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Estar de bem

13.06.17

         Temos mesmo de odiar aqueles com quem não concordamos?

       Os seus gestos e palavras incomodam-nos. Às vezes, é a sua própria presença que nos incomoda. Aparecem na televisão e mudamos de canal. Se insistirem nos comentários, bloqueamo-los no facebook. Pergunto: se tivéssemos todo o poder, se não fôssemos julgados por ninguém, se bastasse estalar os dedos para que se cumprisse a nossa vontade, o que lhes faríamos?

       A resposta a esta pergunta diz mais sobre nós do que sobre eles. É fundamental possuirmos uma ideia acerca de como gostaríamos que o mundo fosse, uma direção; mas, parece-me, também importa que, nesse ideal, encontremos um espaço para os que discordam dele. Uma utopia em que todos acreditem no mesmo é fácil de construir.

       Nós existimos com os outros e, muitas vezes, por causa dos outros. A existência dos outros reflete a nossa, alarga-a e, claro, o mesmo acontece na direção oposta. Nós e os outros somos uma espécie de espelho. Mas há uma diferença fundamental: a nossa sensibilidade é-nos intrínseca, reconhecermos a sensibilidade dos outros requer um esforço intelectual de empatia.

       Criticar os outros, agindo da mesma maneira, é incoerente, não faz sentido, a não ser que estejamos convencidos de que o nosso principal valor é sermos nós.

       Pode acontecer que não estejamos a considerar os outros em todas as suas dimensões. Se aceitamos que são seres humanos, temos de reconhecer-lhes humanidade. Há aquilo em que não estamos de acordo e que pode magoar-nos se for importante, se for violento, mas é muito provável que exista uma enorme quantidade de assuntos em que pensamos exatamente a mesma coisa. Estar disponível para essa procura é querer saber mais, não ter medo de saber mais.

       Eles discordam de nós, eles decidiram dedicar a sua vida a combater aquilo que achamos certo. Esse ponto de vista custa-nos porque, afinal, nós prezamos a opinião deles. Eles têm importância para nós. Admiti-lo não é um sinal da nossa fraqueza, é um sinal da nossa força.

       Temos mesmo de odiar aqueles com quem não concordamos?

       Claro que não, apenas temos de odiar o ódio.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (11 de junho de 2017)

 

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publicado às 21:56

Faltam-me palavras para explicar a maneira como a lonjura cabe inteira no meu olhar. Possuo longos braços invisíveis. Esta distância amplia-me. Num instante, conheço as brisas desde sempre, temos a mesma idade, tocamo-nos com a mesma pele. Algo de mim sobrevoa estes telhados, ruas, praças, copas de árvores. Um sobressalto acerta-me no fôlego que, de repente, também é imenso. No topo do castelo, debaixo de arcadas góticas, inspiro toda a cidade de Leiria, sinto-a no interior dos pulmões, fresca a esta hora, e expiro-a, sopro-a de volta ao seu lugar justo.

 

Tenho o rabo gelado. Estou sentado num banco de pedra, condensação mineral das sombras de séculos. As vozes da minha mãe, admirada, e da minha irmã, explicativa, chegam-me das costas, embaraçam-se uma na outra. Não se estendem até lá a baixo, ficam aqui, presas às suas teimas, trazem-me de volta para aqui. O meu pai tem as mãos nos bolsos, olha para longe.

 

Entrámos no castelo de Leiria sem dúvidas. A altura das muralhas incentivou-nos, as plantas a crescerem nos interstícios das pedras também. A minha irmã era a primeira a subir os degraus, não sei o que a puxava. Eu seguia-a sob a gentileza das árvores e do céu. Este é um verão gentil, abrandou por nós, atenuou o seu ímpeto para nos permitir esta tarde. Os meus pais vinham atrás, sem pressa, a conversar. Pensei em quantos teriam subido aqueles degraus, sem conseguirem imaginar que repetiríamos os seus passos, agora com sapatilhas, agora com a máquina fotográfica que o meu pai prende com uma correia ao pulso. Estas pedras são feitas de muito tempo.

 

Procuro a carrinha na paisagem. Deixámo-la estacionada junto de um posto da polícia, ideia da minha mãe. Não a encontro. A minha irmã aponta para uma área, como se a própria cidade fosse um mapa aberto à nossa frente. O meu pai discorda, aponta para o centro, a praça principal, aponta para o rio Lis e, a partir dessas referências, calcula mais ou menos a localização da carrinha.

 

Anoiteceu. Estou sentado no banco da frente da carrinha, ouço uma rádio de Leiria, música americana. Lá atrás, já acabaram de montar a cama, colchões de espuma, e já estão todos deitados. O meu pai conversa com a minha irmã acerca dos caminhos da cidade, refere-se ao rio Lis. O meu pai não perde uma oportunidade de dizer esse nome, rio Lis, adora. A minha mãe chama-me. De cuecas e camisola de algodão, estou pronto para dormir. Abro as cortinas que dividem a carrinha e passo para trás.

