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O meu lugar

04.08.13

 

 

Quando era pequeno, rodava sobre mim próprio com as pontas dos pés. Rodar-rodar-rodar: as formas a saírem dos contornos, as cores a misturarem-se demasiado rápidas e, depois, ao parar de repente, o chão como um barco debaixo da tempestade, a paisagem inteira a oscilar desgovernada, eu a tentar equilibrar-me e, ao mesmo tempo, criança, a apreciar esse caos. A seguir, a pouco e pouco, o horizonte abrandava e voltava a fixar-se.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Posso estar a falar com a minha mãe, como há dois dias atrás, e ela diz-me: aquele sobreiro que fica entre o campo da bola e o Monte da Torre. E, entre tantos, eu sei exactamente qual o sobreiro a que se refere. Essa é a precisão com que sei o meu lugar. As ruas, calcetadas com paralelos, suportam o meu pensamento desde que nasci. Em gestos largos, os muros são caiados anualmente porque o branco precisa de renovação, a pureza é uma tarefa permanente.

 

Esses foram os anos em que viajou pelo mundo inteiro. Não sei que voz irá dizer esta frase sobre a minha vida neste tempo. O mais provável será ser eu próprio a dizê-la: Esses foram os anos em que viajei pelo mundo inteiro. Em qualquer dos casos, essa frase será dita quando já não aguentar o ritmo deste tempo, desta idade em que atravesso oceanos como se rodasse sobre mim próprio. Com os olhos cheios, quando paro de repente, o chão balança, a paisagem ondula. É então que o meu lugar, paz/certeza, me nivela.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Com tantas viagens, como é que consegue escrever? Ouço esta questão de muitas vozes, em muitas línguas, vinda de pessoas que nunca se conhecerão umas às outras. Dou qualquer resposta que me pareça satisfazê-las rapidamente. Às vezes, nem preciso usar palavras, basta sorrir. Quem faz perguntas não está sempre interessado em saber as respostas.

 

No tom prosaico dessas conversas, seria difícil explicar que eu tenho um lugar, está sempre comigo. É visível e invisível. Há oliveiras centenárias agarradas a essa terra. Há uma forma de respirar que só é possível sob essa aragem. Há fontes de bicas fartas, onde jorra tudo o que amo e me ama.

 

Quando era pequeno, os campos eram enormes. Cresci mais do que podia imaginar e, no entanto, os campos continuam enormes. Entre o que me puxa de um lado e de outro, há o meu lugar a manter-me firme, a fornecer-me equilíbrio infinito. A diferença de forças é incomparável. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Levo comigo uma origem e um destino. Levo comigo um sentido. Irreversível como um mergulho, não me perturbo. Eu tenho um lugar. Sinto que lhe conheço cada detalhe e, no entanto, todos os dias o exploro e lhe encontro novidade. No meu lugar, os sinos do adro dão as horas.

 

É difícil vermo-nos a nós próprios, sei bem. Falta a perspectiva da distância, os espelhos distorcem, o rosto com que nos olham está sempre tingindo pela cor que trazem por dentro. É também por isso que me faz tanta falta o meu lugar. Sem ele, talvez acreditasse no primeiro reflexo que me apresentassem. Sem ele, talvez dependesse desses humores para imaginar quem sou.

 

Assim, estou preparado para atravessar o mundo inteiro. E, se mais mundo houver, mais mundo será tocado pela minha pele. Mi-nha pe-le, palavras pronunciadas sílaba a sílaba. E nenhum continente é demasiado grande ou demasiado estéril para me impedir de atravessá-lo. E nenhum detector de metais conseguirá identificar o tamanho e os ângulos do lugar que levo comigo: amor. Repito: amor.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Ainda rodo sobre mim próprio e, depois do mundo fosco, preciso de acreditar na nitidez que transporto, esse lugar meu, onde descanso e onde não sou um postal de tiragens sem fim, sempre deturpado um pouco mais, um pouco mais, milímetro a milímetro. Agradeço todo o contraste que consigo trazer para o caminho que construo. Não coloco limites nas temperaturas a que quero sujeitar os meus sentidos e nas lições que quero aprender. Mas felizmente, tenho o meu lugar. Acompanha-me como um deus.

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Agosto, 2013)

 

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publicado às 12:28

 

  

Como se alguma coisa me chamasse, levanto o rosto do livro. Acabado de chegar, surpreendo o mundo inteiro a existir em cada detalhe. Entre as páginas, pouso um marcador que o André fez na escola e me ofereceu no dia do pai. Cada movimento é muito vagaroso para não perturbar nada. Mantenho a distância. E fico apenas a assistir, como se ainda estivesse a ler, como se tudo continuasse sem mim.

