Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012
Amor burguês

 

 

Havemos de engordar juntos.

 

Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz "cliente seguinte", estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.

 

As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.

 

É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.

 

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.

 

As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

 

Havemos de engordar juntos.

 

Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.

 

Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.

 

E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.

 

Nós acreditávamos.

 

Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho. 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012)






publicado por José Luís Peixoto às 19:22
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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012
Desmantelamento de um rio

Arranco os autocolantes da parede do quarto do nosso filho,
como se a faca eléctrica da cozinha me atravessasse o braço.
Sou eu que apago os seus desenhos na parede. Não são riscos,
são desenhos. Há lápis de cera espalhados e partidos pelo chão.
Depois de nós, esta morada terá outros nomes e chegarão cartas
pacientes à caixa do correio. Agora, são impossíveis de imaginar,
como o nosso ontem será impossível de imaginar. Foi aos poucos
que ficou apenas o sofá e as recusas e os armários esventrados.
Foi muito demoradamente que chegaram as noites em que durmo
no sofá, sob um cobertor oferecido pela minha mãe ou pela tua.
Por fim, tenho tempo para habituar os olhos às sombras e avaliar
a devastação, acordar com o frio da madrugada, o esquecimento,
e assistir àquela hora azul em que já não é de noite, mas em que
ainda falta tanto para ser de dia. Despejo no fundo de um saco
tudo o que está naquela gaveta que nunca ninguém arrumou.
À minha volta, há caixotes que servem para guardar os livros,
já estão divididos. Escolho o lugar para pousar os pés. Fizemos
coisas nesta sala vazia, tivemos pensamentos, aprendemos
alfabetos. Resta-me agora o que sempre tive e, como se caísse
desamparado na banheira, prossigo e continuo o meu trabalho,
como se batesse com a cabeça na esquina de uma gaveta,
prossigo e continuo o meu trabalho.

 

José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis

 




publicado por José Luís Peixoto às 01:02
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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
Voltar a casa

Devagar, aproximo a colher, oblíqua, do centro do prato. Por um instante, a circunferência de caldo e a colher formam um exemplo geométrico, são como a ilustração de ângulos num manual de matemática. Sinto o cheiro a conforto morno, a casa, a bem-estar, a inverno agasalhado. Abro caminho com a ponta da colher entre fios de couve, finos e embaraçados como ninhos de pardais. Quando a colher já está cheia e a levanto, não penso em mais do que na sua própria imagem. Fixo-a como se já lhe soubesse o sabor. Confirmo o melhor desse conhecimento no fim do gesto. Caldo verde. Fecho os olhos por um momento.

 

Após esse momento, o mundo reaparece. A minha mãe dá voltas à mesa. Tem pressa talvez por não querer que este tempo acabe. A sua imagem pisca de um e de outro lado da mesa. Antes de eu chegar, eu sei que a minha mãe enrolou folhas de couve na mão. Aproximou-as das lâminas do aparelho de ferro que as cortou em fios, a rodar por meio de uma manivela, preso à mesa por um grampo. Tenho essa memória desde pequeno, o som das folhas grossas de couve a serem cortadas, a sua cor verde-escura e o seu cheiro fresco, também verde. A voz da minha mãe mistura-se com o sabor da sopa. Diz-me: sabes quem é que morreu? Não sei, mas quero saber. Então, a minha mãe perde a pressa. Faz uma pausa para dar dois ou três passos, que se ouvem chinelados no chão. Dentro de mim, preencho esse silêncio com uma sucessão de rostos da minha infância.

 

Foi o Ti Zé Rente-às-Orelhas, diz a minha mãe. Quem? A minha mãe tenta explicar melhor: foi aquele homenzinho que morava na entrada da Devesa, vizinho do Mané Fãfã, o viúvo da Ti Chica Estreita. Eu conheço esses nomes, já os ouvi muitas vezes no meio de conversas, mas não estou a ser capaz de identificá-los. A minha mãe escandaliza-se: não sabes quem é o Mané Fãfã? Andaste à escola com dois sobrinhos dele, os filhos do latoeiro, o Armindo e o irmão mais novo do Armindo. Esses conheço bem: sim, claro, os filhos do latoeiro. O Mané Fãfã é irmão do latoeiro? Não, responde a minha mãe, o Mané Fãfã é irmão da mulher do latoeiro, a Rosalinda. Lembro-me dessa mulher, chegou a dar-me pão com mel quando brincava com os seus filhos, mas não sabia que tinha irmãos. Afinal tem, à farta, a minha mãe explica-me que essa mulher é a única rapariga de cinco filhos. Outro irmão dela é o Raposo. Até que enfim: ah, o Mané Fãfã é irmão do Raposo? Assisti-lhe a muitos jogos de sueca. Coitado. Que idade tinha? A minha mãe diz-me que não foi o Mané Fãfã que morreu, foi o seu vizinho, o Ti Zé Rente-às-Orelhas, um homem magro, solteirão, com mais de noventa anos, muito bem falante, mas bastante mouco. Morreu a ver a telenovela.