 

Tenho de ter cuidado para não pisá-los. De um lado, o meu pai; ao meio, a minha mãe; do outro lado, a minha irmã. Deito-me aos seus pés, atravessado. Sou o único que cabe nessa posição. Entro no saco-cama. Quase a sussurrar, a minha mãe termina qualquer ideia e, a seguir, diz: vá, agora vamos dormir. Sinto-os a acomodarem-se e, depois, a repousarem a respiração. Há um instante que permanece. Abro os olhos para vê-lo. As cortinas das janelas estão fechadas, filtram a luz dos candeeiros públicos, transformam-na em penumbra. Passam carros lá fora, os seus faróis dançam no tecto da carrinha.

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista UP (maio, 2017)

 

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publicado às 11:02

Toda a Vida

19.01.17

Começamos pela infância e, por isso, ficamos com o resto da vida para recordá-la. Dispomos de muito mais tempo para essa evocação do que tivemos para realmente vivê-la.

 

Com os anos, as lembranças podem estender-se, os seus contornos explodem devagar, ou podem encolher, ficam lá longe, no fim do túnel. Em qualquer dos casos, os anos distorcem as lembranças e, agora, custa a aceitar que esses dias duraram o mesmo do que estes. Às vezes, parece que foram muito maiores, cada instante parado, como uma fotografia que podemos analisar durante horas; outras vezes, parece que foram muito mais curtos, tardes a escorrerem como areia entre os dedos de uma mão aberta.

 

Em grande medida, a relação com a infância é a relação com a memória. Há tudo o que esquecemos, como seria útil se ainda tivéssemos essa lucidez, e há tudo o que queremos acreditar à força, bom e mau.  Aos poucos, a infância transforma-se num enigma: para podermos considerá-la, temos de decifrá-la e, no entanto, éramos nós que estávamos lá.

 

No outro extremo da linha, a maior parte da velhice é vivida por antecipação. Sem termos sequer a certeza de que lá chegaremos, perguntamos: como serei quando for velho?

 

A resposta varia de acordo com quem formos nesse momento. Um adolescente, por exemplo, acredita que será um velho com valores de adolescente. A ideia de quem seremos transfigura-se ao longo da vida. Quando chegar o tempo de viver a velhice, essas conjeturas valerão de muito pouco. Então, havemos de pensar e decidir de acordo com a perspectiva e os critérios que tivermos nessa altura.

 

Até atingirmos essa idade, a relação com a velhice é a avaliação que fazemos do futuro. Essa conta será feita de acordo com o que sabemos, com o que não tivermos esquecido.

 

E , ainda assim, todos nos cruzamos nas ruas e nas praças: os filhos dos outros, demasiado barulhentos e levemente irritantes, os velhos que achamos que nunca seremos, os adolescentes isentos de dúvidas e nós, que já não somos crianças ou adolescentes e que, independentemente da idade, nunca seremos mesmo velhos.

 

O país de cada um deles cruza-se com o país dos outros, mesmo quando são antagónicos. Agora, esforçamo-nos por recordar como éramos em crianças e, ao mesmo tempo, há crianças a assistirem a este momento com os olhos semelhantes àqueles com que assistíamos então. Agora, há velhos que tentam lembrar como foi ter a nossa idade e que, talvez, sejam muito parecidos com a pessoas que, estamos convencidos, seremos quando tivermos a idade deles.

 

Quem tem razão? Qual é o país mais certo? As crianças têm a sabedoria da sua inocência, o livre descontrolo dos sonhos. Os velhos têm a memória distorcida do que experimentaram, têm tudo o que conseguiram não esquecer. Os outros, entre crianças e velhos, têm as suas lutas e ilusões.

 

Contemporâneos, simultâneos, somos uma multidão de indivíduos. O país não é apenas o que achamos dele, não temos uma sensibilidade tão apurada. O país somos nós, todos e cada um: tanto é aquele que nasceu ontem e que se impressiona com os detalhes mais naturais, a luz, as cores; como é aquele que tem memórias que mais ninguém tem e que morrerá amanhã, apesar de ainda não o saber.

 

José Luís Peixoto, in UP, Janeiro de 2017.

 

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publicado às 09:19

Juntar as pontas dos ombros e dar algumas palmadinhas nas costas não é um abraço. Escrever "abraço" no fim de um e-mail também não é um abraço. Indiferente ao desenvolvimento social e tecnológico, um abraço continua a ser duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

 

Esses rapazes que aparecem com cartazes a oferecerem abraços nos festivais de verão têm graça e talvez sejam bem-intencionados, mas fazem publicidade enganosa. Não são os abraços que provocam as ligações, são as ligações que provocam os abraços. Um abraço não é apenas duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

 

Um abraço tem muita importância.

