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Enquanto estamos aqui, eles estão lá. Reconhecer a existência dos outros é o passo mais essencial para respeitá-los.

 

Afirmar o interior do país e o meio rural como uma realidade folclórica, exótica, ligada exclusivamente ao passado, é um insulto. Se existe agora, neste momento, então é presente. Se há quem ande de carroça hoje, então hoje também se anda de carroça. Não é possível levar uma vida no passado, acorda-se sempre no dia em que se está. Defender que a realidade do interior não é contemporânea transporta a visão tendenciosa e preconceituosa de que o nosso tempo é intrinsecamente urbano.

 

Também há quem argumente que o interior já não é rural, que a sua cultura hoje é tão urbana quanto a de qualquer cidade. Há duas possibilidades que contribuem para essa ideia: ignorância ou cegueira. Ou não sabem o que estão a dizer, ouviram daqui e dali e juntaram essas peças segundo o modo como gostam de imaginar o mundo; ou estiveram lá, mas não foram capazes de ver, mediram os outros pelos seus próprios critérios, baralharam as proporções, tomaram alguma coisa por outra coisa qualquer. Acharam talvez que, por haver televisão e Internet, não existia uma forma própria de entender o mundo e a vida.

 

As certezas absolutas que tínhamos acerca da modernidade e do desenvolvimento trouxeram-nos aqui. Foram elas que despovoaram o interior e transformaram aqueles que lá continuam numa minoria. A discrepância é enorme: uma aldeia assinalada no mapa tem menos gente do que o prédio mediano de uma qualquer avenida. Por isso, como sempre acontece com as minorias desfavorecidas (principalmente quando nem sequer são reconhecidas como tal), os seus direitos não são defendidos, a sua cultura é posta em causa.

 

A ruralidade não é o estereótipo da ruralidade. As piadas com personagens do meio rural têm a mesma raiz que as piadas sobre negros, homossexuais ou loiras. A discussão acerca da sua pertinência é a mesma.

 

Porque temos tantos problemas com os outros, mesmo quando estão na sua vida, apenas a lutar por sobreviver? Como nos deixámos convencer que engrandecemos se inferiorizarmos os outros?

 

Neste preciso momento, estamos a preparar o futuro. Se é verdade, apesar de não ser a única verdade, que a ruralidade mantém relações com o passado, temos todo o interesse de aproveitar essa sensibilidade, essa experiência. Não nascemos de geração espontânea. Chegamos de algum lado, que também nos constitui. A nossa história é parte de nós, mesmo que a recusemos. Desprezar a nossa história e a nossa cultura é desprezarmo-nos a nós próprios.

 

Enquanto estamos aqui, eles estão lá. A nossa realidade partilha este tempo com a realidade deles. Este tempo não pertence mais a uns do que outros.

 

Parece-me pertinente considerar a hipótese de que o futuro desejável possa conter um pouco desse mundo. E se o interior do país e a ruralidade contiverem não apenas passado, mas também futuro?

 

Em todos os instantes construímos o que virá. Estamos aqui, existimos, ainda estamos a tempo.

 

José Luís Peixoto, in revista UP, fevereiro de 2017

 

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publicado às 16:01

Toda a Vida

19.01.17

Começamos pela infância e, por isso, ficamos com o resto da vida para recordá-la. Dispomos de muito mais tempo para essa evocação do que tivemos para realmente vivê-la.

 

Com os anos, as lembranças podem estender-se, os seus contornos explodem devagar, ou podem encolher, ficam lá longe, no fim do túnel. Em qualquer dos casos, os anos distorcem as lembranças e, agora, custa a aceitar que esses dias duraram o mesmo do que estes. Às vezes, parece que foram muito maiores, cada instante parado, como uma fotografia que podemos analisar durante horas; outras vezes, parece que foram muito mais curtos, tardes a escorrerem como areia entre os dedos de uma mão aberta.

 

Em grande medida, a relação com a infância é a relação com a memória. Há tudo o que esquecemos, como seria útil se ainda tivéssemos essa lucidez, e há tudo o que queremos acreditar à força, bom e mau.  Aos poucos, a infância transforma-se num enigma: para podermos considerá-la, temos de decifrá-la e, no entanto, éramos nós que estávamos lá.

 

No outro extremo da linha, a maior parte da velhice é vivida por antecipação. Sem termos sequer a certeza de que lá chegaremos, perguntamos: como serei quando for velho?