 

Não lhe recordo o rosto e, no entanto, consigo imaginar esse homem como se adormecesse, a merecer descanso. Digo: só me lembro do Mané Fãfã ter uma vizinha, aquela mulher maluca, despenteada, despassarada, a Violante. Com paciência, a minha mãe explica-me: essa é a vizinha de um lado. O Ti Zé Rente-às-Orelhas era o vizinho do outro lado.

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista UP (Dezembro, 2011)





publicado por José Luís Peixoto às 14:48
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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011
Somos a primeira pessoa do plural

Estamos tão perto uns dos outros. Somos contemporâneos, podemos juntar-nos na mesma frase, conjugarmo-nos no mesmo verbo e, no entanto, carregamos um invisível que nos afasta. Ouvimos os vizinhos de cima a arrastarem cadeiras, a atravessarem o corredor com sapatos de salto alto, a sua roupa molhada pinga sobre a nossa roupa a secar; ouvimos a voz dos vizinhos de baixo, dão gargalhadas, a nossa roupa molhada pinga sobre a roupa deles a secar; cheiramos as torradas dos vizinhos do lado, ouvimo-los a chamar o elevador e, no entanto, o nosso maior problema não é apenas não nos reconhecermos na rua. O nosso problema grande é estarmos convencidos que os problemas deles não nos dizem respeito. A nossa tragédia é acharmos que não temos nada a ver com isso.

 

Há três ou quatro anos, caminhava com um conhecido no aeroporto. De repente, ouviu-se um estalido. Ele agarrou-se ao peito com as duas mãos, caiu de joelhos e, pálido, esperou por morrer. Não morreu. Tinha-lhe rebentado um isqueiro no bolso da camisa. Aliviado, encostado a um balcão, a beber um copo de água, explicou que esse ardor repentino e esse susto pareceram-lhe um ataque cardíaco. Nunca tinha tido um ataque cardíaco antes, por isso confiou em descrições vagas, a que nunca tinha realmente prestado muita atenção. 

 

Há alguns anos também, talvez um pouco mais do que três ou quatro, tinha acabado de participar num jantar cordial, reconfortante. Toda a gente estava bem disposta, à porta dos anfitriões, longa despedida, graças, à espera de táxi. De repente, tocou o telefone de um senhor com quem tinha estado a conversar durante todo o serão. Ninguém reparou nesse telefonema até ao momento em que o senhor começou a chorar convulsivamente. Ficámos todos a olhar sem saber como chegar até ele. Tínhamos braços, estendíamo-los na sua direcção, mas continuavam distantes.

 

Irritamo-nos com a existência uns dos outros. Fazemos sinais de luzes àquele homem com setenta anos, num carro dos anos setenta, que anda a setenta quilómetros por hora na auto-estrada. Contrariados, esperamos por aquela pessoa que atravessa a passadeira, enchemos as bochechas de ar e sopramos. Impacientes, batemos no volante. Daí a minutos, depois de estacionarmos o carro, somos essa pessoa a atravessar a passadeira. Da mesma maneira, daqui a algum tempo, não muito, seremos esse homem com setenta, dos setenta, a setenta. O tempo passa. Se deitarmos lixo para o chão, alguém o apanhará.