 

Quando eu era uma criança, teria talvez uns nove ou dez anos, o meu pai deu-me um abraço na cozinha da nossa casa. Era de madrugada porque essa era a hora em que, naquele tempo, se saía da minha terra quando se ia para Lisboa. O meu pai tinha uma operação marcada no hospital, estava vestido com as roupas novas e tinha medo. Enquanto me abraçava, o meu pai chorou porque, durante um momento, acreditou que podia nunca mais me ver. Os braços do meu pai passavam-me pelos ombros, a minha cabeça assentava-lhe na barriga, sobre o pullover. A lâmpada que tínhamos acesa por cima da cabeça espalhava uma luz que amarelecia tudo o que tocava: a mesa onde jantávamos todos os dias, o ar que ali respirámos em tantas horas anteriores àquela, em tantas horas ignorantes daquela. O meu pai usava um aftershave muito enjoativo, barato, que alguém lhe tinha oferecido no Natal. Agora mesmo, consigo ainda sentir esse cheiro com nitidez absoluta.

 

A operação correu bem. Depois do susto, depois da convalescença, o meu pai voltou para casa com uma cicatriz grossa e roxa na barriga, ficava à vista quando a camisa lhe saía para fora das calças ou na praia, apesar de usar os calções exageradamente puxados para cima. Depois disso, tivemos direito a nove anos em que não voltámos a pensar em despedidas.

 

Durante muito tempo procurei em toda a minha memória: as lembranças de quando regressou da operação ou, depois, quando tínhamos a mesma altura ou, mesmo depois, quando ficou doente pela última vez. Mas abandonei as buscas, não consigo recordar outra ocasião em que nos tenhamos voltado a abraçar. Essa madrugada na cozinha, a luz amarela, o aftershave, foi a única vez em que nos abraçámos na vida.

 

Não afirmo com leveza que um abraço tem muita importância. Há quinze anos que escrevo livros apenas sobre esse abraço.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine, 22 de novembro de 2015

 

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publicado às 08:56

 

 

Estava demasiado calor naquele hotel sem ar condicionado. Numa cidade pequena do interior da Rondónia, num extremo do vasto Brasil, depois de milhares de quilómetros, depois de estradas intermináveis, depois de paisagens intermináveis, arrumado à fronteira com a Bolívia, eu mantinha um sono ligeiro, destapado, agitado, desconfortável. Quando o telefone tocou, eu não sabia que horas eram.

 

Eram cinco e meia da manhã. No auscultador, a milhares de quilómetros, uma voz deu-me a notícia que o meu amigo tinha morrido.

 

Só despertei realmente depois de entender essas palavras. Foi como se faltasse um segundo ao tempo.

 

Vesti umas calças e saí do quarto. Descalço e em tronco nu, dei passos no corredor sem saber para onde ia. Levantava-se um amarelo muito grosso sobre os telhados da cidade, a manhã começava a nascer devagar. Eu tinha um bom posto para assistir a essa vaga de claridade porque, no fim do corredor, cheguei a uma varanda aberta sobre as casas baixas, as ruas paralelas, perpendiculares, de terra vermelha, varridas, com árvores enormes, folhas e pássaros, pés centenários de manga.

 

O céu era grande e existia por cima de tudo isso.

 

Foi nesse silêncio que consegui pensar no que tinha acontecido. Então, telefonei à Ana, mulher do meu amigo, viúva, minha amiga também. O telefone a chamar: uma nota sustentada, repetida, estridente. Não foi a Ana que atendeu, foi uma voz séria. Pronunciei o meu nome, perguntei se podia falar com ela e passaram-ma. Estava a chorar. Disse-lhe aquilo que consegui.

 

Quando desliguei, as lágrimas eram quentes e desacertadas de tudo o que tinha diante de mim. Sem pressa, avançavam bicicletas ao longo das ruas da cidade. Ao ritmo de pedaladas demoradas, escutava-se o rolar das rodas de borracha na terra lisa, às vezes a resvalarem muito ligeiramente. Sentados no selim dessas bicicletas iam rapazes e raparigas de uniforme. Dirigiam-se para mais um dia de liceu. Com frequência, passavam aos pares, duas bicicletas lado a lado, rapazes de calças passadas a ferro, raparigas de saia, meias brancas, cabelos presos com um laço, a rirem-se despreocupadas.

