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Era um homem de óculos. Estava sempre bem vestido. Normalmente, tinha uma gabardina no braço e tinha um cachecol pendurado no pescoço que lhe descia pelo colarinho do casaco. Tinha o cabelo branco, muito bem penteado. Tinha um sorriso. À noite, estava na avenida Fontes Pereira de Melo, no passeio do lado direito, para quem desce em direcção ao Marquês de Pombal, e quando os carros passavam, toda a gente sabia a razão porque ele estava ali e toda a gente lhe acenava e dizia adeus. Ele, com o cabelo branco, muito bem penteado, sorria e acenava, dizendo adeus a todos os carros.


Vais ver, um dia vamos falar de ti assim. Um dia passaremos de carro com os nossos filhos já crescidos e, num instante, olharemos para o teu lugar vazio, e lembrar-nos-emos das noites em que passávamos na avenida Fontes Pereira de Melo. E tu sorrias. E nós sorríamos. E dizias-nos adeus. E nós diziamos-te adeus. E levávamos esse sorriso para as ruas do Bairro Alto. Entrávamos em bares, falávamos de nós, bebíamos qualquer coisa em copos de plástico e, mesmo quando não pensávamos em ti, mesmo quando nos esquecíamos de que naquele momento ainda estavas na avenida Fontes Pereira de Melo, continuávamos com o sorriso que tinhas acendido no nosso rosto no instante em que nos acenaste. E havemos de dizer aos nossos filhos, sentados no banco de trás, que ficavas ali mesmo nas noites em que chovia. Com uma mão, seguravas o guarda-chuva. Com a outra mão, acenavas-nos, dizias-nos adeus. Os nossos filhos não irão entender. Da mesma maneira, nós não iremos entender aquilo que eles nos disserem. Os nossos filhos irão perguntar-nos se tu eras maluco e nós iremos dizer que não e continuaremos a falar-lhes de ti, como se falássemos apenas para nós próprios. As nossas palavras encherão o ar desse carro futuro onde estaremos sentados a conduzir. As nossas palavras serão reflectidas para o banco de trás pelo espelho retrovisor e os nossos filhos pensarão que falamos de coisas sem sentido. Nós continuaremos a falar porque essa será a nossa maneira de lembrarmo-nos de todos os detalhes. Nós continuaremos a falar, mas as palavras não conseguirão mostrar aos nossos filhos a falta que sentiremos de haver alguém na avenida Fontes Pereira de Melo, no passeio do lado direito, para quem desce em direcção ao Marquês de Pombal, a acenar-nos, a dizer-nos adeus.


Mas os nossos filhos desinteressar-se-ão por ti. O seu olhar ficará parado no espelho retrovisor a reflectir os nossos olhos. Incrédula, a sua voz quererá saber aquilo que fazíamos quando éramos novos. Os nossos filhos não conseguirão acreditar que éramos novos. Quererão saber aquilo que fazíamos. Haverá uma pausa antes de respondermos que entrávamos em bares, falávamos de nós e bebíamos qualquer coisa em copos de plástico. Isso será aquilo que poderemos dizer aos nossos filhos e isso é exactamente aquilo que podemos escrever na página de um jornal. A nossa memória ficará cheia de coisas que não são nem entrar num bar, nem falar de nós próprios, nem beber qualquer coisa em copos de plástico, e ficaremos em silêncio durante um instante. Nesse dia, quereremos acreditar que os nossos filhos não fazem nenhuma dessas coisas em que pensaremos e, durante esse instante de silêncio, conseguiremos convencer-nos a nós próprios que não, os nossos filhos, que vimos nascer, que nos fizeram sorrir com sílabas atrapalhadas, papá, pópó, que vimos na primeira manhã em que foram para a escola, os nossos filhos, quando nos pedem para sair, entram em bares, falam deles próprios e bebem qualquer coisa em copos de plástico. Coca-cola. Sumo de laranja. Nesse dia, estaremos habituados a ser pais e as nossas palavras serão palavras de pais, os nossos gestos serão gestos de pais, o nosso cheiro, entranhado nas roupas, na casa, no carro, será o cheiro de pais. Nesse dia, estaremos habituados a ouvir mal, ao tempo que demorarmos a subir as escadas, à nossa vida e àquilo em que nos tornámos. Tu serás essa memória repentina de um tempo em que passávamos pela avenida Fontes Pereira de Melo e serás aquilo que era estar ali, passar por ti de carro e acenar-te.


Nesse dia, nós saberemos muitas coisas e teremos esquecido muitas outras. Teremos a certeza de tudo, como os nossos filhos terão a certeza de tudo. Nós, como os nossos filhos, teremos esquecido que um dia tivemos vinte e cinco anos e olhámos para rapazes de dezoito anos, achando que não sabiam nada; tivemos dezoito anos e olhámos para rapazes de quinze anos, achando que não sabiam nada; tivemos quinze anos e olhámos para rapazes de doze anos, achando que não sabiam nada. Nós, quando passarmos de carro pela avenida Fontes Pereira de Melo, com os nossos filhos sentados no banco de trás, lembrar-nos-emos de ti, e saberemos muitas coisas, certezas, e teremos esquecido muitas outras. Iremos para um sítio qualquer que já conhecemos mas que, nesse dia, será muito diferente da primeira vez em que estivemos lá, será muito diferente de todas as vezes em que estivemos lá. Por trás do nosso rosto, durante todo o caminho, continuará a falta que nos faz a tua imagem, o teu sorriso. Se os nossos filhos voltarem a perguntar se eras maluco, mostrar-nos-emos ofendidos. E quase durante um instante, quase por baixo daquilo que estivermos a pensar, quase que reconheceremos que sabíamos tão pouco sobre ti. Sobre a música sem forma do rádio do carro, quando os nossos filhos olharem em silêncio pela janela, lembrar-nos-emos de quando voltávamos para casa; e era de madrugada; e na cor cinzenta do início do dia começávamos a ouvir os pássaros escondidos no céu; e, nas paragens de autocarro, havia filas de pessoas que tinham acabado de acordar e que tinham cara de pessoas que eram diferentes de nós; e tu, o homem que dizia adeus, já não estavas no teu lugar, na avenida Fontes Pereira de Melo, porque estavas deitado na tua cama, porque tinhas passado a noite a sorrir, a acenar aos carros, e estavas a descansar de ser feliz.


