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Entre as letras, as vogais são como o vento. Havendo fôlego, um a pode continuar para sempre, pode nunca terminar. Um e distorcido pela lonjura, repetido pelo eco, pode afastar-se e aproximar-se, pode ondular, dar voltas no ouvido, bumerangue ou avião de papel. Há uma forma de liberdade que só existe nas vogais.

 

Poesia é uma palavra que tem quatro vogais.

 

Como o mundo inteiro, como todos os momentos, como a própria vida, poesia é ordem e loucura. É ordem quando aquilo que nos faz mais falta é disciplina rigorosa, vírgulas que não poderiam pertencer a nenhum outro espaço, quebras de verso que deixam as batidas do coração na expectativa de um segundo, e é loucura quando esquecemos o essencial, quando precisamos de ser lembrados.

 

No entanto, como todos os termos, a palavra loucura é um paradoxo. Podemos acordar verdes, podemos falar com o silêncio, podemos agitar o céu, nada disso é loucura, estes são exemplos de realidade nítida. A maior loucura é acreditar que os dias existem no calendário, que 1+1 é sempre 2, que não vale a pena. Tudo vale a pena. Poesia é loucura contra a loucura. Como todos os termos, a palavra poesia é um paradoxo.

 

Poesia é uma palavra feita palavras e, como tal, é um paradoxo feito de paradoxos. No poema, como numa torre, todas as palavras são paradoxos em conflito consigo próprios e uns com os outros. Se tirarmos um tijolo, toda torre perderá força e, tarde ou cedo, cairá. É a tensão que os tijolos mantém entre si que permite o equilíbrio da torre. A poesia é uma torre sobre a vida e sobre a morte.

 

As estações e a intempérie castigam os tijolos, desgastam-nos. Ainda assim, há torres que duram séculos, esquecemos aqueles que as construíram. Também as palavras, apesar da erosão que as atinge, podem durar séculos. Temos a obrigação de acreditar que são eternas. Tudo o que está vivo tem a oportunidade de ser imortal.

 

No entanto, um monte de tijolos não é uma torre, um monte de palavras não é um poema. Chamem-se os engenheiros civis, por favor. Chegou o momento de considerar a ordem.

 

Nomear é uma forma sofisticada de organização. Quando os nomes assentam sobre algo, visível ou invisível, são como uma nova camada de realidade. Aquilo que é nomeado torna-se concreto como uma pedra na palma da mão, como uma pena entre o indicador e o polegar. Então, podemos encontrar o lugar certo para esses objetos. Não faltam maneiras de arquivá-los: peso, tamanho, sabor.

 

Se essa ordem fizer sentido transportará verdade.

 

A verdade é um espelho.

 

De certo modo, um poeta é um engenheiro civil que constrói espelhos. De certo modo, o poema é um espelho. Mas, de certo modo, o poema é qualquer coisa.

 

O poema é respirar, cada vez que inspiramos e expiramos, ar limpo a limpar-nos o sangue. O poema é fechar os olhos, existir num lugar sem luz e sem corpo. O poema é sorrir, reflexo que não decidimos e que chega aos outros, entre nós e os outros, milagre.

 

Precisamos muito de poesia. A nossa grande sorte é que a poesia está em todos os lugares onde estamos, como uma sombra do que vemos, pensamos, dizemos, somos. A poesia está no que fazemos bem e no que fazemos mal. O desafio é procurá-la, aceitá-la, aprender a sentir-lhe o gosto. Dessa maneira, a vida ganha um brilho que, afinal, sempre esteve lá.

 

Repito: quando os nomes assentam sobre algo, visível ou invisível, são como uma nova camada de realidade.

 

As palavras sabem tudo.

 

Dentro das palavras, as vogais são como o sopro de uma flauta, música humana. As consoantes também são necessárias, há uso para todas as matérias, mas é preciso ter muito cuidado com as suas arestas. Podem cortar: p! Ou, quando permitem a repetição, rrrr ou vvvv, as consoantes são máquinas, são motores. As vogais chegam em paz, diluem-se na cor, preenchem o ar. Como se não sentissem o peso, as vogais transportam a vida das palavras.

 

Poesia é uma palavra que tem quatro vogais.