 

A Ana estava no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, rodeada pela falta de sentido da morte. Eu era ainda capaz de distinguir o eco do choro, o peso das palavras que tinha usado. Mas, mais do que essa impressão, eu era capaz de imaginá-la com toda a nitidez, naquele preciso momento, no hospital, rodeada.

 

Das primeiras vezes que fui a casa do Urbano, lembro-me de um armário enorme, de madeira maciça, trabalhada, que estava na sala. No interior, guardava pilhas de livros seus sem organização. Quando se estendia a mão, tanto se podia agarrar um volume português, com décadas, como podia tratar-se de um tradução búlgara, húngara, romena de um livro seu que nem ele próprio conseguia identificar.

 

Ao longo dos anos, subi muitas vezes as escadas de madeira desse prédio. Cruzava-me curioso com os casais que saiam da pensão e, quando tocava à campainha, escutava os passos cada vez mais lentos do Urbano a atravessar o longo corredor e, depois, a sua voz através da porta, antes de abrir.

 

Quando morre um amigo, sente-se o fim de uma época. Nesse momento, a pele irreversível do passado ganha uma realidade objectiva, absoluta. Como uma pedra atirada às águas da barragem, a afundar-se no líquido, no fresco e na escuridão. E, de repente, o tempo, a idade, o tamanho de uma vida: assuntos que o Urbano conhecia bem.

 

A última vez que estivemos juntos foi há alguns meses, na livraria Barata, na Avenida de Roma. Tive sorte. Ao apresentar-lhe o seu último livro, pude sentir a ilusão de devolver-lhe um pequeno grão da infinita generosidade que sempre colocou nas centenas de livros que apresentou. Além disso, foi numa livraria. Não me lembro de melhor lugar para nos despedirmos. Nesse dia, o Urbano sorriu muito e fadigou-se de tanto entusiasmo. Foi um dia bom.

 

Tivemos esse dia. Tivemos as nossas conversas, eu a conduzir, ele a falar-me de outros mundos e de outros tempos, tivemos os nossos filhos pequenos a brincarem diante de nós, tivemos os livros, as aulas na universidade, algumas viagens, Paris, Madrid, e os abraços. Tivemos os abraços.

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (setembro, 2013)

 

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(Fotografia de JLP, a 9 de agosto de 2013, em Guajará-Mirim, Rondónia, Brasil.) 

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publicado às 11:57

Dívidas

26.07.15

  

Quanto devemos aos bombeiros voluntários? Enquanto estamos aqui, preocupados com os nossos assuntos, a tratarmos daquilo que nos diz respeito, eles estão disponíveis para serem arrancados da sua vida e colocados à frente de chamas, incêndios que não foram ateados por eles, a arrasarem propriedades que não lhes pertencem. É domingo à tarde, por exemplo, e, de repente, estão num carro a alta velocidade, arrastam uma sirene desesperada ao longo do caminho. Encontram aflição quando chegam, desenrolam uma mangueira áspera e respiram golfadas de fumo que lhes mascarra as faces. Passam horas assim e, no final de tudo, a sua recompensa será assistir à desolação de um campo negro e, talvez, beber de um pacote de leite oferecido por alguém.

 

Há bombeiros voluntários que morrem durante esse trabalho. Quanto devemos à sua memória? Quanto devemos às famílias desses bombeiros mortos? Agora, onde estiverem, sentem a sua ausência em todos os dias. São pais, filhos, maridos, mulheres, irmãos que imaginam como seria a vida daqueles que perderam, imaginam-nos com idades que nunca chegarão a ter.

 

Quanto devemos aos técnicos do INEM? Quanto devemos aos enfermeiros? Quanto devemos às pessoas que recebem os doentes nas urgências dos hospitais? São poucos os que têm paciência de preencher os papéis, mas os papéis precisam de ser preenchidos.

 

Quanto devemos aos professores? Não sabem onde vão trabalhar para o ano, não sabem se terão trabalho. Quanto devemos aos jovens em cubículos de call-centers? Quanto devemos aos estagiários não remunerados? Quanto devemos aos vendedores com excesso de habilitações? Quanto devemos aos desempregados?

 

Quanto devemos aos músicos? Depois de aprenderem a tocar, passam anos a fazê-lo de borla para nosso divertimento e, garantem-lhes, para mostrar o seu trabalho. Ao fim da noite, entre o público, poucos considerarão trabalho aquilo que eles fizeram. E quanto devemos aos bailarinos? Quanto devemos às bailarinas? Quanto devemos às atrizes? De repente, colocam-nas no centro de todos os olhares, de todos os julgamentos, a troco de uma oportunidade. Uma oportunidade de quê? Uma oportunidade de uma oportunidade. Serão velhas e terão a mesma maquilhagem. Quanto devemos a todos os que trabalham para que exista teatro e cinema neste país?