 

A resposta varia de acordo com quem formos nesse momento. Um adolescente, por exemplo, acredita que será um velho com valores de adolescente. A ideia de quem seremos transfigura-se ao longo da vida. Quando chegar o tempo de viver a velhice, essas conjeturas valerão de muito pouco. Então, havemos de pensar e decidir de acordo com a perspectiva e os critérios que tivermos nessa altura.

 

Até atingirmos essa idade, a relação com a velhice é a avaliação que fazemos do futuro. Essa conta será feita de acordo com o que sabemos, com o que não tivermos esquecido.

 

E , ainda assim, todos nos cruzamos nas ruas e nas praças: os filhos dos outros, demasiado barulhentos e levemente irritantes, os velhos que achamos que nunca seremos, os adolescentes isentos de dúvidas e nós, que já não somos crianças ou adolescentes e que, independentemente da idade, nunca seremos mesmo velhos.

 

O país de cada um deles cruza-se com o país dos outros, mesmo quando são antagónicos. Agora, esforçamo-nos por recordar como éramos em crianças e, ao mesmo tempo, há crianças a assistirem a este momento com os olhos semelhantes àqueles com que assistíamos então. Agora, há velhos que tentam lembrar como foi ter a nossa idade e que, talvez, sejam muito parecidos com a pessoas que, estamos convencidos, seremos quando tivermos a idade deles.

 

Quem tem razão? Qual é o país mais certo? As crianças têm a sabedoria da sua inocência, o livre descontrolo dos sonhos. Os velhos têm a memória distorcida do que experimentaram, têm tudo o que conseguiram não esquecer. Os outros, entre crianças e velhos, têm as suas lutas e ilusões.

 

Contemporâneos, simultâneos, somos uma multidão de indivíduos. O país não é apenas o que achamos dele, não temos uma sensibilidade tão apurada. O país somos nós, todos e cada um: tanto é aquele que nasceu ontem e que se impressiona com os detalhes mais naturais, a luz, as cores; como é aquele que tem memórias que mais ninguém tem e que morrerá amanhã, apesar de ainda não o saber.

 

José Luís Peixoto, in UP, Janeiro de 2017.

 

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publicado às 09:19

Prefácio de José Luís Peixoto ao livro "Quadro de Honra", livro com mais de 30 entrevistas a bandas históricas de rock alternativo (metal, hardcore, etc) português. 

 

UNDERGROUND FOREVER

por José Luís Peixoto

 

Estamos aqui. Chegará um dia em que tudo o que constitui este instante será passado. Essa é uma verdade simples de que ninguém duvida. Aceitamo-la enquanto teoria que conhecemos desde sempre, certeza que faz parte do essencial. No entanto, quando esse dia chegar mesmo, quando tudo o que constitui este agora, estiver à beira de desaparecer, havemos de admirar-nos com a fugacidade do tempo e da vida.

 

O entendimento que os seres humanos têm do tempo depende da sua perspectiva, do que viveram, do que esperam viver, do que estão a viver. Agora, temos problemas e desafios que nos parecem enormes. Neste momento, são tudo. Daqui a algumas semanas, meses ou anos, quando já conhecermos o desenlace que inevitavelmente terão, havemos de relativizá-los porque, nessa altura, já estaremos frente a outros problemas e a outros desafios, a nossa perspectiva terá mudado.

 

O presente é uma espécie de quarto, estamos nele. Sabemos que a casa tem outras divisões, somos capazes de imaginá-las, mas não é lá que estamos, a sua realidade não é concreta. Escolhi comparar o presente com um quarto porque foi no meu quarto de adolescente que, pela primeira vez, ouvi uma grande parte da música que está referida neste livro.

 

Terminavam os anos oitenta, começavam os anos noventa. Eu tinha 16, 17, 18 anos. O primeiro concerto a que assisti da música que eu gostava foi Ratos de Porão, na Incrível Almadense, em janeiro de 1992. A primeira parte foi feita por Procyon, uma banda que, então, tinha uma demo tape de sucesso e um teledisco, como dizíamos, que passou no Pop Off, o programa de televisão que dava no segundo canal a horas que eram tardias para mim porque, nas manhãs seguintes, entrava cedo na escola.

 

Esse concerto ficou conhecido por alguns mitos, como o boato generalizado de que tinham morrido pessoas do público. Não sendo verdadeiro, esse boato era bastante verosímil. Ao longo do concerto, foram muitos os que se lançaram dos balcões mais altos da Incrível Almadense, como aliás ficou registado em algumas fotos impressionantes do Cameraman Metálico, também ele uma instituição que marcou esses anos.

