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Saudade

15.08.17

 

Em momentos como agora, lembro-me de ti com muita força, com detalhes. Saber que existes neste mesmo instante, lá longe, inunda-me.

 

Sinto a tua falta. Sei que se começasse agora a enumerar as tuas qualidades, haveria de me perder em alguma, enlevado, antes de conseguir dizê-las todas. Ou talvez não seja possível esgotá-las. Foi precisa esta distância para reconhecer aquilo que, aqui, me parece tão evidente.

 

No entanto, há horas em que não estou a pensar em ti. Nesse tempo, ocupo-me de assuntos que estão à distância do braço, basta levantar o nariz para olhá-los de frente. Ainda assim, mesmo então, sei que este é um mundo em que existes. Por baixo de tudo, quase sempre sem palavras, há essa certeza. Seria insuportável um mundo em que não existisses.

 

Os lugares onde fui criança, onde cresci, ou mais tarde, onde a minha vida se decidiu, existem agora, lá longe, indiferentes talvez aos pensamentos que aqui desenvolvo sobre eles. Ao imaginá-los, com a devida diferença horária, deambulo por eles sem corpo, sou apenas olhos, alma, ignorado pelas paredes, pelas ruas, que prosseguem a sua existência sem mim.

 

Portugal, eu sei que uma parte da falta que sinto de ti é falta de mim próprio. Às vezes, misturo-me contigo na minha cabeça. Como um enorme espaço vazio, como um fantasma invisível, a ausência daquele que fui passeia-se em ti, Portugal. Como um eco que só eu sou capaz de ouvir, as tais paredes e as tais ruas ainda guardam a imagem daquele que fui, das ilusões que tinha, todas essas idades irrecuperáveis. Velhos que conheci novos passam a coxear por esses lugares e não me distinguem nas suas lembranças, crianças que não tinham nascido passam a correr por esses lugares e não me distinguem na sua imaginação.

 

Mas também sei, Portugal, que uma parte enorme da falta que sinto de ti é falta desse teu corpo subjetivo, desse teu ar, do teu porte, da tua presença física. Às vezes, nos lugares por onde passo, quando me lembro de ti como agora, quando me enches os olhos, parece que te vejo em toda a parte. Os sentidos enganam-me. Começa a parecer-me, por exemplo, que as pessoas lá ao fundo estão a falar em português. À distância de lhes distinguir o entusiasmo vago, mas sem lhe identificar a estrutura, sem divisão silábica rigorosa, parece-me que estão a falar em português, aproximo-me esperançado e, de repente, percebo que não e, por instantes, tudo em mim é injustificado: a minha postura, a minha posição, o meu posto. Foi precisa esta distância para reconhecer o privilégio, tão evidente, de estar rodeado de pessoas a falarem a mesma língua que eu.

 

Mas haveria muito mais, Portugal. És família profunda, és terra. És toda a história e todo o futuro, não exagero, és caminho. Como disse, não vou aqui enumerar tudo o que te distingue aos meus olhos. Sinto a tua falta, mas não chego a lugares onde não estejas. Levo-te comigo, Portugal. Estás agarrado à minha pele, à minha voz, a tudo o que sou capaz de pensar, sentir e ser. É através de ti, Portugal, que entendo o mundo inteiro.

 

José Luís Peixoto, in revista UP (Março, 2015)

 

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publicado às 10:27

 

 

As nossas vozes misturavam-se com o rumor da água a correr, água atravessada por raios bem desenhados de claridade, som muito puro, quase silêncio, que restolhava em todas as pedras polidas ao longo do seu caminho. As sombras mais suaves das árvores eram levadas por essa corrente branda e também elas se misturavam com o tamanho daquelas tardes de verão. Eram tardes que, parecia-nos, jamais encontrariam o seu fim.

 

Tínhamos chegado ali de bicicleta. Primeiro, a pedalarmos pelas ruas pavimentadas da nossa aldeia e, depois, por estradas que só nós conhecíamos, torrões de terra a desfazerem-se sob os pneus. De um lado e de outro, estendiam-se paisagens cobertas por mantos de cigarras que, àquela hora, eram incandescentes, incendiadas pelo sol. Por fim, à beira da ribeira, enquanto despíamos a camisola, era esse calor e essa sede que levávamos na pele.

 

Entrávamos devagar na água, dissolvíamo-nos nela. Assentávamos os pés sobre seixos arredondados por muitos verões, por muitas férias grandes, por camadas de limos, como veludo. Em níveis, passo a passo, saciávamos o corpo: até aos joelhos, até à cintura, até aos ombros e mergulhávamos a cabeça. A água era leve, os nossos braços atravessavam essa matéria fina e translúcida, os nossos movimentos abrandavam apenas o suficiente para serem justos. Se nos deixávamos cair para trás, deitados na água, a flutuarmos como folhas de árvores inclinadas sobre a ribeira, tínhamos o céu inteiro diante de nós: uma cor única e absoluta, uma certeza tranquilizante.

