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Náufrago

18.05.19

Corro à máxima velocidade que consigo, levo alguma coisa a apertar-me o peito. A meio da corrida, chego à surpreendente conclusão de que é o peito que se aperta a si próprio. Corro em direção a algo que me parece imprescindível. Não sei há quanto tempo persigo essa miragem. Questiono-a por um instante, agora.

 

E, de repente, é de novo o fim do dia. Terminou o prazo. De novo, o dia não foi suficiente, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente. E outra vez o fim do dia, e outra vez, outra, outra, de repente, exatamente o mesmo instante, a repetição do mesmo fim de dia, a mesma derrota. De manhã à noite: a pressa de fazer qualquer tarefa para fazer a tarefa seguinte. Todas as horas de um dia inteiro: a calcular o tempo que demoro até um lugar de onde quero sair o mais rapidamente possível. Ainda aqui e já a pensar no tempo que demoro a ir lá e a regressar aqui.

 

E, de repente, é de novo o fim do dia. É terça-feira, é quarta-feira, é quinta, sexta; de repente, é de novo sexta-feira, terminou mais uma semana, estes dias não foram suficientes, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente. Olho para a semana que passou e não consigo entender essa velocidade. Estou rodeado pelas ruínas do que não consegui fazer, cobrem a memória vaga de tudo o que me ocupou o tempo. E, agora, neste fim, parece-me que apenas fiz o que não queria.

 

E, de repente, é de novo dia 30. A repetição, cansativa e previsível: dia 27, dia 28, 29 e 30, é de novo dia 30, terminou mais um mês, abril, terminou abril. Estas semanas e cada um destes dias não foram suficientes, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente. Ao longo deste mês que passou, como uma paisagem que ainda olho, mas a que não consigo chegar quando estendo o braço, estão os fantasmas do que adiei. Aqui, ao terminar este dia, semana, mês, parece-me que talvez adie essas possibilidades para sempre.

 

Agora é um instante. Agora é um breve intervalo. Amanhã, recomeça o tempo. Tenho hora para acordar, tenho hora e lugar para estar vestido, desperto, bem-falante, tenho uma lista de tarefas a cumprir. Quanto mais depressa terminar a primeira, mais cedo poderei começar a segunda e, assim, talvez, chegar à última. Essa é a meta, o horizonte que distingo lá longe, no interior das minhas próprias ideias. Avanço na direção daquilo que consigo imaginar: os pontos da minha lista cumpridos, um a um. E, no entanto, inesperadamente, há alguém que se atrasa, há alguma coisa que demora mais do que previa: o trânsito, a chuva, cálculos inocentes. E, no entanto, de repente, é de novo o fim do dia, é de novo sexta-feira, terminou a semana, é de novo dia 30, terminou o mês. O tempo não foi suficiente, ou talvez tenha sido eu próprio que não fui suficiente.

 

Agora, fecho os olhos, inspiro longamente. Agora, o tempo parece uma matéria informe, nada o pode conter, entra por todos os lados. Este é um navio a naufragar, o tempo é a água, entra pelas frinchas mais finas, o tempo é o oceano. Estou no último pedaço à tona e, em volta, apenas oceano noturno, apenas tempo. Em breve, irá submergir-me.

 

José Luís Peixoto, in revista Espiral do Tempo

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publicado às 09:20

Em outubro de 2017, José Luís Peixoto visitou a península da Coreia pela quinta vez. Escreveu as dez crónicas breves, que se apresentam em seguida e que foram transmitidas na RDP/Antena1. Na mesma rádio, apresentou uma reportagem da sua autoria, que pode ser ouvida AQUI.

 

1

No aeroporto de Pequim, faço o check in para Pyongyang pela quinta vez na minha vida. Os norte-coreanos que podem sair do país despacham malas que fazem apitar as máquinas e, por isso, têm de abri-las para inspeção.

 

No avião, vou sentado ao lado de um homem muito direito. No jornal Pyongyang Times, em inglês, leio as notícias da primeira página: a produção aumentou em diversos sectores da economia nacional. Há também um artigo com o título "Atos anti-República Popular Democrática da Coreia vão trazer mais vergonha e ruína para os Estados Unidos". Na notícia principal, no entanto, Kim Jong-un inspeciona uma quinta agrícola militar. Sorri na fotografia, com trigo até à cintura.

 

Quando as hospedeiras, com voz colocada e muito aguda, anunciam a aterragem, vêm-se campos lavrados e algumas casas rurais da mesma cor desse terreno.

 

Pela quinta vez na minha vida, cumpro as formalidades da alfândega da Coreia do Norte. Um militar pede telefones e passaportes. Na revista das malas, outro militar encontra dois livros na minha bagagem. Vão ser analisados. Sei o que não posso levar — livros sobre os Estados Unidos, a Coreia do Sul, bíblias, etc. — e, por isso, espero despreocupadamente num guichet que me devolvam um volume de poesia do Perú e um ensaio sobre literatura.

 

Encontro as guias que me acompanharão durante todos os momentos da minha estadia. São duas mulheres, uma da minha idade (43 anos) e outra muito mais nova (22). Conheço a primeira, viajei com ela pelo país em 2014.

 

Na berma da estrada entre o aeroporto e Pyongyang, há centenas de pessoas de todas as idades a pé ou de bicicleta. Chego à cidade, multidões enchem os passeios. Estes são os norte-coreanos que se imaginam no ocidente, que estão por baixo de muitas conversas, mas de que poucos falam em concreto. Durante a próxima semana, pela quinta vez na minha vida, voltarei a andar entre eles.

