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A maior herança

20.11.15

Discordo sempre quando ouço alguém dizer que as crianças não aproveitam as viagens. Ainda não têm idade para aproveitar, diz essa pessoa que pode ter muitos rostos diferentes. Não consigo entender esse ponto de vista. Parece-me que as crianças aproveitam as viagens de forma diferente, desfrutam de aspetos que nós, muitas vezes, já esquecemos de prestar atenção.

 

As crianças não fingem interessar-se por aquelas histórias que os guias repetem, com mais ou menos rotina na voz, e que toda a gente esquece após algum tempo, se é que chegam a ouvi-las. Em vez disso, as crianças deixam-se invadir por cheiros novos, cores novas, sons novos, estímulos que alargam a paleta daquilo com que contam a partir daí: na sua consciência, no modo como desenham o mundo e o avaliam.

 

As crianças não são testemunhas, são descobridores. Quando chegam a um lugar que desconhecem, não deixam que o peso do que sabem molde o que as espera. Levam os sentidos abertos, prontos a serem marcados para sempre.


Se perderem essa disponibilidade, nunca aprenderão a viajar e, em consequência, nunca serão capazes de desfrutar dessa vantagem. Quando falo de viajar, não me refiro apenas à oportunidade de ir muito longe, a outros países ou continentes, refiro-me à curiosidade pelo mundo, à capacidade de se surpreender com o que é diferente, de não temer essa diferença, de desejá-la.

 

Ainda no carrinho de bebé, procurei fazer várias viagens com os meus filhos, todas as que foram possíveis. Em tempos, os meus pais fizeram o mesmo comigo. Com os meus filhos, as pessoas que viajavam ao nosso lado no avião tiveram de ter paciência com o bebé a chorar às vezes. Com os meus pais, nunca hei de esquecer o cheiro do carro de madrugada. Num e noutro caso, havia o fascínio pelo caminho e a expetativa por tudo o que imaginávamos acerca do lugar para onde nos dirigíamos.

 

Aquilo que quero deixar aos meus filhos são viagens. Como outros acumulam imobiliário e bens, quero que sejamos capazes de acumular momentos e lugares onde estivemos vivos e juntos. Essa será a fortuna que partilharemos. Quando falo de viajar, refiro-me a esse prazer de olhar em volta e saber que estamos ali, sentirmo-nos. Mais do que uma promessa, viajar é a certeza de estar vivo. Por isso, aquilo que desejo aos meus filhos é cidades e pessoas, montanhas e horizonte, desejo-lhes Nova Iorque e a Amazónia, desejo-lhes São Petersburgo e o entardecer lento da savana africana, desejo-lhes sorrisos da Tailândia e sake de Quioto.

 

Ao mesmo tempo, desejo que nunca percam a capacidade de ir ali ao fundo e, da mesma maneira, surpreenderem-se com o que lá está, com a luz e a temperatura ligeiramente diferentes. Desejo que se apaixonem sempre, por tudo. E que sejam capazes de passar essa eletricidade aos seus filhos, meus netos por nascer, porque é ela que dá ânimo e sentido: combustível e estrutura da vida. Aquilo que desejo aos meus filhos é que a variedade de opções que o mundo lhes oferece nunca deixe de deslumbrá-los.

 

 

José Luís Peixoto, in Volta ao Mundo

 

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publicado às 23:29

Todo o silêncio

28.10.14

 

De nome inteiro, o escritor está sentado à mesa. Quem terá tratado do arranjo de flores que tem à sua frente? O microfone funciona.

 

Enquanto apresento o meu livro em bibliotecas e livrarias, acabo quase sempre por te referir. Nesses momentos, és personagem de episódios, autor de frases, portador de lições que ainda fazem sentido. Muito raramente, como se me espreitasses através de uma frincha, o teu olhar pode atravessar essas palavras que escolho para te mencionar. Eras chuva de muitos dias seguidos, essas palavras são uma gota.

 

Não é possível saber o que entendem as pessoas que me olham. Posso imaginar o que quiser a partir da sua atenção, escolho a melhor possibilidade, a mais benévola. Leio algumas páginas do livro em voz alta, exactamente como se estivesse a descobri-las.

 

O escritor está disponível para autografar os seus livros. Por favor, formem a fila nesta direcção. A minha caligrafia, embaraçosa como a minha voz gravada em vídeos antigos de festas de anos. De cada vez que escrevo o meu nome, o teu nome vai sobreposto ao meu. Da mesma maneira, lá no cemitério, no mármore, o meu nome está sobreposto ao teu.

 

Um homem de quarenta anos deitado sobre uma cama de hotel, iluminado pela televisão ligada. Com esta idade, mais do que nunca, distingo-te em mim. Entrava no teu quarto à noite, vias qualquer coisa na pequena televisão a preto e branco, e deitava-me ao teu lado. A minha pele tem a mesma cor da tua. Sou capaz de comparar as minhas mãos com as tuas. Conto o tempo que me falta para ter a idade que tinhas quando te perdi. Faço contas às idades que os meus filhos terão. Tento rejeitar esses pensamentos. Não quero, esse tempo é demasiado cedo para morrer, mas, como também sabes, importa pouco aquilo que queremos.

 

Amanhã, o André faz dez anos, mas tu não chegaste a conhecer o André. Às vezes, distingo-lhe traços teus, maneiras. Se for real e possível, se os meus olhos não estiverem deturpados pelo que quero ver, fui eu que transportei esses pequenos gestos. Levei-os talvez naquilo que faço todos os dias, nas minhas próprias maneiras. Como serias tu com dez anos? O André já ouviu falar muito de ti. Contei-lhe histórias que não chegam para que te conheça.

 

Aquele gajo que aparece na televisão sentou-se no restaurante e escolheu o prato do dia. Não vai querer as entradas, pois não? Juntos, pousámos os cotovelos em toalhas de papel como esta. Essas eram horas boas. O passado ficou com todas as conversas que tivemos à espera que chegasse a comida ou, depois, diante de nódoas de gordura e migalhas de pão. Agora, consigo recordar-nos em restaurantes como este, mas não temos som, não consigo reconstruir nenhuma das conversas que tivemos. Talvez falássemos de temas muito ligados à véspera desses dias distantes, ou talvez a minha memória tenha deixado de guardar essa informação, precisou do espaço para qualquer outro assunto.

 

Já depois da conta, o senhor do restaurante deseja-me sorte para os livros, e aponta para a televisão onde me viu, presa à parede. Agradeço e, nesse momento, entendo de repente a simpatia pouco habitual, o sorriso a despropósito.

 

Sim, pai, às vezes, vou à televisão falar dos meus livros.

 

É difícil explicar. Haveria de surpreender-se bastante com aquilo que aconteceu. Nunca apareci na pequena televisão a preto e branco que tinha no quarto e, com toda a sua capacidade de idealizar o futuro, haveria de ficar incrédulo se alguém lhe contasse. O meu pai não tinha forma de imaginar que, um dia, com este caminho feito, eu seria um escritor a dar autógrafos.