 

A paz do cloro mistura-se com o fim da tarde e com o azul limpo das paredes da piscina. Calculo que os meus filhos estejam mais ou menos a vinte metros de mim. Descalços sobre a relva, jogam com raquetes de madeira. A bola de borracha faz um barulho surdo, sem eco, toc, toc. Às vezes, essa cadência mantém-se certa durante algum tempo mas, depois, sem explicação, perde-se, não dá para confiar na regularidade desse ritmo.  O João, com dezasseis anos e mais de um metro e oitenta, atira a bola para o André, com oito anos, quase nove, que pode ser capaz de apanhá-la ou não. Em qualquer dos casos, entusiasmam-se com esse desafio, riem-se e as suas vozes atravessam esta distância, perdendo pelo caminho a forma das palavras, mas mantendo o seu tom, a sua idade, a sua música.

 

Numa cadeira ao lado da minha, inclinada para trás, a minha mãe ressona baixinho, como se o ar lhe raspasse no céu da boca. Tem os óculos desacertados dos olhos e a expressão séria que sempre faz quando está a dormir. Tem as mãos juntas, pousadas sobre a barriga, os dedos tortos, a artrose. Tem as pernas esticadas, os dedos gordos dos pés a apontarem para qualquer lado, a dormirem também.

 

Neste momento, tenho a noção precisa do tamanho da minha sorte.

 

No ano passado, fomos de férias juntos pela primeira vez, só nós. Em novembro, quando a minha mãe teve o AVC, pensei em várias ocasiões: ainda bem que fizemos essa viagem, ainda bem que não esperámos mais. Quando recuperou a fala, ela própria disse a mesma coisa. Estes meses passaram com a minha mãe a reaprender a andar, a segurar nos objectos, a falar. Não sei se os meus filhos chegaram a entender completamente aquilo que aconteceu à avó. Eles ainda não são capazes de perceber que ela é uma rapariga nova no corpo de uma mulher de setenta e um anos, a ouvir mal, a andar devagar, a usar palavras estranhas, a contar histórias antigas e a não gostar de todas as comidas.

 

Mesmo sem essa tangente à morte, mesmo sem a violência dos detalhes que não descrevo aqui, acredito que continuaria a ser capaz de avaliar a dimensão da sorte deste momento. Desde cedo que temo a possibilidade de passar pelas horas mais felizes da minha vida sem as reconhecer. Não sei com quem aprendi esse talento. Sinto pena silenciosa quando vejo alguém recordar um tempo em que foi feliz como se, só naquele instante, demasiado tarde, identificasse a felicidade que atravessou. Não quero esse desperdício para mim. A vontade de reconhecer os melhores momentos da minha vida no instante em que estou a vivê-los, dá-me a lucidez de estar sempre alerta para a felicidade. É essa a minha sorte.

 

Os meus filhos jogam com as raquetes de madeira. Quando um ou outro não acerta na bola, dão dois ou três passos para ir buscá-la entre os arbustos. A minha mãe continua a dormir, os seus sonhos parecem tranquilos como as suas sobrancelhas. O tempo desliza nestas cores do entardecer. O sol, de certeza, encontrou o horizonte. Somos sempre os últimos a sair, não temos pressa.

 

Depois, quando sairmos, voltaremos a ser um grupo invulgar de quatro elementos com muitas diferenças entre si: um menino de oito anos, irrequieto, cheio de coisas para dizer; um adolescente de dezasseis anos, carapinha, aparelho nos dentes e muito vagar; uma mulher de setenta e um anos, a descer degraus com dificuldade, mas animada para todas as hipóteses que surjam; e eu, de chinelos, t-shirts difíceis de compreender, estranho e tatuado.

 

Mas isso será depois. Agora, há o rumor da água da piscina, empurrada por uma brisa que não se sente, há a minha mãe aqui ao lado, há os meus filhos a serem irmãos e há esta sorte infinita que me rodeia e me acompanha.

 

Há esta gratidão compacta que me preenche. 

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (julho de 2013)

 

 

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publicado às 16:21

Luta de classes

07.05.13

 

 

 

Não contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrário, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.

 

A cultura é usada como símbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botão de punho. A raridade é condição indispensável desse exibicionismo. Só pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colecção de símbolos é descrita com pronúncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.

