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Os errados

16.09.10

Não temas os erros. Os erros não existem.

Miles Davis

 

Perante a encomenda de uma certeza registada de garantias, apresenta uma bicicleta brilhante, nova, a pedalar incansável através do Verão. Depois, exibe um fósforo aceso, a que chamarás Prova A, como nos filmes. Depois, farelos. Abandona a imoralidade de ser infalível e dá tamanho ao mundo inteiro, galáxias desgovernadas incluídas, lembranças e segredos incluídos. Saberás então que há poucas belezas mais extensas do que o despropósito de uma ideia: a liberdade de estar rotundamente errado.

 

Olha aqui uma cadeira pequenina, senta-te. Farás tanto bem nessa escolha. Por momentos, poderás desfrutar da reprovação das cabeças e da paz macia de repousares sozinho no desconhecido. Contempla o desconhecido imenso, é maior do que uma barragem. Se os teus olhos não estiverem apontados para ele, não há artifício que te comunique o que esconde. Poderás atirar abundância em qualquer direcção porque, se não tiveres medo de acertar em ti próprio, serás invisível e talvez acertes em algum terreno que necessite de abundância.

 

Começa hoje a estar errado, começa agora. No armário, tens as gravatas e os fatos necessários para participar na reunião da direcção. Quando o presidente der início à ordem de trabalhos, oferece-lhe algodão doce. Se fores promovido, aceita. Se receberes um silêncio incrédulo e incómodo, sorri. Garante que fica registado em acta. Estas são as regras básicas do comportamento em reuniões: erra e aceita/sorri. Outro exemplo: vai à reunião de condomínios e não te queixes do elevador. Basta isso, não te queixes do elevador. Se te convidarem para tomar chá, aceita. Se te estranharem, sorri. Uma vez mais, garante que fica registado em acta.

 

Não queiras existir sem erros. As vestes de imperador conservam um homem assustado. Repara na angústia amargosa com que tenta manter fronteiras e castelos de areia contra as ondas do oceano. Não queiras fronteiras. Quer antes a distância, os teus braços a afastarem-se sem horizonte, as tuas palavras a desfazerem-se no ar. A imperfeição é muito mais bonita do que a perfeição porque a perfeição não existe. Ou, se existe, está ao lado do erro, faz parte dele. Se ainda estivéssemos nos princípios da espécie, poderíamos talvez acreditar em vidas certas e inteiras, mas acumulamos história, somamos milhares de anos, séculos a perder de vista, e tu tens o dia de hoje, tens este pedacinho de horas, esta coisa. Tens tanto.

 

Engana-te de propósito a fazer as contas. Falha o golo em frente à baliza. Despenteia-te. Escreve "sapo" com cê de cedilha: çapo. E também "sopa": çopa. Inventa combinações de números quando o multibanco te pedir o código. Contraria o GPS. Põe sal no café. Telefona à tua mãe e diz que querias ligar para as finanças. Despede-te quando chegares e diz olá quando partires. Senta-te no chão. Veste a camisola ao contrário. E, por favor, calça o sapato do pé esquerdo no pé direito e calça o sapato do pé direito no pé esquerdo. Verás que não é assim tão desconfortável, que o calçado ortopédico é um exagero e que há muito mais do que aquilo que esperas naquilo que não esperas.

 

Perante a encomenda de uma certeza registada de garantias, apresenta a inconsciência mil vezes. Depois, há milésima primeira vez, quando esperarem que lhes apresentes uma canção ou um lápis, apresenta-lhes mesmo uma certeza registada de garantias porque tu sabes que só estarás errado se concordares com eles quando te acusam de erro, porque tu sabes e sais da tua comfort zone, assim mesmo, em inglês imperialista, para dares a tua pele à vida, às cicatrizes e às cócegas feitas com penas de pavão. Não tentas preservar o que tens porque sabes que não tens nada e podes sempre ter mais nada ainda. Quando deixas de fazer sentido, é porque foste capaz de encontrar um novo sentido e há muito boas possibilidades que esse sentido esteja enfeitado por canteiros de plantas necessariamente selvagens, onde a seiva corre desgovernada, feita de sol liquefeito, claridade liquefeita, incandescência tão limpa que cega.

 

José Luís Peixoto, in revista Visão (Agosto, 2010)

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publicado às 16:33




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