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Quando o cavaleiro acordou, apenas encontrou escuridão à sua volta. Conseguia ainda sentir o cavalo debaixo de si mas, estranhamente, não lhe distinguia um movimento mínimo, nem a respiração, nem um esticão de pele para afastar as moscas, nem o pescoço maciço a virar-se todo para um lado ou para outro. Na verdade, o cavaleiro não conseguia distinguir os seus próprios movimentos, tentava lançar um braço para a frente, tinha a sensação nítida de estar a fazê-lo, mas não conseguia sentir esse gesto simples. Fazia como se estivesse a tocar o seu corpo, passava as mãos pelo peito, sabia-se a fazer esse movimento, mas nem sentia as mãos no peito, nem sentia o peito nas mãos. Chegou a pensar que ainda estava adormecido. Talvez estivesse num daqueles sonhos em que se consegue ter a consciência de estar a sonhar. Esses sonhos tornam-se mais nítidos e reais no momento em que está quase a acordar. Este pensamento acalmou o cavaleiro. Quase adormeceu de novo enquanto esperava por acordar daquele sonho. Então, pareceu-lhe que não podia adormecer dentro de um sonho e, assim, concluiu que não podia estar a sonhar. Foi então que pensou que estava morto. Essa conclusão foi um instante de pânico seguido por uma tranquilidade absoluta. Se estava morto, para quê preocupar-se? Tinha pena daquilo que gostaria de ter feito, mas tinha a memória das muitas coisas que conseguiu fazer. Habituou-se à ideia de estar morto. Depois, aos poucos, foi-se aborrecendo da morte. Não acontecia nada dentro da escuridão. Era um negro opaco, sem qualquer quebra. Nessa falta de novidades, havia apenas o som. Em muitas ocasiões, o cavaleiro dirigia toda a atenção para o som. Aquilo que ouvia deixava-o perplexo. Distinguia claramente vozes de pessoas. Mas não conseguia perceber qual era a língua que falavam. Incansável, o cavaleiro tinha percorrido todo o reino. Durante todos esses anos, nunca tinha escutado nada que se assemelhasse àquela língua. Era o outro mundo, pensava, era a morte. Seria aquela a língua dos anjos? O cavaleiro não sabia. Chegou também a pensar que poderia estar cego. Mas, se assim fosse, porque estaria montado no seu cavalo completamente suspenso? O cavaleiro tinha muitas perguntas. Tinha poucas respostas. Ia esperar. Não havia mais nada que pudesse fazer. Inquieto e imóvel, observava a escuridão.

 

De repente, a escuridão rasgou-se. O cavaleiro de madeira, montado no seu cavalo, chegou às mãos do menino. As cores da árvore de Natal, por trás, brilharam mais nesse momento por efeito do rosto do menino. O avô, sentado a pouca distância, dizia-lhe: calma, devagar. O avô sorria e o presente que ele próprio recebia era poder assistir ao entusiasmo com que o neto segurava no cavaleiro de madeira, imaginando-lhe aventuras. O pai estava no outro lado da sala. Talvez a cidade existisse por detrás das janelas. Ninguém poderia saber ao certo. A mãe aproximou-se do avô, seu pai, e sorriu-lhe. O menino veio a correr e mostrou-lhe os pormenores com que o cavalo e o cavaleiro tinham sido esculpidos. Nesse dia de Natal, o menino tinha quatro anos. Mais tarde, já adulto, haveria de ter uma memória, distorcida, daquelas horas. Essa seria uma memória feita de tempo morno. Adulto, quando visitava a mãe e passava pela moldura com a fotografia do avô, pendurada no corredor, sentia ainda o conforto daquela manhã, o amor. O cavaleiro de madeira acompanhou-o ao longo de toda a infância. As suas cores foram-se desbotando. Os pormenores do rosto e das mãos foram-se lascando. Adulto, segurava o cavaleiro de madeira dentro das suas mãos de homem e conseguia ver-lhe as imperfeições, mas conseguia também vê-las cobertas por tudo o que tinha descoberto naquele dia de Natal. O avô tinha conversas com a mãe e sorria ao vê-lo brincar no chão da sala. Às vezes, o pai chegava com braçadas de lenha que, ao longo das horas, ia dispondo na lareira. A felicidade existiu em todos os pormenores daquela sala. O tempo iria decantá-la pelas vidas que ali se reuniram e que ali celebraram a sua reunião.

 

Gostaram?, perguntou a mãe. Não percebi a última frase, disse a Patrícia. O que significa “decantá-la”?, perguntou a Inês. As gémeas estavam tão despertas depois de ouvirem a história como tinham estado antes de a começarem a ouvir. A mãe fechou o livro e, antes de explicar, puxou-lhes os cobertores sobre o peito. Então, disse-lhes: o que a última frase quer dizer é que eles estavam muito felizes por estarem juntos, que isso é que era importante e que essa felicidade continuou com eles durante todas as suas vidas. As gémeas não mexeram o olhar, continuaram a fixar a mãe. E se fechássemos a luz?, perguntou. Estava cansada. Tinha sido um dia longo. Mãe?, chamou a Inês. Sim?, disse a mãe. E a Inês fez-lhe perguntas sobre os presentes. A Patrícia também fez perguntas sobre os presentes. A mãe sempre se admirou com o modo como as gémeas tinham exactamente as mesmas perguntas para fazer. Era como se uma e outra soubessem exactamente as mesmas coisas. A mãe disse que, na manhã seguinte, quando abrissem os embrulhos, logo saberiam. Disse que, naquele momento, não valia a pena estarem a preocupar-se com isso, o melhor seria descansarem bem porque, quando acordassem, haveria muito para brincar. As gémeas conformaram-se com esta explicação e, a Patrícia primeiro, a Inês depois, fecharam os olhos. A mãe afastou-se devagar, as meias sobre a alcatifa, e, quando encostou a porta, olhou para os vultos a respirarem longamente sob o cobertor. Com cinco anos, as gémeas estavam muito crescidas. A mãe chegou à cozinha. Os azulejos brancos reflectiam a luz da lâmpada fluorescente. A mãe tirou uma caneca do armário. Era uma caneca de loiça, gasta pelas lavagens da máquina, as cores esbatidas. Do frigorífico tirou um pacote de leite. Encheu a caneca e colocou-a no micro-ondas. Ficou a olhar para ela enquanto rodava, iluminada, como uma caneca que fosse bailarina num palco de vidro. Plim: o toque demasiado alto, demasiado estridente do micro-ondas. A caneca estava a escaldar, mas o leite estava apenas morno. Mexeu-o com uma colher. Então, sentou-se numa cadeira, ao lado da pequena mesa da cozinha onde pousou o cotovelo. E assim ficou, em pijama, de meias, a beber leite morno e a olhar para o ar. 

