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Todo o silêncio

28.10.14

 

De nome inteiro, o escritor está sentado à mesa. Quem terá tratado do arranjo de flores que tem à sua frente? O microfone funciona.

 

Enquanto apresento o meu livro em bibliotecas e livrarias, acabo quase sempre por te referir. Nesses momentos, és personagem de episódios, autor de frases, portador de lições que ainda fazem sentido. Muito raramente, como se me espreitasses através de uma frincha, o teu olhar pode atravessar essas palavras que escolho para te mencionar. Eras chuva de muitos dias seguidos, essas palavras são uma gota.

 

Não é possível saber o que entendem as pessoas que me olham. Posso imaginar o que quiser a partir da sua atenção, escolho a melhor possibilidade, a mais benévola. Leio algumas páginas do livro em voz alta, exactamente como se estivesse a descobri-las.

 

O escritor está disponível para autografar os seus livros. Por favor, formem a fila nesta direcção. A minha caligrafia, embaraçosa como a minha voz gravada em vídeos antigos de festas de anos. De cada vez que escrevo o meu nome, o teu nome vai sobreposto ao meu. Da mesma maneira, lá no cemitério, no mármore, o meu nome está sobreposto ao teu.

 

Um homem de quarenta anos deitado sobre uma cama de hotel, iluminado pela televisão ligada. Com esta idade, mais do que nunca, distingo-te em mim. Entrava no teu quarto à noite, vias qualquer coisa na pequena televisão a preto e branco, e deitava-me ao teu lado. A minha pele tem a mesma cor da tua. Sou capaz de comparar as minhas mãos com as tuas. Conto o tempo que me falta para ter a idade que tinhas quando te perdi. Faço contas às idades que os meus filhos terão. Tento rejeitar esses pensamentos. Não quero, esse tempo é demasiado cedo para morrer, mas, como também sabes, importa pouco aquilo que queremos.

 

Amanhã, o André faz dez anos, mas tu não chegaste a conhecer o André. Às vezes, distingo-lhe traços teus, maneiras. Se for real e possível, se os meus olhos não estiverem deturpados pelo que quero ver, fui eu que transportei esses pequenos gestos. Levei-os talvez naquilo que faço todos os dias, nas minhas próprias maneiras. Como serias tu com dez anos? O André já ouviu falar muito de ti. Contei-lhe histórias que não chegam para que te conheça.

 

Aquele gajo que aparece na televisão sentou-se no restaurante e escolheu o prato do dia. Não vai querer as entradas, pois não? Juntos, pousámos os cotovelos em toalhas de papel como esta. Essas eram horas boas. O passado ficou com todas as conversas que tivemos à espera que chegasse a comida ou, depois, diante de nódoas de gordura e migalhas de pão. Agora, consigo recordar-nos em restaurantes como este, mas não temos som, não consigo reconstruir nenhuma das conversas que tivemos. Talvez falássemos de temas muito ligados à véspera desses dias distantes, ou talvez a minha memória tenha deixado de guardar essa informação, precisou do espaço para qualquer outro assunto.

 

Já depois da conta, o senhor do restaurante deseja-me sorte para os livros, e aponta para a televisão onde me viu, presa à parede. Agradeço e, nesse momento, entendo de repente a simpatia pouco habitual, o sorriso a despropósito.

 

Sim, pai, às vezes, vou à televisão falar dos meus livros.

 

É difícil explicar. Haveria de surpreender-se bastante com aquilo que aconteceu. Nunca apareci na pequena televisão a preto e branco que tinha no quarto e, com toda a sua capacidade de idealizar o futuro, haveria de ficar incrédulo se alguém lhe contasse. O meu pai não tinha forma de imaginar que, um dia, com este caminho feito, eu seria um escritor a dar autógrafos.

 

Para o meu pai, serei sempre um rapaz de futuro incerto, com a carta de condução acabada de tirar, a estudar para ser professor. Quando pousava as pálpebras sobre os olhos, o sofrimento, sei que uma das suas preocupações era: o que irá ser deste rapaz? Ele próprio, muitas vezes, dizia esta frase. Dentro de mim, sou capaz de ouvir a sua voz a dizê-la.

 

Agora, nada pode mudar esse facto. Mesmo que passe o resto da minha vida a escrever livros, mesmo que sejam lidos por milhares e milhares de rostos atentos, mesmo que o meu nome seja repetido todos os dias em bibliotecas e livrarias. Para o meu pai, nunca serei escritor.

 

José Luís Peixoto, in revista Visão, 23 de outubro de 2014

 

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publicado às 10:01

 

 

Um dia, vou cansar-me de querer conhecer o mundo. Nessa altura, talvez me pareça estranho que alguém saia de casa, deixe o morninho, para discutir preços com taxistas ou olhar para ementas de restaurantes onde não percebe uma única palavra.

 

Às vezes, parece-me que conheço demasiados caminhos. Para ir a certos lugares, não tenho de pensar. Entro no carro e a minha cabeça ocupa-se de qualquer assunto que, naquele momento me pareça importante. Conheço tão bem esses caminhos que quase me surpreendo quando chego ao destino. Às vezes, quero ir a lugares ligeiramente diferentes, distraio-me por um momento e, quando reparo, já estou a fazer esses caminhos de novo. O hábito enganou-me. Então, preciso de voltar atrás, raramente necessito de GPS para encontrar a direcção certa.