 

Um amigo que teve um AVC, que passou por uma reabilitação profunda, que enfrentou a morte e a paralisia, depois de anos de fisioterapia, depois de esforço gigante e sofrimento gigante, falou-me da forma como esse susto muda tudo. Passa-se a apreciar aquilo que realmente importa. A imensa maioria das preocupações transformam-se em luxos ridículos, desprezíveis, alimentados pela cegueira. Após essa experiência de quase morte, ganha-se uma nitidez invulgar, que, no entanto, esteve sempre lá. Para percebê-la, bastava levar a sério a promessa de transitoriedade de tudo e, também, levar a sério essa palavra, esse planeta: o amor. Ao ouvi-lo, fui capaz de entender aquilo que dizia. Depois, também fui capaz de entender quando me disse: mas, sabes, ao fim de algum tempo, esquecemo-nos, voltamos a tomar tudo por garantido e voltamos a cometer os mesmos erros.

 

Repito para mim próprio: estamos tão perto uns dos outros. Não há nenhum motivo para acreditarmos que ganhamos se os outros perderem. Os outros não são outros porque levam muito daquilo que nos pertence e que só pode existir sendo levado por eles. Eles definem-nos tanto quanto nós os definimos a eles. Eles são nós. Eles somos nós. Se tivermos essa consciência, podemos usar todo o seu tamanho. Mesmo que pudéssemos existir sozinhos, de olhos fechados, com os ouvidos tapados, seríamos já bastante grandes, mas existe algo muito maior do que nós. Fazemos parte dessa imensidão. Somos essa imensidão que, vista daqui, parece infinita. 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Dezembro 2011)





publicado por José Luís Peixoto às 10:20
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Sábado, 26 de Novembro de 2011
José Luís Peixoto assina coluna na revista Up (revista de bordo da TAP)

"Imenso Portugal" é o nome da coluna que José Luís Peixoto assina desde Novembro de 2011 na revista Up, distribuída a bordo dos voos da TAP.

 

Este foi o primeiro texto publicado:

 

 

A TORRE DE BELÉM NÃO É VELHA, É NOVA

 

Eu e o meu filho andamos de bicicleta à frente da Torre de Belém. Através de caprichos suaves dos guiadores, para um lado ou para outro, desenhamos curvas longas e invisíveis nas pedras do chão, são lisas, quase não as sentimos. Temos a geometria de gaivotas a planar. O entardecer também é liso, é demorado. O tempo dessa hora cobre-nos com uma cor que gostamos de sentir na pele. Às vezes, o meu filho diz alguma coisa, um desafio, uma ideia que teve; e eu, para recebê-la, persigo a sua voz de menino de seis anos, atravesso uma aragem que chega do Tejo. A voz do meu filho, à frente da Torre de Belém, é como um raio de sol ainda, a luz, um reflexo, o brilho a piscar na superfície das águas do rio. Pedalamos sem querer chegar a lado nenhum, estamos exactamente no lugar em que queremos estar.

 

Um dia, talvez chegue o futuro. É possível imaginar toda a espécie de resultados, é mesmo possível imaginar a memória que teremos deste fim de tarde mas, se o fizéssemos, perderíamos os detalhes de estar aqui. Nem o meu filho e nem eu pensamos no que não sabemos se acontecerá. Os instantes sucedem-se à frente da Torre de Belém e, mesmo entardecendo, cada um tem a sua própria claridade, Lisboa enorme, o Tejo enorme, ambos tão serenos. E levantamo-nos do selim, pedalamos de pé, o ângulo de um joelho, o ângulo do outro joelho, um ombro, outro ombro. Passam-nos séculos pelos cabelos à velocidade precisa deste rio, desta torre de pedra erguida para fazer parte de hoje, deste tempo nosso, meu filho. Outros, com propósitos diferentes, estiveram aqui, atravessamos o espaço que deixaram vazio de gente, mas povoado de esperança e certeza. Respiramos séculos, são frescos ao tocar-nos na cara. O oceano não fica longe daqui.

 

Em casa, depois de jantar, depois de uma hora com bonecos de plástico, desenhos de super-heróis com canetas de feltro, vou deitar o meu filho. Chegou finalmente a noite. Ele entra de pijama nos lençóis e eu fico vestido por cima da roupa na cama, ao seu lado. Com a luz apagada, as nossas vozes tornam-se mais importantes, ganham toda a nossa atenção. Atrás da escuridão, apenas o som de carros que passam muito longe, o som que a cidade faz a existir. Então, ele pede para lhe contar uma história. Tenho um braço pousado sobre ele, espécie de abraço, sinto o tamanho pequeno do seu corpo, seis anos, e começo a contar-lhe a história. Não sei quanto tempo dura esse enredo porque, depois, mais tarde, sem explicação, acordo. Ele continua a dormir. Ao levantar-me, tento lembrar o momento em que adormeci. Nunca consigo. Puxo-lhe a roupa da cama até aos ombros e, antes de fechar a porta, só então, fico parado a contemplar esse momento, a compará-lo com todo o tempo que conheço, com todo o tempo que imagino, séculos que me antecederam, que me hão-de suceder, e, como se transbordasse, agradeço ao mundo por aqui ser aqui, por agora ser agora e eu estar cá. 