 

Para esses indivíduos raros, a cultura é caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convém não haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no início da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritórios for vista a ler um determinado livro nos transportes públicos, os snobs que assistam a essa imagem são capazes de enjeitá-lo na hora. Começarão a definir essa obra como "leitura de empregadas de limpeza" (com muita probabilidade utilizarão um sinónimo mais depreciativo para descrevê-las).

 

Este exemplo aplica-se em qualquer outra área cultural que possa chegar a muita gente: música, cinema, televisão, etc. Aquilo que mais surpreende é que estes "argumentos", esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivíduos supostamente cultos, e só em escassas ocasiões é denunciada como discriminadora do ponto de vista sexual ou social.

 

Isso são livros de gaja, dizem eles. Às vezes, para cúmulo, há mesmo mulheres que dizem: isso são livros de gaja.

 

A raiz da minha cultura não pertence ao elitismo. Tenho orgulho das minhas origens, do meu avô pastor, do meu pai carpinteiro, como outros têm orgulho dos seus longos nomes compostos.

 

Depois de um trabalho que encerre convicções profundas, que tenha em conta os princípios da sua área artística, que seja consciente da história dessa área e que faça uma proposta coerente e inovadora, acredito na divulgação o mais ampla possível.

 

Esconder uma obra em tiragens de 300 exemplares não lhe acrescenta um grama de valor artístico. Quando essa falta de divulgação resulta de uma escolha, pressupõe, quase sempre, falta de consideração pelo público, a crença de que um público mais vasto seria incapaz de entender tamanha sofisticação.

 

Acredito que a poesia pode ser publicada em caixinhas de fósforos, escrita com trincha ou spray nas paredes, impressa em t-shirts, afixada no facebook. Em qualquer um desses lugares, será diferente, mas em todos continuará a ser poesia.

 

É ridícula a ideia de que a divulgação deturpa. A banalização é sempre tarefa de quem banaliza e não do objecto banalizado. Quem não for capaz de convocar os seus sentidos e a sua razão para apreciar uma determinada obra, apenas por acreditar que se encontra muito difundida, tem problemas graves ao nível do espírito crítico e da isenção mais básica. Esse é um daqueles casos em que se aconselha a lavagem de olhos. É aí que reside a deturpação.

 

Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoiévski. Há alguns meses, a personagem de uma telenovela citou um poema escrito por mim. Toda a gente da minha rua viu e ouviu. A minha mãe ficou orgulhosa e eu também.

 

Chamo-me José ou, se preferirem, Zé. Desprezo o elitismo. O verbo não é exagerado, adequa-se bem ao que sinto.

 

Hei-de sempre divulgar o meu trabalho na máxima dimensão das minhas capacidades. Devo esse esforço à convicção que tenho naquilo que escolhi dizer. Fico feliz se vejo os meus livros disponíveis em supermercados, estações de correios, bombas de gasolina ou bibliotecas públicas.

 

Aquilo que faço não existe sozinho, precisa de alguém que lhe dê sentido, o seu próprio sentido e interpretação pessoal. Se uma árvore cair sozinha na floresta, sem ninguém por perto, será que faz barulho? Por esse motivo, o esforço de divulgação é também uma mostra de respeito para com essas pessoas, é um sinal da minha crença nelas e no seu valor. Exactamente como estas palavras, que existem porque estás a lê-las.

 

Escrevo romances, a minha força de vontade é enorme. Tenho 38 anos, conto estar por cá durante bastante tempo. Tenho ainda muito por fazer. Habituem-se. Não tenho medo.

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Maio de 2013)

 

 

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publicado às 01:37

 

 

Nestas noites de novembro, tenho dezasseis anos outra vez. Está a temperatura dessa idade e penso apenas em ti. O teu rosto surge nas superfícies opacas, sobretudo no escuro dos caminhos que uso para chegar à tua casa. A noite é tão respirável. Há um silêncio ameno pousado até nos ruídos mais bruscos. Tudo faz parte de um plano que não pode falhar porque tu és uma certeza. Estás à minha espera, eu sei.

 

Então, como hoje, vejo o teu rosto à janela. Enquanto desces, há um instante inteiro. Também nesse tempo, embora breve, tenho dezasseis anos. E fico mais sensível aos pequenos segredos que a cidade repete lá longe. Já transformados em brisa, tocam-me na pele. Distingo-lhes ainda uma réstia da sua forma, das suas arestas. Também a minha pele está mais sensível, prepara-se para a imagem do teu rosto.