 

Viajar seja para onde for, querer conhecer o mundo, é acreditar que todas as ruas fazem parte de um labirinto mas que não é possível perdermo-nos nele. Está-se sempre em algum lugar. A rosa dos ventos pode ser colocada em qualquer sentido, continuará sempre a ser uma rosa dos ventos.

 

Na Tailândia, nenhuma comida tem o sabor das sopas da minha mãe. Na Amazónia, nenhuma paisagem se parece com os campos à volta da terra onde nasci. Nas ruas de Helsínquia, ninguém entende a língua em que penso e eu, estrangeiro, tenho dificuldade até de distinguir palavras na amálgama de sons que essas pessoas dizem quando vão, por exemplo, a conversar nos transportes públicos.

 

Um dia vou cansar-me dessa surpresa. Conheço bem o conforto do meu sofá, com mantas em fevereiro, onde poderia passar tardes inteiras a ver programas da televisão portuguesa, com anúncios portugueses, com as notícias portuguesas a começarem à hora certa: pip, pip, piiii. Sei bem o que é atender o telefonema de um amigo que me diz: vem cá. Sei bem o que é poder ir ter com ele naquele momento, estar ao lado dele depois de minutos. Também sei o que é sentir que os amigos deixaram de ligar. A pouco e pouco, convencem-se de que nunca estou, nunca posso, não vale a pena ligar, não vale a pena insistir.

 

Sim, um dia vou cansar-me de querer conhecer o mundo, mas hoje ainda não é esse dia. Sinto uma espécie de tontura só de começar a conceber todos os lugares onde posso ir. Tenho os sentidos ávidos por tudo aquilo que me espera. Não tenho qualquer receio de estar sozinho, sem mapa, no centro de Singapura, numa avenida de Caracas, diante de uma paisagem do Alasca. Anseio por esse momento.

 

Quero aterrar em todos os aeroportos do mundo, quero conversar por gestos com gente de todos os países, quero provar o sal de todos os oceanos, senti-lo a cristalizar-se na pele. É muito fácil que chegue um dia em que deixe de acreditar em tudo o que acredito agora. A vida é composta por materiais bastante mais transitórios do que estamos dispostos a admitir. Mas, até lá, sempre que esteja diante de uma ementa onde não perceba uma palavra, continuarei a fechar os olhos e a pedir a primeira coisa onde deixe cair o meu indicador.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Revista Volta ao Mundo (Abril 2014)

 

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publicado às 10:54

A vida

08.01.14

 

 

 

A chuva insiste de encontro ao pára-brisas. Os contornos de tudo embaciam-se por detrás da água, as cores perdem os limites que as contêm e entornam-se umas sobre as outras. Depois, chega o instante em que as escovas do limpa pára-brisas não conseguem esperar mais. A uma velocidade constante, certa, fazem o seu movimento geométrico, a nitidez cinzenta do céu reflectida pela estrada e, logo a seguir, a chuva de novo. Conduzo devagar.

 

A minha sobrinha fala de pessoas que já morreram. Responde às minhas perguntas, mas o silêncio também lhe serviria. Lembra-se bem do momento em que acordou a meio da noite e ouviu os crescidos a receberem a notícia de uma morte. Hoje, tem vinte e cinco anos. Enquanto fala, acede a impressões de pessoas do passado, é difícil distinguir se são memórias ou apenas pensamentos criados pelo que ouviu dizer, não sabe se está a recordar ou a imaginar. Essa indefinição incomoda-a. Está habituada a lembrar-se de tudo o que pensa. Falo-lhe de outras pessoas, gente que morreu quando era ainda mais pequena. Não tem qualquer memória. Custa-lhe menos chegar a essa conclusão. Sente menos falta daquilo que nunca teve.

 

Conduzo devagar. Durante um instante, as figuras foscas do pára-brisas são a direcção para onde continuo. A voz da minha sobrinha hesita, estende-se no interior do carro, protegida da chuva, com uma fragilidade imperfeita. As pessoas de que ela não se lembra estão dentro de mim. Vejo-as com clareza. Nalguns casos, dirigem-se a mim, tratam-me pelo nome e sorriem, completamente ignorantes de estarem mortas. Sinto a sua presença em detalhes, não tenho de fazer qualquer esforço para os ter presentes: a maneira como penteiam/penteavam o cabelo com os dedos, uma certa expressão do rosto, a maneira como dizem/diziam certas palavras. A limpeza da memória das suas vozes comove-me, a maneira como pronunciam certas palavras, mas sei que não estão vivos, sei que não poderei voltar a ouvir essas vozes que ninguém gravou.