 

Quanto devemos aos desportistas das chamadas modalidades amadoras? Levam o equipamento na mochila, vão para o treino depois do trabalho, chegam tarde a casa. Os fins-de-semana são pequenos, acabam depressa. E quanto devemos aos atletas paralímpicos? Com muita probabilidade, quando os jogos forem notícia, havemos de contar medalhas de modalidades que desconhecemos e teremos moral para exigir; diremos cinco ou seis, sem nos lembrarmos que, atrás de cada uma, está o esforço contínuo de alguém durante anos.

 

Já que falamos nisso, quanto devemos àqueles que têm mobilidade reduzida e que não podem sair de casa? Não há rampas, há carros estacionados em cima de passeios com buracos, não há dinheiro para comprar a cadeira de rodas adequada. São prisioneiros sem culpa formada, sem acusação, sem julgamento. Foram condenados a prisão domiciliária. Não há data marcada para o fim da sua pena.

 

Quanto devemos aos guardas prisionais? Estão agora atrás de muros, rodeados de ameaças. Quanto devemos aos homens do lixo? Queixamo-nos do barulho que fazem quando recolhem o nosso próprio lixo. Não queremos ser incomodados, estamos a repousar. Quanto devemos às mulheres-a-dias? Havemos de culpá-las se desaparecer alguma coisa. Quanto devemos aos coveiros?

 

E quanto devemos aos credores internacionais? Definiram juros e emprestaram aquilo de que não precisavam a outros que estavam aqui e que se retiraram na hora de pagar. Ficámos cá nós, não temos para onde ir. A propósito, quanto devemos àqueles que emigraram? Deixaram a família contra a sua vontade. Vimo-los partir. Sentimos a sua falta.

 

Afinal, quanto devemos aos bancos e às instituições económicas internacionais? Nunca lidámos com elas. Os acordos foram feitos em nosso nome mas, tantas vezes, sem o nosso conhecimento. Enquanto isso acontecia, estávamos a viver, acreditando que contribuíamos para a construção, dignidade e prosperidade do país a que pertencemos. Quanto devemos a nós próprios?

 

Não se trata de não pagar as nossas dívidas, trata-se de saber a quem devemos.

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Julho 2015)

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publicado às 08:40

Todo o silêncio

28.10.14

 

De nome inteiro, o escritor está sentado à mesa. Quem terá tratado do arranjo de flores que tem à sua frente? O microfone funciona.

 

Enquanto apresento o meu livro em bibliotecas e livrarias, acabo quase sempre por te referir. Nesses momentos, és personagem de episódios, autor de frases, portador de lições que ainda fazem sentido. Muito raramente, como se me espreitasses através de uma frincha, o teu olhar pode atravessar essas palavras que escolho para te mencionar. Eras chuva de muitos dias seguidos, essas palavras são uma gota.

 

Não é possível saber o que entendem as pessoas que me olham. Posso imaginar o que quiser a partir da sua atenção, escolho a melhor possibilidade, a mais benévola. Leio algumas páginas do livro em voz alta, exactamente como se estivesse a descobri-las.

 

O escritor está disponível para autografar os seus livros. Por favor, formem a fila nesta direcção. A minha caligrafia, embaraçosa como a minha voz gravada em vídeos antigos de festas de anos. De cada vez que escrevo o meu nome, o teu nome vai sobreposto ao meu. Da mesma maneira, lá no cemitério, no mármore, o meu nome está sobreposto ao teu.

 

Um homem de quarenta anos deitado sobre uma cama de hotel, iluminado pela televisão ligada. Com esta idade, mais do que nunca, distingo-te em mim. Entrava no teu quarto à noite, vias qualquer coisa na pequena televisão a preto e branco, e deitava-me ao teu lado. A minha pele tem a mesma cor da tua. Sou capaz de comparar as minhas mãos com as tuas. Conto o tempo que me falta para ter a idade que tinhas quando te perdi. Faço contas às idades que os meus filhos terão. Tento rejeitar esses pensamentos. Não quero, esse tempo é demasiado cedo para morrer, mas, como também sabes, importa pouco aquilo que queremos.

 

Amanhã, o André faz dez anos, mas tu não chegaste a conhecer o André. Às vezes, distingo-lhe traços teus, maneiras. Se for real e possível, se os meus olhos não estiverem deturpados pelo que quero ver, fui eu que transportei esses pequenos gestos. Levei-os talvez naquilo que faço todos os dias, nas minhas próprias maneiras. Como serias tu com dez anos? O André já ouviu falar muito de ti. Contei-lhe histórias que não chegam para que te conheça.

