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Perdemos a capacidade de explicar às gerações mais novas como era antes. Podemos iniciar essa tentativa mas, ao fim de minutos, ou nos confundimos e começamos a divergir, ou eles se desinteressam e começam a escutar música de elevador dentro da cabeça, ou talvez escutem aquele ruído estático de quando os canais de televisão não emitiam programas durante vinte e quatro horas por dia, aquela imagem de grão cinzento que quase esquecemos também.

 

É normal que os mais jovens deixem de nos prestar atenção, é sempre assim quando alguém começa a falar uma língua que não entendemos. Raramente nos sentimos tão sozinhos como num jantar de polacos. Também é normal que nos falte coerência e articulação, fomos soterrados pelo tempo.

 

Parecia controlável, era incontrolável.

 

Hoje, os telemóveis são pequenas extensões do mundo ou, com mais probabilidade, de nós próprios. Há realidades e paisagens que apenas existem na internet, mergulhamos nelas. Com o telemóvel na mão, de repente, deixamos de ser um corpo com vontade e propósito, passamos a ser um objecto que está ali, um obstáculo com volume e textura, mas cuja existência está noutro lugar qualquer. Há muito que deixou de ser notícia a imagem de toda a gente nos transportes públicos a ver o telemóvel, toda a gente na sala de espera a ver o telemóvel.

 

Num esforço da memória, admiramo-nos com o tamanho dos primeiros aparelhos, com o gesto que tínhamos de fazer para puxar a antena quando recebíamos uma chamada, com aquele toque irritante da Nokia. Estas lembranças impressionam-nos, sobrepomo-las a tudo o que sabemos agora. Levamos no telemóvel a internet: a possibilidade de contactar todos com quem já nos cruzámos, um escritório inteiro e distrações para todos os gostos, para todos os likes.

 

Agora, a esta distância, olho com uma certa ternura para aqueles que, nos anos noventa, juravam que nunca iriam ter telemóvel. Insurgiam-se contra a obrigação de estarem sempre contactáveis, achavam (com razão) que perdiam liberdade. Hoje, essa ideia desapareceu. Agora, ninguém quer estar incontactável. Preocupamo-nos de morte quando sabemos que algum amigo nosso está incontactável. Sem pensarmos muito nisso, sem debate, damos por garantido que os telemóveis salvam vidas. Hoje, se alguém garante que ficou sem rede ou sem bateria, pensamos: mentiroso, adúltero.

 

Aqueles que juravam que nunca iam ter telemóvel são como os romanos que permaneceram na Península Ibérica depois da chegada dos árabes, são como os árabes que se deixaram ficar após a chamada "reconquista cristã". Ou, com mais precisão, são como os cristãos-novos, os judeus que, no século XV, foram obrigados a converter-se ao cristianismo.

 

De nada vale dizer-lhes: eu bem te avisei. Com mais certeza, se não tiverem esquecido completamente quem eram, serão eles a dizer-nos essa mesma frase.

 

Ao contrário do que se costuma afirmar, a internet não é para sempre. Em poucos lugares os assuntos envelhecem tão depressa. Ao fim de algumas semanas, já ninguém quer ver a sex-tape da estrela do maior reality show do momento; ao fim de alguns meses, já ninguém sabe quem essa pessoa é.

 

Seguramente que a memória não ficará salvaguardada nas redes sociais. As redes sociais são feitas de presente. Nelas, o passado desaparece da forma mais absoluta de todas: perde significado.

 

Os adolescentes passam as reuniões de família a olhar para o telemóvel. Um dia, estes adolescentes serão pais em reuniões de família. Para onde irão olhar os adolescentes do futuro?

 

 

José Luís Peixoto, in GQ, Maio de 2016

 

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publicado às 12:33

Ouvir aqui:

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publicado às 20:42

 

 

 

Por todos aqueles que se dirigiam à vida, que só esperavam vida

e que, sem saber, caíram desamparados no abismo opaco da morte;

por todos aqueles que acordavam de manhã, que se alimentavam

de ilusão, invencíveis perante a sua teimosia inocente, e que, na

dobra de um instante, desprotegidos da solidão, acordados a meio

de um sonho, caíram desamparados no abismo opaco da morte;

por todos aqueles olhares que refletiam a luz do dia, montras de

segredos, rostos que lembraremos com um sorriso brando e que,

sem motivo, caíram desamparados no abismo opaco da morte;

estas palavras frágeis e inúteis, este tempo breve e insuficiente.

Existiram como nós, foram gente como nós, sentiram como nós.

Por todas as palavras que disseram, pela forma humana como as

pronunciaram, pela memória incandescente da sua voz, pelo seu

tempo de pessoas, estas palavras incapazes, este tempo incapaz

e o caminho x ou y que escolhemos para segui-los.

 

 

José Luís Peixoto, inédito

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publicado às 15:41

José Luís Peixoto terá um encontro com os estudantes de língua e literatura portuguesa em Pequim, na Universidade de Estudos Estrangeiros, no dia 23 de junho, a partir das 15h. 

 

Entre 25 de junho e 1 de julho, José Luís Peixoto participará na semana da poesia de Xichang, na província de Sichuan. 

 

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publicado às 10:01

José Luís Peixoto é o anfitrião do programa de tv "Volta ao Mundo", que pode ser visto na RTP3 aos fins de semana. 

O mês de maio foi dedicado à Extremadura espanhola. Os quatro primeiros episódios podem ser vistos aqui:

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

O mês de junho é dedicado à África do Sul:

Episódio 5

Episódio 6

Episódio 7

Episódio 8

Em Julho visitamos as Seychelles:

Episódio 9

Episódio 10

Episódio 11

 

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publicado às 11:01

José Luís Peixoto presentará su libro "Dentro del Secreto, un viaje por Corea del Norte" en la Féria del Libro de Madrid, en el dia 2 de junio, a las 13 horas, en el Pabellón de Actividades

 

A las 18 horas, firmará ese libro en la caseta nº 201 de la editorial Xordica. 

 

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publicado às 11:00

José Luís Peixoto estará a autografar os seus livros junto ao espaço da editora Quetzal nos seguintes dias:

- Domingo, 29 de maio, a partir das 16h

- Sábado, 4 de junho, a partir das 16h

 

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publicado às 18:15

No dia 20 de maio, às 14h, no Centro de Língua Portuguesa da Wits University, em Joanesburgo (Senate House, 3º andar), José Luís Peixoto falará com estudantes e leitores. 

 

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publicado às 06:46

 

 

No dia 17 de maio, às 18h30, na Biblioteca do CCP do Mindelo.  

 

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publicado às 18:26

 

 

9 MAIO - 20h00 -  Leituras e conversa pública com José Luís Peixoto no espaço Caravela (Carrer de Manso, 13, 08015 Barcelona)

10 MAIO - 19h00 - Leituras e conversa entre José Luís Peixoto, Fernando Pinto do Amaral e Jordi Cerdà na Biblioteca Mercè Rodoreda (Carrer de les Camèlies, 76-80, 08024 Barcelona)

 

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publicado às 08:33



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Arquivo de recortes sobre José Luís Peixoto e a sua obra.

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