 

Quando chegas à porta, salvas-me de qualquer coisa que, acredito nesse momento, estava quase a afundar-se em mim. O teu olhar acerta no meu e o tempo serve para contar a velocidade a que nos aproximamos. Os teus lábios levam-te. Durante esse primeiro beijo, a cidade inteira desaparece à nossa volta. Existe a noite, continua a existir.

 

Temos sede. Ainda não dissemos uma palavra e, no entanto, sabemos que a maneira como os nossos corpos se agarram, apertados pelos nossos braços, é a tradução literal daquilo que nos faltou durante todo o dia. Sem darmos conta, espalhámos essa saudade por Lisboa.

 

Só então, depois de nos vermos bem, dizemos as primeiras palavras. A tua voz é um gesto de bondade. A cidade, anoitecida, agradece a tua voz. Também eu gostava de saber agradecê-la assim, com esse tamanho. Comovo-me e, quando olhas para mim, posso dizer qualquer coisa. Tenho dezasseis anos e, por isso, posso dizer qualquer coisa. Posso até continuar a segurar-te nas mãos e alongar o silêncio.

 

É de noite. Há estrelas de certeza.

 

Novembro é o mês certo para te segurar nas mãos, memorizar-te os dedos para nunca mais esquecer. Temos os nossos segredos, vivemo-los. E, numa hora que escolhemos juntos, despedimo-nos sem medo. Teremos amanhã, teremos a próxima semana e o próximo ano mas, mais ainda, temos agora, este preciso momento em que estamos tão vivos.

 

Enquanto sobes as escadas e voltas para casa, a cidade está toda à minha disposição. Posso regressar pelo caminho que escolher. Às vezes, decido seguir pelo mais longo. Nessas noites, em silêncio, os meus pensamentos são como os grãos de pó que flutuam ao domingo, atravessados por raios de sol. Se os atravesso com um braço, esses pequenos pontos iluminados começam a mover-se em trajectórias diferentes. Como os meus pensamentos, mais leves do que o ar, mas, de repente, a chocarem frenéticos.

 

Caminho ainda com a tua voz em mim. Pedaços de expressões, o tom com que dizes certas palavras. A pouco e pouco, quando estou quase a chegar a casa, recupero a minha idade. Novembro continua e, por isso, deixo os dezasseis anos na rua. Conheço um lugar invisível para guardá-los. Amanhã, quando chegar a noite, talvez volte a usá-los. São perfeitos para te amar, namorada. 

 

 

 

José Luís Peixoto, revista UP (Novembro 2012)

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publicado às 10:30

 

 

Às vezes, antes de uma palestra ou uma entrevista na televisão, quando preciso de me acalmar, penso que estou na estrada do campo da bola e que caminho sem pressa, com sobreiros, azinheiras e oliveiras de um e de outro lado da estrada. Não preciso de fechar os olhos, essa imagem cobre-me os sentidos e acalma-me imediatamente. O vagar chega-me a cada gesto e sinto o início de um sorriso tímido nos lábios, como o sorriso do meu pai, como o sorriso do meu padrinho novo quando estava a escutar alguém, como o sorriso de todas as pessoas da rua onde nasci. Esse é um sorriso de olhos brilhantes e serenos, como a Barragem da Fonte da Moura.

 

Às vezes, antes de entrar num lugar onde está um microfone e gente à espera de olhar para mim, penso que vou na estrada do campo da bola. Ouço os passos das minhas botas na terra, ouço as cigarras que se soltam ao longo do fim de tarde. Até que enfim que o sol amansou. Quando caminho assim, na terra da estrada, sinto as botas nos pés, sinto as pedras debaixo das botas e não tenho relógio, mas são sempre umas cinco ou seis da tarde. E passo por muitos dos campos onde, antes, quando era pequeno, eu e os meus amigos nos lançávamos a correr, escondidos por searas ou a caminho de alguma figueira que, já sabíamos, estava carregada de figos.

 

Não preciso de fechar os olhos para ver isto, para receber este tempo inteiro. Da mesma maneira, sinto o cheiro da terra, profundo, terra generosa que me fez nascer e que nunca me abandona, por mais longe, por mais cimento que cubra o chão que me sustém. Caminho na estrada do campo da bola, não como uma lembrança de outros tempos, como outra idade. Avanço devagar no presente, no presente absoluto, com a idade daquele instante, exactamente como se estivesse lá.

 

Em tantos aspectos, eu ainda estou lá.

