Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Uma máquina: aquilo que entra determina aquilo que sai. Se passámos o dia a receber notícias de crimes, assassínios à facada, corpos esquartejados, teremos medo à noite, caminharemos receosos pelos cantos. Até o espelho será olhado com desconfiança. Se passámos o mês de outubro a jogar Tetris, passaremos o mês de novembro a encaixar formas umas nas outras: árvores em nuvens (objectos líricos), prédios em pontes (objectos de betão), ideias em memórias (objectos abstractos), tudo em tudo (restantes objectos). Se passámos 2010 a comer pregos, teremos uma úlcera em 2011.

 

Somos uma máquina. Temos olhos e ouvidos, complexos instrumentos de captação. Temos a pele inteira, especialmente a ponta dos dedos. E todos os instrumentos podem ser afinados. Há diversos aparelhos de medição dessa afinação disponíveis no mercado. Uns regem-se pelo sistema métrico decimal (desde 7 de abril de 1795), outros regem-se pelas mais diversas escalas. Nenhuma delas é única, nenhuma é mais certa. Ainda assim, tanto em graus celsius, como em graus fahrenheit, existe um só frio. As marcas de tinta apresentam um extenso catálogo de cores e, no entanto, esta frase não precisa sequer de terminar para estabelecer a sua ideia.

 

Através de olhos, ouvidos, pele, também nariz e boca, recebemos diversos materiais de construção. Caminhamos em direcção a eles, procuramo-los com ou sem cuidado. Esses materiais podem ser ordenados por peso, volume, massa e mil vezes etc. São mais ou menos como a madeira, mais ou menos como o ferro, mais ou menos como a água, mais ou menos como o monóxido de carbono. Ao serem apreendidos pela máquina, esses materiais são sujeitos a um processamento de duração variável. A absorção desses materiais tem consequências no próprio mecanismo da máquina. Há resíduos que permanecem nas paredes das válvulas mesmo depois de anos, mesmo depois de lavagens repetidas com toda a espécie de detergentes. Por esse motivo, é imprescindível que se dedique especial atenção a esses materiais, que se faça uma triagem aturada e criteriosa dos mesmos, com base em todo o conhecimento que o nosso tempo acumulou à conta da experimentação. Esse é um sinal do respeito que devemos aos milhões de cobaias caídas no âmbito do desenvolvimento civilizacional que conseguimos atingir.

 

A exposição a materiais de características determinadas condiciona a capacidade de processamento. Depois de se habituar à circulação de, por exemplo, rochas graníticas, a tubagem terá dificuldade de lidar com materiais de outra natureza, algodão por exemplo, esferovite por exemplo, e irá avaliá-los pelos critérios com que aprendeu a avaliar rochas graníticas. A tubagem será levada a acreditar que, lá no fundo, tanto o algodão como o esferovite são rochas graníticas. São os resíduos de rochas graníticas nas válvulas que impõem esse raciocínio.

 

A produção da máquina depende, necessariamente, do seu funcionamento. Aquilo que produz, através das diferentes possibilidades de produção que apresenta, será condicionado de forma directa, objectiva e subjectiva, por esse metabolismo. A qualidade do combustível determina as características da acção a realizar, não apenas ao nível da velocidade. Assim, objectos que poderiam ser redondos, nascem cheios de arestas. Picam aqueles que tentam segurá-los na palma da mão. E o contrário também e outro contrário diferente também.