Vais ver, um dia vamos falar de ti assim. Quando os nossos filhos estiverem distraídos, olharemos para eles e saberemos que chegará um dia no futuro em que o seu presente fará parte do passado. Mas para nós, vais ver, esse dia nunca chegará e continuaremos sem saber nada, cheios de certezas, como se estivemos sempre, todas as noites, a acenar, a dizer adeus aos carros que passam na avenida Fontes Pereira de Melo.

 


José Luís Peixoto, in Jornal de Letras (Outubro de 2003)


 


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publicado às 02:48


8 comentários

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De leonor a 06.01.2011 às 00:29

é mesmo isto. :)
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De sampaio rego a 07.01.2011 às 01:09

também estranhei o aceno do maluco estranho – nenhum aceno com sorriso deveria ser estranho. os sorrisos nunca são malucos – que será feito da fontes pereira de melo sem a magia dos acenos?
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De Anónimo a 07.01.2011 às 11:12

Olá José Luís Peixoto,

A sua escrita é uma delícia!!

Pelo meu aniversário, foi-me oferecido por 2 grandes amigas (Uma delas também é Peixoto*), o "Livro". Ao desembrulhar a prenda os meus olhos começaram a brilhar por ver que era o seu "Livro", mas a minha alegria não se ficou por aí. Quando comecei a folhear o "Livro" e vi a sua dedicatória com direito a desenho do bolo de aniversário, fiquei tão contente, tão contente que parecia uma miúda a rir-me, e a dar-lhes 1000 beijos na cara.
Obrigada por escrever!
Beijinho,
Carla


* Paula Peixoto, a quem (e por terem falado da sua crónica da Visão) mostrou o braço tatuado, na Bertrand do Fórum Barreiro. ;-)

P.S. 1: Espero gostar de ler o "Livro" como gostei daqueles que já li.

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De Marta M a 07.01.2011 às 23:47

Belíssima prosa.
Bonita homenagem e viagem pela vida a partir da nossa visão sobre alguém...
Também escrevi sobre ele, com menos talento - evidentemente.
Aqui nas minha propostas para mudar o mundo:
http://domeulugar.blogs.sapo.pt/23533.html
Obrigada pela partilha também.
Marta M
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De Marta a 08.01.2011 às 01:35

Temos sempre a ideia que o tempo para as pessoas seguirem o caminho demora, demora o suficiente para não pensarmos na dor que nos vai deixar na mão. Pensamos que estará ali para todo o nosso sempre a pessoa que nos conversa os seus segredos da vida. Achamos que nos vai deixar no toque da porta o bom dia de todos os dias. Pensamos que serão sempre nossos os segredos que nos quer deixar no colo. Pensamos que uma chave de casa que nos é entregue pela amizade que confia será para sempre o acesso a uma casa cheia. Um dia, um tombo no chão leva-nos a presença dos nossos sentidos confiantes. Não vêm lágrimas, só angústia por sabermos nunca mais poder agarrar o tempo. Aquela pessoa ficou riscada da nossa lista de casamento onde era convidada tão certa. Devíamos pensar que é possível, mas nunca seremos capazes. Mas aquele nome, será, para sempre entregue aos que receberem a histórias das nossas memórias.
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De Luísa a 10.01.2011 às 02:25

Fantástico, ao ler este texto sinto que é exactamente isso que vou fazer. É engraçado, de tão forte que é essa sensação, quase que me "teletransporto" para esse momento!
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De Sara Silva a 16.01.2011 às 11:23

Pequenos gestos por vezes têm o Dom de nos fazer parar e pensar. Um sorriso, um beijo, um abraço...fico deliciada por vezes de longe a observar. É um tudo que infelizmente nos nossos dias por vezes se perde na razão na nossa existência como seres que nas emoções e pequenos momentos deveriamos encontrar a felicidade.

O presente que passado será, os momentos que vivemos agora e que em breve recordaremos, são o todo da nossa curta existência. E aquele simples adeus por quem partiu e foi notícia da TV deixou marcas e fez pensar os muitos que por ele passavam. Porque na correria de uma vida desenfreada esquecemos o significado de muita coisa.

Gostei muito do seu Post!!!!





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De Pêndulo a 20.02.2011 às 20:21

nos últimos tempos, dei por mim a pensar na "idade" e como tudo se altera quando envelhecemos. Obrigado JLP pelo texto (que vou copiar para o meu cantinho) e pelo blogue fantástico

Pêndulo

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