 

Procurando explicações para mim próprio, olho para o passado como se fosse a casa dos meus pais. Aprendi a conhecer cada pormenor das suas paredes, a sua textura, acreditei naquela casa como só um menino é capaz, depois o tempo passou. Aqui mesmo, ou em todos os lugares onde já estive sem me lembrar dela, a casa continuou sempre lá. Está lá agora, com tempo a passar lento nas suas divisões mal iluminadas, as mesmas onde fui criança, o banco onde me sentava ao lume em dias como este, o corredor que a minha mãe atravessava cheia de pressa, o sofá onde o meu pai se sentava já doente, a cama onde eu me deitava a imaginar o adulto que seria/sou, o canto da cozinha onde nesta época do ano decorava a árvore de Natal. E foi assim em todos os momentos. Depois de sair de lá, noutras casas, sem me lembrar, compenetrado em apaixonar-me ou em desiludir-me, a casa estava sempre lá, com tempo a passar nas suas divisões vazias. Enquanto eu tinha filhos, a casa estava lá; enquanto eu publicava livros, a casa estava lá; enquanto eu me preocupava com insignificâncias que já esqueci, a casa estava lá.

 

Tenho trinta e nove anos. Há pouco mais de uma semana, levei a minha mãe neste mesmo carro. Era de noite, os faróis dos outros automóveis formavam estrelas na distância. Eu falava-lhe do meu filho mais novo e disse-lhe que cinco anos passam depressa, disse-lhe que daqui a pouco será adolescente. A minha mãe não concordou, disse-me que não, disse-me que cinco anos é muito tempo. A minha mãe tem setenta e dois anos. Não precisou de repetir ou de explicar melhor o que queria dizer. Entendi-a bem e senti-me envergonhado pela superficialidade e pela arrogância do meu desconhecimento. Realmente, cinco anos é muito tempo. Só passam depressa se não estivermos atentos.

 

Avançamos num veículo frágil, debaixo de uma tempestade inclemente, muito maior do que nós, de um tamanho que não podemos conceber, a transcender-nos, mas estamos aqui. Avançamos em direcção a figuras foscas, a nitidez é breve e não tem força suficiente para nos tranquilizar, mas estamos aqui. A noite, inevitável, à espera, mas avançamos e estamos aqui. 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro 2014)

 

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publicado às 15:19

 

 

Existem vinte e quatro fusos horários. Por isso, durante um dia inteiro, hora a hora, há pessoas a celebrarem o fim/início de ano velho/novo. O planeta gira à sua velocidade pesada, como um daqueles cilindros de carne, um espeto de shoarma, e, durante um dia inteiro, hora a hora, é varrido por multidões a contarem em coro, a brindarem, a entusiasmarem-se ou a comoverem-se. Começa numa ilha qualquer do Pacífico. Ainda não estamos vestidos para a festa e já vimos no telejornal o fogo de artifício em Sidney. Depois, hora a hora, vai-se aproximando. Quando falta pouco, alguém diz: já é ano novo em Espanha.

 

Contar para trás exige um nível apurado de atenção. Talvez possa ser comparado com o esforço que um destro faz ao assinar o nome com a mão esquerda. O princípio é semelhante. Contraria uma espécie de instinto, algo que se aprendeu há muito tempo.

 

Em casa, as crianças entre os quatro e os dez anos ficam acordadas excepcionalmente até à meia-noite. Assistem admiradas às celebrações dos avós. Há festa na televisão ligada. Aquilo que acontece na sala parece uma continuação tosca daquilo que acontece na televisão. Olhamos para lá e aprendemos como se faz.

 

Este ano ainda não espirrei, este ano ainda não fui à casa de banho, este ano ainda não bebi um copo de água; não te via desde o ano passado, não almoçava desde o ano passado, não pensava no ministro das finanças desde o ano passado, felizmente.

 

Quando a vida retrocede, quando se passa a viver pior, faz sentido afirmar que se avançou um ano? Pelas contas dos calendários, chegámos a 2013. Mas, olhando para o tempo, quando foi a última vez que nos sentimos assim? Há quantos anos tínhamos alcançado aquilo que perdemos? Há vinte anos atrás, seríamos capazes de imaginar este tempo com uma sofisticação diferente: robots a fazerem as tarefas domésticas, teletransporte. Mas agora estamos aqui.

 

Há a internet e os telemóveis mas, sob a perspectiva dos direitos que deixámos de ter, estamos em que ano? Talvez o tempo não avance como a ciência e os relógios garantem. Talvez o tempo ondule. Se assim for, é certo que ondulamos com ele. É até possível que se agite por nossa causa. Se assim for, não é certo que estejamos em 2013. Aqueles que têm de emigrar para onde ficam sozinhos reconhecem a sua realidade em histórias com mais de quarenta anos; aqueles que perdem a casa recuam dez ou vinte anos; aqueles procuram e não encontram sentem que 2013 não é muito diferente de 2012.

 

Depois de rebentarem as rolhas das garrafas de espumante aqui, continuam a rebentar, hora a hora, em direcção a oeste. Há milhares de pessoas eufóricas em Times Square, as autoridades de certos países advertem para os perigos dos tiros para o ar, centenas de pessoas resolvem tomar banho nas águas geladas de todos os mares.