 

Com essa liberdade, pode calhar a aparecer um cão que nunca vi, mas que presumo que deva pertencer a algum pastor e a quem faço festas na cabeça. Sinto com total clareza a forma e a textura da sua cabeça na palma da minha mão. Pode também acontecer que me apeteça parar de roda das silvas e escolher algumas amoras, se for tempo delas. São doces e tenho de ter cuidado para não deixarem nódoas na roupa. Mesmo assim, mais habitualmente, apenas caminho. A estrada tem um bom tamanho, permite-me respirar, encher o peito todo de brisas com aroma de seiva, de cardo seco, de terra molhada, dependendo da altura do ano. Em qualquer dos casos, sobre mim, o céu é sempre enorme, eterno, a mostrar-me com o seu tamanho e com a sua eternidade o quando é humano aquilo que me preocupa, tudo o que me diz respeito.

 

Quando chego ao início da barreira que leva ao campo da bola, já estou capaz de regressar a onde quer que esteja. Raramente preciso de chegar a meio da barreira e ver, lá em cima, ainda a certa distância, uma das balizas do campo, deixado ao cuidado das estações e da natureza.

 

Então, estou pronto, levo em mim aquilo que sou. 

 

 

José Luís Peixoto, in revista UP (Outubro, 2012)

 

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publicado às 10:12

 

 

No dia 18 de Abril de 1990, acordei às cinco e meia da manhã. O after-shave do meu pai tinha um cheiro enjoativo. A minha mãe era muito mais gorda do que é hoje. Talvez o meu pai nos estivesse a apressar, isso já não me lembro. Lembro-me da sua voz.

 

Nesse tempo, quando saíamos, a nossa cadela vinha a correr atrás da camioneta pelas ruas da vila. Corria até o meu pai conseguir acelerar o suficiente, o que só acontecia quando chegávamos à estrada de Avis. A minha mãe olhava para trás e afligia-se. Depois, vínhamos a saber que, nesses dias, a cadela ia procurar a minha mãe aos lugares onde ela costumava ir habitualmente. Era assim que a minha madrinha sabia que tínhamos ido a algum lugar. No dia 18 de Abril de 1990, íamos a Lisboa.

 

Na época, a estrada que ligava a Aldeia Velha a Cabeção era de terra e tinha grandes buracos. A cada solavanco, pulávamos na cabine da camioneta. Era de noite, madrugada, e havia lebres que se atravessavam, disparadas à frente dos faróis. A minha mãe sobressaltava-se. A minha mãe era uma menina, nervosa. Íamos a Lisboa para ela tirar o sinal. Quando eu era pequeno, chamava-lhe "o cuzinho". Era um sinal que lhe crescera no peito, por baixo do pescoço. Ela não deixava que ninguém lhe mexesse. Quando alguém se aproximava para tocar-lhe num fio ou perto do pescoço, ela tinha o gesto automático de proteger o sinal.

 

Num instante, a camioneta acertou numa lebre. O meu pai saiu e eu saí atrás dele. A lebre, estendida sobre a terra, estava quase morta, respirava depressa, era um bicho ferido e desconsolado. O meu pai levantou-a no ar pelas orelhas e acertou-lhe por duas vezes com o punho fechado por detrás da cabeça. Fui buscar um saco de plástico e guardamo-la atrás do banco. Estava boa para comer.

 

A minha mãe não concordou. Enquanto protestava, eu e o meu pai partilhávamos alguma coisa que era maior do que o silêncio. O dia haveria de começar a nascer. Lisboa aproximava-se de nós. A minha mãe temia pelo sinal porque tinha aparecido sem aviso e, ao longo dos anos, tinha crescido, tinha mudado de cor. Quando o médico lhe disse para o tirar, conformou-se.

 

No dia 18 de Abril de 1990, Lisboa era maior e muito mais confusa. Tinha mistérios. Era já de manhã quando estacionámos nas traseiras do Hospital Curry Cabral. A minha mãe despediu-se de mim e eu, sem palavras, desejei-lhe boa sorte. O meu pai acompanhou-a. No rádio da camioneta, sintonizei um posto onde falavam do Benfica. Entretive-me a ver passar os comboios e foi nesse tempo que comecei a ter comichão.

 

Quando o meu pai voltou sozinho, foi ele que descobriu que eu tinha as pernas cheias de pulgas. A lebre. Quando o corpo arrefeceu, as pulgas começaram a abandonar-lhe o pêlo. O saco de plástico foi fraco protector. Juntos, tivemos de esfolá-la ali, nas traseiras do Hospital Curry Cabral. Tive de despir as calças e o meu pai catou-me as pernas. Não sei onde a minha mãe estava, imagino que estivesse anestesiada, num lugar branco.