 

2

Às cinco da manhã em ponto, começa a ouvir-se uma música suave, algo fantasmagórica, em todos os altifalantes de Pyongyang. Da janela do meu quarto, vejo os vultos que, a essa hora, atravessam a escuridão total. O dia nascerá às seis e meia. À primeira luz, os passeios estão já cheios de gente: homens e mulheres a irem para os seus trabalhos, estudantes a caminharem enquanto leem cadernos que seguram diante do rosto, crianças pequenas (6 ou 7 anos) que vão sozinhas de mochila às costas, velhos que empurram carros com sacos de serapilheira, militares rasos a pé, oficiais de bicicleta.

 

A partir das oito da manhã, nas praças principais de Pyongyang, nos lugares onde passa mais gente, há formações de dezenas de mulheres que tocam tambor e fazem coreografias sincronizadas com bandeiras de vermelho muito vivo. Estão ali para dar ânimo aos trabalhadores que iniciam a sua jornada.

 

A neblina matinal levanta-se lentamente, há um sol de outono que ilumina as cores dos murais com episódios da vida dos líderes, que ilumina também os seus rostos no topo dos edifícios públicos. São sete horas e meia a mais do que em Portugal. Por decisão própria, a Coreia do Norte é o único país do mundo neste fuso horário. Assisto ao início de mais um dia em Pyongyang e sei que há outras realidades lá fora, mas aqui, para quem avança pelos passeios da capital da Coreia do Norte, só há esta realidade.

 

3

Em períodos entrecortados, enquanto esperamos, falo em inglês com a guia do Museu da Vitória na Guerra de Libertação da Pátria. É uma militar fardada, tem 26 anos. Sorri bastante, está com vontade de falar.

 

Pergunta-me se sou casado, se tenho filhos. Diz-me que é solteira, vive com os pais e com uma irmã. Pergunta-me a idade do Cristiano Ronaldo. A irmã é grande admiradora de futebol e encarregou-a de recolher essa informação. Os estrangeiros que por ali passaram nos últimos meses não foram capazes de responder. Acha-o demasiado velho, diz que a irmã vai ficar decepcionada.

 

A nossa conversa é interrompida pelas explicações que dá sobre as diferentes salas do museu, sobre a guerra da Coreia ou, como ela lhe chama, a guerra de libertação da pátria. É uma história de avanços e recuos, determinados pelas perversões cobardes dos imperialistas americanos e pelo heroísmo do povo e do exército da Coreia, sempre com a sábia direção do presidente Kim Il-sung.

 

Ao esperarmos outra vez, pergunto-lhe acerca da situação atual. Ri-se. Sabe que os americanos têm um presidente novo, mas diz que as suas ameaças não são novas. Os americanos são patéticos e ninguém tem medo deles.

Ao entramos na sala seguinte, a guia comove-se. Estamos na sala dedicada às atrocidades cometidas pelos americanos durante a guerra. Pergunto-me se sentirá a mesma comoção sempre que faz esta visita. Mas, volta a animar-se logo a seguir, ao entrarmos na sala da gloriosa vitória do povo coreano.

 

4

Qual será o futuro destas crianças de cinco ou seis anos? Esperam por nós alinhadas no pátio da escola primária da cooperativa agrícola. É de manhã, ouve-se um silêncio de pássaros no interior da neblina, ruídos da natureza e da terra a ser trabalhada. Quando nos aproximamos, a professora começa a tocar acordeão e, fazendo gestos sincronizados, vozes de criança cantam canções infantis sobre a grandeza da Coreia e dos líderes.

 

E os alunos da escola secundária Kang Pan-sok? Qual será o seu futuro? A escola tem o nome da mãe de Kim Il-sung e fica no centro de Pyongyang. Os alunos passam a sua adolescência nestes corredores. O rosto de alguns está muito sério nas fotografias do quadro de honra. A esta hora, há rapazes a jogar futebol, grupos de raparigas a conversarem. Em certos cantos, alguns estudam cadernos de páginas cinzentas. Talvez estejam a rever a matéria sobre a vida dos líderes. História das Atividades Revolucionárias de Kim Il-sung, ou de Kim Jong-il são disciplinas obrigatórias.

 

E também os meninos-prodígio do Palácio das Crianças. Milhares de jovens assistem a este espetáculo num grande teatro. No palco, meninas fazem bailados sobre o desenvolvimento tecnológico da Coreia do Norte, por exemplo. Um coro de rapazes, pioneiros de lenço vermelho, é acompanhado por palmas. Cantam à frente de um vídeo com mísseis a serem disparados e bombas a explodirem. Essa é a atuação mais aplaudida do espetáculo.

 

Qual será o seu futuro? Qual será o nosso futuro?

 

5

No paralelo 38, junto à linha onde se dividiu a península da Coreia, há sempre muitos pássaros. Cruzam a fronteira livremente, indiferentes ao que se pensa em terra.

 

Os militares sul-coreanos deixam o seu posto quando há a visita de turistas estrangeiros a partir do norte. Terão os seus motivos para fazê-lo.

 

Para além das cinco vezes em que estive no lado norte, também já visitei o paralelo 38 a partir do sul. Nesse lado, não deixam os visitantes aproximar-se da fronteira, repete-se que é muito perigoso. Todos acreditam e, assustados, ficam a centenas de metros, a ver por binóculos aquilo que tenho agora à minha frente.