 

Faz muito sentido que a primeira banda a que assisti ao vivo pertencesse ao chamado crossover. Os Ratos de Porão estiveram entre as primeiras grandes bandas que misturaram metal e hardcore. Essa era também a minha filiação. Depois de começar a ouvir metal no início da adolescência, a rebeldia social do hardcore cativava-me. Estas palavras são muito insuficientes para descrever a importância que esse concerto teve para mim.

 

No ano passado, vinte e cinco anos depois, cruzei-me com o João Gordo, vocalista dos Ratos de Porão, no parque de estacionamento de um centro comercial em São Paulo. Abordei-o e disse-lhe que tinha estado lá, nesse concerto. Ele disse "sim, sim" e fez algumas piadas por eu ser português. Não lhe levei a mal, mas fiquei a pensar nesta dicotomia passado/presente.

 

Em 1991, no Alentejo, eu maltratava uma pobre guitarra Fender numa banda chamada Hipocondríacos. Escolhemos o nome com um dicionário na mão. Nos flyers que enviávamos com a correspondência, definíamos o nosso som como hardcore/grindcore. Sem recursos e sem talento, tentávamos imitar algumas das bandas mais intensas a que conseguíamos chegar: Napalm Death, Slayer, Extreme Noise Terror, etc.

 

As nossas glórias foram: 1) os ensaios, onde se juntavam sempre meia dúzia de amigos; 2) um par de demo tapes que registámos diretamente com um gravador (rec+play); 3) a inclusão em algumas compilações de bandas portuguesas em cassete; 4) a primeira parte de um concerto dos Braindead que, na altura, tocavam um thrash que adorávamos.

 

Creio que já ouvi mais vezes o nome dessa minha banda depois de publicar livros, quando me perguntam acerca disso em entrevistas, do que durante os dois anos que durou. Ainda assim, a importância que teve para mim é enorme e difícil de quantificar. Devido a essa experiência, respondi a inúmeros questionários de fanzines. Neles, era obrigado a encontrar palavras que definissem aquilo em que acreditava. Crescia assim.

 

Recordo esse passado com muito detalhe. Consigo ainda sentir como o vivia quando era presente. Também essa sensação é inexprimível. Levo dentro de mim o que ainda está vivo desse passado. Quando conto as suas histórias a quem não as viveu, parece-me que não consigo explicar realmente o que pretendo dizer.

 

Talvez seja assim com todas as épocas. Com muita probabilidade, no futuro, haverá alguém a tentar explicar este momento, este agora, e a não ser capaz de fazê-lo completamente. Será alguém com os olhos a brilhar, que dirá "naquele tempo", que terá uma expressão oblíqua por se sentir incompreendido.

 

As páginas que se seguem trazem-me muitas lembranças e, em vários casos, arrumaram-me a memória. Ao longo dos anos 90, fui uma das cabeças que abanaram em concertos de bandas como os Sacred Sin, os Shrine ou os Decayed. Tive as demo tapes e, depois, os discos de bandas como o Thormenthor ou os Mata-Ratos. Assisti a concertos memoráveis de bandas como os Ramp ou os Mão Morta. Andei em concertos da margem Sul, da linha de Sintra, Linda-a-Velha, Sacavém, Alverca, Juke Box, Ritz Club, Rock Rendez Vous, etc.

 

Este livro contém duas bandas que, pelo muito que partilhámos não poderia deixar de fazer uma menção especial. É esse o caso dos X-Acto, que contribuíram muito para a minha formação ética e com quem partilhei anos que jamais esquecerei. E é também o caso dos Moonspell, família, irmãos com quem posso sempre contar e podem sempre contar comigo. Sem falsas presunções, de uma forma que só eu e eles sabemos, os X-Acto e os Moonspell deram-me o privilégio de sentir que também fiz parte dessas bandas. Essa é uma experiência que me sensibiliza profundamente, que me define e que levarei por toda a minha vida.

 

Ainda assim, quando recebi o convite para escrever estas palavras, perguntei-me se seria merecedor desta honra. As páginas deste livro evocam um tempo que é maior do que cada um de nós.

 

Quem passou pelo underground, como sempre lhe chamámos, sabe o quanto aprendeu. O underground significava não esperar por ninguém para fazer o que queríamos fazer, o que tínhamos de fazer, o que nascemos para fazer. O underground significava acreditar. Sem essa experiência, não estaria aqui.