 

À hora de almoço, estava pronta, mas um pouco despassarada. Tinha um penso no lugar do sinal. Pedi-lhe que me mostrasse, mas não quis. Apanhámos o metro e fomos comer um frango ao Bonjardim, nas Portas de Santo Antão. O meu pai pedia sempre picante. Eu e a minha mãe bebíamos coca-cola. A minha prenda nesse dia foi um alfinete com o emblema do Benfica.

 

A camioneta sentiu alívio ao ver-nos. Ainda estava estacionada no mesmo sítio, à nossa espera. Atrás do banco, dentro de um saco de plástico novo, estava a lebre esfolada. Fizemos o caminho de volta, cheios de Lisboa. As estradas, as histórias do meu pai, a fonte onde parávamos sempre para beber água. Horas depois, quando chegámos a casa, a nossa cadela estava à porta. Quando viu a minha mãe abanou a cauda amputada e mijou-se às pinguinhas. Era uma cadela muito sentimental.

 

Ouvi o relato no meu quarto, numa telefonia verde que tínhamos. A menos de dez minutos do fim, o angolano Vata marcou um golo espectacular com a mão. No Estádio da Luz, o Benfica apurou-se para a final dos clubes campeões europeus. Tive vontade de ir ao terreiro, mas já era tarde. Em vez disso, apanhei alguma coisa bicuda e marquei a data de 18 de Abril de 1990 na parte de trás do alfinete com o emblema do Benfica, o mesmo que agora seguro na palma da mão. 

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in Abraço

 

 

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publicado às 16:40

 

 

 

 

Havia os dias em que eu acordava com as vozes das mulheres na tapada. Começavam a trabalhar bastante cedo porque o calor era por demais. A partir de meio da manhã, já custava aguentá-lo; a partir da tarde, já ninguém podia com ele. As mulheres eram a minha mãe, a minha avó e, talvez, alguma vizinha a quem a minha mãe tivesse pedido para ajudar. A essa hora, a luz do sol já se espalhava por tudo: pelos torrões de terra, grossos, secos, pelas folhas finas das oliveiras ou pelo toque dos sinos na torre da igreja, a marcar as horas com pancadas solenes. As vozes das mulheres, feitas de manhã, misturavam-se com tudo isto.

 

Quando eu chegava ao quintal e me inclinava sobre o muro da tapada, via-as a caiarem as traseiras da nossa casa. Usavam lenços na cabeça que as tapavam até ao pescoço e, sobre eles, chapéus de palha. Por cima da roupa, usavam batas; por baixo das saias, usavam calças. Molhavam os pincéis grossos na cal e raspavam-nos ruidosamente nas paredes. Para chegarem às partes mais altas, os rebordos dos beirais, prendiam pincéis na ponta de canas com vários metros de altura. Eu admirava-me com esse trabalho. A cal escorria pela parede, aguada e branca. A parede cheirava a cal, a pedra fresca. As mulheres estavam sempre bem-dispostas. Nessas manhãs, pareciam-me mais novas.

 

Na minha rua, havia paredes de casas que tinham tantas camadas de cal sobrepostas, ano após ano, que tinham perdido a origem da sua forma. Eram casas brancas, de superfície ondulada, com as esquinas arredondadas. Eu sabia que as suas paredes eram grossas e que, mesmo debaixo da maior força do calor, eram frescas. Por fora, com as portas apenas no trinco, não era preciso fechá-las à chave, pareciam grutas brancas, fortes e limpas. Mesmo quando as viúvas morriam e não havia ninguém para caiar essas casas durante anos, as paredes mantinham o asseio. Então, eu e as crianças da minha idade, arrancávamos lascas de cal com as unhas e, às escondidas, gostávamos de comer as mais fininhas.

 

Havia também os dias em que eu acordava mais cedo e assistia à maneira como as mulheres tiravam grandes pedras de cal de uma saca e as deixavam cair num bidão meio cheio de água. As pedras de cal faziam a água ferver. Era esse o fenómeno, parecido com um milagre, a que eu queria assistir. Depois, seguravam um pau com as duas mãos e mexiam essa água grossa, branca, que rebentava bolhas lentas, acompanhadas por barulhos líquidos, como um animal cansado.

