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Toda a Vida

19.01.17

Começamos pela infância e, por isso, ficamos com o resto da vida para recordá-la. Dispomos de muito mais tempo para essa evocação do que tivemos para realmente vivê-la.

 

Com os anos, as lembranças podem estender-se, os seus contornos explodem devagar, ou podem encolher, ficam lá longe, no fim do túnel. Em qualquer dos casos, os anos distorcem as lembranças e, agora, custa a aceitar que esses dias duraram o mesmo do que estes. Às vezes, parece que foram muito maiores, cada instante parado, como uma fotografia que podemos analisar durante horas; outras vezes, parece que foram muito mais curtos, tardes a escorrerem como areia entre os dedos de uma mão aberta.

 

Em grande medida, a relação com a infância é a relação com a memória. Há tudo o que esquecemos, como seria útil se ainda tivéssemos essa lucidez, e há tudo o que queremos acreditar à força, bom e mau.  Aos poucos, a infância transforma-se num enigma: para podermos considerá-la, temos de decifrá-la e, no entanto, éramos nós que estávamos lá.

 

No outro extremo da linha, a maior parte da velhice é vivida por antecipação. Sem termos sequer a certeza de que lá chegaremos, perguntamos: como serei quando for velho?

 

A resposta varia de acordo com quem formos nesse momento. Um adolescente, por exemplo, acredita que será um velho com valores de adolescente. A ideia de quem seremos transfigura-se ao longo da vida. Quando chegar o tempo de viver a velhice, essas conjeturas valerão de muito pouco. Então, havemos de pensar e decidir de acordo com a perspectiva e os critérios que tivermos nessa altura.

 

Até atingirmos essa idade, a relação com a velhice é a avaliação que fazemos do futuro. Essa conta será feita de acordo com o que sabemos, com o que não tivermos esquecido.

 

E , ainda assim, todos nos cruzamos nas ruas e nas praças: os filhos dos outros, demasiado barulhentos e levemente irritantes, os velhos que achamos que nunca seremos, os adolescentes isentos de dúvidas e nós, que já não somos crianças ou adolescentes e que, independentemente da idade, nunca seremos mesmo velhos.

 

O país de cada um deles cruza-se com o país dos outros, mesmo quando são antagónicos. Agora, esforçamo-nos por recordar como éramos em crianças e, ao mesmo tempo, há crianças a assistirem a este momento com os olhos semelhantes àqueles com que assistíamos então. Agora, há velhos que tentam lembrar como foi ter a nossa idade e que, talvez, sejam muito parecidos com a pessoas que, estamos convencidos, seremos quando tivermos a idade deles.

 

Quem tem razão? Qual é o país mais certo? As crianças têm a sabedoria da sua inocência, o livre descontrolo dos sonhos. Os velhos têm a memória distorcida do que experimentaram, têm tudo o que conseguiram não esquecer. Os outros, entre crianças e velhos, têm as suas lutas e ilusões.

 

Contemporâneos, simultâneos, somos uma multidão de indivíduos. O país não é apenas o que achamos dele, não temos uma sensibilidade tão apurada. O país somos nós, todos e cada um: tanto é aquele que nasceu ontem e que se impressiona com os detalhes mais naturais, a luz, as cores; como é aquele que tem memórias que mais ninguém tem e que morrerá amanhã, apesar de ainda não o saber.

 

José Luís Peixoto, in UP, Janeiro de 2017.

 

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publicado às 09:19

No âmbito da apresentação de Galveias na Geórgia (publicado por Sulakauri), José Luís Peixoto participará nas seguintes actividades literárias em Tbilisi:

 

16/12

19h00, TSU - Universidade Estatal de Tbilisi: Edifício II, Sala 203, 1 Chavchavadze Avenue, Tbilisi 0179

 

21h00, A poesia de José Luís Peixoto será apresentada no âmbito do projeto Recitative in the City no Movement Theatre: Aghmashenebeli ave 182, Mushtaidi Garden)

 

18/12

15h00, Apresentação da tradução georgiana do romance Galveias na Biblioteca Nacional da Geórgia: Gudiashvili 7

 

18/12

19h00, Leitura de Galveias no Zoestan: 5 Vakhtang Beridze str.

 

Edição georgiana de Galveias:

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Biblioteca Nacional da Geórgia:

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 Recitative in the City:

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publicado às 10:47

(Romance "Livro", de José Luís Peixoto, chegou às livrarias da Croácia.)