 

 

José Luís Peixoto, texto lido por Rui Mendes em homenagem à poesia e a José Régio, realizada pela Fundação INATEL em Portalegre, no dia 21 de março de 2016

 

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publicado às 10:05

Desrespeito

14.03.16

 

 

Como se distinguem as pessoas que não merecem respeito? Uma resposta clara a esta questão teria muita utilidade, ajudaria a avaliar a legitimidade das faltas de respeito.

 

Nas redações da catequese e nas conversas sobre o boletim meteorológico, toda a gente merece respeito. No mundo real, não é assim. Hoje, o desenvolvimento tecnológico permite-nos novas formas de desrespeitar os outros. As formas antigas não perderam atualidade, continuam disponíveis para os nostálgicos, mas acrescentaram-se muitas outras, mais confortáveis e eficazes para quem desrespeita.

 

Ao contrário do que Salazar apreciava, "respeito" não é sinónimo de "obediência" ou "submissão". "Respeito" é sinónimo de "consideração", s. m., é aceitar que os outros, independentemente de se concordar ou não com eles, têm o direito de existir.

 

Desrespeitar é negar o direito de existir, desrespeitar é uma forma de aniquilação moral. As diferenças entre desrespeito e opinião são muito mais concretas do que as apologias do desrespeito querem fazer crer. O desrespeito começa por ser um sentimento e, só depois, se exprime em palavras ou ações. Quando não é gratuito, o desrespeito nasce de uma dor: em algum momento, o desrespeitado lembrou o desrespeitador de algo que o incomoda em relação a si próprio. Nesse caso, o desrespeito é uma resposta. No entanto, não tem a ver com a pessoa a que se dirige, com aquilo que ela é, tem a ver com a imagem construída por aquele que desrespeita, tem a ver com aquele que desrespeita.

 

Ainda assim, hoje, vende-se o desrespeito muito barato. Desrespeita-se os outros em troca de uma gargalhada murcha, de um semi-sorriso, da convicção vaga de que esse desrespeito será identificado como inteligência e perspicácia. Independentemente da gratificação em causa, o desrespeito é sempre egoísta, é sempre um sinal de narcisismo e de vaidade.

 

Neste tempo, o desrespeito é também um sinal da crise. Há quem desrespeite como modo precário de vida. O mesmo desespero que leva jovens licenciados a estágios não remunerados e a call centers, leva muita gente ao desrespeito. Uns e outros acreditam que, aí, conseguirão encontrar alguma coisa que os salve do nada que vislumbram à sua volta.

 

Em qualquer dos casos, o desrespeito é uma agressão. O desrespeito é sempre uma agressão.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine, 13 de março de 2016

 

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publicado às 10:48

 

 

São como barcos à deriva na noite. Existem ainda, podemos vê-los, as fotografias do seu rosto estão bem focadas mas, ao contrário de nós, deixaram de estar enredados em tudo, deixaram de preocupar-se, dispensam a oportunidade de partilhar mais links, já chega, não precisam de comentar o que toda a gente comenta, não contabilizam o número de likes.

 

Os amigos do Facebook que morreram continuam na nossa lista. Não tivemos coragem de desamigá-los, apesar de sabermos que aquele perfil já não lhes pertence, eles já não estão lá. Às vezes, o quadrado com o rosto deles aparece a meio de qualquer caminho prosaico: sugerido quando procuramos alguém com um nome semelhante, quando entramos no perfil de um amigo comum ou por simples capricho da máquina. Entre vídeos de dois minutos, fotografias de alguém na praia e aforismos que podem rimar ou não, esses encontros súbitos lembram-nos que a morte faz parte do mundo.

 

Às vezes, também pode acontecer que sejamos nós a dirigirmo-nos aos perfis de Facebook dos nossos amigos mortos, sabemos onde encontrá-los. Lá, espera-nos um longo instante, tempo estagnado. O post mais recente que publicaram fala de um tema que o Facebook ultrapassou há muito. Existe uma grande diferença de tom entre esse post, ignorante da morte que se aproximava, e os comentários, póstumos, a lamentarem essa mesma morte. O nosso amigo nunca teve tantos likes e tantos comentários. Demasiado tarde, dirigem-se a ele, tratam-no por tu.