 

 

In Abraço, Quetzal Editores, 2011

 

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publicado às 19:20

Feira do Livro

04.05.12

Agora, quando penso nisso, as nossas cores, as cores das nossas roupas e das nossas ideias são como um quadro de Renoir. Ficávamos sentados sobre a relva inclinada e, à nossa frente, como um rio, estavam as pessoas que subiam e desciam com sacos de plástico cheios de livros, que paravam para ver livros. Ficávamos sentados e apenas falávamos de livros, os que tínhamos comprado e, sobretudo, todos os que éramos capazes de imaginar. O mundo era um caminho que se abria à nossa frente, uma vertigem. Nós não tínhamos medo de nada quando líamos em voz alta de livros que trazíamos de casa. Sem que o soubéssemos, uma parte grande das nossas vozes era já definitiva, a maneira como hesitávamos era já definitiva. A sombra, o cheiro da relva e os altifalantes a anunciarem sessões de autógrafos. Agora, quando penso nisso, sinto um sabor doce nos lábios, fresco, é o sabor a supermaxi.

 

Agora, nesta tarde de calor, no nosso lugar, estão outros como nós. Compreendem tudo o que também nós compreendíamos, e já esquecemos. São ainda capazes do verão e, por consequência, da liberdade. Para eles, as palavras têm outro valor, encontram-nas em poemas que guardam em papéis dobrados no bolso de trás das calças, em livros que trazem de casa. As cores deles são nítidas como todos os objectos. Agora, enquanto subimos ou descemos, sacos de plástico cheios de livros, tentamos distingui-los e temos medo de já não sermos capazes de o fazer.  

 

José Luís Peixoto, in Abraço

 

 



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publicado às 15:03

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publicado às 15:44

10 de Dezembro - 15h - Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor

19 de Dezembro - 18h30 - Livraria Bertrand (Fórum Aveiro)

20 de Dezembro - 18h30 - Livraria Arquivo, Leiria

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publicado às 15:35

5 de Dezembro - 18h30 - Fnac Colombo - Apresentação

6 de Dezembro - 18h30 - Fnac Vasco da Gama - Autógrafos

7 de Dezembro - 21h30 - Fnac Coimbra - Apresentação

8 de Dezembro - 15h - Fnac Alfragide - Autógrafos

8 de Dezembro - 18h30- Fnac Chiado - Apresentação

9 de Dezembro - 18h30 - Fnac Guia/Algarve - Apresentação

11 de Dezembro - 18h30 - Fnac Cascais - Apresentação

15 de Dezembro - 18h30 - Fnac Braga - Apresentação

16 de Dezembro - 21h30 - Fnac Gaia - Apresentação

17 de Dezembro - 18h30 - Fnac Santa Catarina - Autógrafos

17 de Dezembro - 22h 00 - Fnac Norte Shopping - Apresentação

18 de Dezembro - 18h30 - Fnac Guimarães - Apresentação

 



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Temas:

publicado às 17:34

- Correio da Manhã - Apesar de ‘Abraço' ser formado por crónicas isoladas pode ser lido como um romance, dada a continuidade que passa. Foi fácil a articulação?


José Luís Peixoto - Para mim, o que foi mais difícil e o maior desafio na construção deste livro foi justamente a selecção dos textos e a sua organização. No momento em que me propus a transformar todo o material que tinha - que eram dez anos de publicações em revistas e jornais - não era muito evidente como ia pegar naquilo e dar a forma que eu queria. Encontrar um fio narrativo, uma sequência lógica que permitisse criar um livro e não num simples arquivo.

 

- Houve então uma intenção de criar uma sequência.

- Sim. E a estrutura do livro é próxima da árvore, no sentido em que tem um tronco com diversas ramificações. Esse tronco, a partir do qual tudo vai derivando, é uma sequência autobiográfica, o que faz com que o livro seja, em certa medida, um livro de memórias. Desde a minha primeira memória, até episódios muito recentes da minha vida. Tudo acaba por assentar em três pilares, que são três idades: os seis, os 14 e os 36 anos. De certa forma quis que isso fosse sugerido por um texto que é o primeiro e que está fora dessa estrutura. É um texto em que falo dos meus filhos. As idades de seis e 14 são as dos meus filhos e 36 a minha própria idade quando terminei o livro.

 

- Há uma crónica em que se fala do acto de se expor e não se ver problema nisso. Não há, portanto, receio de partilhar a intimidade? 

