Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



19 julho, 19h00 - Apresentação de 'A Criança em Ruínas', na Livraria Blooks, Praia de Botafogo 316, 22250-040 Rio de Janeiro

 

A Criança em Ruínas Rio.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:23

17 julho, 19h00 - Apresentação de 'A Criança em Ruínas', na Livraria da Vila (Lorena), Alameda Lorena, 1731, 01414-003 São Paulo

 

A Criança em Ruínas SP.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:39

 

 

O algodão da roupa engrossou, o sol deixou-o mais rijo. Raspa no sal que ainda trazemos colado à pele e, mesmo assim, não é demasiado áspero. É algodão a ganhar um ruço de estio, deste tempo, próprio destas horas luminosas, incandescentes. Levamos ainda a cor do mar, o vítreo, os pontos de sol no relevo das ondas, levamos a Serra da Arrábida nas costas, todo o seu tamanho, como se possuíssemos uma sombra enorme. Temos grãos de areia presos aos tornozelos, são uma segunda pele, perdemo-la aos poucos.

 

O meu pai estacionou a carrinha junto ao Estádio do Bonfim. Reconheço as suas paredes verdes e brancas de relatos na telefonia do barbeiro.

 

A minha irmã e a minha mãe andam com segredos. Por isso, caminho ao lado do meu pai, à sua velocidade. Ele não se importa com esses sussurros, não sente curiosidade. Sou capaz de imitá-lo. Avançamos solenes pelas ruas de Setúbal, levamos o Portinho da Arrábida na pele, nos olhos, na respiração.

 

O meu pai sabe o caminho. Não me admiro. Conto com as suas certezas em todos os momentos. Cruzamo-nos com pessoas que não vão de chinelos ou de sandálias, não vão de calções, não usam fato de banho por baixo das camisolas, e chegamos ao restaurante.

 

A toalha de papel é lisa na ponta dos dedos e na palma da mão. Os talheres estão certos pelos pratos. Como se lesse uma epopeia, o meu pai lê as longas páginas plastificadas da ementa. A minha irmã e a minha mãe aproveitam para dizer alguma coisa urgente com os olhos. Não as entendo, avalio a qualidade da loiça, viro o prato à minha frente.

 

O restaurante está cheio de vozes misturadas com a televisão: janela de cores demasiado garridas. O empregado desliza entre as mesas, há uma espécie de pânico na sua pressa, parece prever uma catástrofe, a sua pressa é a única forma de evitá-la. No espaço apertado daquela sala, contorna olhares que, às vezes, conseguem agarrá-lo por instantes, contorna vozes e gargalhadas da mesa sete, repete os pratos do dia, repete a lista de sobremesas, enfia a cabeça no buraco da cozinha e grita lá para dentro.

 

Já escolheu? O meu pai pede o que já tínhamos decidido no carro. Saímos da praia com essa ideia. O empregado afasta-se sem precisar de anotar o pedido, não esquece. Deixou um pires de azeitonas e caixinhas de manteiga que, de repente, enchem a mesa. Sem palavras, o meu pai confirma que hoje posso. Parto um pedaço de pão, cheira a pão. Abro a manteiga com a ponta dos dedos, tenho uma faca. Caixinhas de manteiga deste tamanho também são uma brincadeira.

 

Olhamos para as pessoas das outras mesas, identificamos diferenças em relação a nós. A minha mãe e o meu pai conversam. Os segredos terminaram. Eu apenas sou capaz de olhar para a bebida, quero bebê-la, tenho de esperar pela comida.

 

Por fim, o empregado chega triunfante. Com as duas mãos, pousa a terrina no centro da mesa, liberta uma nuvem de vapor. Antes de se retirar, avalia a nossa felicidade.

 

A minha mãe começa a servir caldeirada de peixe em cada um dos nossos pratos. Hei de lembrar-me deste cheiro por muitos anos, hei de tentar recriar este momento muitas vezes. Mas isso será depois, falta muito para chegar esse tempo. Agora, vou comer.

 

José Luís Peixoto, in revista Up (Julho 2017)

 

1212.png

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:42

José Luís Peixoto is the curator of the World Literature Festival of Sal Island (FLMSal), the first literary festival held on Cape Verde.

The 2017 edition of FLMSal took place between 6th and 9th July and was attended by 50 writers, translators and scholars coming from 13 nationalities.

 

José Luís Peixoto é o curador do Festival de Literatura-Mundo do Sal (FLMSal), o primeiro festival literário realizado em Cabo Verde.

A edição do FLMSal de 2017 decorreu de 6 a 9 de Julho na Ilha do Sal e contou com a presença de 50 escritores, tradutores e académicos provenientes de 13 nacionalidades.

 

José Luís Peixoto FLMSal.jpg

The festival in the press (1). 

 

José Luís Peixoto Festival Litratura-Mundo do

The festival in the press (2).

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:12

Presença

12.07.17

 

 

Apenas sei que regressei a casa quando te pego ao colo. Tens muito para dizer-me e, por isso, os nossos olhos não se separam. Podia ficar aqui para sempre, há um mundo completo no interior dos teus olhos. Avanço nele e só encontro pureza. Comparo essa paisagem com os lugares por onde andei e, por momentos, acredito que nunca mais quero sair daqui. Aspiro ao que vejo nos teus olhos, quero essa candura transparente para os meus gestos e para as minhas intenções. Aprendo tanto contigo.

 

Respiramos ao mesmo tempo. Agora, por fim, estamos juntos no mesmo instante, habitamo-lo. Passo as mãos pela tua cabeça, pescoço, costas, as minhas mãos são enormes no tamanho do teu corpo. Quando te habituas a esse ritmo e a esse calor, bocejas longamente. És tu, é a ternura, sorrio.