 

Underground forever, escrevíamos nós no fim das cartas que enviávamos com selos cobertos por cola, para serem usados muitas vezes. Cooperation, not competition, escrevíamos também.

 

As bandas que encerram este livro são herdeiras desse tempo. Noutra época, com vantagens e desvantagens, mostram que os problemas e os desafios não terminaram, nunca terminam.

 

Ainda bem que existe este livro. Contribui de maneira honesta para mostrar que aquele tempo existiu, o underground existiu. E mesmo que não consigamos explicar completamente o quanto que significou para nós, este livro ajuda-o a permanecer durante mais algum tempo, faz com que um pouco daquilo que o underground foi continue a existir agora.

 

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publicado às 15:54

 

 

Perdemos a capacidade de explicar às gerações mais novas como era antes. Podemos iniciar essa tentativa mas, ao fim de minutos, ou nos confundimos e começamos a divergir, ou eles se desinteressam e começam a escutar música de elevador dentro da cabeça, ou talvez escutem aquele ruído estático de quando os canais de televisão não emitiam programas durante vinte e quatro horas por dia, aquela imagem de grão cinzento que quase esquecemos também.

 

É normal que os mais jovens deixem de nos prestar atenção, é sempre assim quando alguém começa a falar uma língua que não entendemos. Raramente nos sentimos tão sozinhos como num jantar de polacos. Também é normal que nos falte coerência e articulação, fomos soterrados pelo tempo.

 

Parecia controlável, era incontrolável.

 

Hoje, os telemóveis são pequenas extensões do mundo ou, com mais probabilidade, de nós próprios. Há realidades e paisagens que apenas existem na internet, mergulhamos nelas. Com o telemóvel na mão, de repente, deixamos de ser um corpo com vontade e propósito, passamos a ser um objecto que está ali, um obstáculo com volume e textura, mas cuja existência está noutro lugar qualquer. Há muito que deixou de ser notícia a imagem de toda a gente nos transportes públicos a ver o telemóvel, toda a gente na sala de espera a ver o telemóvel.

 

Num esforço da memória, admiramo-nos com o tamanho dos primeiros aparelhos, com o gesto que tínhamos de fazer para puxar a antena quando recebíamos uma chamada, com aquele toque irritante da Nokia. Estas lembranças impressionam-nos, sobrepomo-las a tudo o que sabemos agora. Levamos no telemóvel a internet: a possibilidade de contactar todos com quem já nos cruzámos, um escritório inteiro e distrações para todos os gostos, para todos os likes.

 

Agora, a esta distância, olho com uma certa ternura para aqueles que, nos anos noventa, juravam que nunca iriam ter telemóvel. Insurgiam-se contra a obrigação de estarem sempre contactáveis, achavam (com razão) que perdiam liberdade. Hoje, essa ideia desapareceu. Agora, ninguém quer estar incontactável. Preocupamo-nos de morte quando sabemos que algum amigo nosso está incontactável. Sem pensarmos muito nisso, sem debate, damos por garantido que os telemóveis salvam vidas. Hoje, se alguém garante que ficou sem rede ou sem bateria, pensamos: mentiroso, adúltero.

 

Aqueles que juravam que nunca iam ter telemóvel são como os romanos que permaneceram na Península Ibérica depois da chegada dos árabes, são como os árabes que se deixaram ficar após a chamada "reconquista cristã". Ou, com mais precisão, são como os cristãos-novos, os judeus que, no século XV, foram obrigados a converter-se ao cristianismo.

 

De nada vale dizer-lhes: eu bem te avisei. Com mais certeza, se não tiverem esquecido completamente quem eram, serão eles a dizer-nos essa mesma frase.

 

Ao contrário do que se costuma afirmar, a internet não é para sempre. Em poucos lugares os assuntos envelhecem tão depressa. Ao fim de algumas semanas, já ninguém quer ver a sex-tape da estrela do maior reality show do momento; ao fim de alguns meses, já ninguém sabe quem essa pessoa é.

 

Seguramente que a memória não ficará salvaguardada nas redes sociais. As redes sociais são feitas de presente. Nelas, o passado desaparece da forma mais absoluta de todas: perde significado.

 

Os adolescentes passam as reuniões de família a olhar para o telemóvel. Um dia, estes adolescentes serão pais em reuniões de família. Para onde irão olhar os adolescentes do futuro?