 

Nestas últimas semanas, ao conduzir por uma estrada onde passo habitualmente, tenho reparado num cartaz que anuncia o fim de ano em Salvador da Baía por mil e quinhentos euros. Com alguma melancolia, imagino essas pessoas a entrarem no avião. Como serão os seus rostos? Continuo o meu caminho, ultrapasso e sou ultrapassado, presto atenção a outros cartazes que se anunciam a si próprios: têm um número de telefone e a frase: "saiba como anunciar aqui". Ultimamente, há muitos cartazes assim, vazios, ninguém quer anunciar nada neles.

 

Enquanto isso, algures, existem as pessoas reais que se preparam para atravessar o oceano, têm o passaporte em dia. Levam aquilo que imaginam e regressarão com aquilo que encontrarem. Talvez acreditem que o tempo que aí vem será melhor se passarem essa data lá longe, naquilo que imaginam. Quase de certeza que imaginam algo melhor do que estar aqui. De outra maneira, não iriam até lá. Não se davam a esses gastos e a esse trabalho.

 

Enquanto isso, há pessoas a dormir durante a passagem de ano.

 

Termina um ano, termina um mês, termina uma semana, termina um dia, termina uma hora, termina um minuto, termina um segundo. Este segundo, e este, e este, e este.

 

Noutra dimensão, alheio a estes detalhes, há o tempo. Nunca termina, nunca começa, continua sempre.

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (janeiro 2013)

 

 

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publicado às 18:44

O meu lugar

04.08.13

 

 

Quando era pequeno, rodava sobre mim próprio com as pontas dos pés. Rodar-rodar-rodar: as formas a saírem dos contornos, as cores a misturarem-se demasiado rápidas e, depois, ao parar de repente, o chão como um barco debaixo da tempestade, a paisagem inteira a oscilar desgovernada, eu a tentar equilibrar-me e, ao mesmo tempo, criança, a apreciar esse caos. A seguir, a pouco e pouco, o horizonte abrandava e voltava a fixar-se.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Posso estar a falar com a minha mãe, como há dois dias atrás, e ela diz-me: aquele sobreiro que fica entre o campo da bola e o Monte da Torre. E, entre tantos, eu sei exactamente qual o sobreiro a que se refere. Essa é a precisão com que sei o meu lugar. As ruas, calcetadas com paralelos, suportam o meu pensamento desde que nasci. Em gestos largos, os muros são caiados anualmente porque o branco precisa de renovação, a pureza é uma tarefa permanente.

 

Esses foram os anos em que viajou pelo mundo inteiro. Não sei que voz irá dizer esta frase sobre a minha vida neste tempo. O mais provável será ser eu próprio a dizê-la: Esses foram os anos em que viajei pelo mundo inteiro. Em qualquer dos casos, essa frase será dita quando já não aguentar o ritmo deste tempo, desta idade em que atravesso oceanos como se rodasse sobre mim próprio. Com os olhos cheios, quando paro de repente, o chão balança, a paisagem ondula. É então que o meu lugar, paz/certeza, me nivela.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Com tantas viagens, como é que consegue escrever? Ouço esta questão de muitas vozes, em muitas línguas, vinda de pessoas que nunca se conhecerão umas às outras. Dou qualquer resposta que me pareça satisfazê-las rapidamente. Às vezes, nem preciso usar palavras, basta sorrir. Quem faz perguntas não está sempre interessado em saber as respostas.

 

No tom prosaico dessas conversas, seria difícil explicar que eu tenho um lugar, está sempre comigo. É visível e invisível. Há oliveiras centenárias agarradas a essa terra. Há uma forma de respirar que só é possível sob essa aragem. Há fontes de bicas fartas, onde jorra tudo o que amo e me ama.

 

Quando era pequeno, os campos eram enormes. Cresci mais do que podia imaginar e, no entanto, os campos continuam enormes. Entre o que me puxa de um lado e de outro, há o meu lugar a manter-me firme, a fornecer-me equilíbrio infinito. A diferença de forças é incomparável. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Levo comigo uma origem e um destino. Levo comigo um sentido. Irreversível como um mergulho, não me perturbo. Eu tenho um lugar. Sinto que lhe conheço cada detalhe e, no entanto, todos os dias o exploro e lhe encontro novidade. No meu lugar, os sinos do adro dão as horas.

 

É difícil vermo-nos a nós próprios, sei bem. Falta a perspectiva da distância, os espelhos distorcem, o rosto com que nos olham está sempre tingindo pela cor que trazem por dentro. É também por isso que me faz tanta falta o meu lugar. Sem ele, talvez acreditasse no primeiro reflexo que me apresentassem. Sem ele, talvez dependesse desses humores para imaginar quem sou.