 

Para o meu pai, serei sempre um rapaz de futuro incerto, com a carta de condução acabada de tirar, a estudar para ser professor. Quando pousava as pálpebras sobre os olhos, o sofrimento, sei que uma das suas preocupações era: o que irá ser deste rapaz? Ele próprio, muitas vezes, dizia esta frase. Dentro de mim, sou capaz de ouvir a sua voz a dizê-la.

 

Agora, nada pode mudar esse facto. Mesmo que passe o resto da minha vida a escrever livros, mesmo que sejam lidos por milhares e milhares de rostos atentos, mesmo que o meu nome seja repetido todos os dias em bibliotecas e livrarias. Para o meu pai, nunca serei escritor.

 

José Luís Peixoto, in revista Visão, 23 de outubro de 2014

 

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publicado às 10:01

 

 

Um dia, vou cansar-me de querer conhecer o mundo. Nessa altura, talvez me pareça estranho que alguém saia de casa, deixe o morninho, para discutir preços com taxistas ou olhar para ementas de restaurantes onde não percebe uma única palavra.

 

Às vezes, parece-me que conheço demasiados caminhos. Para ir a certos lugares, não tenho de pensar. Entro no carro e a minha cabeça ocupa-se de qualquer assunto que, naquele momento me pareça importante. Conheço tão bem esses caminhos que quase me surpreendo quando chego ao destino. Às vezes, quero ir a lugares ligeiramente diferentes, distraio-me por um momento e, quando reparo, já estou a fazer esses caminhos de novo. O hábito enganou-me. Então, preciso de voltar atrás, raramente necessito de GPS para encontrar a direcção certa.

 

Viajar seja para onde for, querer conhecer o mundo, é acreditar que todas as ruas fazem parte de um labirinto mas que não é possível perdermo-nos nele. Está-se sempre em algum lugar. A rosa dos ventos pode ser colocada em qualquer sentido, continuará sempre a ser uma rosa dos ventos.

 

Na Tailândia, nenhuma comida tem o sabor das sopas da minha mãe. Na Amazónia, nenhuma paisagem se parece com os campos à volta da terra onde nasci. Nas ruas de Helsínquia, ninguém entende a língua em que penso e eu, estrangeiro, tenho dificuldade até de distinguir palavras na amálgama de sons que essas pessoas dizem quando vão, por exemplo, a conversar nos transportes públicos.

 

Um dia vou cansar-me dessa surpresa. Conheço bem o conforto do meu sofá, com mantas em fevereiro, onde poderia passar tardes inteiras a ver programas da televisão portuguesa, com anúncios portugueses, com as notícias portuguesas a começarem à hora certa: pip, pip, piiii. Sei bem o que é atender o telefonema de um amigo que me diz: vem cá. Sei bem o que é poder ir ter com ele naquele momento, estar ao lado dele depois de minutos. Também sei o que é sentir que os amigos deixaram de ligar. A pouco e pouco, convencem-se de que nunca estou, nunca posso, não vale a pena ligar, não vale a pena insistir.

 

Sim, um dia vou cansar-me de querer conhecer o mundo, mas hoje ainda não é esse dia. Sinto uma espécie de tontura só de começar a conceber todos os lugares onde posso ir. Tenho os sentidos ávidos por tudo aquilo que me espera. Não tenho qualquer receio de estar sozinho, sem mapa, no centro de Singapura, numa avenida de Caracas, diante de uma paisagem do Alasca. Anseio por esse momento.

 

Quero aterrar em todos os aeroportos do mundo, quero conversar por gestos com gente de todos os países, quero provar o sal de todos os oceanos, senti-lo a cristalizar-se na pele. É muito fácil que chegue um dia em que deixe de acreditar em tudo o que acredito agora. A vida é composta por materiais bastante mais transitórios do que estamos dispostos a admitir. Mas, até lá, sempre que esteja diante de uma ementa onde não perceba uma palavra, continuarei a fechar os olhos e a pedir a primeira coisa onde deixe cair o meu indicador.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Revista Volta ao Mundo (Abril 2014)

 

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publicado às 10:54

A vida

08.01.14

 

 

 

A chuva insiste de encontro ao pára-brisas. Os contornos de tudo embaciam-se por detrás da água, as cores perdem os limites que as contêm e entornam-se umas sobre as outras. Depois, chega o instante em que as escovas do limpa pára-brisas não conseguem esperar mais. A uma velocidade constante, certa, fazem o seu movimento geométrico, a nitidez cinzenta do céu reflectida pela estrada e, logo a seguir, a chuva de novo. Conduzo devagar.

 

A minha sobrinha fala de pessoas que já morreram. Responde às minhas perguntas, mas o silêncio também lhe serviria. Lembra-se bem do momento em que acordou a meio da noite e ouviu os crescidos a receberem a notícia de uma morte. Hoje, tem vinte e cinco anos. Enquanto fala, acede a impressões de pessoas do passado, é difícil distinguir se são memórias ou apenas pensamentos criados pelo que ouviu dizer, não sabe se está a recordar ou a imaginar. Essa indefinição incomoda-a. Está habituada a lembrar-se de tudo o que pensa. Falo-lhe de outras pessoas, gente que morreu quando era ainda mais pequena. Não tem qualquer memória. Custa-lhe menos chegar a essa conclusão. Sente menos falta daquilo que nunca teve.

 

Conduzo devagar. Durante um instante, as figuras foscas do pára-brisas são a direcção para onde continuo. A voz da minha sobrinha hesita, estende-se no interior do carro, protegida da chuva, com uma fragilidade imperfeita. As pessoas de que ela não se lembra estão dentro de mim. Vejo-as com clareza. Nalguns casos, dirigem-se a mim, tratam-me pelo nome e sorriem, completamente ignorantes de estarem mortas. Sinto a sua presença em detalhes, não tenho de fazer qualquer esforço para os ter presentes: a maneira como penteiam/penteavam o cabelo com os dedos, uma certa expressão do rosto, a maneira como dizem/diziam certas palavras. A limpeza da memória das suas vozes comove-me, a maneira como pronunciam certas palavras, mas sei que não estão vivos, sei que não poderei voltar a ouvir essas vozes que ninguém gravou.

 

Procurando explicações para mim próprio, olho para o passado como se fosse a casa dos meus pais. Aprendi a conhecer cada pormenor das suas paredes, a sua textura, acreditei naquela casa como só um menino é capaz, depois o tempo passou. Aqui mesmo, ou em todos os lugares onde já estive sem me lembrar dela, a casa continuou sempre lá. Está lá agora, com tempo a passar lento nas suas divisões mal iluminadas, as mesmas onde fui criança, o banco onde me sentava ao lume em dias como este, o corredor que a minha mãe atravessava cheia de pressa, o sofá onde o meu pai se sentava já doente, a cama onde eu me deitava a imaginar o adulto que seria/sou, o canto da cozinha onde nesta época do ano decorava a árvore de Natal. E foi assim em todos os momentos. Depois de sair de lá, noutras casas, sem me lembrar, compenetrado em apaixonar-me ou em desiludir-me, a casa estava sempre lá, com tempo a passar nas suas divisões vazias. Enquanto eu tinha filhos, a casa estava lá; enquanto eu publicava livros, a casa estava lá; enquanto eu me preocupava com insignificâncias que já esqueci, a casa estava lá.