 

Acompanho um militar e entro numa das salas azuis que se veem sempre na televisão, divididas pela fronteira, onde são feitas as conversas entre norte e sul. No interior dessa casa, azul também por dentro, ponho um pé de cada lado.

 

Na sua volta ao mundo, o paralelo 38 do hemisfério norte, também atravessa Portugal. Passa nos distritos de Beja e Setúbal.

 

À saída, dou um volume de cigarros ao militar, que fica surpreendido, apesar de o ter pedido a uma das guias que me acompanha e que me sussurrou: dê-lhe agora os cigarros.

 

Estou a 70 km de Seul mas, para chegar ao outro lado desta fronteira, terei de fazer 160 km por estrada até à capital da Coreia do Norte, apanhar lá um avião para a China e, daí, apanhar outro para a Coreia do Sul. Amanhã, farei essa viagem, durará todo o dia.

 

6

Nos últimos 65 anos, não são muitas as pessoas que sabem o que é, no mesmo dia, despertar de manhã na Coreia do Norte e adormecer à noite na Coreia do Sul.

 

O consumo de informação que sucede a chegada de internet ao telefone é um choque, dá-me uma sensação física. Sinto o sangue a correr mais depressa nas têmporas, uma ligeira tontura.

 

Depois, tudo é uma incrível novidade: as luzes, o trânsito, a publicidade e, sobretudo, as pessoas, convictas do seu mundo.

 

Caminho ao longo da praia Haeundae, em Busan — a segunda cidade da Coreia do Sul, com 3 milhões e meio de habitantes. Passo por artistas de rua com mais ou menos público, cantores de canções melancólicas acompanhadas à viola. Cruzo-me com famílias que também fazem este passeio ou que se sentam na areia, sobre cobertores. A esta hora da noite, a escuridão faz o mar ainda mais infinito. No entanto, sei que após três horas de ferry boat se chega a Osaka, no Japão.

 

Hoje, há um festival de fogo de artifício. Assisto a estas explosões coloridas. Em toda a praia, a multidão faz longas e colectivas exclamações de espanto. Na memória, nos olhos, levo ainda as imagens da Coreia do Norte, onde acordei hoje de manhã. Sei que eles estão lá, numa noite sem luz. Diante das formas que enchem este céu, parece-me que essa verdade é demasiado grande para ser dita. Vinte e quatro milhões de norte-coreanos — gente com famílias como estas, capazes de espanto como este. Aqui, é muito difícil explicar essa verdade simples.

 

7

Ainda em Busan, no sul da Coreia do Sul, olho pela janela do meu quarto enquanto ouço as notícias em inglês na televisão. Ontem, o secretário de defesa dos Estados Unidos visitou a fronteira. Ao seu lado, o ministro da defesa da Coreia do Sul declarou que, se a guerra começar, a artilharia da Coreia do Norte será destruída imediatamente.

 

Lá em baixo, nas ruas de Busan, as pessoas caminham pelos passeios. Dirigem-se talvez para lugares onde vão todos os dias.

 

Em estúdio, de fato e gravata, os comentadores dizem que a Coreia do Norte tem 21 batalhões estacionados no seu lado do paralelo 38 e que, mesmo que a artilharia fosse destruída, seria impossível deter a sua capacidade de retaliação (incluindo armas químicas, biológicas e nucleares) antes de alcançarem Seul.

 

O lugar que me calha no comboio de alta velocidade é ao lado de um militar sul-coreano. É um rapaz bastante alto, terá talvez pouco mais de vinte anos. Com a mão ,segura um copo de plástico com café gelado; com a outra mão, escreve mensagens no telemóvel. O seu uniforme tem um padrão camuflado, com a bandeira da Coreia do Sul no ombro. Ao peito, tem uma placa de pano, chama-se qualquer-coisa Kim.

 

Aproximamo-nos de Seul a cerca de 300 quilómetros por hora. A cada fôlego, estamos mais próximos de Seul. Ele chega ao fim do café gelado. Pousa o telemóvel por instantes, tira a tampa do copo de plástico e começa a mastigar as pedras de gelo.

 

8

Chama-se Chui. Não tenho a certeza de que o seu nome se pronuncie assim. Talvez por se ter cansado de ouvir o seu nome mal pronunciado, adoptou o nome de Glória para falar com estrangeiros. Diz-me que a relação com a Coreia do Norte, depende das gerações.

 

A avó conheceu a península antes da guerra e da divisão. Esse era um assunto que lhe custava muito. A mãe herdou essa dor, mas já um pouco atenuada. A ela própria, por várias vias, foi-lhe transmitida uma imagem muito negativa da Coreia do Norte: os inimigos. Já a filha, de nove anos, aprende na escola atual lições sobre toda a península da Coreia, traz trabalhos de casa sobre o norte e até lhe ensina algumas coisas.

 

Peço para traduzir o texto de alguns cartazes que fotografei com o telemóvel na Coreia do Norte. Um deles tem o desenho de muitos mísseis e diz: "A resposta de Choson" (que é o nome que a Coreia do Norte dá a si própria). Outro, também com mísseis, diz: "Não seremos derrotados, somos uma potência nuclear". Chui/Glória ri ligeiramente ao ler estas frases.

 

Pergunto-lhe se não tem medo. Continua divertida ao responder que há trinta e cinco mil soldados americanos na Coreia do Sul e que, por isso, não tem medo de nada.

 

Relembro-lhe aquilo que sabe melhor do que eu, que Seul está tão perto da fronteira e volto a perguntar-lhe se não tem medo. Volta a responder-me que há trinta e cinco mil soldados americanos na Coreia do Sul e que, por isso, não tem medo de nada.