 

Que post escreveremos nós se soubermos que é o último?

 

Algum dia chegará essa hora. Espero que não seja novidade para ninguém, não quero ser eu a dar esta notícia aziaga. Algum dia chegará o momento em que todos estaremos mortos, até os mais inocentes, até aqueles que não merecem. Antes disso, no entanto, iremos acumular mortos entre os nossos amigos do Facebook. Se vivermos tempo suficiente, é possível que cheguemos a um momento em que, no Facebook, teremos mais amigos mortos do que vivos. Depois, entraremos também nessa multidão de mortos, perfis baldios, roupas fora de moda nas fotografias. Nesse dia, se olharmos para este instante preciso, acredito que vamos achar que passou pouco tempo entre aqui e lá, entre este e esse momento.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine, 17 de janeiro de 2016

 

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publicado às 09:42

Nos nossos rostos estavam já os traços deste rosto que o espelho reflete com nitidez humana. Nas nossas vozes, antes de ilusões e desilusões, antes da erosão, estava já esta voz.

 

É muito fácil esquecermo-nos de quando podíamos ser tudo. Fazíamos escolhas entre o que esperavam e o que não esperavam de nós. À nossa frente, estavam todas as possibilidades, apreciávamos essa distância. Aquilo que já estava definido impedia-nos de muito pouco.

 

E aconteceu o que as escolhas sempre pressupõem: tivemos de responder por elas e tivemos de viver com elas. O tempo foi marcado por esses dois tempos. Ao responder pelas escolhas que fizemos, fomos tecendo uma longa manta de autojustificações. Primeiro, precisámos de defender a nossas escolhas; depois, precisámos de defender o argumento que usámos para justificá-las; depois, precisámos de defender o argumento que usámos para justificar esse argumento; depois, um longo etc, tão longo que, a partir de certa altura, deixámos de ser capazes de identificar onde começou.

 

Por outro lado, na passagem dos dias e das estações, ao vivermos com as escolhas que fizemos, fomo-nos convencendo de que éramos apenas aquilo, de que somos apenas isto. Fomos rejeitando possibilidades até deixarmos de considerá-las.

 

Ainda assim, lá do fundo, há uns olhos que nunca deixaram de nos ver. Interrogam-nos em silêncio, observam-nos com a mesma pureza do seu presente. O brilho que sustentam não se extinguiu, apenas deixámos de reparar nele.

 

Sem o medo de perder o que julgamos ter alcançado, ainda podemos tudo. Não é fácil voltar a acreditar depois de todos os erros que cometemos e que, por autopreservação, atribuímos à ingratidão do mundo. Ainda assim, ao longo destes anos, o planeta mudou muito menos do que queremos imaginar quando repetimos que não há nada a fazer.

 

Há tudo a fazer. Esta é a constatação que mais nos desanima porque, debaixo dos gestos e das palavras, temos muito medo. Quando não suportamos sequer considerar esse medo, preferimos negá-lo. No entanto, não é dessa maneira que conseguimos fazê-lo desaparecer.

 

E assim, lá do fundo, no silêncio a que o tempo os obriga, há esses olhos que continuam a ver-nos. Seguem cada pensamento, respiram sempre que enchemos o peito de ar. No nosso rosto, na nitidez crua e fria deste espelho, estão ainda os traços desses rostos, faces de pele lisa, sem rugas ou cicatrizes. Nesta voz, naquilo que tem de mais limpo, estão ainda essas vozes que quase deixámos de reconhecer.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine, 20 de dezembro de 2015

 

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 (Foto por José Luís Peixoto)

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publicado às 09:50

Arquipélago

05.12.15

São um arquipélago celeste. Estas nuvens pertencem aos Açores como as lagoas, como os serrados, como a pronúncia de São Miguel. Talvez tenham nascido dos vapores das furnas, água que ferve na terra com o propósito de subir ao céu e, lá do alto, observar as nove ilhas, perfiladas na distância. Se assim for, é também certo que, tarde ou cedo, essa água não aguenta a falta que esta terra lhe faz e, num momento, irá lançar-se em gotas e oferecer-se no corpo do pasto, verde, verde.