 

Tenho trinta e nove anos. Há pouco mais de uma semana, levei a minha mãe neste mesmo carro. Era de noite, os faróis dos outros automóveis formavam estrelas na distância. Eu falava-lhe do meu filho mais novo e disse-lhe que cinco anos passam depressa, disse-lhe que daqui a pouco será adolescente. A minha mãe não concordou, disse-me que não, disse-me que cinco anos é muito tempo. A minha mãe tem setenta e dois anos. Não precisou de repetir ou de explicar melhor o que queria dizer. Entendi-a bem e senti-me envergonhado pela superficialidade e pela arrogância do meu desconhecimento. Realmente, cinco anos é muito tempo. Só passam depressa se não estivermos atentos.

 

Avançamos num veículo frágil, debaixo de uma tempestade inclemente, muito maior do que nós, de um tamanho que não podemos conceber, a transcender-nos, mas estamos aqui. Avançamos em direcção a figuras foscas, a nitidez é breve e não tem força suficiente para nos tranquilizar, mas estamos aqui. A noite, inevitável, à espera, mas avançamos e estamos aqui. 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro 2014)

 

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publicado às 15:19

 

 

Existem vinte e quatro fusos horários. Por isso, durante um dia inteiro, hora a hora, há pessoas a celebrarem o fim/início de ano velho/novo. O planeta gira à sua velocidade pesada, como um daqueles cilindros de carne, um espeto de shoarma, e, durante um dia inteiro, hora a hora, é varrido por multidões a contarem em coro, a brindarem, a entusiasmarem-se ou a comoverem-se. Começa numa ilha qualquer do Pacífico. Ainda não estamos vestidos para a festa e já vimos no telejornal o fogo de artifício em Sidney. Depois, hora a hora, vai-se aproximando. Quando falta pouco, alguém diz: já é ano novo em Espanha.

 

Contar para trás exige um nível apurado de atenção. Talvez possa ser comparado com o esforço que um destro faz ao assinar o nome com a mão esquerda. O princípio é semelhante. Contraria uma espécie de instinto, algo que se aprendeu há muito tempo.

 

Em casa, as crianças entre os quatro e os dez anos ficam acordadas excepcionalmente até à meia-noite. Assistem admiradas às celebrações dos avós. Há festa na televisão ligada. Aquilo que acontece na sala parece uma continuação tosca daquilo que acontece na televisão. Olhamos para lá e aprendemos como se faz.

 

Este ano ainda não espirrei, este ano ainda não fui à casa de banho, este ano ainda não bebi um copo de água; não te via desde o ano passado, não almoçava desde o ano passado, não pensava no ministro das finanças desde o ano passado, felizmente.

 

Quando a vida retrocede, quando se passa a viver pior, faz sentido afirmar que se avançou um ano? Pelas contas dos calendários, chegámos a 2013. Mas, olhando para o tempo, quando foi a última vez que nos sentimos assim? Há quantos anos tínhamos alcançado aquilo que perdemos? Há vinte anos atrás, seríamos capazes de imaginar este tempo com uma sofisticação diferente: robots a fazerem as tarefas domésticas, teletransporte. Mas agora estamos aqui.

 

Há a internet e os telemóveis mas, sob a perspectiva dos direitos que deixámos de ter, estamos em que ano? Talvez o tempo não avance como a ciência e os relógios garantem. Talvez o tempo ondule. Se assim for, é certo que ondulamos com ele. É até possível que se agite por nossa causa. Se assim for, não é certo que estejamos em 2013. Aqueles que têm de emigrar para onde ficam sozinhos reconhecem a sua realidade em histórias com mais de quarenta anos; aqueles que perdem a casa recuam dez ou vinte anos; aqueles procuram e não encontram sentem que 2013 não é muito diferente de 2012.

 

Depois de rebentarem as rolhas das garrafas de espumante aqui, continuam a rebentar, hora a hora, em direcção a oeste. Há milhares de pessoas eufóricas em Times Square, as autoridades de certos países advertem para os perigos dos tiros para o ar, centenas de pessoas resolvem tomar banho nas águas geladas de todos os mares.

 

Nestas últimas semanas, ao conduzir por uma estrada onde passo habitualmente, tenho reparado num cartaz que anuncia o fim de ano em Salvador da Baía por mil e quinhentos euros. Com alguma melancolia, imagino essas pessoas a entrarem no avião. Como serão os seus rostos? Continuo o meu caminho, ultrapasso e sou ultrapassado, presto atenção a outros cartazes que se anunciam a si próprios: têm um número de telefone e a frase: "saiba como anunciar aqui". Ultimamente, há muitos cartazes assim, vazios, ninguém quer anunciar nada neles.

 

Enquanto isso, algures, existem as pessoas reais que se preparam para atravessar o oceano, têm o passaporte em dia. Levam aquilo que imaginam e regressarão com aquilo que encontrarem. Talvez acreditem que o tempo que aí vem será melhor se passarem essa data lá longe, naquilo que imaginam. Quase de certeza que imaginam algo melhor do que estar aqui. De outra maneira, não iriam até lá. Não se davam a esses gastos e a esse trabalho.

 

Enquanto isso, há pessoas a dormir durante a passagem de ano.

 

Termina um ano, termina um mês, termina uma semana, termina um dia, termina uma hora, termina um minuto, termina um segundo. Este segundo, e este, e este, e este.

 

Noutra dimensão, alheio a estes detalhes, há o tempo. Nunca termina, nunca começa, continua sempre.

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (janeiro 2013)

 

 

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publicado às 18:44

 

 

 