 

Então, tínhamos a idade de nos deslumbrar com as coisas mais singelas. Se a nossa vida fosse um rio, estávamos muito mais perto da nascente, não éramos ainda capazes de imaginar a foz e, talvez por isso, acordávamos em manhãs inundadas por um presente luminoso, tempo de possibilidades infinitas. Sabíamos que tudo podia acontecer e, com pouco esforço, qualquer coisa ínfima, uma pedrinha atirada às águas da ribeira, podia transformar-se em qualquer coisa grandiosa, todos os nossos sonhos realizados. Essa era a força da nossa imaginação.

 

Era assim e, no entanto, hoje, com tudo o que mudou, continua a ser exatamente assim. Chegamos com os nossos filhos, são pouco mais novos do que nós naquele tempo. Olhamos para eles e conseguimos encontrar-lhes muitas diferenças, o cuidado com que pousam os pés descalços sobre a terra e, depois, sobre os seixos que ainda cobrem a entrada da ribeira, mas há um brilho na pele, uma ilusão no olhar que é a mesma. Os nossos filhos, passados todos estes anos, levam no olhar uma ilusão igual à que levávamos, pouco mais velhos do que eles. Talvez essa ilusão, ou esse brilho, seja um reflexo das águas desta ribeira, talvez a luz do verão se reflita assim nestas águas límpidas. Nesse caso, pode ser que também nós ainda levemos esse brilho, ou essa ilusão, no olhar. Talvez o tempo não tenha passado, o ínfimo pode ainda transformar-se em grandioso, os nossos sonhos estão lá ao fundo, vão realizar-se todos antes de terminar esta tarde imensa de verão.

 

José Luís Peixoto, in revista Up (Agosto 2016)

 

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publicado às 19:51

The World Literature Festival of Sal Island (FLMSal) is the first literary festival held on Cape Verde.

The 2017 edition of FLMSal took place between 6th and 9th July and was attended by 50 writers, translators and scholars coming from 13 nationalities.

José Luís Peixoto is the curator of the festival.

 

O Festival de Literatura-Mundo do Sal (FLMSal) é o primeiro festival literário realizado em Cabo Verde.

A edição do FLMSal de 2017 decorreu de 6 a 9 de Julho na Ilha do Sal e contou com a presença de 50 escritores, tradutores e académicos provenientes de 13 nacionalidades.

José Luís Peixoto é o curador do festival.

 

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publicado às 17:06

 27 julho, 16h30 - Uma viagem até ao Alentejo de Peixoto e de Saramago; Casa Amado e Saramago

 

28 julho, 15h00 – Em Teu Ventre; Casa Amado e Saramago

 

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publicado às 11:42

22 julho, 16h00 - Apresentação de 'A Criança em Ruínas' e do pequeno livro de crónicas 'O Que Dizem os Abraços', uma edição limitada de 70 exemplares.

24 de julho, 19h - Conversa com Guilherme Gontijo Flores.

 

Livraria Arte Letra, Alameda D.Pedro II, 44, 804200600 Curitiba

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publicado às 13:06

19 julho, 19h00 - Apresentação de 'A Criança em Ruínas', na Livraria Blooks, Praia de Botafogo 316, 22250-040 Rio de Janeiro

 

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publicado às 11:23

17 julho, 19h00 - Apresentação de 'A Criança em Ruínas', na Livraria da Vila (Lorena), Alameda Lorena, 1731, 01414-003 São Paulo

 

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publicado às 12:39

 

 

O algodão da roupa engrossou, o sol deixou-o mais rijo. Raspa no sal que ainda trazemos colado à pele e, mesmo assim, não é demasiado áspero. É algodão a ganhar um ruço de estio, deste tempo, próprio destas horas luminosas, incandescentes. Levamos ainda a cor do mar, o vítreo, os pontos de sol no relevo das ondas, levamos a Serra da Arrábida nas costas, todo o seu tamanho, como se possuíssemos uma sombra enorme. Temos grãos de areia presos aos tornozelos, são uma segunda pele, perdemo-la aos poucos.

 

O meu pai estacionou a carrinha junto ao Estádio do Bonfim. Reconheço as suas paredes verdes e brancas de relatos na telefonia do barbeiro.

 

A minha irmã e a minha mãe andam com segredos. Por isso, caminho ao lado do meu pai, à sua velocidade. Ele não se importa com esses sussurros, não sente curiosidade. Sou capaz de imitá-lo. Avançamos solenes pelas ruas de Setúbal, levamos o Portinho da Arrábida na pele, nos olhos, na respiração.

 

O meu pai sabe o caminho. Não me admiro. Conto com as suas certezas em todos os momentos. Cruzamo-nos com pessoas que não vão de chinelos ou de sandálias, não vão de calções, não usam fato de banho por baixo das camisolas, e chegamos ao restaurante.

 

A toalha de papel é lisa na ponta dos dedos e na palma da mão. Os talheres estão certos pelos pratos. Como se lesse uma epopeia, o meu pai lê as longas páginas plastificadas da ementa. A minha irmã e a minha mãe aproveitam para dizer alguma coisa urgente com os olhos. Não as entendo, avalio a qualidade da loiça, viro o prato à minha frente.