 

Aquele gajo que aparece na televisão sentou-se no restaurante e escolheu o prato do dia. Não vai querer as entradas, pois não? Juntos, pousámos os cotovelos em toalhas de papel como esta. Essas eram horas boas. O passado ficou com todas as conversas que tivemos à espera que chegasse a comida ou, depois, diante de nódoas de gordura e migalhas de pão. Agora, consigo recordar-nos em restaurantes como este, mas não temos som, não consigo reconstruir nenhuma das conversas que tivemos. Talvez falássemos de temas muito ligados à véspera desses dias distantes, ou talvez a minha memória tenha deixado de guardar essa informação, precisou do espaço para qualquer outro assunto.

 

Já depois da conta, o senhor do restaurante deseja-me sorte para os livros, e aponta para a televisão onde me viu, presa à parede. Agradeço e, nesse momento, entendo de repente a simpatia pouco habitual, o sorriso a despropósito.

 

Sim, pai, às vezes, vou à televisão falar dos meus livros.

 

É difícil explicar. Haveria de surpreender-se bastante com aquilo que aconteceu. Nunca apareci na pequena televisão a preto e branco que tinha no quarto e, com toda a sua capacidade de idealizar o futuro, haveria de ficar incrédulo se alguém lhe contasse. O meu pai não tinha forma de imaginar que, um dia, com este caminho feito, eu seria um escritor a dar autógrafos.

 

Para o meu pai, serei sempre um rapaz de futuro incerto, com a carta de condução acabada de tirar, a estudar para ser professor. Quando pousava as pálpebras sobre os olhos, o sofrimento, sei que uma das suas preocupações era: o que irá ser deste rapaz? Ele próprio, muitas vezes, dizia esta frase. Dentro de mim, sou capaz de ouvir a sua voz a dizê-la.

 

Agora, nada pode mudar esse facto. Mesmo que passe o resto da minha vida a escrever livros, mesmo que sejam lidos por milhares e milhares de rostos atentos, mesmo que o meu nome seja repetido todos os dias em bibliotecas e livrarias. Para o meu pai, nunca serei escritor.

 

José Luís Peixoto, in revista Visão, 23 de outubro de 2014

 

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publicado às 10:01

 

 

Um dia, vou cansar-me de querer conhecer o mundo. Nessa altura, talvez me pareça estranho que alguém saia de casa, deixe o morninho, para discutir preços com taxistas ou olhar para ementas de restaurantes onde não percebe uma única palavra.

 

Às vezes, parece-me que conheço demasiados caminhos. Para ir a certos lugares, não tenho de pensar. Entro no carro e a minha cabeça ocupa-se de qualquer assunto que, naquele momento me pareça importante. Conheço tão bem esses caminhos que quase me surpreendo quando chego ao destino. Às vezes, quero ir a lugares ligeiramente diferentes, distraio-me por um momento e, quando reparo, já estou a fazer esses caminhos de novo. O hábito enganou-me. Então, preciso de voltar atrás, raramente necessito de GPS para encontrar a direcção certa.

 

Viajar seja para onde for, querer conhecer o mundo, é acreditar que todas as ruas fazem parte de um labirinto mas que não é possível perdermo-nos nele. Está-se sempre em algum lugar. A rosa dos ventos pode ser colocada em qualquer sentido, continuará sempre a ser uma rosa dos ventos.

 

Na Tailândia, nenhuma comida tem o sabor das sopas da minha mãe. Na Amazónia, nenhuma paisagem se parece com os campos à volta da terra onde nasci. Nas ruas de Helsínquia, ninguém entende a língua em que penso e eu, estrangeiro, tenho dificuldade até de distinguir palavras na amálgama de sons que essas pessoas dizem quando vão, por exemplo, a conversar nos transportes públicos.

 

Um dia vou cansar-me dessa surpresa. Conheço bem o conforto do meu sofá, com mantas em fevereiro, onde poderia passar tardes inteiras a ver programas da televisão portuguesa, com anúncios portugueses, com as notícias portuguesas a começarem à hora certa: pip, pip, piiii. Sei bem o que é atender o telefonema de um amigo que me diz: vem cá. Sei bem o que é poder ir ter com ele naquele momento, estar ao lado dele depois de minutos. Também sei o que é sentir que os amigos deixaram de ligar. A pouco e pouco, convencem-se de que nunca estou, nunca posso, não vale a pena ligar, não vale a pena insistir.

 

Sim, um dia vou cansar-me de querer conhecer o mundo, mas hoje ainda não é esse dia. Sinto uma espécie de tontura só de começar a conceber todos os lugares onde posso ir. Tenho os sentidos ávidos por tudo aquilo que me espera. Não tenho qualquer receio de estar sozinho, sem mapa, no centro de Singapura, numa avenida de Caracas, diante de uma paisagem do Alasca. Anseio por esse momento.