 

São como as manchas no pelo das vacas leiteiras. Quem desenhou estas nuvens? Foram, com muita probabilidade, as mesmas mãos que traçaram as manchas no pelo das vacas, donas de tempo sem fim, animais de olhos doces, a transbordarem compreensão. É também possível que as nuvens sejam um relevo invertido das ilhas. Todos os dias diferentes, a darem forma a algo que, de outro modo seria completamente invisível, mas não menos real.

 

Talvez estas nuvens sejam os pensamentos dos açorianos. Nesse caso, o que esperam do futuro, amanhã, ou o que recordam do passado, ontem, fica esculpido nesses grandes corpos suspensos, e ora avança num lento êxodo que enche o céu, ora se mantém inerte, sem a ilusão do movimento. Há pensamentos de muitas ordens e, da mesma maneira, há nuvens com muitos feitios, rendilhadas com o melindre dos sentimentos complexos.

 

Quem pode assegurar com certeza total que estas nuvens não são as preocupações, ou o amor, ou o medo, ou a esperança dos açorianos? A ciência, por mais comprovada, não trata deste tipo de questões. Da poesia sabe a poesia.

 

Talvez estas nuvens sejam as lembranças daqueles açorianos que tiveram de partir. Nas terras onde estão, lembram-se da sua ilha, chão de pedras negras, vozes que ainda os chamam, a torre da igreja, o mar, e essas lembranças transformam-se em nuvens sobre estas ilhas, sobre este oceano. Ficam estas nuvens a vigiar as ilhas, materializam o cuidado que, desde lá, enviam nesta direção. Então, estas nuvens são olhos.

 

São os nossos olhos que passam demasiadas vezes pela beleza sem a reconhecer. Habituámo-nos a estas nuvens quando devíamos, todos os dias, procurar o céu na expectativa e no deslumbramento. Não há beleza que seja capaz de vencer esse desinteresse.

 

Estas nuvens, brancas de encontro à claridade, ou negras em dias entregues ao inverno, são nossas, fazem parte de nós e, ao mesmo tempo, existem na paisagem, lá longe, onde os nossos braços esticados não chegam. Essa é sempre a natureza daquilo que somos capazes de ver. Existe fora de nós e, pelo olhar, somos capazes trazê-la para o nosso interior. É aí, em nós, que se decide o peso destas nuvens: pesadas como basalto ou leves, em flutuação, sem peso.

 

Sim, estas nuvens são um arquipélago celeste, habitado por algo que precisa de atenção e consciência para existir, precisa de alma, espírito ou silêncio, respiração ou mistério, matéria secreta, tão nossa como o nosso nome, tão concreta como estarmos aqui, completamente invisível, mas não menos real.

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in Azorean Spirit, revista de bordo da Sata, edição de junho, julho, agosto 2015

 

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publicado às 12:44

Juntar as pontas dos ombros e dar algumas palmadinhas nas costas não é um abraço. Escrever "abraço" no fim de um e-mail também não é um abraço. Indiferente ao desenvolvimento social e tecnológico, um abraço continua a ser duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

 

Esses rapazes que aparecem com cartazes a oferecerem abraços nos festivais de verão têm graça e talvez sejam bem-intencionados, mas fazem publicidade enganosa. Não são os abraços que provocam as ligações, são as ligações que provocam os abraços. Um abraço não é apenas duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

 

Um abraço tem muita importância.

 

Quando eu era uma criança, teria talvez uns nove ou dez anos, o meu pai deu-me um abraço na cozinha da nossa casa. Era de madrugada porque essa era a hora em que, naquele tempo, se saía da minha terra quando se ia para Lisboa. O meu pai tinha uma operação marcada no hospital, estava vestido com as roupas novas e tinha medo. Enquanto me abraçava, o meu pai chorou porque, durante um momento, acreditou que podia nunca mais me ver. Os braços do meu pai passavam-me pelos ombros, a minha cabeça assentava-lhe na barriga, sobre o pullover. A lâmpada que tínhamos acesa por cima da cabeça espalhava uma luz que amarelecia tudo o que tocava: a mesa onde jantávamos todos os dias, o ar que ali respirámos em tantas horas anteriores àquela, em tantas horas ignorantes daquela. O meu pai usava um aftershave muito enjoativo, barato, que alguém lhe tinha oferecido no Natal. Agora mesmo, consigo ainda sentir esse cheiro com nitidez absoluta.