 

 

José Luís Peixoto, in GQ, Maio de 2016

 

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publicado às 12:33

Entre as letras, as vogais são como o vento. Havendo fôlego, um a pode continuar para sempre, pode nunca terminar. Um e distorcido pela lonjura, repetido pelo eco, pode afastar-se e aproximar-se, pode ondular, dar voltas no ouvido, bumerangue ou avião de papel. Há uma forma de liberdade que só existe nas vogais.

 

Poesia é uma palavra que tem quatro vogais.

 

Como o mundo inteiro, como todos os momentos, como a própria vida, poesia é ordem e loucura. É ordem quando aquilo que nos faz mais falta é disciplina rigorosa, vírgulas que não poderiam pertencer a nenhum outro espaço, quebras de verso que deixam as batidas do coração na expectativa de um segundo, e é loucura quando esquecemos o essencial, quando precisamos de ser lembrados.

 

No entanto, como todos os termos, a palavra loucura é um paradoxo. Podemos acordar verdes, podemos falar com o silêncio, podemos agitar o céu, nada disso é loucura, estes são exemplos de realidade nítida. A maior loucura é acreditar que os dias existem no calendário, que 1+1 é sempre 2, que não vale a pena. Tudo vale a pena. Poesia é loucura contra a loucura. Como todos os termos, a palavra poesia é um paradoxo.

 

Poesia é uma palavra feita palavras e, como tal, é um paradoxo feito de paradoxos. No poema, como numa torre, todas as palavras são paradoxos em conflito consigo próprios e uns com os outros. Se tirarmos um tijolo, toda torre perderá força e, tarde ou cedo, cairá. É a tensão que os tijolos mantém entre si que permite o equilíbrio da torre. A poesia é uma torre sobre a vida e sobre a morte.

 

As estações e a intempérie castigam os tijolos, desgastam-nos. Ainda assim, há torres que duram séculos, esquecemos aqueles que as construíram. Também as palavras, apesar da erosão que as atinge, podem durar séculos. Temos a obrigação de acreditar que são eternas. Tudo o que está vivo tem a oportunidade de ser imortal.

 

No entanto, um monte de tijolos não é uma torre, um monte de palavras não é um poema. Chamem-se os engenheiros civis, por favor. Chegou o momento de considerar a ordem.

 

Nomear é uma forma sofisticada de organização. Quando os nomes assentam sobre algo, visível ou invisível, são como uma nova camada de realidade. Aquilo que é nomeado torna-se concreto como uma pedra na palma da mão, como uma pena entre o indicador e o polegar. Então, podemos encontrar o lugar certo para esses objetos. Não faltam maneiras de arquivá-los: peso, tamanho, sabor.

 

Se essa ordem fizer sentido transportará verdade.

 

A verdade é um espelho.

 

De certo modo, um poeta é um engenheiro civil que constrói espelhos. De certo modo, o poema é um espelho. Mas, de certo modo, o poema é qualquer coisa.

 

O poema é respirar, cada vez que inspiramos e expiramos, ar limpo a limpar-nos o sangue. O poema é fechar os olhos, existir num lugar sem luz e sem corpo. O poema é sorrir, reflexo que não decidimos e que chega aos outros, entre nós e os outros, milagre.

 

Precisamos muito de poesia. A nossa grande sorte é que a poesia está em todos os lugares onde estamos, como uma sombra do que vemos, pensamos, dizemos, somos. A poesia está no que fazemos bem e no que fazemos mal. O desafio é procurá-la, aceitá-la, aprender a sentir-lhe o gosto. Dessa maneira, a vida ganha um brilho que, afinal, sempre esteve lá.

 

Repito: quando os nomes assentam sobre algo, visível ou invisível, são como uma nova camada de realidade.

 

As palavras sabem tudo.

 

Dentro das palavras, as vogais são como o sopro de uma flauta, música humana. As consoantes também são necessárias, há uso para todas as matérias, mas é preciso ter muito cuidado com as suas arestas. Podem cortar: p! Ou, quando permitem a repetição, rrrr ou vvvv, as consoantes são máquinas, são motores. As vogais chegam em paz, diluem-se na cor, preenchem o ar. Como se não sentissem o peso, as vogais transportam a vida das palavras.

 

Poesia é uma palavra que tem quatro vogais.

 

 

José Luís Peixoto, texto lido por Rui Mendes em homenagem à poesia e a José Régio, realizada pela Fundação INATEL em Portalegre, no dia 21 de março de 2016

 

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publicado às 10:05

Desrespeito

14.03.16

 

 

Como se distinguem as pessoas que não merecem respeito? Uma resposta clara a esta questão teria muita utilidade, ajudaria a avaliar a legitimidade das faltas de respeito.