 

9

A embaixada dos Estados Unidos fica na avenida mais emblemática de Seul, a poucos metros do palácio Geongbokgung, o principal do país, o palácio real. Às sete da manhã, os manifestantes permanentes estão na posição de lótus, sentados sobre esteiras. Têm os olhos fechados, fazem meditação antes de iniciar o dia.

 

Os polícias estão no seus postos habituais, são dezenas diante da entrada, estão a poucos metros uns dos outros, cobrem o muro com os seus casacos de amarelo fluorescente. Na rua lateral, há meia dúzia de autocarros da polícia estacionados.

 

À medida que os manifestantes despertam da sua meditação, vão-se juntando em grupos que conversam quase em silêncio. Enchem chávenas de plástico com termos de chá, libertam grossas nuvens de vapor. Sentindo a minha presença, há um que se aproxima e que me estende um panfleto e um sorriso.

 

Ele sabe que não entendo coreano, são poucos os estrangeiros que entendem, mas acredito que saiba também que entendo os desenhos do panfleto: de um lado, uma caricatura de Trump ao lado de Hitler; do outro, o rosto de Trump a ser espezinhado por vários sapatos, no centro de uma poça de sangue.

 

Aqueles que se opõem à presença americana no país são uma minoria, mas existem. Durante as grandes manifestações, são milhares. Aqui, têm fitas atadas à testa e cartazes, têm uma coreografia sincronizada com as palavras de ordem que repetem em coro. Quando Trump chegar, não poderão estar aqui, a poucos metros da embaixada dos Estados Unidos. Onde estarão nessa hora?

 

10

Rodeado pelos grandes arranha-céus de Seul, é difícil imaginar que Kaesong fica apenas a 70 quilómetros daqui.

 

A autoestrada mais importante da Coreia do Norte é a que liga Pyongyang a Kaesong e que, a cada x quilómetros, tem longas colunas de cimento que se destinam a ser derrubadas com explosivos e a cortarem a estrada, no caso de entrarem invasores no país.

 

No centro de Seul, o trânsito está quase sempre engarrafado por carros de fabrico coreano, topos de gama de marcas que conhecemos em todo o mundo e outras apenas disponíveis no mercado sul-coreano. As ruas principais de Kaesong são muito largas para as bicicletas que as atravessam. Às vezes, passa um carro também.

 

No ponto mais alto de Kaesong, junto às enormes estátuas de Kim Il-sung e de Kim Jong-il, escutam-se cães a ladrar, pedaços de vozes perdidos na distância e um grande silêncio que atravessa a neblina.

 

Na Torre de Seul, o ponto mais alto da cidade, vê-se uma capital a perder de vista, a tocar o horizonte, uma máquina complicada de relações entre dez milhões de pessoas.

 

Entre Seul e Kaesong, não há apenas a distância de 70 quilómetros. Há uma distância muito maior, uma lonjura no tempo, naquilo que as pessoas são capazes de imaginar e de entender.

 

Amanhã, vou regressar ao meu país, a milhares de quilómetros daqui. Sem motivo, mas muito a propósito, lembro-me de um balão que vi no templo Bulguksa, em Gyeongju. Entre centenas de outros, com etiquetas onde se escrevem pedidos, havia um assinado por uma família francesa. Apenas tinha a palavra "paz".

 

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(Algumas edições de Dentro do Segredo)

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publicado às 15:56

O Monte Kumgang, na Coreia do Norte, é um lugar que existe. Estar lá é uma experiência tão concreta como estar aqui. Lá, também é possível olhar em volta. A natureza impressiona, as árvores, os cursos de água, as cascatas, o oxigénio é tão limpo e fresco que chega a doer nos pulmões.

 

Os encontros entre famílias separadas pela guerra da Coreia têm lugar num hotel que fica no sopé do Monte Kumgang. Também esse hotel, com a sua enorme recepção, com os seus quartos de lençóis bem passados a ferro, é um lugar que existe. As alcatifas cheiram a detergente pobre, sem perfume.

 

Os familiares da Coreia do Sul chegam de autocarro, o monte e o hotel ficam a poucos quilómetros da fronteira que atravessa a península. Foi num desses autocarros que chegou a senhora Han Shin-Ja, fazia parte das 89 pessoas que vieram para a reunião de agosto de 2018.

 

A senhora Han Shin-Ja tem 99 anos. Durante a guerra da Coreia, viajou para sul, deixando as filhas a norte. Essa separação era para ser temporária mas, de repente, as fronteiras foram fechadas e não voltou a ter possibilidade de vê-las. Essas crianças têm hoje 71 e 72 anos.

 

Como se passam mais de 65 anos assim? Como se passa uma vida assim? Os anos, as estações, as datas que se repetem, e essa separação intransponível, esse silêncio absoluto, espécie de morte.

 

A estadia das famílias no Monte Kumgang durou 3 dias. Ao longo desse período, somados, os encontros efetivos corresponderam a um total de 11 horas. E como se passa essas horas? Cada palavra representa mil vezes todas as palavras que foram pensadas, cada olhar e cada toque representam mil vezes aquilo que se imaginou.

 

No ano 2000, realizou-se a primeira reunião entre famílias coreanas separadas pela guerra. Desde então, houve apenas 22 oportunidades de realizar esses encontros, com algumas dezenas de participantes de cada vez. A primeira lista de sul-coreanos que desejavam rever os seus familiares continha mais de 130 mil nomes. Desses, apenas 57 mil continuam vivos.

