tudo continua sempre, excepto nós.

 

 

(Publicado na revista Time Out Lisboa, em Junho de 2010)

 

 

 

(Breve excerto de conversa no programa Oriente em 2003 e Moonspell a tocar  ao vivo.)

 

 

(Minutos depois de ter recebido a notícia.)





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publicado às 15:01



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