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Luta de classes

07.05.13

 

 

 

Não contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contrário, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.

 

A cultura é usada como símbolo de status por alguns, alfinete de lapela, botão de punho. A raridade é condição indispensável desse exibicionismo. Só pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colecção de símbolos é descrita com pronúncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.

 

Para esses indivíduos raros, a cultura é caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, convém não haver misturas. Conheço melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no início da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escritórios for vista a ler um determinado livro nos transportes públicos, os snobs que assistam a essa imagem são capazes de enjeitá-lo na hora. Começarão a definir essa obra como "leitura de empregadas de limpeza" (com muita probabilidade utilizarão um sinónimo mais depreciativo para descrevê-las).

 

Este exemplo aplica-se em qualquer outra área cultural que possa chegar a muita gente: música, cinema, televisão, etc. Aquilo que mais surpreende é que estes "argumentos", esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indivíduos supostamente cultos, e só em escassas ocasiões é denunciada como discriminadora do ponto de vista sexual ou social.

 

Isso são livros de gaja, dizem eles. Às vezes, para cúmulo, há mesmo mulheres que dizem: isso são livros de gaja.

 

A raiz da minha cultura não pertence ao elitismo. Tenho orgulho das minhas origens, do meu avô pastor, do meu pai carpinteiro, como outros têm orgulho dos seus longos nomes compostos.

 

Depois de um trabalho que encerre convicções profundas, que tenha em conta os princípios da sua área artística, que seja consciente da história dessa área e que faça uma proposta coerente e inovadora, acredito na divulgação o mais ampla possível.

 

Esconder uma obra em tiragens de 300 exemplares não lhe acrescenta um grama de valor artístico. Quando essa falta de divulgação resulta de uma escolha, pressupõe, quase sempre, falta de consideração pelo público, a crença de que um público mais vasto seria incapaz de entender tamanha sofisticação.

 

Acredito que a poesia pode ser publicada em caixinhas de fósforos, escrita com trincha ou spray nas paredes, impressa em t-shirts, afixada no facebook. Em qualquer um desses lugares, será diferente, mas em todos continuará a ser poesia.

 

É ridícula a ideia de que a divulgação deturpa. A banalização é sempre tarefa de quem banaliza e não do objecto banalizado. Quem não for capaz de convocar os seus sentidos e a sua razão para apreciar uma determinada obra, apenas por acreditar que se encontra muito difundida, tem problemas graves ao nível do espírito crítico e da isenção mais básica. Esse é um daqueles casos em que se aconselha a lavagem de olhos. É aí que reside a deturpação.

 

Admiro o povo ao qual pertenço. Não o povo mitificado, admiro o povo quotidiano. Gosto de ir a feiras. Gosto de comer frango assado com as mãos. Devo tanto à cultura deste povo como devo a Dostoiévski. Há alguns meses, a personagem de uma telenovela citou um poema escrito por mim. Toda a gente da minha rua viu e ouviu. A minha mãe ficou orgulhosa e eu também.

 

Chamo-me José ou, se preferirem, Zé. Desprezo o elitismo. O verbo não é exagerado, adequa-se bem ao que sinto.

 

Hei-de sempre divulgar o meu trabalho na máxima dimensão das minhas capacidades. Devo esse esforço à convicção que tenho naquilo que escolhi dizer. Fico feliz se vejo os meus livros disponíveis em supermercados, estações de correios, bombas de gasolina ou bibliotecas públicas.

 

Aquilo que faço não existe sozinho, precisa de alguém que lhe dê sentido, o seu próprio sentido e interpretação pessoal. Se uma árvore cair sozinha na floresta, sem ninguém por perto, será que faz barulho? Por esse motivo, o esforço de divulgação é também uma mostra de respeito para com essas pessoas, é um sinal da minha crença nelas e no seu valor. Exactamente como estas palavras, que existem porque estás a lê-las.

 

Escrevo romances, a minha força de vontade é enorme. Tenho 38 anos, conto estar por cá durante bastante tempo. Tenho ainda muito por fazer. Habituem-se. Não tenho medo.

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Maio de 2013)

 

 

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publicado às 01:37


6 comentários

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De Ana Ribeiro a 07.05.2013 às 09:59

Adorei mais esta crónica :). É o meu momento ZEN ler os teus textos semanalmente.

É incrível como consegues projectar o leitor para o que estás a descrever, parecia estar a ver tudo em tempo real. Obrigada pelas palavras.

Beijinhos,

Ana
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De GATA a 09.05.2013 às 13:46

Por estas, e muitas outras, é que eu gosto do José Luís Peixoto!
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De Luís Almeida a 11.05.2013 às 14:38

José Luís Peixoto, gostaria de ter a confiança de o tratar por (Zé) o que implicaria conhecê-lo contudo quero dizer que me revejo totalmente na mensagem desta sua crónica.

Acredito que a expressão artística e a cultura per si não dependem da forma nem do meio em que são divulgadas e que valem por si e pelo que cada pessoa absorve, interpreta e desfruta ao ter acesso.

Acredito igualmente que não depende nem da exclusividade nem da complexidade enquanto algo que é totalmente subjectivo.

Sou um admirador confesso da sua obra e da sua forma de estar fora dela embora não o conheça, a sua simplicidade e postura não contrasta com a qualidade da sua obra e deu-me um gozo do carago ler esta crónica.
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De Mario Falagueira a 09.06.2013 às 15:06

Soberbo
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De isa a 17.06.2013 às 12:42

ah! então é por isso que um mundo cheio, contudo vazio... num mundo eterno, contudo perene, com a podridão a jorrar entre jardins floridos, eu faço parte de quase nada e se sorrio é porque tenho vontade, mas sinto-me sempre desintegrada…
beijo

.
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De Sara C. a 15.07.2013 às 17:44

Ora aqui está um ponto de vista totalmente oposto ao do outrora Mefistófeles (Minto até ao dizer que minto) :)

cumps Zé*

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