- Não, este livro entra muito profundamente na intimidade. Há textos que estão muito nesse âmbito. Não vejo motivo para as pessoas se surpreenderem com a intimidade. Não se está a revelar nada que não seja da esfera do humano. Chorar, por exemplo, toda a gente chora... As coisas consideradas mais íntimas toda a gente as faz. Daí este título, ‘Abraço', ser tão afectivo.

 

- E caloroso.

- Sim, porque é humano. É algo que é transmitido de uma pessoa para a outra. E isso é algo de precioso. Parece quase um slogan, mas enquanto estava às voltas com a organização deste livro, pensei no que era mais importante para mim. Por um lado, estava restringido pelo que tinha, por outro o que queria dizer e dar aos outros. A conclusão que cheguei é que queria fazer alguma coisa sobre o que é mais importante para mim. São os meus filhos. Há aquela palavra sobre-utilizada, que talvez o seja devido à sua importância, que é o amor. O primeiro texto do livro, em que o meu filho mais novo me vai perguntando sucessivos ‘porquês?' a partir de uma afirmação simples. A resposta final acaba por ser "Porque o amor, filho." No fundo é isso: quando penso naquilo que é efectivamente importante para mim, e coloco uma lupa em cima disso, e quando penso no que faz ficar de consciência tranquila de dar aos outros vai sempre dar ao amor.

 

- O livro assenta muito nos conceitos ‘família', ‘paternidade', ‘amor', ‘morte'...

- Às vezes, para mim, também é importante dizer aos leitores que sou uma pessoa. Os autores muito facilmente podem ser desumanizados, apesar de fazerem algo de tão humano como a escrita. A relação entre o leitor e o autor é bastante distante, porque se processa através das palavras e através de um meio que não privilegia o contacto directo.

 

- O seu estilo contraria isso.

- Tento aproximar-me e dizer às pessoas que aquilo que faço é o que elas fazem. É o que toda a gente faz. Até a Rainha de Inglaterra.

 

- Por outro lado, fala-se de Facebook, fala de uma tampa de caneta esquecida num bolso ou de uma rapariga na esplanada. Há aqui um elogio das coisas simples?

- Sim. E do presente e do prosaico. A soma disso acaba por ser a nossa vida. Isso faz-me pensar na importância destes textos para mim.

 

- E revê-se em todos eles? Até nos mais antigos?

- Neste livro, dos textos que publiquei nas mais diversas publicações, os que não estão neste livro são os que considero que não têm validade. Esta é a escolha daqueles que merecem ser lidos no futuro. Um livro como este corre o risco de ser subvalorizado por não ser um romance nem um texto inédito. Tenho muita pena se isso acontecer e vou fazer de tudo para que tal não aconteça. Sinto que se há algo que a mim me dá uma imagem do que foi o meu trabalho de escrita nos últimos dez anos é este livro. Quais foram os meus interesses, os meus temas... Há inúmeras situações, personagens, lugares dos meus romances que se percebem aqui de onde vêm. Para mim, este livro é tão importante quanto os restantes. Não é um repositório, um caixote, uma gaveta.

 

- É, portanto, um livro de balanço de uma década?

- Exactamente. Precisava de organizar tudo o que tinha. Não no sentido de organizar os papéis que tinha lá em casa, mas organizar a minha cabeça e para poder ter novas ideias. É muito importante tirarmos do nosso sistema o que temos para termos novas ideias. Precisava de fazer o balanço de todas estas questões para avançar com novas ideias.

 

- O ‘Abraço' é o fechar de um ciclo? 

- Sim, este novo livro fecha um ciclo. Não porque abandone alguns temas que, se calhar, não tenho completamente resolvidos, mas também por fico com uma noção muito mais clara do que me falta dizer.

 

- Um tema que tem sido muito focado na sua obra e, obviamente, retratado neste livro, são as suas raízes, na Galveias. É um desses temas que nunca ficarão resolvidos?

- No que diz respeito à minha terra e ao Alentejo, ainda só comecei a escrever sobre o tema. Tenho muito para dizer. Há aí uma coisa que me fascina e que faz parte de mim que é a procura de um lugar no Mundo. Falando de tantos temas, este livro fala de viagens, de desenraizamento, de aeroportos, de hotéis. Quanto mais viajo, mais me interrogo sobre o meu lugar e sobre essa ligação quase sagrada que tenho com esse ponto do Mundo onde nasci e cresci e me formei.

 

- Aos 37 anos, tem mais respostas ou mais questões sobre esse lugar?

- Sinto que tenho mais respostas, do que as que já tive. Tenho mais a dizer, mais palavras dentro de mim. No entanto, isso implica que tenha também mais perguntas. Ao mesmo tempo, sinto que há questões para as quais nunca vou ter respostas e isso não me angustia. Pelo contrário: até aceito como um aspecto positivo, porque sei que ter um ânimo permanente, um horizonte é importante... até aos 150 anos! Não há limite para isso. Esse horizonte, essa capacidade de continuar a ser estimulado por perguntas é um elemento inerente de estar vivo.

 

- Considera-se um escritor filósofo?

- Não. Sinto que, em certa medida, a filosofia está presente em todas as formas de expressão e reflexão. Seria um pouco forte pensar isso. Não sendo um filósofo, sinto que há uma filosofia presente naquilo que escrevo. Da mesma maneira que, não sendo músico, existe alguma musicalidade nos meus textos. São elementos inerentes ao discurso.

 

- O ‘Abraço' é o livro certo, de passagem, após o êxito crítico de ‘Livro'?