 

A operação correu bem. Depois do susto, depois da convalescença, o meu pai voltou para casa com uma cicatriz grossa e roxa na barriga, ficava à vista quando a camisa lhe saía para fora das calças ou na praia, apesar de usar os calções exageradamente puxados para cima. Depois disso, tivemos direito a nove anos em que não voltámos a pensar em despedidas.

 

Durante muito tempo procurei em toda a minha memória: as lembranças de quando regressou da operação ou, depois, quando tínhamos a mesma altura ou, mesmo depois, quando ficou doente pela última vez. Mas abandonei as buscas, não consigo recordar outra ocasião em que nos tenhamos voltado a abraçar. Essa madrugada na cozinha, a luz amarela, o aftershave, foi a única vez em que nos abraçámos na vida.

 

Não afirmo com leveza que um abraço tem muita importância. Há quinze anos que escrevo livros apenas sobre esse abraço.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine, 22 de novembro de 2015

 

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publicado às 08:56

A maior herança

20.11.15

Discordo sempre quando ouço alguém dizer que as crianças não aproveitam as viagens. Ainda não têm idade para aproveitar, diz essa pessoa que pode ter muitos rostos diferentes. Não consigo entender esse ponto de vista. Parece-me que as crianças aproveitam as viagens de forma diferente, desfrutam de aspetos que nós, muitas vezes, já esquecemos de prestar atenção.

 

As crianças não fingem interessar-se por aquelas histórias que os guias repetem, com mais ou menos rotina na voz, e que toda a gente esquece após algum tempo, se é que chegam a ouvi-las. Em vez disso, as crianças deixam-se invadir por cheiros novos, cores novas, sons novos, estímulos que alargam a paleta daquilo com que contam a partir daí: na sua consciência, no modo como desenham o mundo e o avaliam.

 

As crianças não são testemunhas, são descobridores. Quando chegam a um lugar que desconhecem, não deixam que o peso do que sabem molde o que as espera. Levam os sentidos abertos, prontos a serem marcados para sempre.


Se perderem essa disponibilidade, nunca aprenderão a viajar e, em consequência, nunca serão capazes de desfrutar dessa vantagem. Quando falo de viajar, não me refiro apenas à oportunidade de ir muito longe, a outros países ou continentes, refiro-me à curiosidade pelo mundo, à capacidade de se surpreender com o que é diferente, de não temer essa diferença, de desejá-la.

 

Ainda no carrinho de bebé, procurei fazer várias viagens com os meus filhos, todas as que foram possíveis. Em tempos, os meus pais fizeram o mesmo comigo. Com os meus filhos, as pessoas que viajavam ao nosso lado no avião tiveram de ter paciência com o bebé a chorar às vezes. Com os meus pais, nunca hei de esquecer o cheiro do carro de madrugada. Num e noutro caso, havia o fascínio pelo caminho e a expetativa por tudo o que imaginávamos acerca do lugar para onde nos dirigíamos.

 

Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejamos capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos. Essa será a fortuna que partilharemos. Quando falo de viajar, refiro-me a esse prazer de olhar em volta e saber que estamos ali, sentirmo-nos. Mais do que uma promessa, viajar é a certeza de estar vivo. Por isso, aquilo que desejo aos meus filhos é cidades e pessoas, montanhas e horizonte, desejo-lhes Nova Iorque e a Amazónia, desejo-lhes São Petersburgo e o entardecer lento da savana africana, desejo-lhes sorrisos da Tailândia e sake de Quioto.

 

Ao mesmo tempo, desejo que nunca percam a capacidade de ir ali ao fundo e, da mesma maneira, surpreenderem-se com o que lá está, com a luz e a temperatura ligeiramente diferentes. Desejo que se apaixonem sempre, por tudo. E que sejam capazes de passar essa eletricidade aos seus filhos, meus netos por nascer, porque é ela que dá ânimo e sentido: combustível e estrutura da vida. Aquilo que desejo aos meus filhos é que a variedade de opções que o mundo lhes oferece nunca deixe de deslumbrá-los.