 

O restaurante está cheio de vozes misturadas com a televisão: janela de cores demasiado garridas. O empregado desliza entre as mesas, há uma espécie de pânico na sua pressa, parece prever uma catástrofe, a sua pressa é a única forma de evitá-la. No espaço apertado daquela sala, contorna olhares que, às vezes, conseguem agarrá-lo por instantes, contorna vozes e gargalhadas da mesa sete, repete os pratos do dia, repete a lista de sobremesas, enfia a cabeça no buraco da cozinha e grita lá para dentro.

 

Já escolheu? O meu pai pede o que já tínhamos decidido no carro. Saímos da praia com essa ideia. O empregado afasta-se sem precisar de anotar o pedido, não esquece. Deixou um pires de azeitonas e caixinhas de manteiga que, de repente, enchem a mesa. Sem palavras, o meu pai confirma que hoje posso. Parto um pedaço de pão, cheira a pão. Abro a manteiga com a ponta dos dedos, tenho uma faca. Caixinhas de manteiga deste tamanho também são uma brincadeira.

 

Olhamos para as pessoas das outras mesas, identificamos diferenças em relação a nós. A minha mãe e o meu pai conversam. Os segredos terminaram. Eu apenas sou capaz de olhar para a bebida, quero bebê-la, tenho de esperar pela comida.

 

Por fim, o empregado chega triunfante. Com as duas mãos, pousa a terrina no centro da mesa, liberta uma nuvem de vapor. Antes de se retirar, avalia a nossa felicidade.

 

A minha mãe começa a servir caldeirada de peixe em cada um dos nossos pratos. Hei de lembrar-me deste cheiro por muitos anos, hei de tentar recriar este momento muitas vezes. Mas isso será depois, falta muito para chegar esse tempo. Agora, vou comer.

 

José Luís Peixoto, in revista Up (Julho 2017)

 

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publicado às 11:42

José Luís Peixoto is the curator of the World Literature Festival of Sal Island (FLMSal), the first literary festival held on Cape Verde.

The 2017 edition of FLMSal took place between 6th and 9th July and was attended by 50 writers, translators and scholars coming from 13 nationalities.

 

José Luís Peixoto é o curador do Festival de Literatura-Mundo do Sal (FLMSal), o primeiro festival literário realizado em Cabo Verde.

A edição do FLMSal de 2017 decorreu de 6 a 9 de Julho na Ilha do Sal e contou com a presença de 50 escritores, tradutores e académicos provenientes de 13 nacionalidades.

 

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The festival in the press (1). 

 

José Luís Peixoto Festival Litratura-Mundo do

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publicado às 11:12

Presença

12.07.17

 

 

Apenas sei que regressei a casa quando te pego ao colo. Tens muito para dizer-me e, por isso, os nossos olhos não se separam. Podia ficar aqui para sempre, há um mundo completo no interior dos teus olhos. Avanço nele e só encontro pureza. Comparo essa paisagem com os lugares por onde andei e, por momentos, acredito que nunca mais quero sair daqui. Aspiro ao que vejo nos teus olhos, quero essa candura transparente para os meus gestos e para as minhas intenções. Aprendo tanto contigo.

 

Respiramos ao mesmo tempo. Agora, por fim, estamos juntos no mesmo instante, habitamo-lo. Passo as mãos pela tua cabeça, pescoço, costas, as minhas mãos são enormes no tamanho do teu corpo. Quando te habituas a esse ritmo e a esse calor, bocejas longamente. És tu, é a ternura, sorrio.

 

Sinto o conforto do teu peso. Nele, há uma segurança profunda, absoluta.

 

Nunca perguntas porque vou embora, sou eu que coloco a questão a mim próprio. Entre mistérios privados, secretos, há um lugar onde permanece essa interrogação sem resposta, exala uma espécie de força magnética, invisível e, no entanto, capaz de exercer força, mover objetos. Tento fixá-la como faço com os teus olhos, mas parece-me que lhe falta a tua clareza, que me falta a tua sinceridade.

 

Às vezes, sem saber o que quero, tenho a certeza de como posso alcançá-lo. Então, os movimentos são mais rápidos do que o pensamento, há uma vontade maior do que a minha a dirigir a minha vontade. Há uma voz distante que me chama, fico cego.

 

Agora, abraço-te. Em ti, protejo-me do mundo e de mim próprio. Esperaste-me atrás da porta, não deixaste que este tempo perturbasse o nosso apego. Levei-te comigo em todos os momentos, foste ao lado do meu nome, do meu silêncio, do pouco que realmente possuo.

 

Estás ao meu colo, respiras e, ao mesmo tempo, sou eu que estou ao teu colo, respiro. Há um entendimento que nunca perderemos, é maior do que as nossas vidas, é maior do que aquilo que somos capazes de ser. Eu sou um homem de 42 anos, tu és uma cadelinha de 11 anos, mas não é isso que importa.

 

 

 

José Luís Peixoto, in Notícias Magazine (julho 2017)

 

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publicado às 11:42



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