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Caminhamos entre tratores. Os nossos passos resvalam ligeiramente na areia solta e seca, caminhamos numa rua da feira, entre máquinas agrícolas e de construção. São novas, ainda sem riscos e sem uso. O meu pai aproxima-se de pneus de tratores que são quase da sua altura, aproxima-se de empilhadoras, analisa os guiadores e os comandos, ainda com o brilho e com o cheiro da fábrica. Como todas, também esta rua tem arcos geométricos a enfeitá-la, formas que ganharão luz à noite.

 

No lado de fora das muralhas, enquanto procurávamos estacionamento para a carrinha, o meu pai recusava perguntar o caminho a qualquer desconhecido. O meu pai andou na tropa em Évora, reconhece que algo possa ter mudado, talvez não lembre bem certos detalhes, mas jamais admitirá que desconhece a direção a seguir. As estradas estavam cheias de trânsito para a feira, demorámos bastante tempo à procura de estacionamento. O meu pai ia atrás de carros que, segundo ele, pareciam andar também à procura de estacionamento. Essa tática era ineficaz.

 

Chegámos ao Jardim Público a pé. Passámos por um homem a vender gelados, mas a minha mãe convenceu-me a esperar. A minha mãe e a minha irmã queriam ir aos seus assuntos, roupas talvez. O meu pai e eu tínhamos outros interesses. Marcámos uma hora e ficámos de encontrar-nos exatamente ali, naquele banco, perto daquela sombra, com vista para o Palácio de D. Manuel de um lado e, do outro, sobre árvores, para o topo da Igreja de São Francisco.

 

O meu pai e eu caminhámos até ao fundo do jardim. Daí, vi toda a feira de São João. Aquela cidade era diferente da Évora a que chego nos dias de semana das férias do verão. Aquele largo ocupado por barracas de feira e ruído, por carrosséis lá ao fundo, costuma ser um descampado sem gente, onde o meu pai estaciona a camioneta azul, pesada de aros de portas e janelas ou já leve, o meu corpo moído por carregá-los um a um, subindo escadas de prédios em construção, as minhas mãos vincadas pelos seus ângulos. E os homens a saírem da camioneta. E eu a descer da carroçaria, onde vou de pé, de cabelos ao vento, ou sentado, de costas para a cabina. Eu entre os homens.

 

Nos dias de trabalho, o meu pai não me dá privilégios. Pelo contrário, tenho de dar o exemplo, tenho a responsabilidade de representá-lo. Não posso deixá-lo mal.

 

Longe do nosso olhar, imaginadas, a minha mãe e a minha irmã avançavam já nas ruas daquela grande feira, misturadas com a animação. Naquele ponto, perante a paisagem, sei que o meu pai se alegrou com essa ideia, como eu.

 

A caixa de madeira está na nossa casa, na sala. A minha mãe guarda-a como um tesouro. Foi o meu pai que lha fez, que esculpiu o templo romano e as letras da palavra "Évora", coladas sobre o tampo, quase perfeitas. Essa caixa é a prova de que, noutra idade, foram namorados.

 

Faço dezasseis anos em setembro. Entusiasmado, o meu pai tenta interessar-me pelas máquinas, explica-me os prodígios que são capazes de operar, projeta imensas obras invisíveis no interior dos meus pensamentos. E consegue deixar-me alerta, ganha-me a atenção, mas não são as máquinas que me estimulam. É o seu entusiasmo que me entusiasma.

 

José Luís Peixoto, in Revista Up (setembro, 2017)

 

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publicado às 08:48




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