- Para mim faz sentido. Mais do que enquanto obra, do ponto de vista pessoal. Não consigo escrever um romance por ano. Neste momento da minha vida, não tenho assunto suficiente para escrever um romance por ano. Tendo publicado um romance no ano passado, dificilmente conseguiria ter um romance publicado neste ano.

 

- Não gosta de trabalhar à pressa?

- Não consigo. Sinto, de alguma forma, que o ‘Livro' marcou um momento que também foi um degrau acima daquilo que tinha feito antes. E, de certa forma, um balanço. O ‘Abraço' acaba também por ter esse carácter. É importante resolver algumas questões que estão em mim, para depois seguir em frente.

 

- Apesar disso, a sua carreira literária, nesta última década foi extensa. Além de quatro romances, publicou inúmeras crónicas, peças de teatro e até letras de músicas.

- Este livro acaba por ser também um aspecto fundamental da minha acção. Ao fazê-lo, gosto de pensar que estou a reconhecer a importância a essa produção. Estes textos terão validade, espero eu, dentro de um ano, cinco anos, ou até depois.

 

- A tecnologia veio corromper a leitura? 

- Acredito que a tecnologia não compromete e pode oferecer novas formas de comunicação e novas perspectivas sobre esta área tão antiga que é a escrita. Pessoalmente, tenho interesse em fazer parte dessa procura e não temê-la. A validade de uma forma de expressão é tanto maior quanto mais conseguir resistir às diversas realidades humanas. E a escrita retrata de forma muito presente essas novas formas.

 

- É poeta e este ano o Nobel reconheceu o sueco Tomas Tranströmer. Foi importante para o género literário esta distinção?

- Confesso que não conhecia a obra desse autor. É importante que a poesia continue a ser considerada dentro dos níveis de maior reconhecimento da literatura. A poesia é um género muitíssimo importante e nós, em Portugal, sabemo-lo muito bem. Apesar disso, e tendo em conta o mercado, a poesia é colocada num segundo plano. Às vezes parece-me que há muito mais gente a escrever poesia do que a ler poesia. O que também me parece uma perversão completa.

 

- Lida bem com a entrega de prémios?

- Quem ganha prémios gosta sempre de os ganhar. Também me parece que os prémios e as diversas formas de reconhecimento devem ser relativizadas. Escrever é também uma forma de reflectir sobre nós próprios e sobre o nosso lugar. O olhar que os outros possam ter sobre o nosso trabalho é importante, mas devemos também confiar no nosso próprio olhar. É muito simpático quando os outros nos dizem que gostam, mas não pode ser tudo. Mas é muito bom receber prémios. Normalmente, quem faz um discurso anti-prémios são os que os não recebem.

 

- José Saramago, de quem era admirador, conseguiu receber um Nobel. É possível a língua portuguesa voltar a ser distinguida? Temos mérito para isso?

- Claro que sim. A língua portuguesa, para já, tem um potencial extraordinário, com várias obras, neste e no outro lado do Atlântico, a comprovarem-no. No entanto, não me parece que seja interessante fazermos depender da agenda do Prémio Nobel o valor que damos à nossa própria literatura. Se derem Prémios Nobel a autores de língua portuguesa, à partida, parece-me muito justo, se não derem não será por isso que os autores têm menos mérito. Hoje em dia, receber um prémio como esse depende de múltiplos factores e não apenas da qualidade literária. Aquilo que um autor se deve preocupar, em primeiro lugar, é com a sua obra e com a qualidade do que produz. Ter também a consciência tranquila em relação à mensagem que envia para o Mundo.

 

- Tem sido visto como um nome da nova literatura portuguesa, juntamente com outros autores como valter hugo mãe ou Gonçalo M. Tavares. Que opinião tem sobre o seu trabalho?

- Gosto bastante. São autores muito diferentes, mas há outros nomes de que poderíamos falar, porque também apresentam trabalhos bastante pessoais, no sentido em que não se tratam de autores que, necessariamente, formam um grupo estético. Aprecio bastante e leio. Encontro-os em múltiplas ocasiões e temos oportunidade de falar sobre o que mais nos preocupa e o que mais no interessa.

 

- Não existe rivalidade?

- Não sinto isso, pessoalmente. Na minha opinião, existe efectivamente uma geração porque se trata de um número bastante coeso no que diz respeito à atenção que merece que têm em comum a particularidade histórica de terem crescido depois do 25 de Abril de 1974. As grandes mudanças estéticas ao nível da literatura sempre estiveram ligadas aos seus contextos históricos e a esta geração coube esta característica de termos vivido neste período.

 

- Não é estranho não haver mulheres mais associadas a essa nova geração?

- Isso é incrível. Existem poucas - não digo que não existam nenhumas - e isso será revelador de alguma coisa que não sei muito bem o que é. Curiosamente na poesia têm surgido mais nomes do que na prosa.

 

- O IVA vai manter-se nos 6% ao contrário das outras áreas culturais. Se isso não acontecesse era o fim da indústria?

- Para já, é possível que exista aí o facto de termos um secretário de Estado [Francisco José Viegas] que tem uma sensibilidade ligada à literatura, sendo escritor. Sendo editor também tem, possivelmente, consciência do impacto que teria na indústria editorial a subida do IVA. Um impacto do IVA seria tremendo. A área editorial, hoje em dia, já não é um parente pobre. Existem grupos com poder, que movimentam muito dinheiro e que, inclusivamente, têm uma agressividade que não tinham antes. Nessa medida, considero muito importante. Até porque a escrita é uma área da Cultura que é fundamental na construção de uma política cultural. Nem é necessário ir buscar as vitórias internacionais que a literatura portuguesa teve e tem tido, basta ver o próprio papel que ela tem, em Portugal, aos mais diversos níveis. A literatura portuguesa contemporânea está de muitíssima boa saúde. Tudo o que se fizer para manter esse vigor é positivo. Mas sei que é uma área que sofre muito com a crise.