 

“Knjiga” je zapravo saga o portugalskoj emigraciji u Francuskoj, ispričana iz perspektive niza nezaboravnih likova, uz jasan stilski potpis autora. Između zaseoka u kontinentalnom zaleđu Portugala i Pariza te između seoskih zabava uz radio i referenci na visoku kulturu, otkrivaju se znakovi prošlosti koja je povela tisuće i tisuće Portugalaca u potragu za boljim životom u stranoj zemlji. Kroz osobnu, gotovo klasičnu ljubavnu priču, autor je uspio prikazati niz osebujnih, gotovo grotesknih likova i niz nezaboravnih situacija, pritom tjerajući čitatelja da se u potpunosti uživi u ovaj stilski odlično izveden roman, u kojemu će podjednako uživati oni koji vole dobru ljubavnu priču, a i oni koji preferiraju mogućnost raznovrsnih interpretacija djela kroz iščitavanje referenci kako na popularnu kulturu, tako i na niz modernističkih i postmodernističkih književnih remek-djela.

 

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“Peixotov spisateljski talent i ljepota ritma njegove proze prava su
rijetkost.”
The Guardian

“Jedan od onih pisaca koji vrlo visoko uzdižu književnost vlastite zemlje.”
Le Figaro

“Peixoto iznenađuje stilističkim umijećem, kojim kao da slijedi primjer
velikoga Joséa Saramaga, ali i hrabrošću kojom stvara, u današnje vrijeme,
pripovjedne strukture dostojne Faulknera, Rulfa i Donosa.”
L’Unità

“Hrabra i očaravajuća Peixotova proza iznimno je lijepa, nevjerojatno
bogata i dojmljiva.”
The Independent

 

José Luís Peixoto (1974., Galveias, Portugal) jedan je od najcjenjenijih portugalskih pisaca mlađe generacije. Nakon što je 2001. dobio Nagradu José Saramago za roman “Nijedan pogled” (VBZ, 2004.), osnovana je nagrada za mlade autore koja nosi njegovo ime. Za roman “Cemitério de Pianos” dobiva Nagradu Cálamo Otra Mirada, za najbolju stranu knjigu objavljenu u Španjolskoj. Preveden je na više od dvadeset jezika, a “Knjiga” je doživjela 9 izdanja u Portugalu od objavljivanja 2010. godine, te stekla autoru glas jednoga od najzanimljivijih i najčitanijih suvremenih portugalskih, a i svjetskih autora. 

 

Izdavač: Edicije Božičević
Godina izdanja: 2016.
Autor: José Luís Peixoto
Prevoditelj: Tatjana Tarbuk
Urednik: Josip Ivanović
Lektura i korektura: Jadranka Varošanec
Dizajn naslovnice: Iva Mandić
Cijena: 149,00 kn
Broj stranica: 256
Format: 13 x 20 cm
ISBN: 978-953-7953-57-7 meki uvez

 

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publicado às 09:33

"É incrível estar numa cidade como São Paulo, que tem 16 milhões de pessoas, a falar de um lugar que tem mil pessoas. Acho importante que nossos países se conheçam por inteiro. Não posso deixar de dedicar esse prêmio a essas mil pessoas que estão em Galveias e existem, com sua dose de resistência, às dificuldades do interior de Portugal."

José Luís Peixoto, in Folha de São Paulo

 

O romance "Galveias", de José Luís Peixoto, foi o vencedor da edição de 2016 do Oceanos - Prémio de Literatura em Língua Portuguesa. 

 

Segundo comunicado do Prémio Oceanos: "Galveias, cujo título é extraído do nome da aldeia natal de Peixoto, na região do Alentejo, é um mergulho no “Portugal profundo” e rural, cuja narrativa alinha personagens emblemáticos desse universo arcaico a partir de um evento (a queda de um meteorito em Galveias), o qual, simbolicamente, confere um sentido cósmico a essa comunidade que se extingue entre rústica violência, desolação, melancolia e choque com a modernidade."

 

Parte da agenda literária e editorial da língua portuguesa desde 2002, o Prémio Oceanos veio substituir o Prémio Portugal Telecom. 

