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Obrigado

14.02.12
 

Às vezes, fico só a olhar para vocês. Aperto os lábios porque todas as palavras me parecem insuficientes. Aquilo que normalmente se diz nessas ocasiões, aquilo que é aceite pelo protocolo da convivência social, não chega para começar a exprimir todo o invisível que me inunda. Então, quase sempre sentado a uma mesa, fico só a olhar para vocês. Nesses momentos, não ter palavras é muito melhor do que ter rios de palavras. Aquilo que não sei dizer existe com muita força e, se tentasse encontrar-lhe nomes, estaria a diminui-lo, a transformá-lo em qualquer coisa possível.

 

É essa a natureza da matéria que partilhamos, é essa a forma daquilo que nos juntou. Sem esse mistério, continuaríamos a seguir os nossos caminhos. Talvez a metros, talvez a quilómetros, talvez em hemisférios distintos, talvez em ruas paralelas, as nossas existências seriam indiferentes uma à outra. Não quero sequer imaginar a possibilidade desse mundo cinzento. Ainda bem que existem os livros, ainda bem que existe esta revista, ainda bem que existe a internet, o facebook, as feiras do livro e todos os lugares físicos e não-físicos onde nos encontramos. Ainda bem que existe o pensamento e a memória. Ainda bem que existe a ternura.

 

Mesmo havendo palavras, é difícil dizer aquilo que se quer dizer. A voz fica presa na garganta ou antes da garganta. Não vamos cometer esse erro. Vocês foram chegando devagar, foram entrando e quero que saibam que, hoje, são parte da minha família. Penso em vocês entre aquilo que me é mais valioso e, sem explicação, sinto saudades vossas de repente. Muitas vezes, sinto o toque do sol, tão suave, e sorrio ao lembrar-me que vou partilhar esse bem-estar convosco. Sinto-me muito grato pela companhia que me fazem. Convosco, nunca estou sozinho.

 

Os dias têm horas, minutos, e eu existo em todos eles. Não vejo o mundo apenas a partir das montras das livrarias ou das pequenas fotografias que acompanham estas crónicas, como se tudo estivesse controlado. Sou uma pessoa, Zé Luís, e só muito raramente está tudo controlado. Há vezes, como agora, em que estou num quarto qualquer. Um quarto onde, depois de hoje, nunca mais voltarei. Os meus filhos, a minha mãe, as minhas irmãs estão a milhares de quilómetros, o terreiro das Galveias está a milhares de quilómetros. A distância faz de mim um menino perdido. Há muitos mais exemplos, claro, o coração a bater contra algo que o aperta. Então, vocês chegam e cobrem-me com a força de me desejarem tanto bem. Vocês protegem-me com pensamentos que atravessam oceanos. Comovem-me com esse bem-querer. Obrigado por, entre tantas possibilidades, terem escolhido a mais bondosa. Vocês constroem-me. Devo-vos a pessoa que sou.

 

E não importa se estivemos no mesmo lugar apenas por um instante há cinco anos, não importa se nunca estivemos no mesmo lugar, aquilo que realmente importa é o segredo luminoso que partilhamos. Não é feito de palavras, mas é transportado por elas. Esse é o nosso lugar, temos almas a vaguear nesse universo de sentido. Vocês mostram-me todos os dias que a generosidade pode salvar. Vocês têm muitos rostos, muitas histórias. Eu ouço-vos e encho-me de esperança humana, de amor humano, e transbordo.

 

Mesmo quando estou em silêncio, agradeço-vos por me acrescentarem um sentido tão profundo. Estar-vos grato é estar grato ao mundo inteiro, ao fácil e ao difícil, ao doce e ao amargo. Sem um, não existiria o outro. Mesmo. Sem um, não existiria o outro, repito para que não restem dúvidas. Chegou a hora de, todos juntos, agradecermos pelas contrariedades. São elas, por mais feias, que nos permitem alcançar aquilo que está para lá delas. Ao mesmo tempo, são essas contrariedades, esses silêncios, que nos permitem prestar atenção ao que realmente nos interessa e que, como uma fogueira, nos ilumina o rosto.