 

 

José Luís Peixoto, in Volta ao Mundo

 

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publicado às 23:29

Todo o silêncio

28.10.14

 

De nome inteiro, o escritor está sentado à mesa. Quem terá tratado do arranjo de flores que tem à sua frente? O microfone funciona.

 

Enquanto apresento o meu livro em bibliotecas e livrarias, acabo quase sempre por te referir. Nesses momentos, és personagem de episódios, autor de frases, portador de lições que ainda fazem sentido. Muito raramente, como se me espreitasses através de uma frincha, o teu olhar pode atravessar essas palavras que escolho para te mencionar. Eras chuva de muitos dias seguidos, essas palavras são uma gota.

 

Não é possível saber o que entendem as pessoas que me olham. Posso imaginar o que quiser a partir da sua atenção, escolho a melhor possibilidade, a mais benévola. Leio algumas páginas do livro em voz alta, exactamente como se estivesse a descobri-las.

 

O escritor está disponível para autografar os seus livros. Por favor, formem a fila nesta direcção. A minha caligrafia, embaraçosa como a minha voz gravada em vídeos antigos de festas de anos. De cada vez que escrevo o meu nome, o teu nome vai sobreposto ao meu. Da mesma maneira, lá no cemitério, no mármore, o meu nome está sobreposto ao teu.

 

Um homem de quarenta anos deitado sobre uma cama de hotel, iluminado pela televisão ligada. Com esta idade, mais do que nunca, distingo-te em mim. Entrava no teu quarto à noite, vias qualquer coisa na pequena televisão a preto e branco, e deitava-me ao teu lado. A minha pele tem a mesma cor da tua. Sou capaz de comparar as minhas mãos com as tuas. Conto o tempo que me falta para ter a idade que tinhas quando te perdi. Faço contas às idades que os meus filhos terão. Tento rejeitar esses pensamentos. Não quero, esse tempo é demasiado cedo para morrer, mas, como também sabes, importa pouco aquilo que queremos.

 

Amanhã, o André faz dez anos, mas tu não chegaste a conhecer o André. Às vezes, distingo-lhe traços teus, maneiras. Se for real e possível, se os meus olhos não estiverem deturpados pelo que quero ver, fui eu que transportei esses pequenos gestos. Levei-os talvez naquilo que faço todos os dias, nas minhas próprias maneiras. Como serias tu com dez anos? O André já ouviu falar muito de ti. Contei-lhe histórias que não chegam para que te conheça.

 

Aquele gajo que aparece na televisão sentou-se no restaurante e escolheu o prato do dia. Não vai querer as entradas, pois não? Juntos, pousámos os cotovelos em toalhas de papel como esta. Essas eram horas boas. O passado ficou com todas as conversas que tivemos à espera que chegasse a comida ou, depois, diante de nódoas de gordura e migalhas de pão. Agora, consigo recordar-nos em restaurantes como este, mas não temos som, não consigo reconstruir nenhuma das conversas que tivemos. Talvez falássemos de temas muito ligados à véspera desses dias distantes, ou talvez a minha memória tenha deixado de guardar essa informação, precisou do espaço para qualquer outro assunto.

 

Já depois da conta, o senhor do restaurante deseja-me sorte para os livros, e aponta para a televisão onde me viu, presa à parede. Agradeço e, nesse momento, entendo de repente a simpatia pouco habitual, o sorriso a despropósito.

 

Sim, pai, às vezes, vou à televisão falar dos meus livros.

 

É difícil explicar. Haveria de surpreender-se bastante com aquilo que aconteceu. Nunca apareci na pequena televisão a preto e branco que tinha no quarto e, com toda a sua capacidade de idealizar o futuro, haveria de ficar incrédulo se alguém lhe contasse. O meu pai não tinha forma de imaginar que, um dia, com este caminho feito, eu seria um escritor a dar autógrafos.

 

Para o meu pai, serei sempre um rapaz de futuro incerto, com a carta de condução acabada de tirar, a estudar para ser professor. Quando pousava as pálpebras sobre os olhos, o sofrimento, sei que uma das suas preocupações era: o que irá ser deste rapaz? Ele próprio, muitas vezes, dizia esta frase. Dentro de mim, sou capaz de ouvir a sua voz a dizê-la.

