Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012
Voltar a casa

Devagar, aproximo a colher, oblíqua, do centro do prato. Por um instante, a circunferência de caldo e a colher formam um exemplo geométrico, são como a ilustração de ângulos num manual de matemática. Sinto o cheiro a conforto morno, a casa, a bem-estar, a inverno agasalhado. Abro caminho com a ponta da colher entre fios de couve, finos e embaraçados como ninhos de pardais. Quando a colher já está cheia e a levanto, não penso em mais do que na sua própria imagem. Fixo-a como se já lhe soubesse o sabor. Confirmo o melhor desse conhecimento no fim do gesto. Caldo verde. Fecho os olhos por um momento.

 

Após esse momento, o mundo reaparece. A minha mãe dá voltas à mesa. Tem pressa talvez por não querer que este tempo acabe. A sua imagem pisca de um e de outro lado da mesa. Antes de eu chegar, eu sei que a minha mãe enrolou folhas de couve na mão. Aproximou-as das lâminas do aparelho de ferro que as cortou em fios, a rodar por meio de uma manivela, preso à mesa por um grampo. Tenho essa memória desde pequeno, o som das folhas grossas de couve a serem cortadas, a sua cor verde-escura e o seu cheiro fresco, também verde. A voz da minha mãe mistura-se com o sabor da sopa. Diz-me: sabes quem é que morreu? Não sei, mas quero saber. Então, a minha mãe perde a pressa. Faz uma pausa para dar dois ou três passos, que se ouvem chinelados no chão. Dentro de mim, preencho esse silêncio com uma sucessão de rostos da minha infância.

 

Foi o Ti Zé Rente-às-Orelhas, diz a minha mãe. Quem? A minha mãe tenta explicar melhor: foi aquele homenzinho que morava na entrada da Devesa, vizinho do Mané Fãfã, o viúvo da Ti Chica Estreita. Eu conheço esses nomes, já os ouvi muitas vezes no meio de conversas, mas não estou a ser capaz de identificá-los. A minha mãe escandaliza-se: não sabes quem é o Mané Fãfã? Andaste à escola com dois sobrinhos dele, os filhos do latoeiro, o Armindo e o irmão mais novo do Armindo. Esses conheço bem: sim, claro, os filhos do latoeiro. O Mané Fãfã é irmão do latoeiro? Não, responde a minha mãe, o Mané Fãfã é irmão da mulher do latoeiro, a Rosalinda. Lembro-me dessa mulher, chegou a dar-me pão com mel quando brincava com os seus filhos, mas não sabia que tinha irmãos. Afinal tem, à farta, a minha mãe explica-me que essa mulher é a única rapariga de cinco filhos. Outro irmão dela é o Raposo. Até que enfim: ah, o Mané Fãfã é irmão do Raposo? Assisti-lhe a muitos jogos de sueca. Coitado. Que idade tinha? A minha mãe diz-me que não foi o Mané Fãfã que morreu, foi o seu vizinho, o Ti Zé Rente-às-Orelhas, um homem magro, solteirão, com mais de noventa anos, muito bem falante, mas bastante mouco. Morreu a ver a telenovela.

 

Não lhe recordo o rosto e, no entanto, consigo imaginar esse homem como se adormecesse, a merecer descanso. Digo: só me lembro do Mané Fãfã ter uma vizinha, aquela mulher maluca, despenteada, despassarada, a Violante. Com paciência, a minha mãe explica-me: essa é a vizinha de um lado. O Ti Zé Rente-às-Orelhas era o vizinho do outro lado.

 

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista UP (Dezembro, 2011)





publicado por José Luís Peixoto às 14:48
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8 comentários:
De Afectos a 3 de Janeiro de 2012 às 15:42
Emocionei-me...
Sentir, sentimos todos, mas escrever o que se sente apenas uns poucos conseguem...e você fá-lo tão bem :)

Bom Ano!
Boas e inspiradas sessões de escrita que vá partilhando connosco...


De maria carvalho a 3 de Janeiro de 2012 às 15:44
Que gozo ler isto. E que gozo imaginar alguém que saliva por um caldo verde a bordo da TAP, e em vez disso recebe a pequena merenda requentada na hora... Linda imagem. É como se um texto também se fizesse do sítio que o recolhe. Obrigada.


De Manuel Rodas a 3 de Janeiro de 2012 às 17:50
Gostei da sopa, só faltou mesmo sentir o cheiro. Até o Ti Zé Rente-às-Orelhas havia de gostar! Coitado, morreu!
Mrodas



De Rejane Martins a 3 de Janeiro de 2012 às 20:00
Maravilha! Obrigadíssimo pela sensibilidade e doçura.
Ontem terminei a leitura de Abraço e ainda estou emocionada com a leitura, tanto de todos nós por ali.


De maria nunes a 4 de Janeiro de 2012 às 12:24
li este texto na revista, em voo de regresso a casa, vinda de umas férias lindas, e senti o aconchego de casa, do sabor do caldo verde e sorri ... amei mais este texto, como todos os demais que tive a felicidade de ler do JLP.

Mil vezes obrigada por nos dar a ler o que sentimos sem muitas vezes nem nos apercebermos, ou sem sabermos como traduzir em palavras.
O JLP põe o (nosso) "sentir" em palavras !! :-)


De Anónimo a 4 de Janeiro de 2012 às 14:59
Feita de "pequenas coisas" esta crónica diz-nos tudo e mostra o quão escondidas estão as memórias... Vale a pena relembrar e constatar que o que somos hoje é também fruto dessas "alcunhas" tão típicas de cada terra...
Biblioteca Rosae
Escola Profissional Agrícola Conde S.Bento
Sto. Tirso


De Fernanda a 5 de Janeiro de 2012 às 23:15
Trouxe-me aqui o amigo Quicas, em boa hora segui o seu conselho.

Obrigada por expressar tão bem sentimentos comuns.
Foi mesmo como um chegar a casa onde só lá há todo este conforto e carinho.

Abraço


De Helena Santos a 7 de Janeiro de 2012 às 22:26
...era sempre o meu pai que cortava pacientemente a couve para o caldo verde, enquanto a minha mãe atarefada cozinhava outras iguarias na vépera de Ano Novo...desde o ano de 2003 aquele caldo verde, alegre e doce tornou-se triste e amargo......mas em noites de vésperas conservo a lembrança daquele antigo sabor terno e doce: "Filha... tem que ser cortado bem fininho, para dar aquele sabor!... " Este ano não cortei a couve mas cozinhei o caldo verde temperado com o sal da saudade e a voz inesquecível do meu pai a cantar no coração... SEMPRE!... mas o sabor do caldo verde nunca mais será o mesmo...


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