 





publicado por José Luís Peixoto às 12:33
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Terça-feira, 22 de Novembro de 2011
Texto incluído em "Abraço"

O BARULHO QUE SOU

 

 

Não tínhamos baixista, mas nunca sentimos a sua falta. Durante meses não tivemos baterista. Esse sim, era falado, passávamos tardes inteiras a imaginá-lo. Mas essa ausência não nos atrasou, gravámos a primeira demo tape sem baterista: duas guitarras eléctricas e voz. Depois disso, não era possível o regresso ao nada e, durante alguns meses, tivemos um baterista que não tinha bateria e que não sabia tocar bateria. A sua primeira qualidade era ouvir o mesmo tipo de música que nós. Mais ou menos, claro. No caso de alguém perguntar pelas nossas influências, todos tínhamos um conjunto de bandas diferentes para responder, uma lista. Na escola, depois de muito, conheci um amigo do Índio que tocava bateria, que tinha bateria e que gostava de Grindcore. Eram os inícios dos anos noventa, era o século vinte, era o interior do Alto Alentejo e seria bastante curioso se alguém das matemáticas calculasse as probabilidades de ter acontecido aquilo que aconteceu.

 

O Índio era um dos colegas de turma com quem, nos anos oitenta, trocava cassetes nos intervalos das aulas. Em toda a escola, entre mais de mil alunos, éramos quatro ou cinco. Partilhávamos toda a música pesada que conseguíamos encontrar. Heavy Metal. Quando algum enchia uma cassete gravada da rádio ou de alguém que tinha vindo de fora ou, muito raramente, quando alguém comprava um disco, partilhávamos entre nós. A nossa música era um segredo que quase ninguém tinha interesse de conhecer. As poucas pessoas a quem passávamos os auscultadores, faziam caretas ao mínimo contacto com o som. Esse ainda não era o tempo do Grindcore, dávamos a ouvir bandas como: Iron Maiden, Motörhead, Metallica. Insistíamos para que ouvissem um pouco mais, mas era-lhes intolerável, não reconheciam melodia e diziam que era sempre igual. A palavra que mais utilizavam era "barulho". Fomo-nos habituando a essa decepção repetida. A música que nos elevava, que nos agarrava pelo centro e que levantava cada poro da nossa sensibilidade, era repugnante para quase todos. Essa característica era má e era boa. Era triste não dividirmos a intensidade dessa música com aqueles que eram importantes para nós, mas era bom, muito bom, o muro que essa música levantava entre nós e aqueles que agrediam a nossa adolescência. Todo o tamanho dessa música era um mundo sem eles.

 

Nesse tempo, sempre que faltava um professor, ia à papelaria e folheava a Metal Hammer até a saber de cor. Esperava toda a semana por programas de rádio onde ficava a conhecer bandas como os AC/DC. Esse entusiasmo preenchia-me os dias e, à noite, quando adormecia, sonhava com ele. Aos poucos, saboreando cada passo, ia destapando um universo. Com ele, crescia eu e crescia o meu cabelo. A minha mãe ouvia as mulheres na mercearia a comentarem-lhe o meu penteado e, por graça, oferecia-me uma recompensa de cinco contos. Eu queria que o meu cabelo crescesse depressa. Passou por todas as fases, incluindo a fase "jogador de futebol da América do Sul". Não era um cabelo bonito, mas era forte. Lavado todos os dias, encaracolado em canudos, dava para abanar enquanto ouvia cassetes no meu quarto. O primeiro objecto que comprei com o dinheiro que ganhava a trabalhar no verão foi, aos catorze anos, um gravador. Esse era o aparelho que enchia o meu quarto de música. Depois, aos dezasseis, passei o verão a trabalhar e a pensar na guitarra eléctrica que, no outono, comprei em Lisboa. Também um amplificador, também um pedal de distorção, claro.