 

Assim, estou preparado para atravessar o mundo inteiro. E, se mais mundo houver, mais mundo será tocado pela minha pele. Mi-nha pe-le, palavras pronunciadas sílaba a sílaba. E nenhum continente é demasiado grande ou demasiado estéril para me impedir de atravessá-lo. E nenhum detector de metais conseguirá identificar o tamanho e os ângulos do lugar que levo comigo: amor. Repito: amor.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Ainda rodo sobre mim próprio e, depois do mundo fosco, preciso de acreditar na nitidez que transporto, esse lugar meu, onde descanso e onde não sou um postal de tiragens sem fim, sempre deturpado um pouco mais, um pouco mais, milímetro a milímetro. Agradeço todo o contraste que consigo trazer para o caminho que construo. Não coloco limites nas temperaturas a que quero sujeitar os meus sentidos e nas lições que quero aprender. Mas felizmente, tenho o meu lugar. Acompanha-me como um deus.

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Agosto, 2013)

 

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publicado às 12:28

 

  

Como se alguma coisa me chamasse, levanto o rosto do livro. Acabado de chegar, surpreendo o mundo inteiro a existir em cada detalhe. Entre as páginas, pouso um marcador que o André fez na escola e me ofereceu no dia do pai. Cada movimento é muito vagaroso para não perturbar nada. Mantenho a distância. E fico apenas a assistir, como se ainda estivesse a ler, como se tudo continuasse sem mim.

 

A paz do cloro mistura-se com o fim da tarde e com o azul limpo das paredes da piscina. Calculo que os meus filhos estejam mais ou menos a vinte metros de mim. Descalços sobre a relva, jogam com raquetes de madeira. A bola de borracha faz um barulho surdo, sem eco, toc, toc. Às vezes, essa cadência mantém-se certa durante algum tempo mas, depois, sem explicação, perde-se, não dá para confiar na regularidade desse ritmo.  O João, com dezasseis anos e mais de um metro e oitenta, atira a bola para o André, com oito anos, quase nove, que pode ser capaz de apanhá-la ou não. Em qualquer dos casos, entusiasmam-se com esse desafio, riem-se e as suas vozes atravessam esta distância, perdendo pelo caminho a forma das palavras, mas mantendo o seu tom, a sua idade, a sua música.

 

Numa cadeira ao lado da minha, inclinada para trás, a minha mãe ressona baixinho, como se o ar lhe raspasse no céu da boca. Tem os óculos desacertados dos olhos e a expressão séria que sempre faz quando está a dormir. Tem as mãos juntas, pousadas sobre a barriga, os dedos tortos, a artrose. Tem as pernas esticadas, os dedos gordos dos pés a apontarem para qualquer lado, a dormirem também.

 

Neste momento, tenho a noção precisa do tamanho da minha sorte.

 

No ano passado, fomos de férias juntos pela primeira vez, só nós. Em novembro, quando a minha mãe teve o AVC, pensei em várias ocasiões: ainda bem que fizemos essa viagem, ainda bem que não esperámos mais. Quando recuperou a fala, ela própria disse a mesma coisa. Estes meses passaram com a minha mãe a reaprender a andar, a segurar nos objectos, a falar. Não sei se os meus filhos chegaram a entender completamente aquilo que aconteceu à avó. Eles ainda não são capazes de perceber que ela é uma rapariga nova no corpo de uma mulher de setenta e um anos, a ouvir mal, a andar devagar, a usar palavras estranhas, a contar histórias antigas e a não gostar de todas as comidas.

 

Mesmo sem essa tangente à morte, mesmo sem a violência dos detalhes que não descrevo aqui, acredito que continuaria a ser capaz de avaliar a dimensão da sorte deste momento. Desde cedo que temo a possibilidade de passar pelas horas mais felizes da minha vida sem as reconhecer. Não sei com quem aprendi esse talento. Sinto pena silenciosa quando vejo alguém recordar um tempo em que foi feliz como se, só naquele instante, demasiado tarde, identificasse a felicidade que atravessou. Não quero esse desperdício para mim. A vontade de reconhecer os melhores momentos da minha vida no instante em que estou a vivê-los, dá-me a lucidez de estar sempre alerta para a felicidade. É essa a minha sorte.

 

Os meus filhos jogam com as raquetes de madeira. Quando um ou outro não acerta na bola, dão dois ou três passos para ir buscá-la entre os arbustos. A minha mãe continua a dormir, os seus sonhos parecem tranquilos como as suas sobrancelhas. O tempo desliza nestas cores do entardecer. O sol, de certeza, encontrou o horizonte. Somos sempre os últimos a sair, não temos pressa.

 

Depois, quando sairmos, voltaremos a ser um grupo invulgar de quatro elementos com muitas diferenças entre si: um menino de oito anos, irrequieto, cheio de coisas para dizer; um adolescente de dezasseis anos, carapinha, aparelho nos dentes e muito vagar; uma mulher de setenta e um anos, a descer degraus com dificuldade, mas animada para todas as hipóteses que surjam; e eu, de chinelos, t-shirts difíceis de compreender, estranho e tatuado.

 

Mas isso será depois. Agora, há o rumor da água da piscina, empurrada por uma brisa que não se sente, há a minha mãe aqui ao lado, há os meus filhos a serem irmãos e há esta sorte infinita que me rodeia e me acompanha.

 

Há esta gratidão compacta que me preenche. 

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (julho de 2013)

 

 

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publicado às 16:21

Luta de classes

07.05.13

 

 

 

Não contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrário, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.