 

Os 10 finalistas foram escolhidos por um júri, a partir de uma lista de 50 obras semifinalistas, provenientes de um grupo de 740 títulos concorrentes, dos diferentes géneros – poesia, romance, conto, crónica e dramaturgia.

 

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publicado às 13:43

Com tradução de Guranda Pachulia, publicado pela editora Sulakauri, o romance "Galveias" chegou às livrarias da Geórgia. Este é o primeiro livro de sempre a ser traduzido diretamente da língua portuguesa para o idioma georgiano. 

 

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 O romance está publicado na coleção "Odisseia Literária", onde figuram autores como: J.M. Coetzee, Arundhati Roy, Arturo Perez-Reverte, Etgar Keret, Herman Hesse, Chuck Palahniuk, Michel Houellebecq,  Johan Borgen, Joseph Kessel, Vladimir Nabokov, Erlend Loe, Knut Hamsun, Paul Auster, William Golding, entre outros.

 

Primeiras linhas do romance "Galveias" em georgiano:

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publicado às 15:21

(A edição grega do romance "Galveias", de José Luís Peixoto, chegou esta semana às livrarias gregas.

A tradução é de Athena Psillia. Foi publicado pela editora Kedros.)

 

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ΓΚΑΛΒΕΪΑΣ

 


Read 1st chapter here

 

Όπως κάθε χωριό, έτσι και το φιλήσυχο Γκαλβέιας κρύβει τις βεντέτες και τις αντιζηλίες του, τα μικρά και τα μεγάλα πάθη του. Κάθε οικογένεια έχει και μια ιστορία. Στην περίπτωση των Ζοζέ και Ζουστίνο, η διαμάχη για μια κληρονομιά οδήγησε τα δυο αδέρφια να κόψουν κάθε επαφή μεταξύ τους για περισσότερο από μισό αιώνα. Άλλοι, πάλι, κάτοικοι διατηρούν μεγάλα μυστικά, όπως η Ιζαμπέλα, η όμορφη Βραζιλιάνα, ιδιοκτήτρια του φούρνου που τα βράδια μετατρέπεται σε πορνείο. Οι ισορροπίες ανάμεσα στους κατοίκους είναι εύθραυστες και η συμβίωση είναι δύσκολη για όλους. Ωστόσο, κανείς δεν είναι προετοιμασμένος για όσα θα συμβούν μετά την πτώση ενός μετεωρίτη και την επίδραση που θα έχει το απρόσμενο φαινόμενο στη ζωή της Ιζαμπέλα, του Ζοζέ και του Ζουστίνο, αλλά και των υπόλοιπων κατοίκων του μυστηριώδους Γκαλβέιας.
Ο πλούτος της γραφής, η αρτιότητα της φόρμας, η ευαίσθητη αλλά και σκληρή ανθρωπιά των πρωταγωνιστών του βιβλίου χαρακτηρίζουν ένα από τα καλύτερα έργα του διακεκριμένου Πορτογάλου συγγραφέα που γεννήθηκε στο Γκαλβέιας και συγκαταλέγεται στους πιο σημαντικούς Ευρωπαίους λογοτέχνες της νεότερης γενιάς.

 

«Ένας από τους πιο χαρισματικούς Πορτογάλους συγγραφείς.»
Le Monde

 

«Ο Πεϊσότο διαθέτει μια εντυπωσιακή ικανότητα αντίληψης των πραγμάτων, όπως αυτή αποκαλύπτεται μέσα από τις πρωτότυπες επιλογές λέξεων και εικόνων.»
The Times Literary Supplement

 

Συγγραφέας: ΠΕΪΣΟΤΟ, ΖΟΖΕ ΛΟΥΙΣ
Έτος έκδοσης: 2016
ISBN: 978-960-04-4737-8
ΣΕΛ.: 304
Σχήμα: 14 Χ 20,6
Τίτλος πρωτοτύπου: Galveias
Γλώσσα πρωτοτύπου: Πορτογαλικά
Μετάφραση: Ψυλλιά, Αθηνά
Βάρος: 328.00 γραμ.
Μαλακό εξώφυλλο

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publicado às 14:48

José Luís Peixoto participará nas seguintes actividades literárias em Bordéus:

 

01/12, 18h, Rencontre à la Librarie Mollat, Salons Albert Mollat: 91 Rue Porte-Dijeaux, 33000 Bordeaux

 

02/12, 9h-12h, Atelier d'écriture a la Université Bordeaux Montaigne, Auditorium Maison des Étudiants: Domaine Universitaire, 19 Esplanade de Antilles, 33607 Pessac

 

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publicado às 23:40

José Luís Peixoto participará em múltiplas actividades literárias em São Paulo, Porto Velho e Rio de Janeiro.