 

O facto de eu tocar guitarra eléctrica diz um pouco acerca da qualidade musical da banda. Mas a banda tinha muitas outras qualidades. Ensaiávamos no quarto dos dois irmãos que partilhavam comigo a formação original. O mais velho tinha vivido em Inglaterra e tinha trazido alguns discos. Folheámos o dicionário para escolher um nome. Os critérios eram claros: queríamos uma palavra algo perturbadora e longa, com muitas letras. Chegámos a duas possibilidades: "Hipocondríacos" e "Arteriosclerose". Debatemos o assunto. Não me recordo dos argumentos desse debate, tenho pena. A banda ficou a chamar-se "Hipocondríacos".

 

Gravámos duas demo tapes, fizemos a primeira parte de um concerto de uma banda de Thrash Metal da margem sul, Brain Dead, e escrevemos o nome "Hipocondríacos" em dezenas de mesas da escola. Respondemos a um número grande de entrevistas em fanzines de fotocópias, enviámos cassetes para países como a Polónia, a Suíça, os Estados Unidos, o Brasil e muitos outros. Ainda hoje me pergunto o que pensariam esses coleccionadores de música pesada no momento em que ouviam aquelas cassetes, gravadas no quarto dos irmãos. Só muito dificilmente poderiam imaginar as ruas que eu atravessava para chegar ao ensaio, as paisagens de hortas, as paredes de cal a lascar, os rebanhos de ovelhas com que me cruzava, os velhos que ficavam encostados ao cajado, admirados com o cabelo comprido, admirados com as calças de ganga manchadas com lixívia, admirados com as caveiras das t-shirts, os velhos a seguirem cada um dos meus passos, boa tarde, e a serem capazes de embaraçar-me as pernas com o olhar. Quatro ou cinco anos após o fim da banda, a minha mãe ainda recebia cartas endereçadas a "Hipocondríacos", chegavam de vários pontos do mundo e queriam trocar cassetes. Acreditamos que foi a primeira banda a tocar Hardcore/Grindcore em toda a região. Mais cedo ou mais tarde, alguém acabaria por levar o Hardcore/Grindcore ao Alentejo. No início dos anos noventa, século vinte, coube-nos essa honra. Soubemos e sabemos apreciá-la.

 

 





publicado por José Luís Peixoto às 16:11
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
Os professores

O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.

 

O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva. O trabalho dos professores é a generosidade.

 

Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O acto que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer.

 

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu.

 

Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo, sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar. Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.

 

Recusar a educação é recusar o desenvolvimento.

 

Se nos conseguirem convencer a desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os professores. Tenho esperança.

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Outubro, 2011)





publicado por José Luís Peixoto às 15:45
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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011
Crianças de fogo

Ela não sabia que os padeiros estavam em greve. Só soube depois. Ela  tinha ido passar a noite com a prima, estavam sozinhas na barraca de madeira, estavam a dormir, quando foram despertadas pelas chamas. Correu para a porta, tentou abri-la, mas estava fechada. Atrás do rugido do fogo, ouviam-se as vozes dos homens na rua. Com queimaduras em todo o corpo, nas mãos, no rosto, ficou em coma durante três meses e, só depois, soube que os padeiros estavam em greve. Foi por isso que os homens vieram queimar a barraca do tio enquanto ele estava a trabalhar na padaria. Foi por isso que trancaram a porta e não a deixaram sair.

 

Nessa noite, tinha dezassete anos e, no momento em que me conta a sua história, tem vinte e um. É a mais velha, ainda está na associação para continuar a ter oportunidade de estudar em Joanesburgo. Falamos em inglês, mas a sua língua, aquela que a mãe lhe ensinou, é xhosa. Esse é o idioma onde algumas palavras se pronunciam com estalidos da língua. Tenta ensinar a dizer "lagarto" em xhosa, dois estalidos. É muito difícil. Todos nos rimos das tentativas. Ao meu colo está Nkosi, o mais novo, dois anos e oito meses. Nasceu no Zimbabwe e olha para ela com a mesma admiração. Tem o rosto queimado, sem nariz, o lábio de cima desfeito, a pele com uma mistura de tons claros e escuros, cicatrizes grossas negras e manchas claras, dois olhos grandes a verem tudo. Nkosi caiu sobre uma fogueira quando tinha vinte meses. É seropositivo. O seu nome significa: "Obrigado, Deus".

