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A minha madrinha sonhava com hipermercados. Enquanto ouvia as nossas descrições de corredores enormes, esvaziava o olhar daquilo que a rodeava, paredes caiadas, e enchia-o com o brilho que conseguia imaginar das nossas palavras. Agora, ao lembrar-me dela, tenho uma espécie de sorriso brando, parecido com o sorriso que ela própria tinha nesses momentos. A minha madrinha morava no alto da Praça, na continuação do adro, e conseguia ver uma boa parte da vila, os campos ao longe, mas a maior distância que fazia sem ajuda chegava apenas até à mercearia, poucas dezenas de metros. Em algum momento do passado, antes de mim, a minha madrinha tinha sido uma menina, filha única e delicada, estimada pelos pais; mas, quando a conheci, já era uma mulher de setenta anos, pouco cabelo, poucos dentes, gorda, com pernas finas e ruins, amparada por muletas. Na mercearia, a minha madrinha analisava os pacotes de bolachas, os iogurtes, provava cada sabor novo, coco, baunilha, e guardava-os para eu provar também.

 

Estou na Califórnia.

 

A cada dois ou três meses, quando os meus pais iam a Lisboa, a minha madrinha escrevia uma lista de compras com a sua caligrafia certa, gabada em tempos. Depois, entre vozes, descarregávamos caixas de detergente para a máquina de lavar roupa, sprays ambientadores, pacotes de leite.

 

Ontem, escritor, apresentei um romance meu, o primeiro, numa espécie de livraria, onde se oferece café, numa pequena cidade da Califórnia, na área do deserto do Mojave. Sentado num banco de pé alto, para uma dúzia de mulheres com mais de sessenta anos, li excertos que já li muitas vezes e, como se falasse apenas do romance, falei das ruas da terra onde nasci. Eram mulheres de cabelo pintado, com blusas em tons pastel, a dona da livraria, um par de gémeas, Betty e Jeannine, mulheres amigas umas das outras, amáveis umas para as outras, a tratarem-me por "young man". Enquanto falava, sentia que me olhavam com um sorriso adormecido, como se estivessem congeladas noutro pensamento. A excepção era uma mulher de pescoço esticado para a frente, fato de treino cor de rosa, que sorria quando eu olhava na sua direcção. Era cedo, três e tal da tarde. Lá fora, havia sol e tempo parado, uma estrada sem movimento, a avenida principal. Antes de terminar, li um excerto sobre gémeos. As gémeas gostaram. Várias mulheres compraram o romance, quinze dólares, e pediram-me para escrever o nome. A mulher do fato de treino cor de rosa esperou pelo fim. Estendeu-me o livro de maneira diferente, conhecia-o. Chamava-se Mary Ann.

 

Um livro novo pesa menos do que um livro lido, peso bom. Um livro lido aquece as mãos. Falámos pouco enquanto caminhámos pelo passeio de cimento. Devagar, terrenos baldios, paredes de madeira com lascas encaracoladas de tinta velha, pátios com esqueletos de bicicletas abandonadas. Chegámos ao seu portão, entrámos. Subimos dois degraus de madeira até ao alpendre, abriu a porta de rede e entrámos. Sobre a mesa, havia caixas de cartão do Carl's Junior, Taco Bell, Burger King, Denny's. A televisão estava ligada. Ela, Mary Ann, ia à minha frente, arranjava pormenores, almofadas nas poltronas, e olhava-me com olhos tímidos e claros, água. Seguindo-a, passei pela cozinha e cheguei ao alpendre das traseiras. Perguntou-me se queria tomar alguma coisa.

 

Deixou-me sozinho. Sentei-me numa cadeira grande de baloiço, presa ao tecto por correntes, almofadada, padrão desbotado de flores antigas, década de oitenta. Voltou com um copo de plástico gigante e sentou-se ao meu lado. Apontou para uma caravana que estava no mesmo terreno da casa e, sussurrando, explicou-me que a neta vivia ali com o namorado. E, nesse momento, foi uma mulher de setenta anos com um rosto de preocupação ou mágoa. Entretanto, o silêncio. À nossa frente, estava a distância imensa do deserto castanho e as montanhas a receberem o sol. Era como se existisse ali o segredo lento do dia e da noite: aquela luz quente, amarelo quente a escorrer pela garganta.

 

Era isto que queria mostrar-te, disse Mary Ann.

 

E desde o lixo e o pó, perto, até aos contornos monstros das montanhas, longe, tive a oportunidade de ver aquela imagem com os olhos de quem tinha passado a vida inteira ali.

 

 

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Fevereiro 2011)


 


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publicado às 20:32


4 comentários

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De Maria Jorgete Teixeira a 19.02.2011 às 23:21

Porque escreve assim, com tanta subtileza, porque pega na profundeza das coisas e as faz tão simples aos nossos olhos?
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De Regina de Morais a 20.02.2011 às 00:51

as mulheres são encantadoras, não são? se eu fosse homem viveria um inferno. :-)
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De Fernanda Brito a 22.02.2011 às 15:45

Bem haja a partilha! Gostei de ver e sentir "o deserto castanho e as montanhas a receberem o sol". Meu abraço
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De Mel de Carvalho a 16.03.2011 às 23:32

porque a visão é tão mais que um olhar
o verbo tão mais que palavras
e o todo
tem o toque mágico de uma [i]realidade palpável,
de um sentir pulsante, asas que voando, nos conduzem ao espaço mais íntimos das nossas próprias fragilidades... "Era isto que queria mostrar-te, disse Mary Ann", José Luís confronta-nos com o que, nos seus olhos, revelado, não cabe - um mundo imenso, de tão real.

Bem-haja, gratidão pela partilha
Mel de Carvalho

também em
(www.noitedemel.blogspot.com), prosa

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