 

Porque nos encontrámos, somos uma espécie de irmãos. Fomos capazes de existir sobrepostos e, por mais ou menos tempo, partilhámos a experiência partilhável. Se amanhã tudo se desfizer, saberemos que nos tocámos e espero que, perante o fim, sejamos capazes de nos sentir gratos pelo que tivemos e que é bastante mais do que a maioria das pessoas alguma vez chega a ter. 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Fevereiro 2012)

 

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publicado às 10:01


13 comentários

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De Ana Ferreira a 03.05.2012 às 10:51

Foi justamente este texto que fez com que o Zé Luís figura vagamente conhecida que escreve uns livros passasse a ser o Zé Luís escritor, ser humano como todos nós que chora e ri e se emociona. A constatação de que fazes parte do comum dos mortais e a proximidade que construiste com os teus leitores e o carinho que demonstras por eles são certamente características que te tornam diferente de todos os outros. Além do dom de tratares as palavras por tu e de conseguires dizer o que todos sentimos, mas não somos capazes de expressar, és especial. Eu também me encho de esperança e transbordo. Obrigada nós por tudo o que nos dás!
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De Mariza gonçalves a 03.05.2012 às 11:13

A ternura das palavras...tocas o silêncio. Adorei!
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De Maria Eduarda a 03.05.2012 às 13:57

Obrigada eu Zé Luís, por conseguires dizer tantas vezes o que eu sinto, mas com palavras não sei dizer. Abraço Forte.
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De Filipe Matos a 03.05.2012 às 16:11

Notável, apenas. Grato pelas leituras daqui e de todos os outros lugares.
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De Anónimo a 14.05.2012 às 13:44

Nós é que temos tanto a agradecer-lhe!
Além de escrever tão bem, deve ser muito boa pessoa... (apesar de se ter já lembrado de "atirar gatos à parede" e coisas q tais ;-)). Continuação de bom trabalho!Bjs
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De Anónimo a 19.06.2012 às 12:28

Depois de ler este obrigado, "mesmo havendo palavras, é difícil dizer aquilo que se quer dizer".

De qq forma, agora q está na Grécia, segue daqui mais uma "fatia de bem querer", do tamanho do seu obrigado.

Uma abraço doce, com recheio de ternura, e cobertura de carinho.
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De Andressa a 05.09.2012 às 02:32

Você é maravilhoso, me salva. Salva.

http://iammollybloomssoliloquy.blogspot.com.br/
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De Patricia Silva a 05.09.2012 às 08:40

Obrigada por me acompanhares em aviões, em aeroportos, em parques, ou em casa. Obrigada por entrares na minha cabeça e me fazeres sentir tão bem por te ler, por fazeres com que um dos planos das minhas viagens a Portugal seja a aquisição de mais um livro teu que transporto como se alguém muito querido pudesse ser esmagado entre as folhas. Obrigada por seres assim.
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De Erica Vilarinho a 05.09.2012 às 09:39

Confesso desconhecer, até bem pouco tempo atrás, o escritor maravilhoso que és.

Seguindo alguns dos passos da menina M. Ferra, numa tarde de autógrafos pela feira do livro dos Aliados, deparei-me com "O Livro". E ouvia a menina Ferra a dizer-me: "Ele é maravilhoso, vais amar! Vais ver".

Arrisquei. Curiosa, fui das últimas a receber uma dedicatória. Trocamos impressões sobre o Brasil, sobre coisas miúdas. Mas pouco sabia do Zé Luís ou do José Luís Peixoto.

Li-te, pela primeira vez, e poupei-te as palavras para que perdurassem ao máximo na minha memória. Apaixonei-me. E, finalmente, tornei a ler a dedicatória. Que bem que, desta vez, me soube!

Obrigada por captares tanto do mundo, das pessoas, de ti, dos lugares distantes por onde andas.

"E não importa se estivemos no mesmo lugar apenas por um instante há cinco anos atrás, não importa se nunca estivemos no mesmo lugar, aquilo que realmente importa é o segredo luminoso que partilhamos."

Saudações cariocas,
Erica
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De anabela m mesquita a 05.09.2012 às 10:37

És realmente formidável. Descreves o indescritível como se todas as palavras te pertencessem, como se fosses tu o seu criador. É sempre um prazer ler-te, pelo que o sentimento de gratidão é recíproco.
Grata por Te dares e por Seres.
anabela m mesquita

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