 

Children of Fire, crianças de fogo. Esta associação não governamental foi fundada na África do Sul por Bronwen Jones quando tomou contacto com Dorah Mokoena, uma menina de três anos, que tinha sofrido queimaduras muito graves aos seis meses de idade, e a quem se preparavam para remover os olhos, pois a sua preservação era demasiado cara e todos acreditavam que morreria em breve. Num país com quilómetros quadrados de barracas iluminadas por candeeiros a petróleo e aquecidas por fogo, que dão origem a mais cinquenta mil incêndios por ano, as vítimas infantis nunca pararam de chegar. Enquanto conversamos, Dorah está por perto. Tem dezassete anos, a boca foi reconstruída com pele recolhida das costas, tem um nariz de borracha, consegue ver claridade e algumas cores, não tem mãos. E sobreviveu.

 

Bronwen faz um sinal e todas as crianças dirigem-se a mim com um presente. O meu aniversário é na semana seguinte e as crianças fizeram-me um cartão assinado por todos, Happy Birthday from Children of Fire. Rodeiam-me e mostram-me os desenhos que fizeram no cartão, uma página cheia de flores, estrelas e corações. Trocamos beijos, abraços, aperto mãos pequeninas, algumas com falta de dedos, outras sem qualquer dedo. As crianças cantam-me os parabéns. Tiramos uma fotografia juntos.

 

Antes de chegar, quando ainda só tinha visto as fotografias das crianças na página da associação na internet, pensava que me ia fazer impressão. Nunca tinha estado na presença de tantas pessoas queimadas. Mal atravessei o portão, percebi que não ia ser assim. Estavam todos no pátio e correram na minha direcção, queriam ver-me e queriam brincar. Para lá dos rostos desfigurados e da maior ou menor agilidade, eram crianças. Ao mesmo tempo, percebi a razão das fotografias na página da internet, do documentário e de todas as formas que a associação utiliza para mostrar os seus rostos. Aquelas crianças precisam que o mundo as veja, que o mundo saiba que existem. Mais ainda, o mundo precisa de ver aquelas crianças. É bom para as crianças saberem que o mundo as considera para lá da pele, e é bom para o mundo que seja capaz de considerar os outros para lá da pele.

 

Feleng tem dez anos e é um rapaz muito engraçado. Quando Bronwen fala de cirurgias, interrompe para descrever aos outros a neve que viu na Suíça e, depois, conta que os médicos lhe tiraram duas costelas e lhas meteram no crânio. Os outro fazem sons e gestos de incómodo e riem-se. Bronwen explica que, assim, o enxerto ósseo crescerá ao mesmo tempo que o crânio. Nunca tinha pensado nisso. Há tanto em que nunca pensei.

 

Ao passear pela escola, caminho sempre de mão dada com o pequeno Nkosi. Quando chega a hora de ir embora, ele não quer largar-me a mão. Ao despedir-me de todos, ele começa a chorar. Na rua, dou passos, afasto-me e ouço-o a chorar. Já dentro do carro, ainda o ouço a chorar. 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Setembro, 2011)

 

 

 

Clicar para aceder ao site da ONG Children of Fire.

 





publicado por José Luís Peixoto às 20:44
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Terça-feira, 26 de Julho de 2011
Terra che copre, terra che nutre

Artigo sobre a obra literária de José Luís Peixoto e a sua relação com a terra, da autoria de Silvia Cavalieri, publicado na revista académica Confluenze da Universidade de Bolonha, clicar aqui:

 

Terra che copre, terra che nutre - Morte e (ri)nascita nella scrittura di José Luís Peixoto

 

 

 

 



publicado por José Luís Peixoto às 11:31
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Sábado, 23 de Julho de 2011
Adeus, Olivais Sul

Lembro-me do meu filho e eu a atravessarmos o largo das mamas. O meu filho a dar pontapés na bola, em direcção ao campo, e eu a caminhar atrás dele, a segui-lo. Antes, num dia que não recordo com data, contei-lhe que se chamava largo das maminhas, como se o diminutivo tornasse mais tolerável o facto de avançarmos entre elevações arredondadas da calçada, mamilos gigantes de pedra. Chegados ao campo, lembro-me do meu filho a rematar à baliza com toda a sua força e eu, que já tinha desistido das minhas ambições futebolísticas do início da adolescência, que já as tinha esquecido, a recuperá-las de novo durante uma hora.