 

Nesses dias, almoçávamos ensopado de borrego no quintal, à sombra dos pessegueiros. As mulheres falavam de qualquer assunto que as fazia sorrir, as suas vozes misturavam-se com o tempo. Eu ouvia-as, prestava atenção a cada frase, aquilo que diziam dissolvia-se em claridade, mas também reparava nas gotinhas de cal que lhes tinham secado na pele do rosto, a pouca distância dos olhos. Cal sobre a pele. Havia nitidez nas cores, a luz era toda verdadeira e, como o sol reflectido na cal, as mulheres encandeavam. 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista UP (Abril 2012)

 


 

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publicado às 10:05

 

 

 

 

Sinto ternura pelos actores de filmes portugueses dos anos trinta e quarenta. É uma ternura branda, que se alastra pelas coisas e, como o pôr-do-sol, se cola à paisagem. Por via desse sentimento, os actores de filmes portugueses dos anos trinta e quarenta pertencem-me um pouco. Por essa mesma via, também eu lhes pertenço. Somos contemporâneos nesse sentimento, temos longas conversas dentro dele.

 

Nesse convívio, eles articulam cada palavra com cuidado. As frases mais simples são esculturas, moldadas sílaba a sílaba pela pronúncia de Lisboa, entre a Estrela e Campo de Ourique. Os actores de filmes portugueses dos anos trinta e quarenta, encontram-se nas mesas de uma pastelaria, pedem garotos de limão e bolos de arroz. Ouvi dizer que, aos domingos, se juntam em bailes, matinés onde os senhores estendem a mão às senhoras e lhes pedem a honra da próxima dança. Nunca assisti a esses bailes, mas não me é difícil imaginá-los, leves, a flutuarem aos pares, com os corpos a dois palmos de distância, mas com as mãos juntas, pele.

 

Uma vez, há alguns anos, quis mostrar um desses filmes a uma amiga croata que tinha aprendido português. Ela falava bastante bem, cantava canções portuguesas no duche. Talvez por isso, escolhi A Canção de Lisboa, que clássico, Vasco Santana, Beatriz Costa, Ribeirinho, o primeiro filme sonoro português. Sentámo-nos no sofá, à meia-luz. Eu comecei a emocionar-me logo no genérico: os nomes, o tipo de letra, os tons de cinzento. E a música, melodia/felicidade. Falando de melodia, é possível falar-se de perfeição. A melodia transporta um sentido próprio que preenche os momentos, que os harmoniza. Nessa tarde, de estores baixos, os actores surgiram no ecrã da televisão a trocarem sorrisos, bem dispostos. Logo nas primeiras cenas, ao escutar frases que sabia de cor, frases que antecipava palavra a palavra, comecei a reparar que a minha amiga croata não se ria, não sorria sequer. O Vasco Santana dava o seu melhor e ela olhava-o indiferente. Decidi esperar dez minutos. Quando passaram, decidi esperar mais dez. Ao longo desse tempo, a minha amiga continuou impávida, com um ar de tédio ligeiro.

 

Não tenho explicações definitivas. Talvez o humor desses filmes assente muito na escolha de palavras, nos trocadilhos com a língua e com a pronúncia; talvez as referências à realidade do país sejam muito específicas; talvez haja outras razões que não sou capaz de enumerar. Aquilo que é certo, já o comprovei mais vezes, é que os filmes portugueses dos anos trinta e quarenta não tocam esse público que não é português ( x = 7 mil milhões - 10 milhões).

 

É pena. Não é pena para esse x de milhares de milhões de pessoas que não sabem o que perdem, é pena para esses actores dos filmes portugueses dos anos trinta e quarenta, com cara de bonecos, estereotipadamente cómicos, a sentirem talvez que a sua cortesia foi em vão. Não foi. Por isso, rio-me mil vezes da mesma piada, ensino-a aos meus filhos e, se encontro algum actor dos filmes portugueses dos anos trinta e quarenta junto a uma passadeira, dou-lhe o braço e, devagar, ao seu ritmo, ajudo-o a atravessar a rua.

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista UP - revista de bordo dos voos da TAP (Março de 2012)


 

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publicado às 10:49

Obrigado

14.02.12
 

Às vezes, fico só a olhar para vocês. Aperto os lábios porque todas as palavras me parecem insuficientes. Aquilo que normalmente se diz nessas ocasiões, aquilo que é aceite pelo protocolo da convivência social, não chega para começar a exprimir todo o invisível que me inunda. Então, quase sempre sentado a uma mesa, fico só a olhar para vocês. Nesses momentos, não ter palavras é muito melhor do que ter rios de palavras. Aquilo que não sei dizer existe com muita força e, se tentasse encontrar-lhe nomes, estaria a diminui-lo, a transformá-lo em qualquer coisa possível.