Quando o cavaleiro acordou, apenas encontrou escuridão à sua volta. Conseguia ainda sentir o cavalo debaixo de si mas, estranhamente, não lhe distinguia um movimento mínimo, nem a respiração, nem um esticão de pele para afastar as moscas, nem o pescoço maciço a virar-se todo para um lado ou para outro. Na verdade, o cavaleiro não conseguia distinguir os seus próprios movimentos, tentava lançar um braço para a frente, tinha a sensação nítida de estar a fazê-lo, mas não conseguia sentir esse gesto simples. Fazia como se estivesse a tocar o seu corpo, passava as mãos pelo peito, sabia-se a fazer esse movimento, mas nem sentia as mãos no peito, nem sentia o peito nas mãos. Chegou a pensar que ainda estava adormecido. Talvez estivesse num daqueles sonhos em que se consegue ter a consciência de estar a sonhar. Esses sonhos tornam-se mais nítidos e reais no momento em que está quase a acordar. Este pensamento acalmou o cavaleiro. Quase adormeceu de novo enquanto esperava por acordar daquele sonho. Então, pareceu-lhe que não podia adormecer dentro de um sonho e, assim, concluiu que não podia estar a sonhar. Foi então que pensou que estava morto. Essa conclusão foi um instante de pânico seguido por uma tranquilidade absoluta. Se estava morto, para quê preocupar-se? Tinha pena daquilo que gostaria de ter feito, mas tinha a memória das muitas coisas que conseguiu fazer. Habituou-se à ideia de estar morto. Depois, aos poucos, foi-se aborrecendo da morte. Não acontecia nada dentro da escuridão. Era um negro opaco, sem qualquer quebra. Nessa falta de novidades, havia apenas o som. Em muitas ocasiões, o cavaleiro dirigia toda a atenção para o som. Aquilo que ouvia deixava-o perplexo. Distinguia claramente vozes de pessoas. Mas não conseguia perceber qual era a língua que falavam. Incansável, o cavaleiro tinha percorrido todo o reino. Durante todos esses anos, nunca tinha escutado nada que se assemelhasse àquela língua. Era o outro mundo, pensava, era a morte. Seria aquela a língua dos anjos? O cavaleiro não sabia. Chegou também a pensar que poderia estar cego. Mas, se assim fosse, porque estaria montado no seu cavalo completamente suspenso? O cavaleiro tinha muitas perguntas. Tinha poucas respostas. Ia esperar. Não havia mais nada que pudesse fazer. Inquieto e imóvel, observava a escuridão.

 

De repente, a escuridão rasgou-se. O cavaleiro de madeira, montado no seu cavalo, chegou às mãos do menino. As cores da árvore de Natal, por trás, brilharam mais nesse momento por efeito do rosto do menino. O avô, sentado a pouca distância, dizia-lhe: calma, devagar. O avô sorria e o presente que ele próprio recebia era poder assistir ao entusiasmo com que o neto segurava no cavaleiro de madeira, imaginando-lhe aventuras. O pai estava no outro lado da sala. Talvez a cidade existisse por detrás das janelas. Ninguém poderia saber ao certo. A mãe aproximou-se do avô, seu pai, e sorriu-lhe. O menino veio a correr e mostrou-lhe os pormenores com que o cavalo e o cavaleiro tinham sido esculpidos. Nesse dia de Natal, o menino tinha quatro anos. Mais tarde, já adulto, haveria de ter uma memória, distorcida, daquelas horas. Essa seria uma memória feita de tempo morno. Adulto, quando visitava a mãe e passava pela moldura com a fotografia do avô, pendurada no corredor, sentia ainda o conforto daquela manhã, o amor. O cavaleiro de madeira acompanhou-o ao longo de toda a infância. As suas cores foram-se desbotando. Os pormenores do rosto e das mãos foram-se lascando. Adulto, segurava o cavaleiro de madeira dentro das suas mãos de homem e conseguia ver-lhe as imperfeições, mas conseguia também vê-las cobertas por tudo o que tinha descoberto naquele dia de Natal. O avô tinha conversas com a mãe e sorria ao vê-lo brincar no chão da sala. Às vezes, o pai chegava com braçadas de lenha que, ao longo das horas, ia dispondo na lareira. A felicidade existiu em todos os pormenores daquela sala. O tempo iria decantá-la pelas vidas que ali se reuniram e que ali celebraram a sua reunião.

 

Gostaram?, perguntou a mãe. Não percebi a última frase, disse a Patrícia. O que significa “decantá-la”?, perguntou a Inês. As gémeas estavam tão despertas depois de ouvirem a história como tinham estado antes de a começarem a ouvir. A mãe fechou o livro e, antes de explicar, puxou-lhes os cobertores sobre o peito. Então, disse-lhes: o que a última frase quer dizer é que eles estavam muito felizes por estarem juntos, que isso é que era importante e que essa felicidade continuou com eles durante todas as suas vidas. As gémeas não mexeram o olhar, continuaram a fixar a mãe. E se fechássemos a luz?, perguntou. Estava cansada. Tinha sido um dia longo. Mãe?, chamou a Inês. Sim?, disse a mãe. E a Inês fez-lhe perguntas sobre os presentes. A Patrícia também fez perguntas sobre os presentes. A mãe sempre se admirou com o modo como as gémeas tinham exactamente as mesmas perguntas para fazer. Era como se uma e outra soubessem exactamente as mesmas coisas. A mãe disse que, na manhã seguinte, quando abrissem os embrulhos, logo saberiam. Disse que, naquele momento, não valia a pena estarem a preocupar-se com isso, o melhor seria descansarem bem porque, quando acordassem, haveria muito para brincar. As gémeas conformaram-se com esta explicação e, a Patrícia primeiro, a Inês depois, fecharam os olhos. A mãe afastou-se devagar, as meias sobre a alcatifa, e, quando encostou a porta, olhou para os vultos a respirarem longamente sob o cobertor. Com cinco anos, as gémeas estavam muito crescidas. A mãe chegou à cozinha. Os azulejos brancos reflectiam a luz da lâmpada fluorescente. A mãe tirou uma caneca do armário. Era uma caneca de loiça, gasta pelas lavagens da máquina, as cores esbatidas. Do frigorífico tirou um pacote de leite. Encheu a caneca e colocou-a no micro-ondas. Ficou a olhar para ela enquanto rodava, iluminada, como uma caneca que fosse bailarina num palco de vidro. Plim: o toque demasiado alto, demasiado estridente do micro-ondas. A caneca estava a escaldar, mas o leite estava apenas morno. Mexeu-o com uma colher. Então, sentou-se numa cadeira, ao lado da pequena mesa da cozinha onde pousou o cotovelo. E assim ficou, em pijama, de meias, a beber leite morno e a olhar para o ar. 

 

 

In Abraço, Quetzal Editores, 2011

 

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publicado às 19:20

O meu lugar

04.08.13

 

 

Quando era pequeno, rodava sobre mim próprio com as pontas dos pés. Rodar-rodar-rodar: as formas a saírem dos contornos, as cores a misturarem-se demasiado rápidas e, depois, ao parar de repente, o chão como um barco debaixo da tempestade, a paisagem inteira a oscilar desgovernada, eu a tentar equilibrar-me e, ao mesmo tempo, criança, a apreciar esse caos. A seguir, a pouco e pouco, o horizonte abrandava e voltava a fixar-se.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Posso estar a falar com a minha mãe, como há dois dias atrás, e ela diz-me: aquele sobreiro que fica entre o campo da bola e o Monte da Torre. E, entre tantos, eu sei exactamente qual o sobreiro a que se refere. Essa é a precisão com que sei o meu lugar. As ruas, calcetadas com paralelos, suportam o meu pensamento desde que nasci. Em gestos largos, os muros são caiados anualmente porque o branco precisa de renovação, a pureza é uma tarefa permanente.