 

Sinto o conforto do teu peso. Nele, há uma segurança profunda, absoluta.

 

Nunca perguntas porque vou embora, sou eu que coloco a questão a mim próprio. Entre mistérios privados, secretos, há um lugar onde permanece essa interrogação sem resposta, exala uma espécie de força magnética, invisível e, no entanto, capaz de exercer força, mover objetos. Tento fixá-la como faço com os teus olhos, mas parece-me que lhe falta a tua clareza, que me falta a tua sinceridade.

 

Às vezes, sem saber o que quero, tenho a certeza de como posso alcançá-lo. Então, os movimentos são mais rápidos do que o pensamento, há uma vontade maior do que a minha a dirigir a minha vontade. Há uma voz distante que me chama, fico cego.

 

Agora, abraço-te. Em ti, protejo-me do mundo e de mim próprio. Esperaste-me atrás da porta, não deixaste que este tempo perturbasse o nosso apego. Levei-te comigo em todos os momentos, foste ao lado do meu nome, do meu silêncio, do pouco que realmente possuo.

 

Estás ao meu colo, respiras e, ao mesmo tempo, sou eu que estou ao teu colo, respiro. Há um entendimento que nunca perderemos, é maior do que as nossas vidas, é maior do que aquilo que somos capazes de ser. Eu sou um homem de 42 anos, tu és uma cadelinha de 11 anos, mas não é isso que importa.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (julho 2017)

 

IMG_6594.JPG

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:42

26 junho, 19h00 - Apresentação da edição em alemão de "Cemitério de Pianos", no Instituto Cervantes em Viena, Schwarzenbergpl. 2, 1010 Wien

 

PEIXOTO_Friedhof_der_Klaviere.jpg

JLP em Viena.jpg

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:48

No âmbito do lançamento das edições gregas dos romances Galveias (ΓΚΑΛΒΕΪΑΣ) e Livro (ΒΙΒΛΙΟ), José Luís Peixoto estará presente nas seguintes actividades:

 

15 junho, 12h00 - Books Plus/Art & Coffee, 37 Panepistimiou, Athens

 

15 junho, 20h30 - Lançamento dos romances "Galveias" e "Livro", Stoa tou Bibliou (Στοά του Βιβλίου), Pesmazoglou 5, Athens 

 

16 junho, 20h30 - Polis Art Café, Pesmazoglou 5, Athens

 

 

peixoto_galveias.jpg.thumb_203x299_255e9cd1faf623a

peixoto_biblio.jpg.thumb_203x294_255e9cd1faf623aac

 

PEISOTO_15_6_640_250.jpg.thumb_640x250_255e9cd1faf

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:57

Estar de bem

13.06.17

         Temos mesmo de odiar aqueles com quem não concordamos?

       Os seus gestos e palavras incomodam-nos. Às vezes, é a sua própria presença que nos incomoda. Aparecem na televisão e mudamos de canal. Se insistirem nos comentários, bloqueamo-los no facebook. Pergunto: se tivéssemos todo o poder, se não fôssemos julgados por ninguém, se bastasse estalar os dedos para que se cumprisse a nossa vontade, o que lhes faríamos?

       A resposta a esta pergunta diz mais sobre nós do que sobre eles. É fundamental possuirmos uma ideia acerca de como gostaríamos que o mundo fosse, uma direção; mas, parece-me, também importa que, nesse ideal, encontremos um espaço para os que discordam dele. Uma utopia em que todos acreditem no mesmo é fácil de construir.

       Nós existimos com os outros e, muitas vezes, por causa dos outros. A existência dos outros reflete a nossa, alarga-a e, claro, o mesmo acontece na direção oposta. Nós e os outros somos uma espécie de espelho. Mas há uma diferença fundamental: a nossa sensibilidade é-nos intrínseca, reconhecermos a sensibilidade dos outros requer um esforço intelectual de empatia.

       Criticar os outros, agindo da mesma maneira, é incoerente, não faz sentido, a não ser que estejamos convencidos de que o nosso principal valor é sermos nós.

       Pode acontecer que não estejamos a considerar os outros em todas as suas dimensões. Se aceitamos que são seres humanos, temos de reconhecer-lhes humanidade. Há aquilo em que não estamos de acordo e que pode magoar-nos se for importante, se for violento, mas é muito provável que exista uma enorme quantidade de assuntos em que pensamos exatamente a mesma coisa. Estar disponível para essa procura é querer saber mais, não ter medo de saber mais.

       Eles discordam de nós, eles decidiram dedicar a sua vida a combater aquilo que achamos certo. Esse ponto de vista custa-nos porque, afinal, nós prezamos a opinião deles. Eles têm importância para nós. Admiti-lo não é um sinal da nossa fraqueza, é um sinal da nossa força.

       Temos mesmo de odiar aqueles com quem não concordamos?

       Claro que não, apenas temos de odiar o ódio.

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (11 de junho de 2017)

 

nmag.png

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:56

"Agora muda tudo" - Concerto  de Aniversário da Temporada Darcos para a voz de Maria João, com música de Nuno Côrte Real e letras de José Luís Peixoto

2 junho - Torres Vedras (Teatro-Cine)

3 junho - Porto (Serralves)

4 junho - Lisboa (CCB)

DARCOS 2.jpg

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:28

No âmbito do lançamento das edições croatas dos romances Galveias e Livro (Knjiga), José Luís Peixoto estará presente em atividades no Studentski centar da Universidade de Zagreb no dia 29 de maio, às 19h, e no dia 30 de maio, às 20h30.

Galveias-naslovnica.jpg

knjiga.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:45



Instagram


papéis jlp
Arquivo de recortes sobre José Luís Peixoto e a sua obra.

projecto moldura

galveias no mundo





install tracking codes
Visitors since may 2015

Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



page contents