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Olhamo-nos nos olhos pela internet.

 

Eu transmito-te este domingo à tarde,

a voz do vizinho através da parede.

 

Tu transmites-me a distância que existe

depois do que consigo ver pela janela.

 

Durante a noite mudou a hora e, no entanto,

continuamos no tempo de ontem.

 

Como é raro este domingo, não podemos

garantir que amanhã seja segunda-feira.

 

O futuro perdeu-se no calendário, existe

depois do que conseguimos ver pela janela.

 

O futuro diz alguma coisa através da parede,

mas não entendemos as palavras.

 

Lavamos as mãos para evitar certas palavras.

 

E, mesmo assim, neste tempo raro, repara:

tu e eu estamos juntos neste verso.

 

O poema é como uma casa, tem paredes

e janelas, é habitado pelo presente.

 

Olhamo-nos nos olhos pela internet,

estamos verdadeiramente aqui.

 

O poema é como uma casa,

e a casa protege-nos.

 

José Luís Peixoto, 29 de Março de 2020

 

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Não é um gato

07.03.20

 

Não é um gato, é uma gata.

Compreendo que seja mais fácil

reduzir todos os gatos a gatos,

mas peço-lhe que, por fineza,

abra uma exceção. É uma gata,

não amamentou gatinhos,

ou porque não teve escolha,

ou, mais provavelmente,

porque não quis. É uma gata,

aluada em certas noites,

a lamber-se sem vergonha,

a desfrutar do seu próprio cio.

Compreendo que seja mais fácil,

sei que não fez por mal, nunca

ninguém faz por mal, já reparou?

Mas peço-lhe que preste atenção

e, no futuro, não volte a cometer

esse erro tão comum. É uma gata,

não é um gato, é uma gata.

 

José Luís Peixoto, inédito

Paula Sperb escreveu na Folha de São Paulo (ler AQUI) a propósito da edição brasileira de O Caminho Imperfeito (Dublinense, mais informações AQUI).

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José Luís Peixoto estará presente na Feira do Livro de Havana 2020, onde participará em várias atividades ligadas à edição cubana do volume com os livros Te me Moriste e Nadie nos Mira (Morreste-me e Nenhum Olhar), que corresponde ao início da publicação da sua obra em Cuba. 

8 FEB 2020 - 1:00 pm - Presentación de Te me moriste/Nadie nos mira, ed. Arte y Literatura. Presentador: Raúl Aguiar. Sala Alejo Carpentier (Pabellón K-14)

9 FEB 2020 - 2:00 pm - Encuentro con... José Luís Peixoto. Conduce: Magda Resik (Sala Nicolás Guillén)

10 FEB 2020 - 5:00 pm - Lectura publica. Casa de las Americas (3ra y G, El Vedado)

13 FEB 2020 - 10:00 am - Presentación de Te me moriste/Nadie nos mira en el X Encuentro de Jóvenes Escritores de Iberoamérica y el Caribe. Casa de la Poesia (Mercaderes No. 16 No. 16e/ O' Reilly y Empedrado, Habana Vieja).

MAIS ATIVIDADES EM BREVE. EM ATUALIZAÇÃO.

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A edição brasileira de O Caminho Imperfeito encontra-se já em pré-venda no site da editora Dublinense. AQUI. 

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Escolhe uma entre as mil árvores entrançadas

que se penduram em escarpas de ilhéus

sobre as águas planas da Baía de Phang Nga.

 

Enquanto passas no teu barco de madeira,

envia-lhe em silêncio todo o bem-querer.

Ela entenderá, essa é a língua das árvores.

 

Deseja-lhe com sinceridade que seja feliz,

que apenas conheça a vida leve e justa,

que os pensamentos não a atormentem.

 

Assim, quando estiveres longe, esta árvore

ainda se lembrará de ti. Será manhã sobre

este mar que te impressionou, será noite

 

talvez onde estiveres. Se o peso da angústia

não te cegar, se não te afogares no peso

da angústia, talvez te lembres dela também.

 

O mais certo é que nunca se voltem a ver.

Mesmo que regresses a esta baía, ela será

indistinta entre mil árvores entrançadas,

 

e tu serás indistinto entre mil que passam

em barcos de madeira como este, que levantam

a mesma espuma, que deixam o mesmo rasto.

 

Mas, para sempre, no grande tempo absoluto,

na ordem secreta, final e indestrutível, ela será

a tua árvore e tu serás a pessoa dela.

 

 

José Luís Peixoto, inédito

 

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Temas:

 

 

A aldeia inteira estava entregue a uma velha.

Homens, mulheres e crianças saíram cedo

pela estrada de terra e pedras em que cheguei.

 

Supor que apanhava uma tribo nómada em casa,

eis a minha ingenuidade. A velha não desvia o olhar,

essa parece-lhe uma boa maneira de passar a manhã.

 

Meia dúzia de cães anestesiados, demasiado calor,

roupas a secar, já secas, atiradas sobre bambus,

montanhas a rodearem-nos de sons naturais.

 

Na cidade, contaram-me que os membros da tribo Mlabri

mudam de lugar assim que amarelecem as folhas

de bananeira que usam para cobrir os telhados.

 

Achei uma bela história, antropológica, mas a vida

não se compadece. Telhados cobertos por folhas de zinco

demoram bastante mais tempo a amarelecer.

 

As crianças estão na escola. Os homens e as mulheres

estão nas plantações de milho, deixaram casas desertas,

vestígios de fogueiras e pedaços de motorizadas.

 

A velha e eu formamos uma tribo inédita. Olhamos

um para o outro. Às vezes, passa uma brisa muito leve,

arrasta embalagens vazias de rebuçados e pó.

 

 

José Luís Peixoto, inédito

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Temas:

cinco

24.12.19

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na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

 

 

 

poema de José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas

17/12/2019 — 19H00 — VILA NOVA DE GAIA, PORTUGAL — FNAC GAIASHOPPING

18/12/2019 — 21H00 — PORTO, PORTUGAL — PORTO DE ENCONTRO

19/12/2019 — 18H30 — VISEU, PORTUGAL — FNAC VISEU

20/12/2019 — 18H00 — PONTE DE SOR, PORTUGAL — CENTRO DE ARTES E CULTURA

21/12/2019 — 21H30 — CASCAIS, PORTUGAL — FNAC CASCAISHOPPING

22/12/2019 — 16H00 — ALMADA, PORTUGAL — FNAC ALMADA FÓRUM

23/12/2019 — 17H00 — LISBOA, PORTUGAL — FNAC CHIADO

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Arquivo de recortes sobre José Luís Peixoto e a sua obra.


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