 

A cultura é usada como símbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botão de punho. A raridade é condição indispensável desse exibicionismo. Só pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colecção de símbolos é descrita com pronúncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.

 

Para esses indivíduos raros, a cultura é caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convém não haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no início da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritórios for vista a ler um determinado livro nos transportes públicos, os snobs que assistam a essa imagem são capazes de enjeitá-lo na hora. Começarão a definir essa obra como "leitura de empregadas de limpeza" (com muita probabilidade utilizarão um sinónimo mais depreciativo para descrevê-las).

 

Este exemplo aplica-se em qualquer outra área cultural que possa chegar a muita gente: música, cinema, televisão, etc. Aquilo que mais surpreende é que estes "argumentos", esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivíduos supostamente cultos, e só em escassas ocasiões é denunciada como discriminadora do ponto de vista sexual ou social.

 

Isso são livros de gaja, dizem eles. Às vezes, para cúmulo, há mesmo mulheres que dizem: isso são livros de gaja.

 

A raiz da minha cultura não pertence ao elitismo. Tenho orgulho das minhas origens, do meu avô pastor, do meu pai carpinteiro, como outros têm orgulho dos seus longos nomes compostos.

 

Depois de um trabalho que encerre convicções profundas, que tenha em conta os princípios da sua área artística, que seja consciente da história dessa área e que faça uma proposta coerente e inovadora, acredito na divulgação o mais ampla possível.

 

Esconder uma obra em tiragens de 300 exemplares não lhe acrescenta um grama de valor artístico. Quando essa falta de divulgação resulta de uma escolha, pressupõe, quase sempre, falta de consideração pelo público, a crença de que um público mais vasto seria incapaz de entender tamanha sofisticação.

 

Acredito que a poesia pode ser publicada em caixinhas de fósforos, escrita com trincha ou spray nas paredes, impressa em t-shirts, afixada no facebook. Em qualquer um desses lugares, será diferente, mas em todos continuará a ser poesia.

 

É ridícula a ideia de que a divulgação deturpa. A banalização é sempre tarefa de quem banaliza e não do objecto banalizado. Quem não for capaz de convocar os seus sentidos e a sua razão para apreciar uma determinada obra, apenas por acreditar que se encontra muito difundida, tem problemas graves ao nível do espírito crítico e da isenção mais básica. Esse é um daqueles casos em que se aconselha a lavagem de olhos. É aí que reside a deturpação.

 

Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoiévski. Há alguns meses, a personagem de uma telenovela citou um poema escrito por mim. Toda a gente da minha rua viu e ouviu. A minha mãe ficou orgulhosa e eu também.

 

Chamo-me José ou, se preferirem, Zé. Desprezo o elitismo. O verbo não é exagerado, adequa-se bem ao que sinto.

 

Hei-de sempre divulgar o meu trabalho na máxima dimensão das minhas capacidades. Devo esse esforço à convicção que tenho naquilo que escolhi dizer. Fico feliz se vejo os meus livros disponíveis em supermercados, estações de correios, bombas de gasolina ou bibliotecas públicas.

 

Aquilo que faço não existe sozinho, precisa de alguém que lhe dê sentido, o seu próprio sentido e interpretação pessoal. Se uma árvore cair sozinha na floresta, sem ninguém por perto, será que faz barulho? Por esse motivo, o esforço de divulgação é também uma mostra de respeito para com essas pessoas, é um sinal da minha crença nelas e no seu valor. Exactamente como estas palavras, que existem porque estás a lê-las.

 

Escrevo romances, a minha força de vontade é enorme. Tenho 38 anos, conto estar por cá durante bastante tempo. Tenho ainda muito por fazer. Habituem-se. Não tenho medo.

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Maio de 2013)

 

 

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publicado às 01:37

 

 

Nestas noites de novembro, tenho dezasseis anos outra vez. Está a temperatura dessa idade e penso apenas em ti. O teu rosto surge nas superfícies opacas, sobretudo no escuro dos caminhos que uso para chegar à tua casa. A noite é tão respirável. Há um silêncio ameno pousado até nos ruídos mais bruscos. Tudo faz parte de um plano que não pode falhar porque tu és uma certeza. Estás à minha espera, eu sei.

 

Então, como hoje, vejo o teu rosto à janela. Enquanto desces, há um instante inteiro. Também nesse tempo, embora breve, tenho dezasseis anos. E fico mais sensível aos pequenos segredos que a cidade repete lá longe. Já transformados em brisa, tocam-me na pele. Distingo-lhes ainda uma réstia da sua forma, das suas arestas. Também a minha pele está mais sensível, prepara-se para a imagem do teu rosto.

 

Quando chegas à porta, salvas-me de qualquer coisa que, acredito nesse momento, estava quase a afundar-se em mim. O teu olhar acerta no meu e o tempo serve para contar a velocidade a que nos aproximamos. Os teus lábios levam-te. Durante esse primeiro beijo, a cidade inteira desaparece à nossa volta. Existe a noite, continua a existir.