 

- Tal como Francisco José Viegas, era capaz de aceitar um cargo político?

- Ainda bem que há pessoas que o fazem, mas pessoalmente seria incapaz. Aí está uma coisa que sei que o futuro não me reserva. Aquilo que sempre quis e continuo a querer é ser escritor e escrever livros.

 

- Mas foi associado ao arranque do movimento dos indignados. Foi apenas uma questão cívica?

- Sim. Não vou prescindir das minhas convicções e da minha acção cívica. Em termos de cargos, não me parece que alguma vez me encontre nessa posição.

 

 

Foto de Duarte Roriz

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publicado às 09:08

Abraço”, o novo trabalho do escritor, chegou ontem às livrarias. Um conjunto de memórias que comemoram dez anos de escritos do autor. “É um livro que pretende ser positivo”, diz

José Luís Peixoto chega tranquilo. Mãos nos bolsos, sorriso terno e um punhado de histórias para contar, tantas que a entrevista teve de ser cortada a metade, porque o tempo passou, e chegou a hora do escritor seguir para o Porto para apresentar o mais recente livro, “Abraço”, nas Quintas de Leitura. Uma apresentação de dois dias, em moldes diferentes, para um livro que comemora dez anos de escrita. Um conjunto de recordações a partir de textos que José Luís Peixoto publicou nos mais diversos sítios desde 2001. Ao contrário do que se possa pensar, “Abraço” não é um livro de crónicas. Os textos são ligados por um fio, que lhes dá princípio, meio e fim.

 

Podemos dizer que este é um livro de memórias. Das suas.
Sim. Tudo se fica a saber nesse livro, ele conta a minha vida ao pormenor. Para mim não é de maneira nenhuma... [Pausa]. Para mim estamos aqui a conversar, não há nada off the record. Alguém que publica um livro destes não tem off the record.

Ao longo do livro há vários abraços descritos. O que significa este livro?
Este livro não é um depósito de textos ou uma limpeza da gaveta. Este é, efectivamente, um livro. Organizá-lo foi uma tarefa complicada, deixei de fora mais do que o dobro do seu tamanho [657 páginas].

São dez anos.
Estes são os textos que considero válidos.

Válidos?
Que merecem continuar a ser lidos. Queria um livro que tivesse uma narrativa e unidade interna. Tê-lo conseguido é um dos meus maiores orgulhos.

É por isso que não o assume como livro de crónicas?
Tenho alguma dificuldade em entender o género crónica. É útil e felizmente temos uma boa tradição de espaço para crónicas na imprensa, na medida que permite ao autor ter um contacto mais corrente com o leitor, uma vez que os romances demoram muito a escrever. Quem escreve até beneficia porque evolui a sua escrita. Mas em termos do conceito literário de crónica já tenho duvidas, na medida em que tudo é crónica. Até a ficção é crónica de alguma coisa, daquilo que conhecemos, que vivemos, do que somos. Neste livro existe um fio autobiográfico que acaba por fazer, sem erro, que o consideremos como livro de memórias. No entanto fiz questão de incluir textos ficcionais que nem sempre são óbvios para quem lê.

Porque mesmo em ficção a sua escrita é autobiográfica?
Todos os textos têm sempre presente tanto a autobiografia como a ficção. Isto é paradoxal, mas faz parte. As palavras que utilizamos e a forma como estruturamos as narrativas, são o reflexo do que somos. Se por um lado nunca podemos descrever aquilo que desconhecemos, também é verdade que ao passarmos essas experiências pelo nosso filtro, retiramos-lhe a imparcialidade absoluta. Há, portanto, um carácter tendencioso e em certa medida, ficcional.

Algumas interpretações podem não ser agradáveis. Convive bem com isso?
Convivo e procuro-as de uma forma feroz. De alguma forma este carácter tão autobiográfico do “Abraço” é um reflexo da minha necessidade de me pôr em causa de cada vez que escrevo. Se escrever algo em que as pessoas acreditam, é positivo. Mesmo que isso faça com que as pessoas tenham uma visão negativa de mim, enquanto personagem. O leitor não é indiferente à ideia que possa ter do autor. Muitas vezes chego a intimidades bastante constrangedoras, mas que são uma experiência.

Já aconteceu escrever coisas e depois de uma interpretação do leitor, desvendar outras em relação ao que escreveu?
Muitas vezes há coisas que me são mostradas sob uma luz que não tinha considerado. Mas nunca sobre mim próprio. Não me conheço totalmente, mas em relação aos leitores tenho consciência que aquilo que eles podem construir sobre mim é uma personagem. E uma personagem é sempre menor que uma pessoa. Mas admito que este livro dá muitas pistas sobre mim, vai ser difícil contar histórias, sem me repetir, a quem ler o livro. As minhas histórias estão todas aí [aponta para o livro].

Recriou três conversas para o dividirem três partes -uma como seu filho mais novo, a segunda como mais velho e a última consigo próprio. Qual a dose de realidade e de ficção?
Há ficção claro, as conversas não aconteceram naqueles moldes, mas são pilares do livro. A primeira é muito importante porque aparece no início, quando se lançam pressupostos do que vai ser o livro. No fim da conversa com o André [novo] chegamos à resposta: “Porque o amor”. Esse é o grande centro do livro. É um livro com muito afecto, que pretende ser positivo e fazer bem.

