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Nos nossos rostos estavam já os traços deste rosto que o espelho reflete com nitidez humana. Nas nossas vozes, antes de ilusões e desilusões, antes da erosão, estava já esta voz.

 

É muito fácil esquecermo-nos de quando podíamos ser tudo. Fazíamos escolhas entre o que esperavam e o que não esperavam de nós. À nossa frente, estavam todas as possibilidades, apreciávamos essa distância. Aquilo que já estava definido impedia-nos de muito pouco.

 

E aconteceu o que as escolhas sempre pressupõem: tivemos de responder por elas e tivemos de viver com elas. O tempo foi marcado por esses dois tempos. Ao responder pelas escolhas que fizemos, fomos tecendo uma longa manta de autojustificações. Primeiro, precisámos de defender a nossas escolhas; depois, precisámos de defender o argumento que usámos para justificá-las; depois, precisámos de defender o argumento que usámos para justificar esse argumento; depois, um longo etc, tão longo que, a partir de certa altura, deixámos de ser capazes de identificar onde começou.

 

Por outro lado, na passagem dos dias e das estações, ao vivermos com as escolhas que fizemos, fomo-nos convencendo de que éramos apenas aquilo, de que somos apenas isto. Fomos rejeitando possibilidades até deixarmos de considerá-las.

 

Ainda assim, lá do fundo, há uns olhos que nunca deixaram de nos ver. Interrogam-nos em silêncio, observam-nos com a mesma pureza do seu presente. O brilho que sustentam não se extinguiu, apenas deixámos de reparar nele.

 

Sem o medo de perder o que julgamos ter alcançado, ainda podemos tudo. Não é fácil voltar a acreditar depois de todos os erros que cometemos e que, por autopreservação, atribuímos à ingratidão do mundo. Ainda assim, ao longo destes anos, o planeta mudou muito menos do que queremos imaginar quando repetimos que não há nada a fazer.

 

Há tudo a fazer. Esta é a constatação que mais nos desanima porque, debaixo dos gestos e das palavras, temos muito medo. Quando não suportamos sequer considerar esse medo, preferimos negá-lo. No entanto, não é dessa maneira que conseguimos fazê-lo desaparecer.

 

E assim, lá do fundo, no silêncio a que o tempo os obriga, há esses olhos que continuam a ver-nos. Seguem cada pensamento, respiram sempre que enchemos o peito de ar. No nosso rosto, na nitidez crua e fria deste espelho, estão ainda os traços desses rostos, faces de pele lisa, sem rugas ou cicatrizes. Nesta voz, naquilo que tem de mais limpo, estão ainda essas vozes que quase deixámos de reconhecer.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine, 20 de dezembro de 2015

 

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 (Foto por José Luís Peixoto)

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publicado às 09:50




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