 

Esses foram os anos em que viajou pelo mundo inteiro. Não sei que voz irá dizer esta frase sobre a minha vida neste tempo. O mais provável será ser eu próprio a dizê-la: Esses foram os anos em que viajei pelo mundo inteiro. Em qualquer dos casos, essa frase será dita quando já não aguentar o ritmo deste tempo, desta idade em que atravesso oceanos como se rodasse sobre mim próprio. Com os olhos cheios, quando paro de repente, o chão balança, a paisagem ondula. É então que o meu lugar, paz/certeza, me nivela.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Com tantas viagens, como é que consegue escrever? Ouço esta questão de muitas vozes, em muitas línguas, vinda de pessoas que nunca se conhecerão umas às outras. Dou qualquer resposta que me pareça satisfazê-las rapidamente. Às vezes, nem preciso usar palavras, basta sorrir. Quem faz perguntas não está sempre interessado em saber as respostas.

 

No tom prosaico dessas conversas, seria difícil explicar que eu tenho um lugar, está sempre comigo. É visível e invisível. Há oliveiras centenárias agarradas a essa terra. Há uma forma de respirar que só é possível sob essa aragem. Há fontes de bicas fartas, onde jorra tudo o que amo e me ama.

 

Quando era pequeno, os campos eram enormes. Cresci mais do que podia imaginar e, no entanto, os campos continuam enormes. Entre o que me puxa de um lado e de outro, há o meu lugar a manter-me firme, a fornecer-me equilíbrio infinito. A diferença de forças é incomparável. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Levo comigo uma origem e um destino. Levo comigo um sentido. Irreversível como um mergulho, não me perturbo. Eu tenho um lugar. Sinto que lhe conheço cada detalhe e, no entanto, todos os dias o exploro e lhe encontro novidade. No meu lugar, os sinos do adro dão as horas.

 

É difícil vermo-nos a nós próprios, sei bem. Falta a perspectiva da distância, os espelhos distorcem, o rosto com que nos olham está sempre tingindo pela cor que trazem por dentro. É também por isso que me faz tanta falta o meu lugar. Sem ele, talvez acreditasse no primeiro reflexo que me apresentassem. Sem ele, talvez dependesse desses humores para imaginar quem sou.

 

Assim, estou preparado para atravessar o mundo inteiro. E, se mais mundo houver, mais mundo será tocado pela minha pele. Mi-nha pe-le, palavras pronunciadas sílaba a sílaba. E nenhum continente é demasiado grande ou demasiado estéril para me impedir de atravessá-lo. E nenhum detector de metais conseguirá identificar o tamanho e os ângulos do lugar que levo comigo: amor. Repito: amor.

 

Eu tenho um lugar. Por isso, nunca me perco no mundo imenso.

 

Ainda rodo sobre mim próprio e, depois do mundo fosco, preciso de acreditar na nitidez que transporto, esse lugar meu, onde descanso e onde não sou um postal de tiragens sem fim, sempre deturpado um pouco mais, um pouco mais, milímetro a milímetro. Agradeço todo o contraste que consigo trazer para o caminho que construo. Não coloco limites nas temperaturas a que quero sujeitar os meus sentidos e nas lições que quero aprender. Mas felizmente, tenho o meu lugar. Acompanha-me como um deus.

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Agosto, 2013)

 

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publicado às 12:28

 

  

Como se alguma coisa me chamasse, levanto o rosto do livro. Acabado de chegar, surpreendo o mundo inteiro a existir em cada detalhe. Entre as páginas, pouso um marcador que o André fez na escola e me ofereceu no dia do pai. Cada movimento é muito vagaroso para não perturbar nada. Mantenho a distância. E fico apenas a assistir, como se ainda estivesse a ler, como se tudo continuasse sem mim.

 

A paz do cloro mistura-se com o fim da tarde e com o azul limpo das paredes da piscina. Calculo que os meus filhos estejam mais ou menos a vinte metros de mim. Descalços sobre a relva, jogam com raquetes de madeira. A bola de borracha faz um barulho surdo, sem eco, toc, toc. Às vezes, essa cadência mantém-se certa durante algum tempo mas, depois, sem explicação, perde-se, não dá para confiar na regularidade desse ritmo.  O João, com dezasseis anos e mais de um metro e oitenta, atira a bola para o André, com oito anos, quase nove, que pode ser capaz de apanhá-la ou não. Em qualquer dos casos, entusiasmam-se com esse desafio, riem-se e as suas vozes atravessam esta distância, perdendo pelo caminho a forma das palavras, mas mantendo o seu tom, a sua idade, a sua música.

 

Numa cadeira ao lado da minha, inclinada para trás, a minha mãe ressona baixinho, como se o ar lhe raspasse no céu da boca. Tem os óculos desacertados dos olhos e a expressão séria que sempre faz quando está a dormir. Tem as mãos juntas, pousadas sobre a barriga, os dedos tortos, a artrose. Tem as pernas esticadas, os dedos gordos dos pés a apontarem para qualquer lado, a dormirem também.

 

Neste momento, tenho a noção precisa do tamanho da minha sorte.

 

No ano passado, fomos de férias juntos pela primeira vez, só nós. Em novembro, quando a minha mãe teve o AVC, pensei em várias ocasiões: ainda bem que fizemos essa viagem, ainda bem que não esperámos mais. Quando recuperou a fala, ela própria disse a mesma coisa. Estes meses passaram com a minha mãe a reaprender a andar, a segurar nos objectos, a falar. Não sei se os meus filhos chegaram a entender completamente aquilo que aconteceu à avó. Eles ainda não são capazes de perceber que ela é uma rapariga nova no corpo de uma mulher de setenta e um anos, a ouvir mal, a andar devagar, a usar palavras estranhas, a contar histórias antigas e a não gostar de todas as comidas.

 

Mesmo sem essa tangente à morte, mesmo sem a violência dos detalhes que não descrevo aqui, acredito que continuaria a ser capaz de avaliar a dimensão da sorte deste momento. Desde cedo que temo a possibilidade de passar pelas horas mais felizes da minha vida sem as reconhecer. Não sei com quem aprendi esse talento. Sinto pena silenciosa quando vejo alguém recordar um tempo em que foi feliz como se, só naquele instante, demasiado tarde, identificasse a felicidade que atravessou. Não quero esse desperdício para mim. A vontade de reconhecer os melhores momentos da minha vida no instante em que estou a vivê-los, dá-me a lucidez de estar sempre alerta para a felicidade. É essa a minha sorte.

 

Os meus filhos jogam com as raquetes de madeira. Quando um ou outro não acerta na bola, dão dois ou três passos para ir buscá-la entre os arbustos. A minha mãe continua a dormir, os seus sonhos parecem tranquilos como as suas sobrancelhas. O tempo desliza nestas cores do entardecer. O sol, de certeza, encontrou o horizonte. Somos sempre os últimos a sair, não temos pressa.

 

Depois, quando sairmos, voltaremos a ser um grupo invulgar de quatro elementos com muitas diferenças entre si: um menino de oito anos, irrequieto, cheio de coisas para dizer; um adolescente de dezasseis anos, carapinha, aparelho nos dentes e muito vagar; uma mulher de setenta e um anos, a descer degraus com dificuldade, mas animada para todas as hipóteses que surjam; e eu, de chinelos, t-shirts difíceis de compreender, estranho e tatuado.