Não é uma escrita dura e crua como estamos habituados.
Nem pensar. O início é tranquilo porque é infância, alentejana e feliz, quase com um olhar saudoso. Há momentos mais difíceis no livro, mas sinto que o balanço foi feito. Olho para este livro e percebo que a minha vida tem sido gratificante. As experiências dolorosas fizeram-me crescer e sinto-me privilegiado.

Estão presentes várias relações familiares e de amizade. No entanto parece que é dedicado aos seus filhos?
Não tenho dúvidas que os meus filhos são os meus maiores feitos. Percebi que poderia ser não apenas uma forma de estruturar o livro, mas poder dizer-lhes: “Isto é o que eu sou”.

É uma carta aberta aos seus filhos?
Pode ser. Espero que muitas pessoas possam ler o livro, mas em última análise, no futuro, os destinatários são os meus filhos. A paternidade sempre esteve presente em tudo aquilo que escrevi. Primeiro como filho e aos poucos como pai. Sempre me trouxe muitas questões e me fez saber mais sobre mim. Percebi melhor o meu pai. Quando escrevi o último romance [“Livro”] percebi que de alguma forma o meu pai era eu. Quando nasci ele tinha todo aquele tamanho porque já cá estava. Mas depois eu fui pai. Não sei como dizer... [pausa]

Tomou o lugar dele?
No sentido em que os meus filhos me viam como eu o via a ele. Então havia um desfasamento porque sou uma pessoa com fragilidades, defeitos e múltiplas questões. Claro que imaginar os meus filhos a ler alguns dos textos causa-me algum pudor. E isso já não acontece se pessoas que não conheço os lerem. É a tal coisa que falava antes de me pôr em causa com verdade.

Neste caso com as pessoas próximas.
É fundamental humanizarmo-nos, espero que o livro consiga fazer isso. Mitificamos demasiado as pessoas, tanto políticos, como personalidades. Parece-me um sinal de desconhecimento.

Num dos textos diz que deseja que não exista pudor na relação pai/filho. Como era com os seus pais?
Acho que sim. Os meus pais são de outra geração, um nasceu nos anos 30 e outro nos 40, e cresceram num meio em que as relações entre pais e filhos eram diferentes. Sempre os tratei por “você”, não pela via Cascais, mas por um certo distanciamento e respeito. Não estou a criticá-los, acho importante que os pais sejam pais, mas há limites que devem ser limados.

Há três ilustrações no livro. Fale-nos delas.
Dizem respeito a um texto específico. A primeira são as notas da 1ª classe. Dizem que sou “irrequieto e falador”. Pensei chamar assim este livro, é algo que me define um pouco. A segunda é uma entrevista, um pouco radical, à banda que tive aos 18 anos, Hipocondríacos. A última é um autógrafo do Saramago dirigido a José Luís Pacheco, havia muita gente que me chamava assim.

Por falar na banda. A música está muito presente na sua vida e era acérrimo frequentador do Luxe da Bica. Ainda?
Já fui mais, tenho uma vida muito agitada, mas hoje em dia não passa por aí. Acho que já não vou ao Lux há três anos, e à Bica há uns meses. Aproveito o tempo para escrever e ler. Como viajo muito, gosto de sair à noite fora de Portugal. Mas aqui vou a muitos concertos. Por exemplo [começa a procurar qualquer coisa no bolso], já tenho comigo um porta-chaves [mostra] que dá para guardar tampões para os ouvidos. Ou seja, já é de outra maneira. Já me preocupo em ficar surdo. [risos]

Tem feito letras para músicos e o próximo CD do Jorge Palma tem uma letra sua.
Isso é um feito. Quando fizer a contabilidade da minha vida vou dizer: “Eh pá, fiz uma letra para o Jorge Palma. Fantástico!” A música tem estado presente na minha vida de uma forma diferente e espero que permaneça. Também fiz letras para os Da Weasel, para fadistas e grupos dos mais diversos, até de metal.

Ainda ouve heavy metal?
Claro, sempre esteve presente. Às vezes sinto que o metal é uma vocação. Não sei definir, exactamente, porque é que o género me fala tão profundamente. Comecei a ouvir com 11 anos.

O que lhe trouxe a infância no Alentejo?
Estrutura. Trouxe-me a minha visão do mundo e como encarar o tempo. Não é uma questão pequena. Diz-se que a fotografia é feita com luz. A escrita é feita com tempo. Não tenho dúvidas.

Por um lado, o Alentejo e Natureza, por outro, a imagem de escrever num lugar escuro, janelas fechadas. Como é feito este equilíbrio?
Escrever é um momento em que se olha para dentro, é, muitas vezes, recordar com os olhos abertos. Não é fundamental ter um grande apelo do exterior, uma grande paisagem, não ajuda à escrita. Distrai.

Tem uma relação obsessiva com a escrita?
Sim, quando estou envolvido na escrita de um romance faço coisas com menos frequência: tomar banho, comer, cortar as unhas [mostra as unhas compridas]. As pessoas próximas sabem que fico ausente. São momentos solitários, mas bons.

Foi pai do João aos 22 anos e o seu pai tinha falecido um ano antes. Como é que se fez esta mudança?
Foi um momento determinante e teve uma repercussão imensa no que escrevo. Foi o momento em que escrevi os meus primeiros livros. O “Morreste-me”, o “Nenhum Olhar”, que nascem dessa constatação de ter terminado uma idade, que para mim era tudo. E ter começado outra de uma forma abrupta e para a qual eu não estava totalmente preparado. Daí que essas questões da paternidade estejam sempre presentes. Os pais são o passado que nós conseguimos compreender.