 

Quero aterrar em todos os aeroportos do mundo, quero conversar por gestos com gente de todos os países, quero provar o sal de todos os oceanos, senti-lo a cristalizar-se na pele. É muito fácil que chegue um dia em que deixe de acreditar em tudo o que acredito agora. A vida é composta por materiais bastante mais transitórios do que estamos dispostos a admitir. Mas, até lá, sempre que esteja diante de uma ementa onde não perceba uma palavra, continuarei a fechar os olhos e a pedir a primeira coisa onde deixe cair o meu indicador.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Revista Volta ao Mundo (Abril 2014)

 

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publicado às 10:54

A vida

08.01.14

 

 

 

A chuva insiste de encontro ao pára-brisas. Os contornos de tudo embaciam-se por detrás da água, as cores perdem os limites que as contêm e entornam-se umas sobre as outras. Depois, chega o instante em que as escovas do limpa pára-brisas não conseguem esperar mais. A uma velocidade constante, certa, fazem o seu movimento geométrico, a nitidez cinzenta do céu reflectida pela estrada e, logo a seguir, a chuva de novo. Conduzo devagar.

 

A minha sobrinha fala de pessoas que já morreram. Responde às minhas perguntas, mas o silêncio também lhe serviria. Lembra-se bem do momento em que acordou a meio da noite e ouviu os crescidos a receberem a notícia de uma morte. Hoje, tem vinte e cinco anos. Enquanto fala, acede a impressões de pessoas do passado, é difícil distinguir se são memórias ou apenas pensamentos criados pelo que ouviu dizer, não sabe se está a recordar ou a imaginar. Essa indefinição incomoda-a. Está habituada a lembrar-se de tudo o que pensa. Falo-lhe de outras pessoas, gente que morreu quando era ainda mais pequena. Não tem qualquer memória. Custa-lhe menos chegar a essa conclusão. Sente menos falta daquilo que nunca teve.

 

Conduzo devagar. Durante um instante, as figuras foscas do pára-brisas são a direcção para onde continuo. A voz da minha sobrinha hesita, estende-se no interior do carro, protegida da chuva, com uma fragilidade imperfeita. As pessoas de que ela não se lembra estão dentro de mim. Vejo-as com clareza. Nalguns casos, dirigem-se a mim, tratam-me pelo nome e sorriem, completamente ignorantes de estarem mortas. Sinto a sua presença em detalhes, não tenho de fazer qualquer esforço para os ter presentes: a maneira como penteiam/penteavam o cabelo com os dedos, uma certa expressão do rosto, a maneira como dizem/diziam certas palavras. A limpeza da memória das suas vozes comove-me, a maneira como pronunciam certas palavras, mas sei que não estão vivos, sei que não poderei voltar a ouvir essas vozes que ninguém gravou.

 

Procurando explicações para mim próprio, olho para o passado como se fosse a casa dos meus pais. Aprendi a conhecer cada pormenor das suas paredes, a sua textura, acreditei naquela casa como só um menino é capaz, depois o tempo passou. Aqui mesmo, ou em todos os lugares onde já estive sem me lembrar dela, a casa continuou sempre lá. Está lá agora, com tempo a passar lento nas suas divisões mal iluminadas, as mesmas onde fui criança, o banco onde me sentava ao lume em dias como este, o corredor que a minha mãe atravessava cheia de pressa, o sofá onde o meu pai se sentava já doente, a cama onde eu me deitava a imaginar o adulto que seria/sou, o canto da cozinha onde nesta época do ano decorava a árvore de Natal. E foi assim em todos os momentos. Depois de sair de lá, noutras casas, sem me lembrar, compenetrado em apaixonar-me ou em desiludir-me, a casa estava sempre lá, com tempo a passar nas suas divisões vazias. Enquanto eu tinha filhos, a casa estava lá; enquanto eu publicava livros, a casa estava lá; enquanto eu me preocupava com insignificâncias que já esqueci, a casa estava lá.

 

Tenho trinta e nove anos. Há pouco mais de uma semana, levei a minha mãe neste mesmo carro. Era de noite, os faróis dos outros automóveis formavam estrelas na distância. Eu falava-lhe do meu filho mais novo e disse-lhe que cinco anos passam depressa, disse-lhe que daqui a pouco será adolescente. A minha mãe não concordou, disse-me que não, disse-me que cinco anos é muito tempo. A minha mãe tem setenta e dois anos. Não precisou de repetir ou de explicar melhor o que queria dizer. Entendi-a bem e senti-me envergonhado pela superficialidade e pela arrogância do meu desconhecimento. Realmente, cinco anos é muito tempo. Só passam depressa se não estivermos atentos.