 

A senhora Han Shin-Ja é uma pessoa que existe, as suas filhas também. Enquanto estamos aqui, ela estará em algum lugar da Coreia do Sul, talvez a recordar detalhes das 11 horas que passou com as suas filhas septuagenárias.

 

Quando o autocarro começou a afastar-se, chorava quem ficava e quem partia. Entre os norte-coreanos mais novos, houve quem corresse pela estrada em busca de mais alguns segundos: a imagem daqueles que partiam por mais alguns segundos. Qual o valor desse tempo?

 

Como há bastantes famílias separadas e poucas oportunidades, não se repetem visitantes. Por isso, é quase certo que a senhora Han Shin-Ja nunca mais voltará a ver as suas filhas.

 

Se quiserem saber todos os segredos acerca da passagem do tempo, perguntem à senhora Han Shin-Ja. Entre o que ela sabe, há muito que nunca conseguiremos entender.

 

José Luís Peixoto, in Espiral do Tempo (setembro, 2018)

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publicado às 17:52

Gorongosa

10.10.18

TEXTO DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO // FOTOGRAFIA DE PATRÍCIA SANTOS PINTO

 

Os animais não esqueceram. Quando percebem que estamos a aproximar-nos, famílias inteiras de macacos fogem diante de nós, trepam aos ramos mais altos; as impalas saltam na distância, traçam arcos perfeitos, é elegante o medo que as leva; até os leões, perante o nosso avanço cauteloso, se mudam para uma sombra mais distante.

 

Às sete da manhã, a terra ainda está fresca. O capim fura uma neblina rasteira que não ultrapassa a base dos troncos. As árvores sabem muito, desenham uma paisagem de riscos que se estende até onde os olhos aguentam ver. No ar limpo e no silêncio, o cheiro fértil da terra e o som de uma enorme multidão de insectos, aves que dispõem deste céu sem fim. O início do dia parece o início do mundo e, no entanto, há rastos que o vento apagou nos caminhos, mas que ainda se sentem.

 

A casa dos leões não é usada há muito tempo. Hoje, só o simbolismo da sua história tem utilidade. O ano de 1940 ficou assinalado a cimento pelos portugueses que a levantaram. Então, destinava-se a receber os visitantes que vinham caçar. Com milhares de hectares à escolha, decidiram construir a pouca distância do rio e, na época das chuvas, o edifício ficou inundado. Dois anos depois, quando os homens o abandonaram, os leões reclamaram-no. Foi a partir daí que, ocupada por leões que subiam pelas escadas até ao terraço ou que permaneciam no seu interior, começaram a chamar-lhe "casa dos leões". Essa época terminou quando as paredes foram atravessadas por rajadas de tiros, quando os degraus das escadas foram destruídos. Durante os anos da guerra civil, os animais selvagens foram dizimados para servir de alimento aos militares. Em 1992, não houve cessar-fogo para os animais da Gorongosa porque, a partir daí, chegaram os caçadores furtivos.

 

Quando passamos pela casa dos leões, são estas memórias que se distinguem naquelas ruínas sujas.

 

Às vezes, quando passamos, há animais que ficam parados a olhar para nós. Fixam-nos com a mesma curiosidade com que os fixamos a eles. Há tanto que queremos dizer-lhes, mas esse instante dura pouco. Distinguem-nos um gesto, visível ou invisível, e estremecem numa corrida que parece sem fim ou direção. Com pena, ficamos a vê-los afastarem-se. Talvez um dia, voltemos a merecer a confiança dos animais.

 

A tarde é tingida por um calor seco. Como uma nuvem de pó, ar espesso e amarelecido pelo sol. O som dos insetos que marcam o horizonte é agora diferente. As raízes dos embondeiros continuam a segurar a terra.

 

Quando seremos capazes de dar valor ao que é realmente importante? É fácil esquecê-la, subestimá-la, mas é sempre a terra que está lá, por baixo de tudo o que fomos capazes de construir, por baixo de todo o alcatrão ou cimento. Quando seremos capazes de ser consequentes com aquilo que é inegável? A terra não depende de nós, a água não depende de nós, a luz não depende de nós; somos nós que dependemos da terra, da água, da luz. Somos nós que dependemos da natureza.

 

O sol vermelho desce atrás das árvores. Os ramos são veias e artérias de encontro a um céu de cores que vão mudando muito devagar. Tudo parece acontecer a essa velocidade. Este silêncio está por baixo de todos os sons com que enchemos o planeta.

 

A Gorongosa é esperança. Envolvendo as comunidades locais, contribuindo para o seu desenvolvimento e restaurando a vida selvagem no parque, o projeto de recuperação da Gorongosa é esperança em Moçambique, mas não só; é esperança em África, mas não só; é esperança no mundo inteiro.

 

A noite chega com todas as estrelas. O céu imenso, polvilhado. Medimos o nosso tamanho a olhar para este céu.

 

A vida é muito maior do que apenas a nossa vida.

 

A terra prepara-se para um novo dia. Os animais sentem-na debaixo das patas, sabem que dependem dela para tudo. Da mesma maneira, sentem a noite. Sabem que têm de sobreviver-lhe, porque os animais não esqueceram. Os leões não querem guerra. Os gnus não querem guerra. Os javalis-africanos não querem guerra. Os pala-pala não querem guerra. Os elefantes não querem guerra. Os animais, todos eles, só querem viver. Os animais não esqueceram.