 

Nas redações da catequese e nas conversas sobre o boletim meteorológico, toda a gente merece respeito. No mundo real, não é assim. Hoje, o desenvolvimento tecnológico permite-nos novas formas de desrespeitar os outros. As formas antigas não perderam atualidade, continuam disponíveis para os nostálgicos, mas acrescentaram-se muitas outras, mais confortáveis e eficazes para quem desrespeita.

 

Ao contrário do que Salazar apreciava, "respeito" não é sinónimo de "obediência" ou "submissão". "Respeito" é sinónimo de "consideração", s. m., é aceitar que os outros, independentemente de se concordar ou não com eles, têm o direito de existir.

 

Desrespeitar é negar o direito de existir, desrespeitar é uma forma de aniquilação moral. As diferenças entre desrespeito e opinião são muito mais concretas do que as apologias do desrespeito querem fazer crer. O desrespeito começa por ser um sentimento e, só depois, se exprime em palavras ou ações. Quando não é gratuito, o desrespeito nasce de uma dor: em algum momento, o desrespeitado lembrou o desrespeitador de algo que o incomoda em relação a si próprio. Nesse caso, o desrespeito é uma resposta. No entanto, não tem a ver com a pessoa a que se dirige, com aquilo que ela é, tem a ver com a imagem construída por aquele que desrespeita, tem a ver com aquele que desrespeita.

 

Ainda assim, hoje, vende-se o desrespeito muito barato. Desrespeita-se os outros em troca de uma gargalhada murcha, de um semi-sorriso, da convicção vaga de que esse desrespeito será identificado como inteligência e perspicácia. Independentemente da gratificação em causa, o desrespeito é sempre egoísta, é sempre um sinal de narcisismo e de vaidade.

 

Neste tempo, o desrespeito é também um sinal da crise. Há quem desrespeite como modo precário de vida. O mesmo desespero que leva jovens licenciados a estágios não remunerados e a call centers, leva muita gente ao desrespeito. Uns e outros acreditam que, aí, conseguirão encontrar alguma coisa que os salve do nada que vislumbram à sua volta.

 

Em qualquer dos casos, o desrespeito é uma agressão. O desrespeito é sempre uma agressão.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine, 13 de março de 2016

 

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publicado às 10:48

 

 

São como barcos à deriva na noite. Existem ainda, podemos vê-los, as fotografias do seu rosto estão bem focadas mas, ao contrário de nós, deixaram de estar enredados em tudo, deixaram de preocupar-se, dispensam a oportunidade de partilhar mais links, já chega, não precisam de comentar o que toda a gente comenta, não contabilizam o número de likes.

 

Os amigos do Facebook que morreram continuam na nossa lista. Não tivemos coragem de desamigá-los, apesar de sabermos que aquele perfil já não lhes pertence, eles já não estão lá. Às vezes, o quadrado com o rosto deles aparece a meio de qualquer caminho prosaico: sugerido quando procuramos alguém com um nome semelhante, quando entramos no perfil de um amigo comum ou por simples capricho da máquina. Entre vídeos de dois minutos, fotografias de alguém na praia e aforismos que podem rimar ou não, esses encontros súbitos lembram-nos que a morte faz parte do mundo.

 

Às vezes, também pode acontecer que sejamos nós a dirigirmo-nos aos perfis de Facebook dos nossos amigos mortos, sabemos onde encontrá-los. Lá, espera-nos um longo instante, tempo estagnado. O post mais recente que publicaram fala de um tema que o Facebook ultrapassou há muito. Existe uma grande diferença de tom entre esse post, ignorante da morte que se aproximava, e os comentários, póstumos, a lamentarem essa mesma morte. O nosso amigo nunca teve tantos likes e tantos comentários. Demasiado tarde, dirigem-se a ele, tratam-no por tu.

 

Que post escreveremos nós se soubermos que é o último?

 

Algum dia chegará essa hora. Espero que não seja novidade para ninguém, não quero ser eu a dar esta notícia aziaga. Algum dia chegará o momento em que todos estaremos mortos, até os mais inocentes, até aqueles que não merecem. Antes disso, no entanto, iremos acumular mortos entre os nossos amigos do Facebook. Se vivermos tempo suficiente, é possível que cheguemos a um momento em que, no Facebook, teremos mais amigos mortos do que vivos. Depois, entraremos também nessa multidão de mortos, perfis baldios, roupas fora de moda nas fotografias. Nesse dia, se olharmos para este instante preciso, acredito que vamos achar que passou pouco tempo entre aqui e lá, entre este e esse momento.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine, 17 de janeiro de 2016

 

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publicado às 09:42

Nos nossos rostos estavam já os traços deste rosto que o espelho reflete com nitidez humana. Nas nossas vozes, antes de ilusões e desilusões, antes da erosão, estava já esta voz.