 

Agora, nada pode mudar esse facto. Mesmo que passe o resto da minha vida a escrever livros, mesmo que sejam lidos por milhares e milhares de rostos atentos, mesmo que o meu nome seja repetido todos os dias em bibliotecas e livrarias. Para o meu pai, nunca serei escritor.

 

José Luís Peixoto, in revista Visão, 23 de outubro de 2014

 

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publicado às 10:01

 

 

Um dia, vou cansar-me de querer conhecer o mundo. Nessa altura, talvez me pareça estranho que alguém saia de casa, deixe o morninho, para discutir preços com taxistas ou olhar para ementas de restaurantes onde não percebe uma única palavra.

 

Às vezes, parece-me que conheço demasiados caminhos. Para ir a certos lugares, não tenho de pensar. Entro no carro e a minha cabeça ocupa-se de qualquer assunto que, naquele momento me pareça importante. Conheço tão bem esses caminhos que quase me surpreendo quando chego ao destino. Às vezes, quero ir a lugares ligeiramente diferentes, distraio-me por um momento e, quando reparo, já estou a fazer esses caminhos de novo. O hábito enganou-me. Então, preciso de voltar atrás, raramente necessito de GPS para encontrar a direcção certa.

 

Viajar seja para onde for, querer conhecer o mundo, é acreditar que todas as ruas fazem parte de um labirinto mas que não é possível perdermo-nos nele. Está-se sempre em algum lugar. A rosa dos ventos pode ser colocada em qualquer sentido, continuará sempre a ser uma rosa dos ventos.

 

Na Tailândia, nenhuma comida tem o sabor das sopas da minha mãe. Na Amazónia, nenhuma paisagem se parece com os campos à volta da terra onde nasci. Nas ruas de Helsínquia, ninguém entende a língua em que penso e eu, estrangeiro, tenho dificuldade até de distinguir palavras na amálgama de sons que essas pessoas dizem quando vão, por exemplo, a conversar nos transportes públicos.

 

Um dia vou cansar-me dessa surpresa. Conheço bem o conforto do meu sofá, com mantas em fevereiro, onde poderia passar tardes inteiras a ver programas da televisão portuguesa, com anúncios portugueses, com as notícias portuguesas a começarem à hora certa: pip, pip, piiii. Sei bem o que é atender o telefonema de um amigo que me diz: vem cá. Sei bem o que é poder ir ter com ele naquele momento, estar ao lado dele depois de minutos. Também sei o que é sentir que os amigos deixaram de ligar. A pouco e pouco, convencem-se de que nunca estou, nunca posso, não vale a pena ligar, não vale a pena insistir.

 

Sim, um dia vou cansar-me de querer conhecer o mundo, mas hoje ainda não é esse dia. Sinto uma espécie de tontura só de começar a conceber todos os lugares onde posso ir. Tenho os sentidos ávidos por tudo aquilo que me espera. Não tenho qualquer receio de estar sozinho, sem mapa, no centro de Singapura, numa avenida de Caracas, diante de uma paisagem do Alasca. Anseio por esse momento.

 

Quero aterrar em todos os aeroportos do mundo, quero conversar por gestos com gente de todos os países, quero provar o sal de todos os oceanos, senti-lo a cristalizar-se na pele. É muito fácil que chegue um dia em que deixe de acreditar em tudo o que acredito agora. A vida é composta por materiais bastante mais transitórios do que estamos dispostos a admitir. Mas, até lá, sempre que esteja diante de uma ementa onde não perceba uma palavra, continuarei a fechar os olhos e a pedir a primeira coisa onde deixe cair o meu indicador.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Revista Volta ao Mundo (Abril 2014)

 

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publicado às 10:54

A vida

08.01.14

 

 

 

A chuva insiste de encontro ao pára-brisas. Os contornos de tudo embaciam-se por detrás da água, as cores perdem os limites que as contêm e entornam-se umas sobre as outras. Depois, chega o instante em que as escovas do limpa pára-brisas não conseguem esperar mais. A uma velocidade constante, certa, fazem o seu movimento geométrico, a nitidez cinzenta do céu reflectida pela estrada e, logo a seguir, a chuva de novo. Conduzo devagar.