 

Mas isso será depois. Agora, há o rumor da água da piscina, empurrada por uma brisa que não se sente, há a minha mãe aqui ao lado, há os meus filhos a serem irmãos e há esta sorte infinita que me rodeia e me acompanha.

 

Há esta gratidão compacta que me preenche. 

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (julho de 2013)

 

 

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publicado às 16:21

Luta de classes

07.05.13

 

 

 

Não contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrário, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.

 

A cultura é usada como símbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botão de punho. A raridade é condição indispensável desse exibicionismo. Só pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colecção de símbolos é descrita com pronúncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.

 

Para esses indivíduos raros, a cultura é caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convém não haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no início da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritórios for vista a ler um determinado livro nos transportes públicos, os snobs que assistam a essa imagem são capazes de enjeitá-lo na hora. Começarão a definir essa obra como "leitura de empregadas de limpeza" (com muita probabilidade utilizarão um sinónimo mais depreciativo para descrevê-las).

 

Este exemplo aplica-se em qualquer outra área cultural que possa chegar a muita gente: música, cinema, televisão, etc. Aquilo que mais surpreende é que estes "argumentos", esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivíduos supostamente cultos, e só em escassas ocasiões é denunciada como discriminadora do ponto de vista sexual ou social.

 

Isso são livros de gaja, dizem eles. Às vezes, para cúmulo, há mesmo mulheres que dizem: isso são livros de gaja.

 

A raiz da minha cultura não pertence ao elitismo. Tenho orgulho das minhas origens, do meu avô pastor, do meu pai carpinteiro, como outros têm orgulho dos seus longos nomes compostos.

 

Depois de um trabalho que encerre convicções profundas, que tenha em conta os princípios da sua área artística, que seja consciente da história dessa área e que faça uma proposta coerente e inovadora, acredito na divulgação o mais ampla possível.

 

Esconder uma obra em tiragens de 300 exemplares não lhe acrescenta um grama de valor artístico. Quando essa falta de divulgação resulta de uma escolha, pressupõe, quase sempre, falta de consideração pelo público, a crença de que um público mais vasto seria incapaz de entender tamanha sofisticação.

 

Acredito que a poesia pode ser publicada em caixinhas de fósforos, escrita com trincha ou spray nas paredes, impressa em t-shirts, afixada no facebook. Em qualquer um desses lugares, será diferente, mas em todos continuará a ser poesia.

 

É ridícula a ideia de que a divulgação deturpa. A banalização é sempre tarefa de quem banaliza e não do objecto banalizado. Quem não for capaz de convocar os seus sentidos e a sua razão para apreciar uma determinada obra, apenas por acreditar que se encontra muito difundida, tem problemas graves ao nível do espírito crítico e da isenção mais básica. Esse é um daqueles casos em que se aconselha a lavagem de olhos. É aí que reside a deturpação.

 

Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoiévski. Há alguns meses, a personagem de uma telenovela citou um poema escrito por mim. Toda a gente da minha rua viu e ouviu. A minha mãe ficou orgulhosa e eu também.

 

Chamo-me José ou, se preferirem, Zé. Desprezo o elitismo. O verbo não é exagerado, adequa-se bem ao que sinto.

 

Hei-de sempre divulgar o meu trabalho na máxima dimensão das minhas capacidades. Devo esse esforço à convicção que tenho naquilo que escolhi dizer. Fico feliz se vejo os meus livros disponíveis em supermercados, estações de correios, bombas de gasolina ou bibliotecas públicas.

 

Aquilo que faço não existe sozinho, precisa de alguém que lhe dê sentido, o seu próprio sentido e interpretação pessoal. Se uma árvore cair sozinha na floresta, sem ninguém por perto, será que faz barulho? Por esse motivo, o esforço de divulgação é também uma mostra de respeito para com essas pessoas, é um sinal da minha crença nelas e no seu valor. Exactamente como estas palavras, que existem porque estás a lê-las.

 

Escrevo romances, a minha força de vontade é enorme. Tenho 38 anos, conto estar por cá durante bastante tempo. Tenho ainda muito por fazer. Habituem-se. Não tenho medo.

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Maio de 2013)

 

 

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publicado às 01:37

 

 

Na tarde de 14 de Julho de 1912, domingo, na colina de Öfver-Järva, em Estocolmo, Francisco Lázaro caiu inanimado. O médico que se encontrava no local aplicou-lhe gelo sobre a cabeça e enviou-o para o posto médico de Silfverdal. A partir daí, dada a gravidade do seu estado, foi enviado para o Royal Seraphin Hospital, onde chegou às 17 horas e 30. À chegada, apresentava uma temperatura de 41,2º e sofreu um intenso ataque de convulsões e cãibras. Foi-lhe diagnosticada meningite. À meia-noite deram-lhe injecções de água salgada e, mexendo as mãos, reagiu ao ouvir o seu nome. Mais tarde, entrou em delírio, fazendo movimentos como se ainda estivesse a correr. Às 6 horas e 20 da madrugada, morreu.

 

 

 

OS SPORTS ATHLÉTICOS

 

 

"Um regime velho, retrógrado, ingrato e refractário à causa da pátria e àquela que Os Sports Ilustrados defendem e propagam, acaba de cair e um outro, novo, resplandecente, cheio de luz, brilhante de entusiasmo, apto para o trabalho e para a regeneração do nosso país, acaba de erguer-se e de proclamar-se por entre as salvas de artilharia e o delírio louco do povo." Quem escreveu assim foi J. Pontes, na edição de 15 de Outubro de 1910 de Os Sports llustrados, um jornal desportivo que, a par com Tiro e Sport,  promoveu muito claramente a ideia de que o desporto constituía uma oportunidade de "fortalecimento" do homem português da República. A regeneração política fazia parte de uma dinâmica renovadora mais abrangente ainda, que não deixava de fora o físico.

 

Desde o final do século XIX que as corridas eram presença habitual no programa das "festas sportivas" que se iam promovendo em Portugal. Estes eventos, de ambiente aristocrático, faziam parte do recreio de uma minoria elitista. Com a República, a referida imprensa desportiva fez eco do ideal democrático do desporto, defendendo activamente a entrada da educação física no sistema de ensino, apontando essa questão como uma das razões do progresso das principais potências europeias. O atletismo, de prática pouco dispendiosa, teve um importante desenvolvimento nessa época, sobretudo através da corrida e de uma modalidade nova, importada desde Inglaterra: o "cross-country". É desses anos a chegada ao nosso país de provas de lançamento do disco e de salto em altura. A marcha, por sua vez, desfrutava já de uma popularidade própria, graças ao chamado "Percurso Pátria", que consistia em caminhadas efectuadas por patrulhas militares, ao longo de distâncias que podiam atingir os 200 quilómetros e que eram completadas por etapas, havendo prémio monetário para a patrulha vencedora.