 

É muito fácil esquecermo-nos de quando podíamos ser tudo. Fazíamos escolhas entre o que esperavam e o que não esperavam de nós. À nossa frente, estavam todas as possibilidades, apreciávamos essa distância. Aquilo que já estava definido impedia-nos de muito pouco.

 

E aconteceu o que as escolhas sempre pressupõem: tivemos de responder por elas e tivemos de viver com elas. O tempo foi marcado por esses dois tempos. Ao responder pelas escolhas que fizemos, fomos tecendo uma longa manta de autojustificações. Primeiro, precisámos de defender a nossas escolhas; depois, precisámos de defender o argumento que usámos para justificá-las; depois, precisámos de defender o argumento que usámos para justificar esse argumento; depois, um longo etc, tão longo que, a partir de certa altura, deixámos de ser capazes de identificar onde começou.

 

Por outro lado, na passagem dos dias e das estações, ao vivermos com as escolhas que fizemos, fomo-nos convencendo de que éramos apenas aquilo, de que somos apenas isto. Fomos rejeitando possibilidades até deixarmos de considerá-las.

 

Ainda assim, lá do fundo, há uns olhos que nunca deixaram de nos ver. Interrogam-nos em silêncio, observam-nos com a mesma pureza do seu presente. O brilho que sustentam não se extinguiu, apenas deixámos de reparar nele.

 

Sem o medo de perder o que julgamos ter alcançado, ainda podemos tudo. Não é fácil voltar a acreditar depois de todos os erros que cometemos e que, por autopreservação, atribuímos à ingratidão do mundo. Ainda assim, ao longo destes anos, o planeta mudou muito menos do que queremos imaginar quando repetimos que não há nada a fazer.

 

Há tudo a fazer. Esta é a constatação que mais nos desanima porque, debaixo dos gestos e das palavras, temos muito medo. Quando não suportamos sequer considerar esse medo, preferimos negá-lo. No entanto, não é dessa maneira que conseguimos fazê-lo desaparecer.

 

E assim, lá do fundo, no silêncio a que o tempo os obriga, há esses olhos que continuam a ver-nos. Seguem cada pensamento, respiram sempre que enchemos o peito de ar. No nosso rosto, na nitidez crua e fria deste espelho, estão ainda os traços desses rostos, faces de pele lisa, sem rugas ou cicatrizes. Nesta voz, naquilo que tem de mais limpo, estão ainda essas vozes que quase deixámos de reconhecer.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine, 20 de dezembro de 2015

 

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 (Foto por José Luís Peixoto)

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publicado às 09:50

Arquipélago

05.12.15

São um arquipélago celeste. Estas nuvens pertencem aos Açores como as lagoas, como os serrados, como a pronúncia de São Miguel. Talvez tenham nascido dos vapores das furnas, água que ferve na terra com o propósito de subir ao céu e, lá do alto, observar as nove ilhas, perfiladas na distância. Se assim for, é também certo que, tarde ou cedo, essa água não aguenta a falta que esta terra lhe faz e, num momento, irá lançar-se em gotas e oferecer-se no corpo do pasto, verde, verde.

 

São como as manchas no pelo das vacas leiteiras. Quem desenhou estas nuvens? Foram, com muita probabilidade, as mesmas mãos que traçaram as manchas no pelo das vacas, donas de tempo sem fim, animais de olhos doces, a transbordarem compreensão. É também possível que as nuvens sejam um relevo invertido das ilhas. Todos os dias diferentes, a darem forma a algo que, de outro modo seria completamente invisível, mas não menos real.

 

Talvez estas nuvens sejam os pensamentos dos açorianos. Nesse caso, o que esperam do futuro, amanhã, ou o que recordam do passado, ontem, fica esculpido nesses grandes corpos suspensos, e ora avança num lento êxodo que enche o céu, ora se mantém inerte, sem a ilusão do movimento. Há pensamentos de muitas ordens e, da mesma maneira, há nuvens com muitos feitios, rendilhadas com o melindre dos sentimentos complexos.