Qual a mensagem global do livro?
O centro é o amor, mas existem outros temas: a escrita é um tema muito importante, as viagens, a interrogação sobre o meu próprio lugar no mundo. Sinto que é um livro que pretende ser apaziguador.

Reconfortante.
É uma boa palavra. Tenta ser aquilo que um abraço é. Que se oferece sem reservas e que não pede nada em troca.

É a mensagem mais importante para os seus filhos?
Sim. Quando se encontra alegria e prazer em dar, somos ricos.

 

 

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publicado às 10:41



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publicado às 20:16

O BARULHO QUE SOU

 

 

Não tínhamos baixista, mas nunca sentimos a sua falta. Durante meses não tivemos baterista. Esse sim, era falado, passávamos tardes inteiras a imaginá-lo. Mas essa ausência não nos atrasou, gravámos a primeira demo tape sem baterista: duas guitarras eléctricas e voz. Depois disso, não era possível o regresso ao nada e, durante alguns meses, tivemos um baterista que não tinha bateria e que não sabia tocar bateria. A sua primeira qualidade era ouvir o mesmo tipo de música que nós. Mais ou menos, claro. No caso de alguém perguntar pelas nossas influências, todos tínhamos um conjunto de bandas diferentes para responder, uma lista. Na escola, depois de muito, conheci um amigo do Índio que tocava bateria, que tinha bateria e que gostava de Grindcore. Eram os inícios dos anos noventa, era o século vinte, era o interior do Alto Alentejo e seria bastante curioso se alguém das matemáticas calculasse as probabilidades de ter acontecido aquilo que aconteceu.

 

O Índio era um dos colegas de turma com quem, nos anos oitenta, trocava cassetes nos intervalos das aulas. Em toda a escola, entre mais de mil alunos, éramos quatro ou cinco. Partilhávamos toda a música pesada que conseguíamos encontrar. Heavy Metal. Quando algum enchia uma cassete gravada da rádio ou de alguém que tinha vindo de fora ou, muito raramente, quando alguém comprava um disco, partilhávamos entre nós. A nossa música era um segredo que quase ninguém tinha interesse de conhecer. As poucas pessoas a quem passávamos os auscultadores, faziam caretas ao mínimo contacto com o som. Esse ainda não era o tempo do Grindcore, dávamos a ouvir bandas como: Iron Maiden, Motörhead, Metallica. Insistíamos para que ouvissem um pouco mais, mas era-lhes intolerável, não reconheciam melodia e diziam que era sempre igual. A palavra que mais utilizavam era "barulho". Fomo-nos habituando a essa decepção repetida. A música que nos elevava, que nos agarrava pelo centro e que levantava cada poro da nossa sensibilidade, era repugnante para quase todos. Essa característica era má e era boa. Era triste não dividirmos a intensidade dessa música com aqueles que eram importantes para nós, mas era bom, muito bom, o muro que essa música levantava entre nós e aqueles que agrediam a nossa adolescência. Todo o tamanho dessa música era um mundo sem eles.

 

Nesse tempo, sempre que faltava um professor, ia à papelaria e folheava a Metal Hammer até a saber de cor. Esperava toda a semana por programas de rádio onde ficava a conhecer bandas como os AC/DC. Esse entusiasmo preenchia-me os dias e, à noite, quando adormecia, sonhava com ele. Aos poucos, saboreando cada passo, ia destapando um universo. Com ele, crescia eu e crescia o meu cabelo. A minha mãe ouvia as mulheres na mercearia a comentarem-lhe o meu penteado e, por graça, oferecia-me uma recompensa de cinco contos. Eu queria que o meu cabelo crescesse depressa. Passou por todas as fases, incluindo a fase "jogador de futebol da América do Sul". Não era um cabelo bonito, mas era forte. Lavado todos os dias, encaracolado em canudos, dava para abanar enquanto ouvia cassetes no meu quarto. O primeiro objecto que comprei com o dinheiro que ganhava a trabalhar no verão foi, aos catorze anos, um gravador. Esse era o aparelho que enchia o meu quarto de música. Depois, aos dezasseis, passei o verão a trabalhar e a pensar na guitarra eléctrica que, no outono, comprei em Lisboa. Também um amplificador, também um pedal de distorção, claro.

 

O facto de eu tocar guitarra eléctrica diz um pouco acerca da qualidade musical da banda. Mas a banda tinha muitas outras qualidades. Ensaiávamos no quarto dos dois irmãos que partilhavam comigo a formação original. O mais velho tinha vivido em Inglaterra e tinha trazido alguns discos. Folheámos o dicionário para escolher um nome. Os critérios eram claros: queríamos uma palavra algo perturbadora e longa, com muitas letras. Chegámos a duas possibilidades: "Hipocondríacos" e "Arteriosclerose". Debatemos o assunto. Não me recordo dos argumentos desse debate, tenho pena. A banda ficou a chamar-se "Hipocondríacos".