 

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publicado às 21:29

Ressentimento

14.05.18

As raízes do ressentimento estão fixas na ideia de que não se foi valorizado. Não há palavras ou nitidez nessa crença, não há consciência, há apenas um peso no peito, como se os pulmões tivessem calcificado e custassem a encher, como se o oxigénio tivesse deixado de os saciar.

 

A injustiça original pode ter tido múltiplas formas, reais ou imaginárias, mas o sentimento que gerou foi sempre uma pergunta sem resposta: porque me ignoraram?

 

Essa dor é uma corrente de aço que liga o presente ao passado, o ressentimento é essa dor.

 

Tu és o símbolo de qualquer coisa que o magoou no passado. Ou porque há algo em ti que é comparável a essa mágoa antiga, ou porque há algo nessa mágoa antiga que é comparável a ti, um detalhe pode evocar o mundo inteiro.

 

Não vale a pena perderes tempo a identificar essa coincidência, é irrelevante. As relações não são da responsabilidade dos objetos relacionados, mas sim de quem as estabelece.
A tua presença é alheia ao seu ressentimento. Na verdade, não é de ti que fala quando diz o teu nome.

 

Por um lado, não te conhece; por outro lado, não é capaz de te ver. Quando olha para ti, apenas vê o passado, apenas sente aquela dor antiga, aquela chaga ainda aberta. Como em documentários na televisão ao domingo, é um animal ferido na savana, talvez um leão, é um animal zangado. Os seus argumentos são camuflagem para o mal‑estar.

 

Mas é sempre assim? Sim, é sempre assim. Quando se tenta eliminar o outro, quando não se lhe reconhece direito à existência, quando se tenta assassinar a sua reputação, é sempre assim. Mas não haverá casos em que o rancor é isento? Não, o rancor nunca é isento, é sempre pessoal e tendencioso, depende daquele que o projeta e não daquele a quem se dirige.

 

E sim, o teu cuidado é legítimo, a tua pena e preocupação são legítimas. Mas não podes caminhar com as pernas dos outros, gesticular com os seus braços, não podes falar com a sua voz. Terá de ser o próprio a drenar o veneno. Tu apenas podes viver a tua vida, o que não é pouco.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (8 de maio de 2018)

 

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publicado às 13:15

Aspas

14.04.18

 

Enquanto que "ler" pode ser uma mera distração, ler é um compromisso. "Ler" prescinde da presença que ler exige. "Ler" é muito parecido com ler mas, ao mesmo tempo, é bastante diferente. "Ler" é quase o oposto de ler.

 

"Ler" pode ser este encontro breve: passar os olhos por estas colunas, sobrevoá-las sem reparar mesmo em cada palavra, assimilar as primeiras linhas, apanhar pedaços aleatórios do meio, colheradas, fragmentos daqui e dali, e alcançar o fim na diagonal, para ver como acaba.

 

Ler é outra coisa. Quem lê já chegou onde queria ir, não tem pressa. Ler, parece-me, acontece com mais facilidade nas páginas de livros. Ler é uma tarefa de horas ou, melhor, de tempo que não pode realmente ser medido. Apesar da progressão nos capítulos, apesar do ponto final, ler é uma atividade sem fim. Suponho que ler seja comparável a navegar num oceano: horizonte em todas as direções.

 

Quem leva ideias preconcebidas e vai em busca das suas próprias justificações não lê, apenas "lê".

 

As palavras não resistem a ser repetidas com desdém. Se uma criança mal disposta as arranca do seu tom e as repete com troça, as palavras sofrem como qualquer vítima de bullying. Da mesma forma, nenhum texto resiste a uma leitura com desdém. Quem lê não impõe uma voz às palavras, prefere escutá-las.

 

Ler requer humildade, generosidade e confiança.

 

Para ler faz falta uma certa paz e, ao mesmo tempo, uma certa inquietação. Esse é um equilíbrio rigoroso, uma forma de respirar que não se ensina e que, no entanto, se pode aprender.

 

Há momentos em que ler é vozes em uníssono, palavras sobrepostas, dentro e fora de nós: verdades que conhecemos de dentro a chegarem de fora e a falarem-nos, recordações vivas de um passado que está a acontecer pela primeira vez naquele momento. Como uma organização súbita, o mundo unificado, um sentido integral, a coerência plena, um génesis. Não existia, passou a existir. Da escuridão absoluta à luz também absoluta. E, no entanto, tudo simples, natural.

 

Quem lê não faz exigências, apenas quer estar ali.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (6 de abril de 2018)

 

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publicado às 09:16

 

 

Os elitistas acham sempre que fazem parte da elite. A pirâmide, no entanto, tem uma imensidão de vértices, é provável até que não se trate realmente de uma pirâmide. Por isso, não faltam perspetivas para que uns e outros se considerem no topo.

 

Há o elitismo social, de classe, relacionado ou não com o elitismo económico; há o elitismo cultural, relacionado ou não com o elitismo académico; há o elitismo moral, relacionado ou não com o elitismo religioso; há uma quantidade inúmera de elitismos, derivações de derivações, ramificações, tipos específicos e especializados, insignificantes para quem está fora, vitais para quem está dentro.

 

Em qualquer dos casos, o elitismo é sempre a defesa da superioridade de uns em relação aos outros, é sempre a afirmação da diferença e da separação. As suas razões são o núcleo daquilo que coloca gente contra gente, que justifica guerras. O elitismo garante que uns são mais capazes do que outros, ou que uns têm mais direito do que outros.