 

Se os "sports athléticos" já tinham essa ligação militarista; com a aproximação dos Jogos Olímpicos de 1912, facilmente se tornaram em argumento patriótico e de avaliação do desenvolvimento. Quando o estado português se demonstrou indisponível para financiar uma participação nacional em Estocolmo, o jornal Os Sports Ilustrados, em artigo publicado a 12 de Fevereiro de 1912, respondeu assim: "Só Portugal e Espanha não concorrem! Andamos afastados da Europa e da sua gente civilizada e os avanços evolutivos de um sistema completo de educação são menos conhecidos em Portugal que na Oceânia! Esses ecos da civilização têm mais dificuldade em transpor os Pirenéus que atravessar o Atlântico!"

 

Mas existia Comité Olímpico Português desde 1909, nascera justamente com o objectivo de alcançar a presença de Portugal em Estocolmo. Assim, com contributos privados e com um sarau de variedades no Coliseu dos Recreios, quase vazio em dia de greve de eléctricos, conseguiu-se o suficiente para garantir a primeira presença de uma comitiva portuguesa nos Jogos Olímpicos.

 

 

 

O GRANDE PEDESTRIANISTA

 

No início do século XX, as carroçarias de automóveis eram compostas por muito mais madeira do que actualmente. Com 20 anos, Francisco Lázaro, nascido em 1888, em Benfica, era carpinteiro de uma fábrica de carroçarias de automóveis na Travessa dos Fiéis de Deus, no Bairro Alto, e estava prestes a entrar na história do atletismo português - o que aconteceu nesse ano de 1908, quando se deu pela primeira vez o nome de "maratona" a uma prova realizada em Portugal. Ao contrário dos mais de 40 quilómetros que se corriam no estrangeiro, a distância proposta foi apenas de 24 quilómetros por se suspeitar que não houvesse atletas capazes de terminá-la. Lázaro venceu inequivocamente. Repetiu a proeza alguns meses depois, em nova prova de fundo, no circuito de Linda-a-Pastora.

 

Após uma doença que o afastou completamente da competição, Lázaro regressou apenas dois anos depois, em 1910, tendo participado na sua primeira maratona com a distância clássica de 42800 metros. Com um tempo de 2 horas, 57 minutos e 35 segundos, Lázaro dominou a distância, deixando o segundo classificado a mais de 44 minutos. Dos 12 corredores à partida, 10 terminaram a prova. Essa vitória foi alcançada pelas cores do Velo Clube de Lisboa mas, em Abril de 1911, haveria de ganhar o primeiro cross-country português em representação do Sport Lisboa e Benfica. Terminou os 4200 metros no Campo do Lumiar em 20 minutos e 36 segundos. A razão para correr com a camisola do Benfica foi, simplesmente, o facto de ter sido desafiado a representar o clube do seu bairro onde, ocasionalmente, jogava futebol nas categorias inferiores. Com a promessa de "melhoria de condições de preparação, de higiene de vida e de alimentação", passou a correr pelo Lisboa Sporting Clube. Após vencer mais uma edição da maratona, em Abril de 1912, numa pista na Alameda das Linhas de Torres, tentou bater o recorde mundial da meia hora. Não conseguiu, mas atingiu os 8829 metros que se manteve como o recorde nacional até 1929.

 

Os seus treinos entre Benfica e São Sebastião da Pedreira eram conhecidos pela forma como "competia" com os eléctricos. Há descrições dos muitos incentivos que recebia por parte dos transeuntes durante esses treinos pós-laborais. Dentro do panorama desportivo de então, Francisco Lázaro era concebido como um herói nacional. E se houvessem dúvidas, teriam sido desfeitas a seis semanas dos Jogos Olímpicos, na maratona nacional, que venceu sem dificuldade, dando-se ao luxo de percorrer a passo os últimos dois quilómetros, na dura subida da Calçada de Carriche, tendo deixado o seu concorrente mais directo a 15 minutos, completando os 42800 metros em 2 horas, 52 minutos e 8 segundos. Nos Jogos Olímpicos anteriores, o americano John Hayes tinha vencido a prova precisando de mais 3 minutos. Essa conta simples, ignorando as possíveis imprecisões de cronometragem e de medição, a diferença de condições ou de percurso, foi suficiente para a maioria dos comentadores da imprensa portuguesa considerarem que Lázaro era um dos principais candidatos à vitória olímpica. Estava, aliás, quase assegurada.

 

 

 

O STADE É VASTÍSSIMO

 

A primeira comitiva portuguesa que participou nos Jogos Olímpicos foi constituída por seis elementos: os atletas António Stromp, Armando Cortesão e Francisco Lázaro; os lutadores António Pereira e Joaquim Vital; o esgrimista Fernando Correia. Estes foram os que restaram dos dez que estavam inicialmente seleccionados, quatro tiveram de ser excluídos por falta de meios.

 

A 26 de Junho de 1912, partiram do Cais das Colunas, no vapor Astúrias da Mala Real Inglesa. O início da viagem não acabou com a incerteza e a precariedade que a antecedeu. Pouco antes dessa data, o Comité Olímpico Português foi informado por telegrama que o início das provas tinha sido antecipado de 6 para 4 de Julho. Desse modo, a própria viagem entre Lisboa e Estocolmo transformou-se numa espécie de corrida. Após três dias mareados, de enjoo permanente, chegaram ao porto de Southampton. Por caminho de ferro, via Londres, chegaram à pequena cidade portuária de Harwich. Em novo vapor, desta vez bastante menor e com piores condições, gastaram 1 dia até chegar a Esbjerg, na Dinamarca. Daí até Copenhaga, foi necessário alternarem percursos de barco e comboio. Uma vez em Copenhaga, por fim, tiveram de esperar durante 10 horas por um comboio que os levasse a Estocolmo, após 12 horas de viagem. Chegam exaustos na manhã de 1 de Julho e, casualmente, foi-lhes comunicado que o telegrama estava errado, os jogos começariam no dia 6, conforme sempre esteve previsto.

 

Lázaro nunca tinha estado tão longe de casa e admirava-se com o que via. A sua origem social era notoriamente mais baixa do que a dos seus companheiros de comitiva, entre os quais se contavam estudantes de medicina e do Instituto Superior de Agronomia, ou um empregado superior do Montepio Geral. Em 1988, Armando Cortesão respondeu a uma entrevista de Romeu Correia: "Era um grupo muito amigo. Mesmo o Lázaro, que se afastava socialmente de nós, era um camarada esplêndido. Um rapaz muito simples, muito simpático. Ainda me lembro, quando a bordo do paquete da Mala Real Inglesa, tínhamos de ir de smoking para a mesa, e ele, coitado, muito aflito a pôr o laço. E lá fui eu e o Fernando Correia ajudá-lo a fazer o laço do smoking. Mesmo à mesa, nós o aconselhávamos a comedir-se: Não faça isso... Não coma com a faca... Bom rapaz, o Lázaro. A sua morte marcou-nos para a vida."