 

São Paulo, 23/11, 19h, Centro Universitário Maria Antónia - Rua Maria Antónia, 294 Vila Buarque 

Porto Velho, 25/11, 8h30, Teatro Banzeiros - 258, Rua José do Patrocínio, 110

Rio de Janeiro, 27/11, 18h30, Pier Mauá - Av. Rodrigues Alves, 20, Armazéns 2 e 3, Centro

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publicado às 10:57

Prefácio de José Luís Peixoto ao livro "Quadro de Honra", livro com mais de 30 entrevistas a bandas históricas de rock alternativo (metal, hardcore, etc) português. 

 

UNDERGROUND FOREVER

por José Luís Peixoto

 

Estamos aqui. Chegará um dia em que tudo o que constitui este instante será passado. Essa é uma verdade simples de que ninguém duvida. Aceitamo-la enquanto teoria que conhecemos desde sempre, certeza que faz parte do essencial. No entanto, quando esse dia chegar mesmo, quando tudo o que constitui este agora, estiver à beira de desaparecer, havemos de admirar-nos com a fugacidade do tempo e da vida.

 

O entendimento que os seres humanos têm do tempo depende da sua perspectiva, do que viveram, do que esperam viver, do que estão a viver. Agora, temos problemas e desafios que nos parecem enormes. Neste momento, são tudo. Daqui a algumas semanas, meses ou anos, quando já conhecermos o desenlace que inevitavelmente terão, havemos de relativizá-los porque, nessa altura, já estaremos frente a outros problemas e a outros desafios, a nossa perspectiva terá mudado.

 

O presente é uma espécie de quarto, estamos nele. Sabemos que a casa tem outras divisões, somos capazes de imaginá-las, mas não é lá que estamos, a sua realidade não é concreta. Escolhi comparar o presente com um quarto porque foi no meu quarto de adolescente que, pela primeira vez, ouvi uma grande parte da música que está referida neste livro.

 

Terminavam os anos oitenta, começavam os anos noventa. Eu tinha 16, 17, 18 anos. O primeiro concerto a que assisti da música que eu gostava foi Ratos de Porão, na Incrível Almadense, em janeiro de 1992. A primeira parte foi feita por Procyon, uma banda que, então, tinha uma demo tape de sucesso e um teledisco, como dizíamos, que passou no Pop Off, o programa de televisão que dava no segundo canal a horas que eram tardias para mim porque, nas manhãs seguintes, entrava cedo na escola.

 

Esse concerto ficou conhecido por alguns mitos, como o boato generalizado de que tinham morrido pessoas do público. Não sendo verdadeiro, esse boato era bastante verosímil. Ao longo do concerto, foram muitos os que se lançaram dos balcões mais altos da Incrível Almadense, como aliás ficou registado em algumas fotos impressionantes do Cameraman Metálico, também ele uma instituição que marcou esses anos.

 

Faz muito sentido que a primeira banda a que assisti ao vivo pertencesse ao chamado crossover. Os Ratos de Porão estiveram entre as primeiras grandes bandas que misturaram metal e hardcore. Essa era também a minha filiação. Depois de começar a ouvir metal no início da adolescência, a rebeldia social do hardcore cativava-me. Estas palavras são muito insuficientes para descrever a importância que esse concerto teve para mim.

 

No ano passado, vinte e cinco anos depois, cruzei-me com o João Gordo, vocalista dos Ratos de Porão, no parque de estacionamento de um centro comercial em São Paulo. Abordei-o e disse-lhe que tinha estado lá, nesse concerto. Ele disse "sim, sim" e fez algumas piadas por eu ser português. Não lhe levei a mal, mas fiquei a pensar nesta dicotomia passado/presente.

 

Em 1991, no Alentejo, eu maltratava uma pobre guitarra Fender numa banda chamada Hipocondríacos. Escolhemos o nome com um dicionário na mão. Nos flyers que enviávamos com a correspondência, definíamos o nosso som como hardcore/grindcore. Sem recursos e sem talento, tentávamos imitar algumas das bandas mais intensas a que conseguíamos chegar: Napalm Death, Slayer, Extreme Noise Terror, etc.

