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Escolhe uma entre as mil árvores entrançadas

que se penduram em escarpas de ilhéus

sobre as águas planas da Baía de Phang Nga.

 

Enquanto passas no teu barco de madeira,

envia-lhe em silêncio todo o bem-querer.

Ela entenderá, essa é a língua das árvores.

 

Deseja-lhe com sinceridade que seja feliz,

que apenas conheça a vida leve e justa,

que os pensamentos não a atormentem.

 

Assim, quando estiveres longe, esta árvore

ainda se lembrará de ti. Será manhã sobre

este mar que te impressionou, será noite

 

talvez onde estiveres. Se o peso da angústia

não te cegar, se não te afogares no peso

da angústia, talvez te lembres dela também.

 

O mais certo é que nunca se voltem a ver.

Mesmo que regresses a esta baía, ela será

indistinta entre mil árvores entrançadas,

 

e tu serás indistinto entre mil que passam

em barcos de madeira como este, que levantam

a mesma espuma, que deixam o mesmo rasto.

 

Mas, para sempre, no grande tempo absoluto,

na ordem secreta, final e indestrutível, ela será

a tua árvore e tu serás a pessoa dela.

 

 

José Luís Peixoto, inédito

 

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Temas:

 

 

A aldeia inteira estava entregue a uma velha.

Homens, mulheres e crianças saíram cedo

pela estrada de terra e pedras em que cheguei.

 

Supor que apanhava uma tribo nómada em casa,

eis a minha ingenuidade. A velha não desvia o olhar,

essa parece-lhe uma boa maneira de passar a manhã.

 

Meia dúzia de cães anestesiados, demasiado calor,

roupas a secar, já secas, atiradas sobre bambus,

montanhas a rodearem-nos de sons naturais.

 

Na cidade, contaram-me que os membros da tribo Mlabri

mudam de lugar assim que amarelecem as folhas

de bananeira que usam para cobrir os telhados.

 

Achei uma bela história, antropológica, mas a vida

não se compadece. Telhados cobertos por folhas de zinco

demoram bastante mais tempo a amarelecer.

 

As crianças estão na escola. Os homens e as mulheres

estão nas plantações de milho, deixaram casas desertas,

vestígios de fogueiras e pedaços de motorizadas.

 

A velha e eu formamos uma tribo inédita. Olhamos

um para o outro. Às vezes, passa uma brisa muito leve,

arrasta embalagens vazias de rebuçados e pó.

 

 

José Luís Peixoto, inédito

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Temas:

cinco

24.12.19

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na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

 

 

 

poema de José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas

17/12/2019 — 19H00 — VILA NOVA DE GAIA, PORTUGAL — FNAC GAIASHOPPING

18/12/2019 — 21H00 — PORTO, PORTUGAL — PORTO DE ENCONTRO

19/12/2019 — 18H30 — VISEU, PORTUGAL — FNAC VISEU

20/12/2019 — 18H00 — PONTE DE SOR, PORTUGAL — CENTRO DE ARTES E CULTURA

21/12/2019 — 21H30 — CASCAIS, PORTUGAL — FNAC CASCAISHOPPING

22/12/2019 — 16H00 — ALMADA, PORTUGAL — FNAC ALMADA FÓRUM

23/12/2019 — 17H00 — LISBOA, PORTUGAL — FNAC CHIADO

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Até ao momento, estão marcadas as seguintes apresentações do romance Autobiografia:

LEIRIA - 12 NOV - 18h30 - LIVRARIA ARQUIVO

COIMBRA - 13 NOV - 18h - LIVRARIA BERTRAND, ALMA SHOPPING

AVEIRO - 14 NOV - 18h - LIVRARIA BERTRAND

BRAGA - 29 NOV - 21h30 - BIBLIOTECA LÚCIO CRAVEIRO DA SILVA

BEJA - 5 DEZ - 21h30 - BIBLIOTECA JOSÉ SARAMAGO

SETÚBAL - 7 DEZ - 17h - LIVRARIA CULSETE

PORTO - 18 DEZ - PORTO DE ENCONTRO (horário e local a anunciar)

PONTE DE SOR - 20 DEZ - 18h - CENTRO DE ARTES E CULTURA

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Na semana de 4 a 8 de novembro, José Luís Peixoto será o escritor residente na Universidade de Évora. Nesse âmbito, participará em várias aulas de literatura.

Na quarta-feira, dia 6 de novembro, às 16h, numa sessão aberta a todo o público, conversará sobre a sua obra com o poeta, professor, tradutor e crítico António Saez Delgado na Sala dos Docentes da Universidade, no Colégio do Espírito Santo. 

 

 

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José Luís Peixoto é um dos convidados do Festival Internacional de Literatura de Timisoara, na Roménia, a decorrer entre 23 e 26 de Outubro de 2019. 

Estará também em Bucareste, onde apresentará o seu trabalho no Instituto Camões.

TIMISOARA — 24/10, 19h — Conversa com JLP e leitura em romeno de excertos da sua obra (Tradução de Simina Popa) — Muzeul de Artă din Timișoara, Sala Barocă.