 

Alojados numa escola primária, os participantes portugueses surpreendiam-se com o carácter cosmopolita dos jogos e com as condições que eram dedicadas ao desporto. O jornal Os Sports Ilustrados partilhava esse impacto: "O vasto stade, construído em 1910, sob a direcção do arquitecto Torben, pela quantia de um milhãe e novecentos mil francos é um anfiteatro em forma de ferradura. Coberto em toda a superfície o stade é vastíssimo podendo comportar 25000 espectadores. Aos lados, em toda a extensão dos seus longos corredores, estão situadas as salas douches, os numerosos gabinetes de toilette para os atletas, as cozinhas para a preparação dos hors-d'oeuvres."

 

Foi nesse estádio que decorreu a cerimónia de abertura, na qual, o lutador Joaquim Vital levou a placa com o nome do país e Francisco Lázaro teve a honra e o destaque de levar a bandeira, vermelha e verde, a bandeira da República, ainda tão nova, a apresentar-se às outras bandeiras.

 

 

 

O SEBO E A EMBORCAÇÃO

 

O que terá pensado Francisco Lázaro, no balneário, rodeado por atletas que não entendia e que não o entendiam? De automóvel, António Pereira e António Stromp foram colocar-se no quilómetro 5 que, na volta, seria o 35. Joaquim Vital esperava-o no quilómetro 15 que, depois, seria o quilómetro 25. Entretanto, nas bancadas, Fernando Correia e Armando Cortesão impacientavam-se com o facto de não o encontrarem entre os atletas que iam preparando os músculos para a grande prova. Já quase na hora do tiro de partida, dirigiram-se ao balneários e encontram-no a untar-se com sebo para impedir a perda de líquidos pela transpiração, segundo o próprio lhes contou. Na entrevista a Romeu Correia, disse Armando Cortesão: "Não faço a menor ideia onde o Lázaro conseguiu arranjá-lo (o sebo), mas conseguiu e estava a untar-se..." Também segundo Cortesão, tentaram colocá-lo debaixo dos chuveiros e limpá-lo, mas não chegaram a fazê-lo convenientemente porque a corrida estava prestes a começar.

 

Debaixo de sol forte, 32º de temperatura, Lázaro era dos poucos com a cabeça descoberta entre os 68 participantes da maratona olímpica de 1912. Mais tarde, no discurso que fez no seu enterro, Fernando Correia afirmou tê-lo aconselhado a cobri-la, ao que Lázaro respondeu: "o calor não me incomoda: até folgo que o haja, porque fará afastar alguns concorrentes."

 

Poucas são as evidências que demonstram a crença de que ia bem colocado na prova quando desfaleceu. No relatório do chefe da missão, pode ler-se que Lázaro, ao quilómetro 25, "já levava avanço grande e pouca diferença do primeiro". Talvez se possa interpretar essas palavras como um gesto de consideração póstuma. É possível que a mesma intenção esteja por detrás da seguinte afirmação de Romeu Correia no livro Portugueses na V Olimpíada: "Já no regresso do percurso, aos 25 quilómetros, vinha na 18ª posição, muito perto dos primeiros." No que diz respeito ao tempo e à distância, a corrida é uma modalidade de precisão inequívoca e, segundo o Comité Olímpico Sueco, Lázaro não surge entre os primeiros dezoito atletas na passagem aos 25 quilómetros. Aliás, o 19º, o último cujo tempo foi contabilizado, passou a mais de 8 minutos do líder, ou seja, nem esse ia a "pouca diferença do primeiro".

Os companheiros que o aguardavam no quilómetro 35, ao não o verem chegar, foram procurá-lo de automóvel. Encontraram apenas os postos de acompanhamento da prova a serem levantados. Foi o embaixador António Feijó que lhes deu a notícia da perda de sentidos ao quilómetro 30 e que os acompanhou ao hospital.

 

Hoje, há quem não atribua a morte de Lázaro ao calor e ao episódio do sebo. Esse é o caso do professor Gustavo Pires em entrevista ao Diário de Notícias, a 15 de julho de 2009, onde afirmou que Lázaro morreu "porque utilizou produtos nocivos". As chamadas "emborcações" eram utilizadas para alcançar o máximo rendimento e resistência. Numa edição do jornal Tiro e Sport, de 15 de Setembro de 1910, o seu director, A. Malheiros, escrevia: "devemos partir do princípio que é com a emborcação que vamos assegurar a elasticidade e a perfeita maleabilidade dos músculos de que se exigem os esforços mais efectivos, tornando-os insensíveis à dor e à fadiga, e evitar o quanto possível as cãibras que têm sido e serão sempre o inimigo irredutível de todos aqueles que se dedicam ao sport." Nesse mesmo artigo, Malheiros dá uma receita de emborcação com ovos, água destilada, terebintina e ácido acético. Pela descrição de Pedro Nolasco, em A morte de Francisco Lázaro, da forma como a autópsia encontrou o fígado de Lázaro faz supor que poderia haver o consumo de outras substâncias: "completamente mirrado, do tamanho de um punho fechado e rijo, a tal ponto que só se conseguira partir a escopro, como se fosse uma pedra". Na já referida entrevista a Romeu Correia, a descrição do modo como Joaquim Vital foi a uma farmácia comprar emborcação e acabou a massajar Armando Cortesão com um produto que, soube-se mais tarde, era remédio para os dentes é também reveladora da falta de conhecimento e de condições.

 

 

 

FILIPÍADES

 

"Ganho ou morro", são as palavras atribuídas a Francisco Lázaro antes da maratona que não ganhou. Palavras de um profetismo tão exacto que põe em causa a sua credibilidade. Ainda assim, a história deste atleta é feita de múltiplos acasos intertextuais perfeitos: a sobreposição ao mito de Filipíades, fundador da própria maratona, no qual este sucumbiu de exaustão após anunciar em Atenas que os persas tinham sido derrotados em Maratona ou, mesmo, o paralelismo invertido em relação ao episódio bíblico de Lázaro de Betânia, ressuscitado no Evangelho Segundo São João.

 

Em Portugal, o nome de Francisco Lázaro tem sido dado a ruas, a sua imagem já figurou em selos e inspirou a personagem central do romance que publiquei em 2006, Cemitério de Pianos, cuja escrita me levou a visitar Estocolmo pela primeira vez e a interessar-me tanto pela história deste atleta. No entanto, creio que é na imaterialidade do imaginário popular que a maior homenagem lhe tem sido prestada ao longo destes cem anos. E talvez a força dessa efabulação, que não é indiferente às distorções narrativas da memória, se aproxime dos motivos pelos quais até os elementos mais concretos, como o número de quilómetros que tinham decorrido quando desfaleceu, a hora a que começou a corrida ou mesmo sua data, sejam apresentados em diversas versões, dificultando a reconstituição mínima do que aconteceu.

 

Se for como desconfio, a história de Francisco Lázaro veicula uma tragicidade que fala de modo muito directo aos portugueses, porque toca em algo muito profundo, que faz parte da nossa identidade e que a exprime de modo pungente. 

 

 

 

José Luís Peixoto (in revista Visão História, 2012)

 

 

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publicado às 12:13



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