 

Temos sede. Ainda não dissemos uma palavra e, no entanto, sabemos que a maneira como os nossos corpos se agarram, apertados pelos nossos braços, é a tradução literal daquilo que nos faltou durante todo o dia. Sem darmos conta, espalhámos essa saudade por Lisboa.

 

Só então, depois de nos vermos bem, dizemos as primeiras palavras. A tua voz é um gesto de bondade. A cidade, anoitecida, agradece a tua voz. Também eu gostava de saber agradecê-la assim, com esse tamanho. Comovo-me e, quando olhas para mim, posso dizer qualquer coisa. Tenho dezasseis anos e, por isso, posso dizer qualquer coisa. Posso até continuar a segurar-te nas mãos e alongar o silêncio.

 

É de noite. Há estrelas de certeza.

 

Novembro é o mês certo para te segurar nas mãos, memorizar-te os dedos para nunca mais esquecer. Temos os nossos segredos, vivemo-los. E, numa hora que escolhemos juntos, despedimo-nos sem medo. Teremos amanhã, teremos a próxima semana e o próximo ano mas, mais ainda, temos agora, este preciso momento em que estamos tão vivos.

 

Enquanto sobes as escadas e voltas para casa, a cidade está toda à minha disposição. Posso regressar pelo caminho que escolher. Às vezes, decido seguir pelo mais longo. Nessas noites, em silêncio, os meus pensamentos são como os grãos de pó que flutuam ao domingo, atravessados por raios de sol. Se os atravesso com um braço, esses pequenos pontos iluminados começam a mover-se em trajectórias diferentes. Como os meus pensamentos, mais leves do que o ar, mas, de repente, a chocarem frenéticos.

 

Caminho ainda com a tua voz em mim. Pedaços de expressões, o tom com que dizes certas palavras. A pouco e pouco, quando estou quase a chegar a casa, recupero a minha idade. Novembro continua e, por isso, deixo os dezasseis anos na rua. Conheço um lugar invisível para guardá-los. Amanhã, quando chegar a noite, talvez volte a usá-los. São perfeitos para te amar, namorada. 

 

 

 

José Luís Peixoto, revista UP (Novembro 2012)

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publicado às 10:30

 

 

Às vezes, antes de uma palestra ou uma entrevista na televisão, quando preciso de me acalmar, penso que estou na estrada do campo da bola e que caminho sem pressa, com sobreiros, azinheiras e oliveiras de um e de outro lado da estrada. Não preciso de fechar os olhos, essa imagem cobre-me os sentidos e acalma-me imediatamente. O vagar chega-me a cada gesto e sinto o início de um sorriso tímido nos lábios, como o sorriso do meu pai, como o sorriso do meu padrinho novo quando estava a escutar alguém, como o sorriso de todas as pessoas da rua onde nasci. Esse é um sorriso de olhos brilhantes e serenos, como a Barragem da Fonte da Moura.

 

Às vezes, antes de entrar num lugar onde está um microfone e gente à espera de olhar para mim, penso que vou na estrada do campo da bola. Ouço os passos das minhas botas na terra, ouço as cigarras que se soltam ao longo do fim de tarde. Até que enfim que o sol amansou. Quando caminho assim, na terra da estrada, sinto as botas nos pés, sinto as pedras debaixo das botas e não tenho relógio, mas são sempre umas cinco ou seis da tarde. E passo por muitos dos campos onde, antes, quando era pequeno, eu e os meus amigos nos lançávamos a correr, escondidos por searas ou a caminho de alguma figueira que, já sabíamos, estava carregada de figos.

 

Não preciso de fechar os olhos para ver isto, para receber este tempo inteiro. Da mesma maneira, sinto o cheiro da terra, profundo, terra generosa que me fez nascer e que nunca me abandona, por mais longe, por mais cimento que cubra o chão que me sustém. Caminho na estrada do campo da bola, não como uma lembrança de outros tempos, como outra idade. Avanço devagar no presente, no presente absoluto, com a idade daquele instante, exactamente como se estivesse lá.

 

Em tantos aspectos, eu ainda estou lá.

 

Com essa liberdade, pode calhar a aparecer um cão que nunca vi, mas que presumo que deva pertencer a algum pastor e a quem faço festas na cabeça. Sinto com total clareza a forma e a textura da sua cabeça na palma da minha mão. Pode também acontecer que me apeteça parar de roda das silvas e escolher algumas amoras, se for tempo delas. São doces e tenho de ter cuidado para não deixarem nódoas na roupa. Mesmo assim, mais habitualmente, apenas caminho. A estrada tem um bom tamanho, permite-me respirar, encher o peito todo de brisas com aroma de seiva, de cardo seco, de terra molhada, dependendo da altura do ano. Em qualquer dos casos, sobre mim, o céu é sempre enorme, eterno, a mostrar-me com o seu tamanho e com a sua eternidade o quando é humano aquilo que me preocupa, tudo o que me diz respeito.

 

Quando chego ao início da barreira que leva ao campo da bola, já estou capaz de regressar a onde quer que esteja. Raramente preciso de chegar a meio da barreira e ver, lá em cima, ainda a certa distância, uma das balizas do campo, deixado ao cuidado das estações e da natureza.