 

Gravámos duas demo tapes, fizemos a primeira parte de um concerto de uma banda de Thrash Metal da margem sul, Brain Dead, e escrevemos o nome "Hipocondríacos" em dezenas de mesas da escola. Respondemos a um número grande de entrevistas em fanzines de fotocópias, enviámos cassetes para países como a Polónia, a Suíça, os Estados Unidos, o Brasil e muitos outros. Ainda hoje me pergunto o que pensariam esses coleccionadores de música pesada no momento em que ouviam aquelas cassetes, gravadas no quarto dos irmãos. Só muito dificilmente poderiam imaginar as ruas que eu atravessava para chegar ao ensaio, as paisagens de hortas, as paredes de cal a lascar, os rebanhos de ovelhas com que me cruzava, os velhos que ficavam encostados ao cajado, admirados com o cabelo comprido, admirados com as calças de ganga manchadas com lixívia, admirados com as caveiras das t-shirts, os velhos a seguirem cada um dos meus passos, boa tarde, e a serem capazes de embaraçar-me as pernas com o olhar. Quatro ou cinco anos após o fim da banda, a minha mãe ainda recebia cartas endereçadas a "Hipocondríacos", chegavam de vários pontos do mundo e queriam trocar cassetes. Acreditamos que foi a primeira banda a tocar Hardcore/Grindcore em toda a região. Mais cedo ou mais tarde, alguém acabaria por levar o Hardcore/Grindcore ao Alentejo. No início dos anos noventa, século vinte, coube-nos essa honra. Soubemos e sabemos apreciá-la.

 

 



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publicado às 16:11

A MÃO QUE ME FEZ

 

 

Uma tanganhada. Muitas vezes vi o meu pai estender a mão direita para crianças, até para mim quando era pequeno, e dizer: dá cá uma tanganhada. Havia um compasso em que as crianças se surpreendiam em silêncio, ficavam a olhar e, depois, devagar, estendiam-lhe também a mão.

 

Eu tinha três ou quatro anos quando, em horas paradas da tarde, uma mulher aflita atravessou as ruas da vila e o nosso quintal para dar a notícia que o meu pai tinha tido um acidente, uma máquina tinha-lhe arrancado a mão direita. A minha mãe não conseguia respirar. A mensageira era capaz de traçar com o dedo a linha na zona do pulso onde a lâmina lhe tinha acertado.

 

As máquinas da carpintaria do meu pai eram feitas do mesmo sonho que o levou a tentar terminar por correspondência um curso de desenho técnico. Essa força fazia parte da sua natureza e, quando se mostrava, era como um balão. Levantava um voo ligeiro, tranquilo, como se planasse sobre os campos. Eram imensas as paisagens que víamos através dos olhos do meu pai a sonhar, eram sem fim os horizontes que a sua vontade erguia. À hora de jantar, a minha mãe receava a realidade e tentava abrandar-lhe o optimismo, mas nunca conseguia completamente. O meu pai sonhava há muitos anos. Como prova, havia o livro que guardava desde rapaz em que se ensinava a fazer sabão e havia a história muito repetida da invenção que idealizara com o irmão mais velho: fazer gasolina a partir de cascas de laranja.

 

No pátio da carpintaria do meu pai, havia o barulho de máquinas. Havia a serra alta que atravessava troncos presos a um pequeno vagão que deslizava sobre carris. Havia motosserras com correntes de lâminas que, em certas ocasiões, se rebentavam e saltavam desgovernadas. No interior da carpintaria, havia mais máquinas. A rotação das suas lâminas hipnotizava. Eram máquinas que, ao atravessarem ripas, gritavam sons nasais. Lançavam jorros de maravalhas e um nevoeiro de serradura que enchia toda a carpintaria, que se respirava. Foi numa dessas máquinas que o meu pai teve o acidente.

 

Nessa tarde, a minha mãe esteve mais de duas horas submersa em angústia, a imaginar imagens de sangue, até ligarem do hospital para o telefone da vizinha e se saber que não tinha sido assim. O meu pai tinha tido um acidente com uma máquina, tinha sido grave, mas não tinha perdido a mão e havia esperança de que pudesse voltar a usá-la.

 

Afinal, a lâmina não lhe tinha cortado o pulso, mas sim a palma da mão e a cabeça de alguns dedos. Depois de tirar as ligaduras, a mão foi cicatrizando. Havia um aparelho feito de alumínio e molas, com partes em cabedal para prender o antebraço e os dedos. Esse aparelho servia para recuperar um pouco da forma da mão. Forçava os tendões, era doloroso. Anos depois, quando eu o encontrava abandonado dentro de algum armário, brincava com ele. Parecia a mão de um robot.

 

O meu pai e os homens que trabalhavam com ele na carpintaria aleijavam as mãos a cada passo. Nenhum se queixava demasiado quando entalava os dedos entre chapas de madeira ou quando lhes acertava com uma martelada e ficava com as unhas negras, sangue pisado. Era incontável o número de lascas de madeiras que se espetavam nas suas mãos ou a quantidade de vezes que os formões ou os serrotes deslizavam e lhes faziam cortes até ao osso. Se não bastasse soprar ou enrolar a mão num lenço de assoar, havia um armário branco, coberto de pó, entre calendários de mulheres nuas, 1979, 1985, 1982, onde havia álcool e, às vezes, algodão.

 

Numa ocasião em que estavam a descarregar pinheiros no pátio, houve um tronco que esmagou o mão de um homem. A aliança de casado cortou-lhe o dedo. Foi o meu pai que o recolheu num frasco e que conduziu o homem até ao hospital. Contava sempre essa história como justificação para não usar aliança.

 

O meu pai conseguia segurar em tudo, fazer tudo, mas o corte enrolou-lhe a mão direita, encaracolou-lhe os dedos e nunca conseguia abri-la completamente. As unhas cresciam à volta da cabeça dos dedos mindinho, anelar e médio, que eram menores do que o seu tamanho natural. Era essa mão, de pele grossa e áspera, que o meu pai usava para fazer acções melindrosas, pentear as sobrancelhas, contar moedas. Era essa mão que usava para fazer festas no rosto terno das netas. Era essa mão que me dava quando íamos à cidade, passeávamos juntos e acreditávamos que o tempo não tinha fim. 

 

 

José Luís Peixoto, in Abraço (Quetzal, Outubro 2011)

 



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