 

Resumindo, o material escolhido influi no desempenho interior da máquina e, por consequência, nos resultados apresentados. Concretizando, estou a dizer-te: toma decisões, faz escolhas. Os teus olhos pertencem-te. Os teus ouvidos pertencem-te. A tua pele pertence-te. A tua boca e o teu nariz pertencem-te. Por falar na tua boca, muito daquilo que recebes será devolvido ao mundo através daquilo que fores capaz de exprimir. Depois do pensamento, as palavras. Aquilo que souberes será aquilo que dirás. Ao fazê-lo, irás difundi-lo, espalhá-lo, alargá-lo. Algumas princípios  de electrotecnia: se receberes negativo, acumularás negativo nas baterias, ficarás carregado de negativo e, no momento de acenderes uma lâmpada, terás apenas negativo, dessa forma a lâmpada irradiará luz negativa que tocará com negativo aqueles que estiverem expostos à sua luminosidade. Por sua vez, esses acumularão negativo nas suas próprias baterias e, no momento de acenderem uma lâmpada, será esse negativo que terão para dar. E assim sucessivamente até ao fim dos tempos. Ou seja, tens a oportunidade de contribuir para algo que se propagará até ao fim dos tempos. Inevitavelmente, em algum momento, ser-te-ão requeridos conhecimentos de física quântica e será uma pena se, só nessa altura, te aperceberes do tempo e da paciência que gastaste a jogar Sudoku.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Jornal de Letras (Novembro 2010)


 


Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:06


3 comentários

Sem imagem de perfil

De Sara a 24.11.2010 às 00:13

morder a vida com o sorriso para dentro da boca.

obrigada uma vez mais pelos livros. e pelos textos, crónicas, memórias.
quando leio o que escreve, imagino-o inevitavelmente muito velho...é para mim quase constrangedor o peso e o corpo que cada palavra ocupa nos seus textos.
alimenta a máquina que sou...transbordando por vezes, de tanto ser entranhada de sensações, ideias, sentimentos.
muito obrigada pelo empenho no seu oficio feliz
Sem imagem de perfil

De Vânia Ribeiro a 26.11.2010 às 02:51

"Aqui, meu caro, viu o passarinho verdadeiro, que voa de verdade, e perdeu o sentido e o valor das asas a fingir e do voo mecânico." (Pirandello. um, ninguém e cem mil".
Pirandello e Zé Luis, passando por Vânia.
O momento. Este que passou. Ser nele tudo e nada, é claro! Só quando a morte se impregna na vida é que tentamos viver o absurdo e meter nele toda a pele.

Em ti sinto todos os poros. Que bom que esta máquina está calibrada para te ler.
Sem imagem de perfil

De José movilha a 01.12.2010 às 20:04

No tempo em que não havia Tetrise Sodoku, o tam-tam esbraseado da máquina da debulha entretinha os fornalheiros. Os moios vinham ufanos das amoreias grandes e despejavam-se cativos de se elevarem ao despir, as gorpelhas cirandavam apertadas de chamada às segundas palhas e o grão anichava-se grado como comida de anjos. Os campos ficavam zambarinos das tosses da locomóvel que ficava para ali a chiar como ofídio de restolho destapado, pondo-se a pedir óleos descaradamente. Era o tempo das " noções elementares de mecânica". O Mestre Marinela destapava a corna das negrinhas, afastava-lhe os oregãos como quem molha os dedos na água-benta; distribuía tudo como padre bem comportado, regalando-se a malta com aqueles rebuçados do olival furtados aos tordos. O Chico tinha a mania de as comer quando o mestre Salas se fazia rufia nos títeres dos Bonecos de Santo Aleixo: uma vez cuspiu um caroço na careca do Ismael da courela grande. E vai o homem a atrapalhar o rapazinho, e a caixa a voar com duas morcelas afinadas pela carne de Janeiro. Já nem o Chancas medrou de se fazer fino, e os versos para a Clementina dos Casarões quase que ficaram esquecidos. Era assim no tempo do chinquilho e do chito, os tentos a medrarem e a gastarem a careta do senhor rei D. Luís, a cada escorregar na tábua aparadora. «Ó mestre dê-me aqui umas lições desta mecânica do aventar, senão chego à Feira de Julho e faço má figura na tasca do Zé da Glória. Era assim o tempo em que não havia Tetris e Sodoku.

Comentar artigo




Instagram


papéis jlp
Arquivo de recortes sobre José Luís Peixoto e a sua obra.

projecto moldura

galveias no mundo






install tracking codes
Visitors since may 2015

Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



page contents