 

Quem pode assegurar com certeza total que estas nuvens não são as preocupações, ou o amor, ou o medo, ou a esperança dos açorianos? A ciência, por mais comprovada, não trata deste tipo de questões. Da poesia sabe a poesia.

 

Talvez estas nuvens sejam as lembranças daqueles açorianos que tiveram de partir. Nas terras onde estão, lembram-se da sua ilha, chão de pedras negras, vozes que ainda os chamam, a torre da igreja, o mar, e essas lembranças transformam-se em nuvens sobre estas ilhas, sobre este oceano. Ficam estas nuvens a vigiar as ilhas, materializam o cuidado que, desde lá, enviam nesta direção. Então, estas nuvens são olhos.

 

São os nossos olhos que passam demasiadas vezes pela beleza sem a reconhecer. Habituámo-nos a estas nuvens quando devíamos, todos os dias, procurar o céu na expectativa e no deslumbramento. Não há beleza que seja capaz de vencer esse desinteresse.

 

Estas nuvens, brancas de encontro à claridade, ou negras em dias entregues ao inverno, são nossas, fazem parte de nós e, ao mesmo tempo, existem na paisagem, lá longe, onde os nossos braços esticados não chegam. Essa é sempre a natureza daquilo que somos capazes de ver. Existe fora de nós e, pelo olhar, somos capazes trazê-la para o nosso interior. É aí, em nós, que se decide o peso destas nuvens: pesadas como basalto ou leves, em flutuação, sem peso.

 

Sim, estas nuvens são um arquipélago celeste, habitado por algo que precisa de atenção e consciência para existir, precisa de alma, espírito ou silêncio, respiração ou mistério, matéria secreta, tão nossa como o nosso nome, tão concreta como estarmos aqui, completamente invisível, mas não menos real.

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in Azorean Spirit, revista de bordo da Sata, edição de junho, julho, agosto 2015

 

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publicado às 12:44

Juntar as pontas dos ombros e dar algumas palmadinhas nas costas não é um abraço. Escrever "abraço" no fim de um e-mail também não é um abraço. Indiferente ao desenvolvimento social e tecnológico, um abraço continua a ser duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

 

Esses rapazes que aparecem com cartazes a oferecerem abraços nos festivais de verão têm graça e talvez sejam bem-intencionados, mas fazem publicidade enganosa. Não são os abraços que provocam as ligações, são as ligações que provocam os abraços. Um abraço não é apenas duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

 

Um abraço tem muita importância.

 

Quando eu era uma criança, teria talvez uns nove ou dez anos, o meu pai deu-me um abraço na cozinha da nossa casa. Era de madrugada porque essa era a hora em que, naquele tempo, se saía da minha terra quando se ia para Lisboa. O meu pai tinha uma operação marcada no hospital, estava vestido com as roupas novas e tinha medo. Enquanto me abraçava, o meu pai chorou porque, durante um momento, acreditou que podia nunca mais me ver. Os braços do meu pai passavam-me pelos ombros, a minha cabeça assentava-lhe na barriga, sobre o pullover. A lâmpada que tínhamos acesa por cima da cabeça espalhava uma luz que amarelecia tudo o que tocava: a mesa onde jantávamos todos os dias, o ar que ali respirámos em tantas horas anteriores àquela, em tantas horas ignorantes daquela. O meu pai usava um aftershave muito enjoativo, barato, que alguém lhe tinha oferecido no Natal. Agora mesmo, consigo ainda sentir esse cheiro com nitidez absoluta.

 

A operação correu bem. Depois do susto, depois da convalescença, o meu pai voltou para casa com uma cicatriz grossa e roxa na barriga, ficava à vista quando a camisa lhe saía para fora das calças ou na praia, apesar de usar os calções exageradamente puxados para cima. Depois disso, tivemos direito a nove anos em que não voltámos a pensar em despedidas.

 

Durante muito tempo procurei em toda a minha memória: as lembranças de quando regressou da operação ou, depois, quando tínhamos a mesma altura ou, mesmo depois, quando ficou doente pela última vez. Mas abandonei as buscas, não consigo recordar outra ocasião em que nos tenhamos voltado a abraçar. Essa madrugada na cozinha, a luz amarela, o aftershave, foi a única vez em que nos abraçámos na vida.

 

Não afirmo com leveza que um abraço tem muita importância. Há quinze anos que escrevo livros apenas sobre esse abraço.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine, 22 de novembro de 2015

 

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