 

As nossas glórias foram: 1) os ensaios, onde se juntavam sempre meia dúzia de amigos; 2) um par de demo tapes que registámos diretamente com um gravador (rec+play); 3) a inclusão em algumas compilações de bandas portuguesas em cassete; 4) a primeira parte de um concerto dos Braindead que, na altura, tocavam um thrash que adorávamos.

 

Creio que já ouvi mais vezes o nome dessa minha banda depois de publicar livros, quando me perguntam acerca disso em entrevistas, do que durante os dois anos que durou. Ainda assim, a importância que teve para mim é enorme e difícil de quantificar. Devido a essa experiência, respondi a inúmeros questionários de fanzines. Neles, era obrigado a encontrar palavras que definissem aquilo em que acreditava. Crescia assim.

 

Recordo esse passado com muito detalhe. Consigo ainda sentir como o vivia quando era presente. Também essa sensação é inexprimível. Levo dentro de mim o que ainda está vivo desse passado. Quando conto as suas histórias a quem não as viveu, parece-me que não consigo explicar realmente o que pretendo dizer.

 

Talvez seja assim com todas as épocas. Com muita probabilidade, no futuro, haverá alguém a tentar explicar este momento, este agora, e a não ser capaz de fazê-lo completamente. Será alguém com os olhos a brilhar, que dirá "naquele tempo", que terá uma expressão oblíqua por se sentir incompreendido.

 

As páginas que se seguem trazem-me muitas lembranças e, em vários casos, arrumaram-me a memória. Ao longo dos anos 90, fui uma das cabeças que abanaram em concertos de bandas como os Sacred Sin, os Shrine ou os Decayed. Tive as demo tapes e, depois, os discos de bandas como o Thormenthor ou os Mata-Ratos. Assisti a concertos memoráveis de bandas como os Ramp ou os Mão Morta. Andei em concertos da margem Sul, da linha de Sintra, Linda-a-Velha, Sacavém, Alverca, Juke Box, Ritz Club, Rock Rendez Vous, etc.

 

Este livro contém duas bandas que, pelo muito que partilhámos não poderia deixar de fazer uma menção especial. É esse o caso dos X-Acto, que contribuíram muito para a minha formação ética e com quem partilhei anos que jamais esquecerei. E é também o caso dos Moonspell, família, irmãos com quem posso sempre contar e podem sempre contar comigo. Sem falsas presunções, de uma forma que só eu e eles sabemos, os X-Acto e os Moonspell deram-me o privilégio de sentir que também fiz parte dessas bandas. Essa é uma experiência que me sensibiliza profundamente, que me define e que levarei por toda a minha vida.

 

Ainda assim, quando recebi o convite para escrever estas palavras, perguntei-me se seria merecedor desta honra. As páginas deste livro evocam um tempo que é maior do que cada um de nós.

 

Quem passou pelo underground, como sempre lhe chamámos, sabe o quanto aprendeu. O underground significava não esperar por ninguém para fazer o que queríamos fazer, o que tínhamos de fazer, o que nascemos para fazer. O underground significava acreditar. Sem essa experiência, não estaria aqui.

 

Underground forever, escrevíamos nós no fim das cartas que enviávamos com selos cobertos por cola, para serem usados muitas vezes. Cooperation, not competition, escrevíamos também.

 

As bandas que encerram este livro são herdeiras desse tempo. Noutra época, com vantagens e desvantagens, mostram que os problemas e os desafios não terminaram, nunca terminam.

 

Ainda bem que existe este livro. Contribui de maneira honesta para mostrar que aquele tempo existiu, o underground existiu. E mesmo que não consigamos explicar completamente o quanto que significou para nós, este livro ajuda-o a permanecer durante mais algum tempo, faz com que um pouco daquilo que o underground foi continue a existir agora.

 

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publicado às 15:54

El 7 de noviembre, a las 19h30, José Luís Peixoto presentará su nueva novela - "Galveias" - en la librería Tipos Infames (Chueca, San Joaquín, 3, Madrid).

 

La novela "Galveias" tiene tradución castellana de Pilar del Rio y Antonio Saez Delgado y edición de Literatura Random House

 

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publicado às 11:49



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Arquivo de recortes sobre José Luís Peixoto e a sua obra.

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