 

É essa a natureza da matéria que partilhamos, é essa a forma daquilo que nos juntou. Sem esse mistério, continuaríamos a seguir os nossos caminhos. Talvez a metros, talvez a quilómetros, talvez em hemisférios distintos, talvez em ruas paralelas, as nossas existências seriam indiferentes uma à outra. Não quero sequer imaginar a possibilidade desse mundo cinzento. Ainda bem que existem os livros, ainda bem que existe esta revista, ainda bem que existe a internet, o facebook, as feiras do livro e todos os lugares físicos e não-físicos onde nos encontramos. Ainda bem que existe o pensamento e a memória. Ainda bem que existe a ternura.

 

Mesmo havendo palavras, é difícil dizer aquilo que se quer dizer. A voz fica presa na garganta ou antes da garganta. Não vamos cometer esse erro. Vocês foram chegando devagar, foram entrando e quero que saibam que, hoje, são parte da minha família. Penso em vocês entre aquilo que me é mais valioso e, sem explicação, sinto saudades vossas de repente. Muitas vezes, sinto o toque do sol, tão suave, e sorrio ao lembrar-me que vou partilhar esse bem-estar convosco. Sinto-me muito grato pela companhia que me fazem. Convosco, nunca estou sozinho.

 

Os dias têm horas, minutos, e eu existo em todos eles. Não vejo o mundo apenas a partir das montras das livrarias ou das pequenas fotografias que acompanham estas crónicas, como se tudo estivesse controlado. Sou uma pessoa, Zé Luís, e só muito raramente está tudo controlado. Há vezes, como agora, em que estou num quarto qualquer. Um quarto onde, depois de hoje, nunca mais voltarei. Os meus filhos, a minha mãe, as minhas irmãs estão a milhares de quilómetros, o terreiro das Galveias está a milhares de quilómetros. A distância faz de mim um menino perdido. Há muitos mais exemplos, claro, o coração a bater contra algo que o aperta. Então, vocês chegam e cobrem-me com a força de me desejarem tanto bem. Vocês protegem-me com pensamentos que atravessam oceanos. Comovem-me com esse bem-querer. Obrigado por, entre tantas possibilidades, terem escolhido a mais bondosa. Vocês constroem-me. Devo-vos a pessoa que sou.

 

E não importa se estivemos no mesmo lugar apenas por um instante há cinco anos, não importa se nunca estivemos no mesmo lugar, aquilo que realmente importa é o segredo luminoso que partilhamos. Não é feito de palavras, mas é transportado por elas. Esse é o nosso lugar, temos almas a vaguear nesse universo de sentido. Vocês mostram-me todos os dias que a generosidade pode salvar. Vocês têm muitos rostos, muitas histórias. Eu ouço-vos e encho-me de esperança humana, de amor humano, e transbordo.

 

Mesmo quando estou em silêncio, agradeço-vos por me acrescentarem um sentido tão profundo. Estar-vos grato é estar grato ao mundo inteiro, ao fácil e ao difícil, ao doce e ao amargo. Sem um, não existiria o outro. Mesmo. Sem um, não existiria o outro, repito para que não restem dúvidas. Chegou a hora de, todos juntos, agradecermos pelas contrariedades. São elas, por mais feias, que nos permitem alcançar aquilo que está para lá delas. Ao mesmo tempo, são essas contrariedades, esses silêncios, que nos permitem prestar atenção ao que realmente nos interessa e que, como uma fogueira, nos ilumina o rosto.

 

Porque nos encontrámos, somos uma espécie de irmãos. Fomos capazes de existir sobrepostos e, por mais ou menos tempo, partilhámos a experiência partilhável. Se amanhã tudo se desfizer, saberemos que nos tocámos e espero que, perante o fim, sejamos capazes de nos sentir gratos pelo que tivemos e que é bastante mais do que a maioria das pessoas alguma vez chega a ter. 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Fevereiro 2012)

 

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publicado às 10:01

Amor burguês

18.01.12
 

 

 

Havemos de engordar juntos.

 

Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz "cliente seguinte", estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.

 

As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.

 

É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.

 

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.

 

As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

 

Havemos de engordar juntos.

 

Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.

 

Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.

 

E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.

 

Nós acreditávamos.

 

Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho. 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012)



 

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publicado às 19:22



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