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Presença

12.07.17

 

 

Apenas sei que regressei a casa quando te pego ao colo. Tens muito para dizer-me e, por isso, os nossos olhos não se separam. Podia ficar aqui para sempre, há um mundo completo no interior dos teus olhos. Avanço nele e só encontro pureza. Comparo essa paisagem com os lugares por onde andei e, por momentos, acredito que nunca mais quero sair daqui. Aspiro ao que vejo nos teus olhos, quero essa candura transparente para os meus gestos e para as minhas intenções. Aprendo tanto contigo.

 

Respiramos ao mesmo tempo. Agora, por fim, estamos juntos no mesmo instante, habitamo-lo. Passo as mãos pela tua cabeça, pescoço, costas, as minhas mãos são enormes no tamanho do teu corpo. Quando te habituas a esse ritmo e a esse calor, bocejas longamente. És tu, é a ternura, sorrio.

 

Sinto o conforto do teu peso. Nele, há uma segurança profunda, absoluta.

 

Nunca perguntas porque vou embora, sou eu que coloco a questão a mim próprio. Entre mistérios privados, secretos, há um lugar onde permanece essa interrogação sem resposta, exala uma espécie de força magnética, invisível e, no entanto, capaz de exercer força, mover objetos. Tento fixá-la como faço com os teus olhos, mas parece-me que lhe falta a tua clareza, que me falta a tua sinceridade.

 

Às vezes, sem saber o que quero, tenho a certeza de como posso alcançá-lo. Então, os movimentos são mais rápidos do que o pensamento, há uma vontade maior do que a minha a dirigir a minha vontade. Há uma voz distante que me chama, fico cego.

 

Agora, abraço-te. Em ti, protejo-me do mundo e de mim próprio. Esperaste-me atrás da porta, não deixaste que este tempo perturbasse o nosso apego. Levei-te comigo em todos os momentos, foste ao lado do meu nome, do meu silêncio, do pouco que realmente possuo.

 

Estás ao meu colo, respiras e, ao mesmo tempo, sou eu que estou ao teu colo, respiro. Há um entendimento que nunca perderemos, é maior do que as nossas vidas, é maior do que aquilo que somos capazes de ser. Eu sou um homem de 42 anos, tu és uma cadelinha de 11 anos, mas não é isso que importa.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (julho 2017)

 

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publicado às 11:42




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