 

Pensamos que é por pouco tempo e, de repente, passam cinco anos, dez anos, uma idade, uma fatia de vida. Não sei quanto tempo contamos viver. Creio que preferimos não pensar nisso. Para fazê-lo, teríamos de considerar aquilo que, um dia, irá acontecer a estas mãos, a este corpo, a estes ossos. Pó. Todas as despedidas são parte dessa grande despedida.

 

Sair da segunda circular e chegar a casa. Se pudesse, criava um dia novo e oferecia-o aos Olivais: manhã de sábado, tarde de domingo e noite de sexta-feira. Os Olivais mereciam um dia assim. Os senhores podiam passear os cães o dia inteiro e as senhoras podiam vestir aqueles vestidos e aqueles sorrisos de ir ao centro comercial. As testemunhas de Jeová podiam ficar sentadas à sombra, com as revistas no colo, a porem a conversa em dia enquanto esperavam que passasse alguém. As crianças podiam encher-se daquela alegria limpa, antes de entrarem na Quinta Pedagógica, de mãos dadas entre a mãe e o pai.

 

Tantas manhãs, tantos almoços e jantares, foi com tanta tranquilidade que pousei as pálpebras sobre os olhos para adormecer nos Olivais. Tantas vezes que andei à procura de lugar para estacionar o carro e tantas vezes que, no dia seguinte, não me lembrei onde o tinha estacionado. E, ao longo da tarde, tocava a campainha: quem é? E uma voz brasileira através do intercomunicador do prédio: publicidade, pode abrir a porta, senhor? E os autocarros a passarem de dia, de noite, e eu a aprender o barulho que fazem quando vão vazios. Os Olivais no verão, os Olivais no inverno. Os homens do lixo às três da manhã.

 

Pertence-me este pedaço de céu que está aqui, à minha frente. Estou a captá-lo com a abrangência máxima dos meus sentidos. Se quem vai a conduzir aquele carro é dono dele por dentro, eu sou dono dele por fora enquanto o sigo com o olhar. É por isso que os Olivais me pertenceram e que eu pertenci aos Olivais, respirámos o ar um do outro. Enquanto acartava carradas de livros, eu sentia os prédios dos Olivais a despedirem-se de mim, eu sentia as árvores a recordarem-me tudo, bom e mau, que seria fácil esquecer. Os lugares são mais espertos do que as pessoas em assuntos dessa cor. Conhecem muito melhor o tempo, aceitam-no.

 

E ainda tudo. Eu a carregar livros e objectos, como se assaltasse uma casa, como se fugisse, e ainda tudo. Os velhos a deslizarem pelos passeios como barcos. Ou sentados em cadeiras de plástico do centro comercial, a verem televisão, sozinhos, a lerem jornais gratuitos, a olharem uns para os outros. As mulheres escolheram brincos e trouxeram a mala para passarem a tarde, sentadas ao lado dos homens, em silêncio, nas mesas da praça da alimentação, sem consumir. Ou no supermercado, a compararem preços, a olharem para todas as prateleiras e a saírem com um pão, um pacote de margarina, um pacote de leite, duas maçãs. Se pudesse, abraçava agora os velhos dos Olivais um a um, mesmo os mal-dispostos, mesmo os rezingões, mesmo os fascistas.

 

E ainda tudo. Os carros das escolas de condução a estacionarem de marcha atrás, a pararem sempre antes das passadeiras, a fazerem sempre pisca, cheios de letras fluorescentes e jovens assustados em segunda, como carrinhos de pilhas, sem pararem nunca, às voltas, às voltas. Eu a levar caixas, a sentir o tamanho solene daquele momento e os alunos do ciclo preparatório, condenados perpetuamente àquela idade, sem crescerem ao longo de todo o tempo que ali passei, a rirem-se despropositadamente e a fumarem cigarros como se estivessem muito habituados, e ainda aqueles bonés, aquelas sapatilhas, aquelas mochilas, ainda tudo.

 

Despeço-me agora, Olivais Sul, mas hei-de voltar. Por favor, não te esqueças de mim. 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Junho 2011)

 

 

 

 



publicado por José Luís Peixoto às 11:36
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