BUCARESTE — 28/10, 14h às 16h — Conversa com JLP — Institutul Camões București, Strade Edgar Quinet, nr. 5-7

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José Luís Peixoto s-a născut în 1974, într-un sat din sudul Portugaliei, în regiunea numită Alentejo. Este licențiat în limbi și literaturi germanice al Universidade Nova de Lisboa. Din 2001 s-a dedicat complet scrisului. Este autor de poezie, proză, teatru și critică literară. Scrierile sale au fost recompensate cu numeroase premii, printre care Prémio Literário José Saramago (2001), Prémio Oceanos (2016) și The Best Translation Award-Japan (2019, pentru Galveias). În 2003, într-un proiect fără precedent, Peixoto și-a unit forțele cu membrii formației Moonspell, lansând, în același timp, un album și un mic roman fantastic. Cele două opere poartă același titlu, The Antidote, și pornesc de la același concept, conform căruia activitatea umană este supravegheată și condusă de o mulțime de entități invizibile. Capitolele romanului semnat de José Luís Peixoto poartă aceleași titluri cu piesele de pe albumul celor de la Moonspell.

În prezent, cărțile lui José Luís Peixoto sunt traduse în 26 de limbi, la unele dintre cele mai prestigioase edituri din lume. În România, i-au apărut, în traducerea Clarisei Lima, la Editura Polirom, romanele Nici o privire (2009) și Cimitirul de piane (2010).

„Peixoto este una dintre cele mai mari surprize ale literaturii portugheze din ultimii ani. Nu mă îndoiesc că este promisiunea sigură a unui mare scriitor.” (José Saramago)

„Peixoto are un fel extraordinar de a percepe lumea, transpus în modul original în care își alege limbajul și imaginile.” (Times Literary Supplement)

„Citești și tragi aer în piept, de parcă ai da pe gât o sticlă plină cu viață, dintr-o înghițitură.” (Le Figaro)

As críticas ao romance Autobiografia, de José Luís Peixoto,  estão disponíveis aqui.

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TEXTO E FOTOGRAFIA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

 

O rio Emajõgi passa muito devagar por Tartu. Talvez queira assistir com tempo à vida que se ergue nas margens, as fachadas limpas dos edifícios, cores suaves que recebem a luz desta hora, as torres pontiagudas das igrejas, espetadas no céu. A superfície do rio não se deixa perturbar, é uma superfície uniforme. Aqui, na cidade velha, vejo o parque do outro lado, as árvores nuas deste outono, quase inverno, o rio reflete-as e cria um mundo ao contrário: árvores que crescem para baixo, recortadas sobre um céu branco. É preciso inclinarmo-nos sobre as águas para apreciar esse céu.

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Tartu é a segunda cidade da Estónia, a principal da região sul do país. É considerada a capital universitária. Essa é uma característica que se sente nas ruas. Grupos de rapazes e raparigas enfrentam a tarde com grandes casacos, gorros, cachecóis e luvas. Mesmo assim, às vezes, levantam as vozes para rir-se de alguma coisa. No entanto, quando o fazem, mantém sempre a polidez. Os estónios orgulham-se da sua civilidade.

No nosso canto da Europa, o que sabemos nós sobre este canto? Desde uma ponta do mapa até à outra, precisamos de atravessar todo o continente para chegar aqui. Nessa viagem, sobrevoamos várias culturas fortes, vários idiomas da família do nosso ou não. É fácil pararmos no caminho. É fácil que, em algum momento dessa travessia, não continuemos: fico já aqui.

A Europa é uma enorme barreira entre Portugal e a Estónia. Não se trata apenas de distância. Há países que conhecemos muito melhor e que estão bastante mais longínquos, noutro hemisfério, que aproveitam o verão enquanto suportamos o inverno.

Nas ruas, passo por homens de mão dada com os filhos, crianças pequenas a falarem em estónio. Passo por mulheres com casacos de peles, passo por mais grupos de universitários. O que estarão a dizer? Neste canto da Europa, o que saberão sobre o nosso canto?

As faculdades da universidade ocupam edifícios enormes. Olho para o seu interior através de janelas muito altas. A luz é amarela e, lá dentro, as pessoas estão sem casaco. Dentro das casas, existe outro mundo.

Ontem, aceitei um convite para jantar. Descalcei os sapatos à entrada. Enquanto as crianças brincavam sobre o tapete, a televisão ligada e sem som, coloquei essa pergunta: o que pensam sobre nós? Não sei se entendi completamente as respostas. Às vezes, as palavras têm significados escondidos, têm sombras, principalmente quando não estamos a comunicar na nossa língua.

Em qualquer dos casos, o rio Emajõgi não altera a sua velocidade, desliza, longo corpo. Atrás de mim, uma estátua com músculos de bronze, representa a liberdade, recorda aqueles que caíram na guerra da independência (1918-1920). Esses são valores que também conhecemos no nosso canto da Europa: liberdade e independência.

Os países e as cidades nunca são uma única coisa: Estónia, Tartu. Contemplo este outono, quase inverno e lembro que, ontem, durante o jantar, disseram-me que, nesta época do ano, costuma já ter nevado. Não duvido, este céu parece bem capaz disso. Mas aqui, à minha frente, tenho um barco de madeira com mesas e cadeiras no convés. Está já à espera do verão.

Temas:




papéis jlp
Arquivo de recortes sobre José Luís Peixoto e a sua obra.


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