 

Mesmo quando se dedica a áreas extravagantes, a mundos microscópicos, o elitismo é sempre uma atitude política. A elasticidade do seu metabolismo permite-lhe sobrevivência em todas as áreas do espetro político, sem exceções. Consegue adaptar-se a qualquer habitat argumentativo. Com mais regularidade do que seria de supor, há apologias do elitismo que, camufladas ou explícitas, são feitas no próprio instante em que se afirmam contra ele. São a elite dos que se afirmam contra a elite.

 

Os defensores das castas dizem que é assim desde sempre, dizem que essa é a ordem natural, moldam a história e a ciência de acordo com os resultados lógicos que pretendem alcançar. Não é difícil fazê-lo, os argumentos são uma massa mais moldável do que o barro.

 

Depois, para lá disso, muito longe e logo ali, há os seres humanos, que nascem, alimentam expetativas e morrem. Quando seremos capazes de olhar para os outros como olhamos para nós próprios? Quando seremos capazes de olhar para nós próprios como olhamos para os outros?

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (Fevereiro 2017)

 

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publicado às 13:12

O meu pai segura um doce de ovos moles entre o polegar e o indicador, segura o objecto mais delicado do mundo. Tem a forma de um búzio. Segura-o exatamente pelo vértice, é uma forma branca e elegante. Olha esse pequeno búzio como se o analisasse, não o perde de vista, segue-o ao aproximá-lo da boca e até mordê-lo com a ponta dos dentes: dentadinha. Neste momento, o meu pai é homem, mas também é menino; é forte, mas também é frágil. Não se apercebe da ternura que o envolve.

 

A minha mãe guarda o doce que lhe calhou, é uma pequena concha. Procura um lenço no interior da mala, a minha mãe tem sempre um lenço lavado e passado a ferro. Mais tarde, irá oferecer-me este doce de ovos moles, talvez depois de jantar, talvez um pouco esmagado pelas horas dentro da mala, talvez com alguma penugem do lenço. A minha mãe está a guardar o doce para mim. Ouço frases breves na voz da minha irmã, dá-me instruções acerca de como morder o doce devagar, como saboreá-lo. Ao mesmo tempo, sem palavras, ensina-me também a fechar os olhos para sentir o sabor a avançar pelo interior da boca, a ser um lugar, como um terreno de açúcar que se expande pelo negro que possuímos por dentro, que o ilumina de certo modo, que lhe dá forma e superfície. Eu tenho o direito de ficar com o doce maior. Quero ser adolescente, mas não prescindo dos meus privilégios de criança. Tem a forma de um peixe com escamas ténues, como uma sardinha com cara de pessoa. Seguro-lhe pelo rabo e, antes ou depois de trincá-lo, fixo este momento.

 

Estamos sentados na carrinha estacionada. Diante da ria, um pouco afastados do centro de Aveiro. No lugar do condutor, com o volante diante da barriga, o meu pai; a seu lado, a minha mãe; no banco de trás, a minha irmã e eu. Neste momento, a nossa carrinha é a nossa casa.

 

Escrevo estas palavras escolhidas, estes substantivos, estes adjetivos, declino estes verbos no presente e, ao fazê-lo, é como se estivesse lá, ainda ao lado da minha irmã, na presença do meu pai e da minha mãe. Como são fortes as palavras, carregam todo o peso da memória. Sustentam-na sem aparentar qualquer esforço.

 

Há poucas semanas, estive em Aveiro. Eu era um homem de quarenta e três anos. Eu era um homem sozinho, de quarenta e três anos. Tive algum tempo para passear, não muito. Inclinado sobre as grades de uma ponte, assisti à passagem de barcos cheios de turistas ao longo da ria. Se existissem barcos desses quando estivemos lá, teríamos andado. Agora, essa seria uma lembrança boa.

 

Em silêncio, contemplando a lonjura através do para-brisas, o meu pai dá mais uma dentadinha no doce de ovos moles. Esse búzio tem um interior de amarelo vivo, como se fosse feito de ouro húmido. Este é o poder dos verbos conjugados no presente. A minha irmã também desfruta do seu doce de ovos moles. A minha mãe, sem saber, desfruta da segurança deste instante. Em silêncio, no interior de mim, aqui e lá, digo-lhes: aproveitem este momento, pai, mãe, mana. Estamos juntos neste tempo que nos inunda e nos preenche. O tempo é a vida.

 

José Luís Peixoto, in revista UP (Janeiro, 2018)

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publicado às 15:04

Saudade

15.08.17

 

Em momentos como agora, lembro-me de ti com muita força, com detalhes. Saber que existes neste mesmo instante, lá longe, inunda-me.

 

Sinto a tua falta. Sei que se começasse agora a enumerar as tuas qualidades, haveria de me perder em alguma, enlevado, antes de conseguir dizê-las todas. Ou talvez não seja possível esgotá-las. Foi precisa esta distância para reconhecer aquilo que, aqui, me parece tão evidente.

 

No entanto, há horas em que não estou a pensar em ti. Nesse tempo, ocupo-me de assuntos que estão à distância do braço, basta levantar o nariz para olhá-los de frente. Ainda assim, mesmo então, sei que este é um mundo em que existes. Por baixo de tudo, quase sempre sem palavras, há essa certeza. Seria insuportável um mundo em que não existisses.

 

Os lugares onde fui criança, onde cresci, ou mais tarde, onde a minha vida se decidiu, existem agora, lá longe, indiferentes talvez aos pensamentos que aqui desenvolvo sobre eles. Ao imaginá-los, com a devida diferença horária, deambulo por eles sem corpo, sou apenas olhos, alma, ignorado pelas paredes, pelas ruas, que prosseguem a sua existência sem mim.