 

A minha sobrinha fala de pessoas que já morreram. Responde às minhas perguntas, mas o silêncio também lhe serviria. Lembra-se bem do momento em que acordou a meio da noite e ouviu os crescidos a receberem a notícia de uma morte. Hoje, tem vinte e cinco anos. Enquanto fala, acede a impressões de pessoas do passado, é difícil distinguir se são memórias ou apenas pensamentos criados pelo que ouviu dizer, não sabe se está a recordar ou a imaginar. Essa indefinição incomoda-a. Está habituada a lembrar-se de tudo o que pensa. Falo-lhe de outras pessoas, gente que morreu quando era ainda mais pequena. Não tem qualquer memória. Custa-lhe menos chegar a essa conclusão. Sente menos falta daquilo que nunca teve.

 

Conduzo devagar. Durante um instante, as figuras foscas do pára-brisas são a direcção para onde continuo. A voz da minha sobrinha hesita, estende-se no interior do carro, protegida da chuva, com uma fragilidade imperfeita. As pessoas de que ela não se lembra estão dentro de mim. Vejo-as com clareza. Nalguns casos, dirigem-se a mim, tratam-me pelo nome e sorriem, completamente ignorantes de estarem mortas. Sinto a sua presença em detalhes, não tenho de fazer qualquer esforço para os ter presentes: a maneira como penteiam/penteavam o cabelo com os dedos, uma certa expressão do rosto, a maneira como dizem/diziam certas palavras. A limpeza da memória das suas vozes comove-me, a maneira como pronunciam certas palavras, mas sei que não estão vivos, sei que não poderei voltar a ouvir essas vozes que ninguém gravou.

 

Procurando explicações para mim próprio, olho para o passado como se fosse a casa dos meus pais. Aprendi a conhecer cada pormenor das suas paredes, a sua textura, acreditei naquela casa como só um menino é capaz, depois o tempo passou. Aqui mesmo, ou em todos os lugares onde já estive sem me lembrar dela, a casa continuou sempre lá. Está lá agora, com tempo a passar lento nas suas divisões mal iluminadas, as mesmas onde fui criança, o banco onde me sentava ao lume em dias como este, o corredor que a minha mãe atravessava cheia de pressa, o sofá onde o meu pai se sentava já doente, a cama onde eu me deitava a imaginar o adulto que seria/sou, o canto da cozinha onde nesta época do ano decorava a árvore de Natal. E foi assim em todos os momentos. Depois de sair de lá, noutras casas, sem me lembrar, compenetrado em apaixonar-me ou em desiludir-me, a casa estava sempre lá, com tempo a passar nas suas divisões vazias. Enquanto eu tinha filhos, a casa estava lá; enquanto eu publicava livros, a casa estava lá; enquanto eu me preocupava com insignificâncias que já esqueci, a casa estava lá.

 

Tenho trinta e nove anos. Há pouco mais de uma semana, levei a minha mãe neste mesmo carro. Era de noite, os faróis dos outros automóveis formavam estrelas na distância. Eu falava-lhe do meu filho mais novo e disse-lhe que cinco anos passam depressa, disse-lhe que daqui a pouco será adolescente. A minha mãe não concordou, disse-me que não, disse-me que cinco anos é muito tempo. A minha mãe tem setenta e dois anos. Não precisou de repetir ou de explicar melhor o que queria dizer. Entendi-a bem e senti-me envergonhado pela superficialidade e pela arrogância do meu desconhecimento. Realmente, cinco anos é muito tempo. Só passam depressa se não estivermos atentos.

 

Avançamos num veículo frágil, debaixo de uma tempestade inclemente, muito maior do que nós, de um tamanho que não podemos conceber, a transcender-nos, mas estamos aqui. Avançamos em direcção a figuras foscas, a nitidez é breve e não tem força suficiente para nos tranquilizar, mas estamos aqui. A noite, inevitável, à espera, mas avançamos e estamos aqui. 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro 2014)

 

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publicado às 15:19



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