 

Então, estou pronto, levo em mim aquilo que sou. 

 

 

José Luís Peixoto, in revista UP (Outubro, 2012)

 

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publicado às 10:12

 

 

No dia 18 de Abril de 1990, acordei às cinco e meia da manhã. O after-shave do meu pai tinha um cheiro enjoativo. A minha mãe era muito mais gorda do que é hoje. Talvez o meu pai nos estivesse a apressar, isso já não me lembro. Lembro-me da sua voz.

 

Nesse tempo, quando saíamos, a nossa cadela vinha a correr atrás da camioneta pelas ruas da vila. Corria até o meu pai conseguir acelerar o suficiente, o que só acontecia quando chegávamos à estrada de Avis. A minha mãe olhava para trás e afligia-se. Depois, vínhamos a saber que, nesses dias, a cadela ia procurar a minha mãe aos lugares onde ela costumava ir habitualmente. Era assim que a minha madrinha sabia que tínhamos ido a algum lugar. No dia 18 de Abril de 1990, íamos a Lisboa.

 

Na época, a estrada que ligava a Aldeia Velha a Cabeção era de terra e tinha grandes buracos. A cada solavanco, pulávamos na cabine da camioneta. Era de noite, madrugada, e havia lebres que se atravessavam, disparadas à frente dos faróis. A minha mãe sobressaltava-se. A minha mãe era uma menina, nervosa. Íamos a Lisboa para ela tirar o sinal. Quando eu era pequeno, chamava-lhe "o cuzinho". Era um sinal que lhe crescera no peito, por baixo do pescoço. Ela não deixava que ninguém lhe mexesse. Quando alguém se aproximava para tocar-lhe num fio ou perto do pescoço, ela tinha o gesto automático de proteger o sinal.

 

Num instante, a camioneta acertou numa lebre. O meu pai saiu e eu saí atrás dele. A lebre, estendida sobre a terra, estava quase morta, respirava depressa, era um bicho ferido e desconsolado. O meu pai levantou-a no ar pelas orelhas e acertou-lhe por duas vezes com o punho fechado por detrás da cabeça. Fui buscar um saco de plástico e guardamo-la atrás do banco. Estava boa para comer.

 

A minha mãe não concordou. Enquanto protestava, eu e o meu pai partilhávamos alguma coisa que era maior do que o silêncio. O dia haveria de começar a nascer. Lisboa aproximava-se de nós. A minha mãe temia pelo sinal porque tinha aparecido sem aviso e, ao longo dos anos, tinha crescido, tinha mudado de cor. Quando o médico lhe disse para o tirar, conformou-se.

 

No dia 18 de Abril de 1990, Lisboa era maior e muito mais confusa. Tinha mistérios. Era já de manhã quando estacionámos nas traseiras do Hospital Curry Cabral. A minha mãe despediu-se de mim e eu, sem palavras, desejei-lhe boa sorte. O meu pai acompanhou-a. No rádio da camioneta, sintonizei um posto onde falavam do Benfica. Entretive-me a ver passar os comboios e foi nesse tempo que comecei a ter comichão.

 

Quando o meu pai voltou sozinho, foi ele que descobriu que eu tinha as pernas cheias de pulgas. A lebre. Quando o corpo arrefeceu, as pulgas começaram a abandonar-lhe o pêlo. O saco de plástico foi fraco protector. Juntos, tivemos de esfolá-la ali, nas traseiras do Hospital Curry Cabral. Tive de despir as calças e o meu pai catou-me as pernas. Não sei onde a minha mãe estava, imagino que estivesse anestesiada, num lugar branco.

 

À hora de almoço, estava pronta, mas um pouco despassarada. Tinha um penso no lugar do sinal. Pedi-lhe que me mostrasse, mas não quis. Apanhámos o metro e fomos comer um frango ao Bonjardim, nas Portas de Santo Antão. O meu pai pedia sempre picante. Eu e a minha mãe bebíamos coca-cola. A minha prenda nesse dia foi um alfinete com o emblema do Benfica.

 

A camioneta sentiu alívio ao ver-nos. Ainda estava estacionada no mesmo sítio, à nossa espera. Atrás do banco, dentro de um saco de plástico novo, estava a lebre esfolada. Fizemos o caminho de volta, cheios de Lisboa. As estradas, as histórias do meu pai, a fonte onde parávamos sempre para beber água. Horas depois, quando chegámos a casa, a nossa cadela estava à porta. Quando viu a minha mãe abanou a cauda amputada e mijou-se às pinguinhas. Era uma cadela muito sentimental.

 

Ouvi o relato no meu quarto, numa telefonia verde que tínhamos. A menos de dez minutos do fim, o angolano Vata marcou um golo espectacular com a mão. No Estádio da Luz, o Benfica apurou-se para a final dos clubes campeões europeus. Tive vontade de ir ao terreiro, mas já era tarde. Em vez disso, apanhei alguma coisa bicuda e marquei a data de 18 de Abril de 1990 na parte de trás do alfinete com o emblema do Benfica, o mesmo que agora seguro na palma da mão. 

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in Abraço

 

 

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publicado às 16:40



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