 

Avançamos num veículo frágil, debaixo de uma tempestade inclemente, muito maior do que nós, de um tamanho que não podemos conceber, a transcender-nos, mas estamos aqui. Avançamos em direcção a figuras foscas, a nitidez é breve e não tem força suficiente para nos tranquilizar, mas estamos aqui. A noite, inevitável, à espera, mas avançamos e estamos aqui. 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro 2014)

 

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publicado às 15:19

 

 

Existem vinte e quatro fusos horários. Por isso, durante um dia inteiro, hora a hora, há pessoas a celebrarem o fim/início de ano velho/novo. O planeta gira à sua velocidade pesada, como um daqueles cilindros de carne, um espeto de shoarma, e, durante um dia inteiro, hora a hora, é varrido por multidões a contarem em coro, a brindarem, a entusiasmarem-se ou a comoverem-se. Começa numa ilha qualquer do Pacífico. Ainda não estamos vestidos para a festa e já vimos no telejornal o fogo de artifício em Sidney. Depois, hora a hora, vai-se aproximando. Quando falta pouco, alguém diz: já é ano novo em Espanha.

 

Contar para trás exige um nível apurado de atenção. Talvez possa ser comparado com o esforço que um destro faz ao assinar o nome com a mão esquerda. O princípio é semelhante. Contraria uma espécie de instinto, algo que se aprendeu há muito tempo.

 

Em casa, as crianças entre os quatro e os dez anos ficam acordadas excepcionalmente até à meia-noite. Assistem admiradas às celebrações dos avós. Há festa na televisão ligada. Aquilo que acontece na sala parece uma continuação tosca daquilo que acontece na televisão. Olhamos para lá e aprendemos como se faz.

 

Este ano ainda não espirrei, este ano ainda não fui à casa de banho, este ano ainda não bebi um copo de água; não te via desde o ano passado, não almoçava desde o ano passado, não pensava no ministro das finanças desde o ano passado, felizmente.

 

Quando a vida retrocede, quando se passa a viver pior, faz sentido afirmar que se avançou um ano? Pelas contas dos calendários, chegámos a 2013. Mas, olhando para o tempo, quando foi a última vez que nos sentimos assim? Há quantos anos tínhamos alcançado aquilo que perdemos? Há vinte anos atrás, seríamos capazes de imaginar este tempo com uma sofisticação diferente: robots a fazerem as tarefas domésticas, teletransporte. Mas agora estamos aqui.

 

Há a internet e os telemóveis mas, sob a perspectiva dos direitos que deixámos de ter, estamos em que ano? Talvez o tempo não avance como a ciência e os relógios garantem. Talvez o tempo ondule. Se assim for, é certo que ondulamos com ele. É até possível que se agite por nossa causa. Se assim for, não é certo que estejamos em 2013. Aqueles que têm de emigrar para onde ficam sozinhos reconhecem a sua realidade em histórias com mais de quarenta anos; aqueles que perdem a casa recuam dez ou vinte anos; aqueles procuram e não encontram sentem que 2013 não é muito diferente de 2012.

 

Depois de rebentarem as rolhas das garrafas de espumante aqui, continuam a rebentar, hora a hora, em direcção a oeste. Há milhares de pessoas eufóricas em Times Square, as autoridades de certos países advertem para os perigos dos tiros para o ar, centenas de pessoas resolvem tomar banho nas águas geladas de todos os mares.

 

Nestas últimas semanas, ao conduzir por uma estrada onde passo habitualmente, tenho reparado num cartaz que anuncia o fim de ano em Salvador da Baía por mil e quinhentos euros. Com alguma melancolia, imagino essas pessoas a entrarem no avião. Como serão os seus rostos? Continuo o meu caminho, ultrapasso e sou ultrapassado, presto atenção a outros cartazes que se anunciam a si próprios: têm um número de telefone e a frase: "saiba como anunciar aqui". Ultimamente, há muitos cartazes assim, vazios, ninguém quer anunciar nada neles.

 

Enquanto isso, algures, existem as pessoas reais que se preparam para atravessar o oceano, têm o passaporte em dia. Levam aquilo que imaginam e regressarão com aquilo que encontrarem. Talvez acreditem que o tempo que aí vem será melhor se passarem essa data lá longe, naquilo que imaginam. Quase de certeza que imaginam algo melhor do que estar aqui. De outra maneira, não iriam até lá. Não se davam a esses gastos e a esse trabalho.

 

Enquanto isso, há pessoas a dormir durante a passagem de ano.

 

Termina um ano, termina um mês, termina uma semana, termina um dia, termina uma hora, termina um minuto, termina um segundo. Este segundo, e este, e este, e este.

 

Noutra dimensão, alheio a estes detalhes, há o tempo. Nunca termina, nunca começa, continua sempre.

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (janeiro 2013)

 

 

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publicado às 18:44



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