 

Portugal, eu sei que uma parte da falta que sinto de ti é falta de mim próprio. Às vezes, misturo-me contigo na minha cabeça. Como um enorme espaço vazio, como um fantasma invisível, a ausência daquele que fui passeia-se em ti, Portugal. Como um eco que só eu sou capaz de ouvir, as tais paredes e as tais ruas ainda guardam a imagem daquele que fui, das ilusões que tinha, todas essas idades irrecuperáveis. Velhos que conheci novos passam a coxear por esses lugares e não me distinguem nas suas lembranças, crianças que não tinham nascido passam a correr por esses lugares e não me distinguem na sua imaginação.

 

Mas também sei, Portugal, que uma parte enorme da falta que sinto de ti é falta desse teu corpo subjetivo, desse teu ar, do teu porte, da tua presença física. Às vezes, nos lugares por onde passo, quando me lembro de ti como agora, quando me enches os olhos, parece que te vejo em toda a parte. Os sentidos enganam-me. Começa a parecer-me, por exemplo, que as pessoas lá ao fundo estão a falar em português. À distância de lhes distinguir o entusiasmo vago, mas sem lhe identificar a estrutura, sem divisão silábica rigorosa, parece-me que estão a falar em português, aproximo-me esperançado e, de repente, percebo que não e, por instantes, tudo em mim é injustificado: a minha postura, a minha posição, o meu posto. Foi precisa esta distância para reconhecer o privilégio, tão evidente, de estar rodeado de pessoas a falarem a mesma língua que eu.

 

Mas haveria muito mais, Portugal. És família profunda, és terra. És toda a história e todo o futuro, não exagero, és caminho. Como disse, não vou aqui enumerar tudo o que te distingue aos meus olhos. Sinto a tua falta, mas não chego a lugares onde não estejas. Levo-te comigo, Portugal. Estás agarrado à minha pele, à minha voz, a tudo o que sou capaz de pensar, sentir e ser. É através de ti, Portugal, que entendo o mundo inteiro.

 

José Luís Peixoto, in revista UP (Março, 2015)

 

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publicado às 10:27

 

 

As nossas vozes misturavam-se com o rumor da água a correr, água atravessada por raios bem desenhados de claridade, som muito puro, quase silêncio, que restolhava em todas as pedras polidas ao longo do seu caminho. As sombras mais suaves das árvores eram levadas por essa corrente branda e também elas se misturavam com o tamanho daquelas tardes de verão. Eram tardes que, parecia-nos, jamais encontrariam o seu fim.

 

Tínhamos chegado ali de bicicleta. Primeiro, a pedalarmos pelas ruas pavimentadas da nossa aldeia e, depois, por estradas que só nós conhecíamos, torrões de terra a desfazerem-se sob os pneus. De um lado e de outro, estendiam-se paisagens cobertas por mantos de cigarras que, àquela hora, eram incandescentes, incendiadas pelo sol. Por fim, à beira da ribeira, enquanto despíamos a camisola, era esse calor e essa sede que levávamos na pele.

 

Entrávamos devagar na água, dissolvíamo-nos nela. Assentávamos os pés sobre seixos arredondados por muitos verões, por muitas férias grandes, por camadas de limos, como veludo. Em níveis, passo a passo, saciávamos o corpo: até aos joelhos, até à cintura, até aos ombros e mergulhávamos a cabeça. A água era leve, os nossos braços atravessavam essa matéria fina e translúcida, os nossos movimentos abrandavam apenas o suficiente para serem justos. Se nos deixávamos cair para trás, deitados na água, a flutuarmos como folhas de árvores inclinadas sobre a ribeira, tínhamos o céu inteiro diante de nós: uma cor única e absoluta, uma certeza tranquilizante.

 

Então, tínhamos a idade de nos deslumbrar com as coisas mais singelas. Se a nossa vida fosse um rio, estávamos muito mais perto da nascente, não éramos ainda capazes de imaginar a foz e, talvez por isso, acordávamos em manhãs inundadas por um presente luminoso, tempo de possibilidades infinitas. Sabíamos que tudo podia acontecer e, com pouco esforço, qualquer coisa ínfima, uma pedrinha atirada às águas da ribeira, podia transformar-se em qualquer coisa grandiosa, todos os nossos sonhos realizados. Essa era a força da nossa imaginação.

 

Era assim e, no entanto, hoje, com tudo o que mudou, continua a ser exatamente assim. Chegamos com os nossos filhos, são pouco mais novos do que nós naquele tempo. Olhamos para eles e conseguimos encontrar-lhes muitas diferenças, o cuidado com que pousam os pés descalços sobre a terra e, depois, sobre os seixos que ainda cobrem a entrada da ribeira, mas há um brilho na pele, uma ilusão no olhar que é a mesma. Os nossos filhos, passados todos estes anos, levam no olhar uma ilusão igual à que levávamos, pouco mais velhos do que eles. Talvez essa ilusão, ou esse brilho, seja um reflexo das águas desta ribeira, talvez a luz do verão se reflita assim nestas águas límpidas. Nesse caso, pode ser que também nós ainda levemos esse brilho, ou essa ilusão, no olhar. Talvez o tempo não tenha passado, o ínfimo pode ainda transformar-se em grandioso, os nossos sonhos estão lá ao fundo, vão realizar-se todos antes de terminar esta tarde imensa de verão.

 

José Luís Peixoto, in revista Up (Agosto 2016)

 

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publicado às 19:51



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